2. O DIREITO NOTARIAL E O INSTRUMENTO “ATA NOTARIAL”
2.2. TIPOS DE ATOS NOTARIAIS
2.2.5. A Ata Notarial
2.2.5.4. Tipos de Atas Notariais no Direito Brasileiro
Essencialmente, tem-se no Direito Brasileiro, a aplicabilidade de dois tipos de atas. São as atas notariais de presença e as atas notariais de notoriedade. Este é o entendimento de Leonardo Brandelli104 ao apresentar e comentar o rol de atas existentes no direito estrangeiro. As atas notariais de presença são aquelas em que o tabelião narra um fato por ele presenciado, naturalmente sem influir ou alterar na ocorrência do fato. O autor cita como
102 CENEVIVA, Walter; BRANDELLI, Leonardo (Coord.). Ata notarial. São Paulo: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2004. p. 88.
103 CHICUTA, Kioitsi; BRANDELLI, Leonardo (Coord.). Ata notarial. São Paulo: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2004. p. 88
104 BRANDELLI, Leonardo. Teoria geral do direito notarial. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 261-273.
exemplo de objetos de atas notariais de presença, dentre outros: atestar a presença de certas pessoas em determinados locais, comprovar conteúdo de
“site” da Internet, comprovar estado de imóveis a serem entregues ou recebidos, certificar existência de herdeiro após sua identificação, atestar o envio de objetos pelo correio etc. Já as atas de notoriedade seriam aquelas em que o tabelião lavraria um fato notório dentro do círculo social abrangido pelo cartório. Como exemplo de objetos de ata de notoriedade o autor cita, entre outros: atestar que uma pessoa, em certo lugar é conhecida por um determinado apelido, averiguar o exercício regular de uma profissão, constatar que certa pessoa vive em união estável etc.
Há ainda uma classificação das atas notariais que leva em conta a maneira como são arquivadas ou o tipo de documento fornecido ao requerente.
As atas, assim classificadas, podem ser protocolares ou extraprotocolares. Esta definição é encontrada na doutrina, conforme parágrafo de Leonardo Brandelli, reproduzido a seguir:
Embora possa parecer questão menor, é de extrema importância visto que, se for puramente protocolar, será lavrada no livro de notas e, se for puramente extraprotocolar, será lavrada sempre fora do livro de notas, em documento apartado, embora possa ser arquivada cópia no tabelionato.105
A preocupação da doutrina, conforme já afirmado, leva em conta o direito notarial visto internamente à atividade, ou seja, há uma necessidade do autor em tentar solidificar o procedimento correto na lavratura das atas. Na ótica externa o interesse reside em saber se o documento a ser obtido pelo requerente será a própria ata notarial ou simplesmente um translado desta. A importância, neste caso, se apresenta em função de que muitos cartórios ainda não têm uma rotina estabelecida para a lavratura de atas notariais, especialmente no Estado de Santa Catarina. Um agravante é que o procedimento é regulado somente em alguns Estados da Federação, e, ainda assim, de forma distinta. Exemplo disto é citado por Leonardo Brandelli106 ao comentar que no Rio Grande do Sul as atas por
105 BRANDELLI, Leonardo. Teoria geral do direito notarial. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 254.
106 Idem. Ibidem. p. 254-255.
algum tempo eram extraprotocolares, pois, segundo o autor, o provimento 01/98 da Corregedoria Geral da Justiça daquele Estado determinava a entrega do original ao requerente; e atualmente são protocolares, já que a ata notarial deve ser agora lavrada em livro próprio.
Em Santa Catarina, o Código de Normas da Corregedoria Geral da Justiça do Estado de Santa Catarina, em seu art. 947, regulamenta, de forma muito clara:
Art. 947. Cópia da ata notarial será arquivada na serventia.107
Como somente a cópia da ata notarial é arquivada na serventia, em Santa Catarina deve ser entregue ao requerente a via original da ata notarial, tratando-se, portanto, de ata do tipo extraprotocolar.
Mediante a enorme gama de possibilidades de lavratura de atas notariais apresentadas, com diferentes objetos e aplicações, é possível, desde já, vislumbrar a grande penetração e aplicabilidade que podem ser atribuídas às atas notariais no direito brasileiro. Além disto, principalmente devido ao atributo da fé pública, pode-se também perceber o potencial do instituto como prova no direito civil, assunto que será analisado no próximo capítulo do presente trabalho.
107 Disponível em: <http://cgj.tj.sc.gov.br/consultas/liberada/cncgj.pdf>. Acesso em 29 dez. 2008
Capítulo 3
A ATA NOTARIAL COMO MEIO DE PROVA NO DIREITO CIVIL
No primeiro capítulo da presente monografia tratou-se de elaborar um breve estudo teórico a respeito da teoria da prova. Também foram abordados cada um dos meios de provas específicos previstos no Código de Processo Civil vigente.
No segundo capítulo houve uma modesta explanação sobre o direito notarial, conceituando o instituto da ata notarial em meio às diversas atividades realizadas pelo notários e registradores.
Finalmente chega o momento de adentrar ao tema da presente monografia que é a utilização da ata notarial como meio de prova no direito civil, lembrando que se trata de tema ainda precoce no meio jurídico brasileiro, porém em perceptível expansão. Este é o entendimento de Luiz Weizenmann, presidente do Colégio Notarial do Brasil, Seção do Rio Grande do Sul, em entrevista concedida ao Jornal Correio do Povo, de 13 de outubro de 2008, quando afirma:
Ainda pouco conhecida pela população, a ata notarial se tornou uma aliada na produção de provas de crimes e irregularidades cometidas na Internet. [...] A procura pelo instrumento cresce a medida que as pessoas descobrem esta utilidade.”108
E é essa a noção que se tem ao pesquisar artigos, trabalhos acadêmicos e jurisprudência a respeito do assunto, devidamente citados durante o transcorrer do trabalho, fontes que foram extensamente utilizadas no presente capítulo frente a pouca bibliografia que trata do tema.
108 WEIZENMANN, Luiz. Para provar crimes, a ata notarial tornou-se aliada. Correio do povo, Porto Alegre, 13 out. 2008. p.19.
3.1. CONSIDERAÇÕES GERAIS
Há que se iniciar as presentes considerações trazendo à tona o contido no art. 396 do Código de Processo Civil:
Art. 396. Compete à parte instruir a petição inicial (art. 283), ou a resposta (art. 297), com os documentos destinados a provar-lhe as alegações.109
O normativo acima sintetiza essencialmente o ônus probante que persegue aquele que alega fatos no processo civil. Em face da dificuldade de satisfazer este ônus probante, questão que freqüentemente se verifica na prática, é que surge a ata notarial, em especial em fatos relacionados à rede mundial de computadores.
Conforme visto nos capítulos 1 e 2, a força probante da ata notarial reside no fato de tratar-se de documento público e, portanto, encontrar-se agraciado com o instituto da fé pública. Tal instituto, segundo Chiovenda110, implica que, uma vez tendo o documento público observado todos os requisitos para sua elaboração (características extrínsecas), bem como que contenha fatos observados pela autoridade pública (características intrínsecas), apresenta força probante plena, somente sendo derrubada com a declaração de falsidade. Esta declaração, mesmo que possível e procedente, demandará enorme esforço judicial, agora para a outra parte.
Por ser conseguida de forma extrajudicial a ata notarial é dotada de extrema agilidade, contrapondo-se de forma vantajosa às demoras verificadas no sistema judiciário. A velocidade na obtenção da prova é fundamental especialmente tendo em vista o universo eletrônico e virtual que permeia a vida
109 BRASIL. Código civil. Código de processo civil. Código comercial. Legislação civil, processual civil e empresarial. Constituição Federal. Organizado por Yussef Said Cahali. 10. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. p. 579.
110 CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil. 2. ed. Campinas: Bookseller, 2000. v.3. p.
118.
moderna e a rapidez com que as informações surgem e desaparecem. A importância da ata notarial frente às novas tecnologias á assunto discutido por José Flávio Bueno Fischer e Karin Regina Rick Rosa, conforme transcrição a seguir:
Passando por variadas situações, desde a inspeção de imóveis para entrega, arrombamento de cofres bancários, tomada de posse de imóveis desocupados e abandonados por inquilinos, reuniões de acionistas, assembléias gerais de entidades, apuração de eleições de prioridades votadas pela população etc., chegamos às mais recentes tecnologias, da informática, da rede mundial (Internet), das páginas institucionais e comercias da mesma rede, enfim, fatos e recursos tecnológicos que se renovam a todo momento. (grifo dos autores).111
A velocidade na obtenção da ata notarial, portanto, permite que o instituto acompanhe a renovação tecnológica da atualidade.
3.2. A PREVENÇÃO DE CONFLITOS JUDICIAIS
Apesar do tema da presente monografia, que é a utilização da ata notarial como meio de prova no processo civil, não há como tratar o assunto sem uma rápida abordagem sobre a utilização do instituto com o intuito de evitar o conflito judicial, ou seja, antes mesmo da existência do processo.
Embora praticamente impossível de ser cientificamente medido, o uso da ata notarial já na fase pré processual, antecipando a negociação do conflito, já é citado como exemplo em artigos escritos por profissionais da área, conforme o pensamento de João Teodoro da Silva, Tabelião do 6.º Ofício de Notas de Belo Horizonte (MG), quando afirma:
Em primeva conceituação do instrumento público notarial, ele era caracterizado como meio de prova pré-constituída, o que é um dos aspectos importantes de sua natureza, mas a relevância por ele adquirida o sobrepõe à finalidade meramente probatória, que pressupõe litígio potencial a dar-lhe ou negar-lhe respaldo. Ora, o instrumento público notarial existe e é eficaz por si mesmo, faz realizar o direito na
111 FICHER, José Flávio Bueno e ROSA, Karin Regina Rick; BRANDELLI, Leonardo (Coord.). Ata notarial. São Paulo: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2004. p. 228.
normalidade da vida social e, acima de tudo, sua qualificação e respeitabilidade, pela certeza e segurança a ele inerentes, são fatores de prevenção de litígio. (grifo nosso).112
Conforme se observa, a ata notarial já surge como agente harmonizador dos conflitos sociais, podendo ser utilizada pelos operadores de direito para que se obtenha o acordo entre as partes conflitantes, antes mesmo de que se ingresse com o processo judicial.
3.3. A PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVAS
Também antes de se ingressar com a ação cível propriamente dita, a ata notarial pode ser utilizada como verdadeiro agente da economia processual. Tal situação ocorre quando se produz a ata em substituição ao processo cautelar de produção antecipada de provas, nas ocasiões onde a ação cautelar é proposta antes da ação principal.
A introdução teórica a respeito do assunto já foi abordada no item “1.3 DA PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVAS”, constante do primeiro capítulo da presente monografia, ocasião em que se mostrou a possibilidade processual da produção antecipada de provas, tanto antes da inicial como durante o processo (antes da instrução) e discutiu-se a respeito de sua natureza cautelar. Reservou- se para este momento, de forma proposital, apresentar os requisitos que devem estar presentes para que o juiz possa deferir a referida antecipação. Desta forma, agora já conhecendo a ata notarial, permite-se uma melhor análise entre os dois institutos.
Os requisitos para o deferimento da produção antecipada de provas, que conforme já visto, podem consistir em interrogatório da parte, inquirição de testemunhas e exame pericial, estão contidos nos arts. 847 e 848 abaixo transcritos:
112 SILVA, João Teodoro da; BRANDELLI, Leonardo (Coord.). Ata notarial. São Paulo: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2004. p. 32.
Art. 847. Far-se-á o interrogatório da parte ou a inquirição das testemunhas antes da propositura da ação, ou na pendência desta, mas antes da audiência de instrução:
I - se tiver de ausentar-se;
II - se, por motivo de idade ou de moléstia grave, houver justo receio de que ao tempo da prova já não exista, ou esteja impossibilitada de depor.
Art. 848. O requerente justificará sumariamente a necessidade da antecipação e mencionará com precisão os fatos sobre que há de recair a prova.
Parágrafo único. Tratando-se de inquirição de testemunhas, serão intimados os interessados a comparecer à audiência em que prestará o depoimento. (grifo nosso).113
A simples leitura dos artigos acima permite constatar o requisito de que a parte justifique a necessidade e descreva com precisão os fatos a serem provados. No entanto, a parte ainda ficará a mercê da demora do judiciário, mesmo que reduzida pelo fato de tratar-se de ação cautelar, além do risco do indeferimento do pedido por parte do juiz.
Para João Teodoro da Silva114, uma especial importância deve ser atribuída à ata notarial quando utilizada como produção antecipada de provas, pois permite preservar o poder judiciário para a solução de contendas de maior complexidade. Destaca que no caso do depoimento pessoal ou testemunhal antecipado o ideal é que o ato seja feito na presença do magistrado, em função da observância dos princípios processuais da identidade física do juiz e da oralidade processual. Nestes casos, só se justificaria a ata notarial na hipótese de que a demora judicial implicasse em real perda da prova. Já nos casos da produção antecipada de prova pericial, ou seja, a vistoria ad perpetuam rei memoriam, onde normalmente não é necessária a presença física do juiz, cabe perfeitamente a utilização da ata notarial, destacando que o tabelião pode,
113 BRASIL. Código civil. Código de processo civil. Código comercial. Legislação civil, processual civil e empresarial. Constituição Federal. Organizado por Yussef Said Cahali. 10. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. p. 327.
114 SILVA, João Teodoro da; BRANDELLI, Leonardo (Coord.). Ata notarial. São Paulo: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2004. p. 32.
inclusive, auxiliar-se de perito no assunto a ser observado, a fim de produzir laudo que seria anexado à ata notarial.
3.4. AS ATAS NOTARIAIS E OS MEIOS DE PROVA
Resta agora, apresentar algumas possibilidades de lavratura de atas notariais, frente aos meios de prova estudados no primeiro capítulo da presente monografia. Evidentemente, dentre os meios de prova já abordados, descarta-se a inspeção judicial por tratar-se de ato personalíssimo do magistrado e, portanto, jamais poderia ser substituído por uma ata notarial.
Ainda, é oportuno destacar que foram relacionados somente alguns exemplos dentre muitos relacionados por profissionais que atuam na área do direito notarial.
3.4.1. Do Depoimento Pessoal
O depoimento pessoal, seja da parte ou de testemunha, pode ser colhido em ata notarial. João Teodoro da Silva115, conforme comentado anteriormente, lembra que talvez essa seja a única solução naqueles casos onde a urgência é tamanha que não se pode aguardar o trâmite judicial para que o depoimento seja feito na presença do magistrado, que seria a condição ideal. Tal situação poderia ocorrer no caso de um doente em seus últimos momentos ou ainda de uma testemunha que está para deixar o país nas próximas horas.
3.4.2. Da Confissão
No caso da confissão deve-se atentar para o que prevê o art. 353 do Código de Processo Civil, abaixo transcrito:
115 SILVA, João Teodoro da; BRANDELLI, Leonardo (Coord.). Ata notarial. São Paulo: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2004. p. 32.
Art. 353. A confissão extrajudicial, feita por escrito à parte ou a quem a represente, tem a mesma eficácia probatória da judicial; feita a terceiro, ou contida em testamento, será livremente apreciada pelo juiz.
Parágrafo único. Todavia, quando feita verbalmente, só terá eficácia nos casos em que a lei não exija prova literal.116
A modalidade que apresenta interesse ao presente estudo é a confissão extrajudicial feita a terceiro, que poderia ser substituída por uma ata notarial, que por ser um instrumento público, traria ainda o reforço do atributo da fé pública ao declarado na ata.
A possibilidade da confissão por meio de ata notarial é também abordada por Mirta Morales Louro ao discorrer sobre as atas de declaração, quando relata:
Esse tipo de ata pode vir a constituir uma verdadeira “confissão”.
Costumam ser geralmente muito utilizadas como prova em expedientes tanto administrativos como judiciais.
Toma especial relevância nesse tipo de atas a correta e detalhada individualização dos declarantes, os quais em todo caso deverão ser advertidos pelo notário das responsabilidades que assumem por suas declarações.117
Interessante é o entendimento da autora a respeito da necessidade de advertência aos declarantes a ser feita pelo notário. Certamente para tal, parte-se do princípio de que o tabelião é um operador do direito e conhecedor dos procedimentos jurídicos.
3.4.3. Da Exibição de Documento ou Coisa
A exibição de documento trata-se de ato que não apresenta muito interesse na substituição por ata notarial. Mais simples seria anexar ao processo
116 BRASIL. Código civil. Código de processo civil. Código comercial. Legislação civil, processual civil e empresarial. Constituição Federal. Organizado por Yussef Said Cahali. 10. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. p. 575.
117 LOULO, Mirta Morales; BRANDELLI, Leonardo (Coord.). Ata notarial. São Paulo: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2004. p. 264.
uma cópia autenticada do documento em questão. Já no caso de exibição de coisa, há aplicabilidade do instituto da ata notarial. Basta imaginar, por exemplo, um objeto de grandes proporções e de difícil transporte. Nesta hipótese a ata notarial simplificaria em muito a apresentação do objeto. Dentre os exemplos encontrados destaca-se o caso enumerado por Leonardo Brandelli118 ao explicar as atas de presença, onde apresenta a ata notarial como ferramenta para comprovar a remessa de objetos pelo correio ou outra forma de transporte. O exemplo é oportuno em vista do incremento do comércio por via eletrônica. Na hipótese de extravio ou troca do objeto durante o transporte a ata notarial pode por fim, de forma prematura, a um provável conflito judicial futuro.
3.4.4. Da Prova Documental
A ata notarial, por si só, já é uma prova documental, conforme pode ser observado a partir do teor do art. 364 do Código de Processo Civil, abaixo transcrito:
Art. 364. O documento público faz prova não só da sua formação, mas também dos fatos que o escrivão, o tabelião, ou o funcionário declarar que ocorreram em sua presença.119
O conteúdo do artigo deixa evidente a força probante do documento público, porém, no presente momento, tem-se a intenção de analisar a substituição, dentro do processo civil, de uma prova documental por uma ata notarial. São inúmeros os exemplos encontrados, porém, destacamos o citado por Amaro Moraes e Silva Neto120 no artigo científico “A Importância da Ata Notarial para as Questões Relativas ao Ciberespaço” onde apresenta a ata notarial como
118 BRANDELLI, Leonardo; BRANDELLI, Leonardo (Coord.). Ata notarial. São Paulo: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2004. p. 60.
119 BRASIL. Código civil. Código de processo civil. Código comercial. Legislação civil, processual civil e empresarial. Constituição Federal. Organizado por Yussef Said Cahali. 10. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. p. 574
120 SILVA NETO, Amaro Moraes; BRANDELLI, Leonardo (Coord.). Ata notarial. São Paulo: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2004. p. 192-194.
adequado documento probante de conteúdo de página da Internet ou de e_mail recebido ou enviado.
A aplicabilidade da ata notarial como prova documental de fatos ocorridos na Internet é tamanha que segundo José Flávio Bueno Ficher e Karin Regina Rick Rosa121, conforme afirmado no artigo científico “Ata Notarial e as Novas Tecnologias”, mais de 50 casos de certificação de páginas localizadas na rede mundial de computadores foram objeto de ata notarial no Tabelionato de Novo Hamburgo, entre o ano de 2000 e 2004.
Há que se registrar, ainda, que na falta da ata notarial, este tipo de fato ocorrido no meio virtual teria que ser provado com cópias impressas das páginas em questão (prova documental) e certamente corroboradas por testemunhas.
Ainda assim, teriam menor força probante daquela contida na ata notarial.
3.4.5. Da Prova Testemunhal
A substituição da prova testemunhal por ata notarial teria sentido, por exemplo, em casos onde a constatação do fato pelo notário traria maior credibilidade à prova do que um simples testemunho. Como exemplo cita-se Wellington Luiz Viana Junior122, Tabelião de Notas em Juiz de Fora (MG), que ao enumerar algumas formas de utilização da ata notarial mencionou, dentre elas, a comprovação de abandono de emprego por trabalhador.
Ainda, tal substituição seria interessante para evitar um grande número de pessoas a testemunhar, conforme se conclui a partir da leitura de Leonardo Brandelli123 ao explicar as atas de notoriedade quando cita como exemplo a
121 FICHER, José Flávio Bueno e ROSA, Karin Regina Rick; BRANDELLI, Leonardo (Coord.). Ata notarial. São Paulo: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2004. p. 228.
122 VIANA JUNIOR, Wellington Luiz . Ata notarial como prova no processo. Disponível em: <http ://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=10809>. Acesso em: 30 dez. 2007.
123 BRANDELLI, Leonardo; BRANDELLI, Leonardo (Coord.). Ata notarial. São Paulo: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2004. p. 61.
utilização da ata notarial para comprovar que determinada pessoa é conhecida por certo apelido em determinado local.
3.4.6. Da Prova Pericial
Também a utilização da ata notarial em substituição à prova pericial é bastante defendida por autores relacionados com o direito notarial. Dentre os vários casos encontrados destaca-se a comprovação de danos materiais em imóvel locado. Esse tipo de exemplo é apontado por Kioitsi Chicuta124, Juiz do Segundo Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo, em seu artigo Ata Notarial e sua Utilização como Prova Judiciária.
3.5. A UTILIZAÇÃO DA ATA NOTARIAL NA REGIÃO SUL
A fim de tentar vislumbrar a real utilização da ata notarial como prova, em especial na Região Sul do Brasil, procedeu-se a coleta de decisões dos órgãos colegiados de cada um dos três Estados que compõem a Região Sul. O termo utilizado para a pesquisa foi “ata notarial” e todas as decisões encontradas foram analisadas, sendo que a grande maioria será apresentada nos próximos itens. A pesquisa jurisprudencial foi realizada no mês de janeiro de 2009.
A fim de poupar linhas e mais linhas com cópias de ementas, optou-se por citar o tipo do recurso e seu respectivo número, bem como o órgão julgador;
seguidos de uma síntese obtida do “inteiro teor” da decisão, posicionando a utilização da ata notarial no caso concreto. As ementas e as decisões de inteiro teor, se de interesse, poderão ser facilmente obtidas a partir das informações fornecidas no decorrer do texto ou a partir da lista de referências bibliográficas, onde as decisões encontram-se relacionadas conforme determina a norma.
124 CHICUTA, Kioitsi; BRANDELLI, Leonardo (Coord.). Ata notarial. São Paulo: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2004. p. 170.