2. O DIREITO NOTARIAL E O INSTRUMENTO “ATA NOTARIAL”
2.1. O DIREITO NOTARIAL
2.1.4. Aspectos Gerais da Atividade Notarial
Além da breve introdução ao tema vista nas linhas anteriores, vale ainda
68 LIEVORE, Cláudia A. Fazolo de Mello e; LIEVORE, Sérgio. Instalação de cartórios de pequeno porte. Rio de Janeiro: Corifeu, 2008. p. 19-20.
69 BRANDELLI, Leonardo. Teoria geral do direito notarial. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 115.
70 CENEVIVA, Walter. Lei nos notários e registradores comentada. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2000. p.19-20.
abordar algumas questões. Para o perfeito entendimento da atividade notarial é relevante tentar distinguir o “serviço notarial” do “serviço de registro”. Ambas as atividades estão definidas no art. 1o. da Lei Federal 8.935/94, porém de forma conjunta e sem suficiente distinção. Transcreve-se a seguir, para maior clareza, o artigo citado:
Art. 1.º Serviços notariais e de registro são os de organização técnica e administrativa destinados a garantir a publicidade, autenticidade, segurança e eficácia dos atos jurídicos.71
A simples leitura da letra da lei não permite distinguir com clareza cada uma das atividades em questão. Melhor sorte teve Walter Ceneviva72 ao explicar os dois termos onde chama de serviço notarial aquele prestado por agente público devidamente autorizado a redigir, formalizar e autenticar, munido de fé pública, documentos que se consubstanciam a atos jurídicos extrajudiciais, que interessem aos solicitantes. Já serviço de registro seria aquele cujo objeto é o assentamento de títulos públicos ou privados, dando-lhes publicidade, e, em vista disto, garantir-lhes a oponibilidade contra terceiros.
A perfeita compreensão a respeito das distinções entre serviço notarial e serviço de registro é importante exatamente para que se possa também distinguir o “tabelião ou notário” do “oficial de registro ou registrador”. A relevância do assunto em relação ao tema é que somente o notário ou tabelião pode lavrar atas notariais.
Há que se comentar, ainda, o art. 8.º da Lei Federal 8.935/94, abaixo transcrito:
Art. 8.º É livre a escolha do tabelião de notas, qualquer que seja o domicílio das partes ou o lugar de situação dos bens objeto do ato ou negócio.73
A simples interpretação do artigo transcrito permite concluir que cabe ao
71 Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8935.htm>. Acesso em: 16 out. 2008.
72 CENEVIVA, Walter. Lei nos notários e registradores comentada. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2000. p. 22-23.
73 Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8935.htm>. Acesso em: 16 out. 2008.
interessado a escolha pelo tabelião ou notário de sua preferência. Como todos os emolumentos são devidamente tabelados em lei, a livre concorrência tem como objeto a prestação do melhor serviço pelo delegatário. Essa liberdade de escolha é criticada por Walter Ceneviva74 sob o argumento de que os emolumentos, que seguem tabelas publicadas por cada Corregedoria Estadual, variam conforme o Estado da Federação onde se encontra instalado o cartório e tal fato tem gerado a lavratura de atos em Estados totalmente distintos e distantes dos domicílios das partes, provocando um excesso de comercialização do serviço em prejuízo de sua necessária seriedade.
Outro item que merece destaque no estudo dos atos notariais é o atributo da “fé pública”. De forma simplificada, segundo Sérgio Sérvulo da Cunha, “fé pública” seria “Presunção legal de veracidade das declarações de determinados servidores ou delegados do poder público”75.
Para Sílvio Rodrigues, o conceito de “fé pública” também está ligado à atividade notarial, tanto que, ao falar sobre escrituras o autor comenta:
[...] Uma vez assinado pelas partes e testemunhas o tabelião encerra o instrumento, portanto por fé que tudo ali relatado representa a verdade.
Como goza de fé pública, presume-se que o conteúdo do instrumento seja verdadeiro, até prova em contrário. [...]. 76
A definição poderia ainda vir da interpretação gramatical dos dois termos que compõem a expressão “fé pública”, que poderia ser decomposta em “fé”, significando “crença” e “pública”, no sentido de “algo conhecido por todos”.
Segundo Walter Ceneviva77, tal decomposição não basta para o atributo da fé pública no direito notarial. Para o autor, é necessária a previsão legislativa da fé pública nos atos promovidos pelo notário ou registrador. A lei deve prever os
74 CENEVIVA, Walter. Lei nos notários e registradores comentada. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2000. p. 53.
75 CUNHA, Sérgio Sérvulo da. Dicionário compacto do direito. São Paulo: Saraiva, 2003. p.122.
76 RODRIGUES, Sílvio. Direito civil, parte geral. 34. ed. São Paulo: Saraiva, 2003. p. 268.
77 CENEVIVA, Walter; BRANDELLI, Leonardo (Coord.). Ata notarial. São Paulo: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2004. p. 85.
efeitos da fé pública, que devem ser entendidos como a conseqüência jurídica da presunção da verdade contida no documento, que faz prova do fato ao qual se encontre associado. Como conseqüência, a prova do oposto incumbe a quem o alegue.
Ainda segundo o autor citado78, a fé pública exige requisitos formais, exemplificando com as exigências previstas no art. 215 do Código civil, no que diz respeito às escrituras públicas, parcialmente transcrito a seguir:
Art. 215. A escritura pública, lavrada em notas de tabelião, é documento dotado de fé pública, fazendo prova plena.
§ 1º Salvo quando exigidos por lei outros requisitos, a escritura pública deve conter:
I - data e local de sua realização;
II - reconhecimento da identidade e capacidade das partes e de quantos hajam comparecido ao ato, por si, como representantes, intervenientes ou testemunhas;
[...]
IV - manifestação clara da vontade das partes e dos intervenientes;
V - referência ao cumprimento das exigências legais e fiscais inerentes à legitimidade do ato;
VI - declaração de ter sido lida na presença das partes e demais comparecentes, ou de que todos a leram;
VII - assinatura das partes e dos demais comparecentes, bem como a do tabelião ou seu substituto legal, encerrando o ato.
[...]
(grifo nosso).79
É possível constatar uma série de exigências formais a serem observadas na lavratura da escritura pública e cabe salientar que a não observância de algumas delas, como por exemplo, a data e o local da realização da lavratura, não tornam o ato ineficaz; porém tal escritura teria o atributo da fé publica questionado.
78 CENEVIVA, Walter; BRANDELLI, Leonardo (Coord.). Ata notarial. São Paulo: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2004. p. 85.
79 BRASIL. Código civil. Código de processo civil. Código comercial. Legislação civil, processual civil e empresarial. Constituição Federal. Organizado por Yussef Said Cahali. 10. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. p. 259.