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1. INTRODUÇÃO

3.1 Oferta dos Cursos no Brasil

3.1.1 Aspectos legais

A gestão de cursos superiores no Brasil precisa obedecer ao que estabelece o Ministério da educação em suas políticas e diretrizes curriculares para que seus cursos possam ser autorizados e reconhecidos no país.

As diretrizes curriculares, mais especificamente as Diretrizes Curriculares Nacionais e as Diretrizes Curriculares Gerais dos Cursos de Graduação, por curso e área, surgiram no sentido de orientar as iniciativas das diversas instituições do ensino superior. Estas são constantemente revistas, discutidas e atualizadas em face aos novos contextos educacionais e demandas regionais.

Desde o inicio dos anos 2000, a justificativa do relatório do parecer da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação - CNE/CES 146/2002 (MEC, 2002, p.8) de 13/05/2002 deixava claro que

(...) não é demais repetir que tudo foi concebido com o propósito de que se pudesse estabelecer um perfil do formando no qual a formação de nível superior se constituísse em processo contínuo, autônomo e permanente, com uma sólida formação básica e uma formação profissional fundamentada na competência teórico-prática, observada a flexibilização curricular, autonomia e a liberdade das instituições de inovar seus projetos

pedagógicos de graduação, para o atendimento das contínuas e emergentes mudanças para cujo desafio o futuro formando deverá estar apto (MEC, 2002, p.8).

Segundo o que estabeleceu o Ministério da Educação no Modelo de Enquadramento das Propostas de Diretrizes Curriculares para Cursos de Turismo (MEC, 2002, p.4), para que o profissional de Turismo seja competente para atuar na sociedade e no mercado, ele deverá receber uma formação que contenha aspectos teóricos, práticos e éticos.

Quanto aos aspectos teóricos, espera-se que as diversas correntes do pensamento turístico estejam presentes na sua formação, possibilitando uma reflexão sobre o fenômeno turístico, dentro do contexto passado, presente e futuro e suas inter-relações geográficas, sociais e econômicas. As questões teóricas devem proporcionar um embasamento levando o profissional a refletir sobre o turismo, tanto nas questões de planejamento e gerenciamento como de produção, distribuição e comercialização. Estima-se um posicionamento profissional que busque a qualidade das atividades turísticas e das empresas de turismo, bem como a maximização dos efeitos positivos e minoração dos efeitos negativos que o turismo produz sobre as sociedades e sobre o meio ambiente. Como o turismo é uma área de conhecimento em evolução caberá aos estudiosos do turismo, auxiliar nesta tarefa, com pesquisas e reflexões sobre o fenômeno.

Quanto aos aspectos práticos, acredita-se que através de treinamento em laboratórios, visitas técnicas, viagens e estágios supervisionados, possam ser capazes de instalar a competência com o manejo de técnicas e instrumentos em condições novas e desafiadoras. Espera-se que a experiência prática traga um constante pensar sobre “ o que fazer”, “como fazer” e o “por que fazer?”, buscando constantemente com criatividade soluções para os problemas desta área.

Considerando-se os aspectos éticos, observa-se que o profissional de turismo venha a ter uma compreensão da ética não só profissional, mas também a que deve existir na sociedade, na família, na economia,etc, tão ausente hoje em dia. A partir das reflexões das normas e regulamentos éticos do turismo, deve-se abranger questões maiores como a da cidadania, objetivando formar um profissional que colabore para a melhoria do mundo que vive e em conseqüência, uma vida melhor para si mesmo (MEC, 2002, p.4).

Depois disso, outros pareceres e resoluções do Conselho Nacional de Educação/ Câmara de Educação Superior discutem aspectos pedagógicos, cargas horárias mínimas (67/03, 108/03, 288/03, 329/04 além de outros) no sentido de flexibilizar propostas admitindo múltiplos perfis profissionais com competências intelectuais adequadas às heterogêneas demandas sociais. O Parecer CNE/CES n.º 288, de 6 de novembro de 2003 que relatou sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Turismo, reafirmava que

as Diretrizes Curriculares Nacionais, longe de serem consideradas como um corpo normativo, rígido e engessado, a se confundirem com os antigos Currículos Mínimos Profissionalizantes, objetivam, ao contrário “servir de referência para as instituições na organização de seus programas de formação, permitindo flexibilidade e priorização de áreas de conhecimento na construção dos currículos plenos. Devem induzir à criação de diferentes formações e habilitações para cada área do conhecimento, possibilitando ainda definirem múltiplos perfis profissionais, garantindo uma maior diversidade de carreiras, promovendo a integração do ensino de graduação com a pós-graduação, privilegiando, no perfil de seus formandos, as competências intelectuais que reflitam a heterogeneidade das demandas sociais (MEC, 2010.a, p.2)

Ainda no artigo 3º da resolução n. 13, de novembro de 2006, que Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Turismo, ainda em vigor, observa que

O curso de graduação em Turismo deve ensejar, como perfil desejado do graduando, capacitado e aptidão para compreender as questões científicas, técnicas, sociais, econômicas e culturais, relacionadas com o mercado turístico, sua expansão e seu gerenciamento, observados os níveis graduais do processo de tomada de decisão, apresentando flexibilidade intelectual e adaptabilidade contextualizada no trato de situações diversas, presentes ou emergentes, nos vários segmentos do campo de atuação profissional.

O Catálogo Nacional dos Cursos Superiores de Tecnologia (MEC, 2010b) organiza e orienta a oferta de Cursos Superiores de Tecnologia, inspirado nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Profissional de Nível Tecnológico e em sintonia com a dinâmica do setor produtivo e os requerimentos da sociedade atual e visa orientar para uma formação de profissionais aptos a desenvolver, de forma plena e inovadora, as atividades em uma determinada área profissional e com capacidade para utilizar, desenvolver ou adaptar tecnologias com a compreensão crítica das implicações daí decorrentes e das suas relações com o processo produtivo, o ser humano, o ambiente e a sociedade.

Segundo o MEC, os Cursos Superiores e Tecnologia devem ter seu projeto pedagógico construído a partir dos seguintes pressupostos, conforme as Diretrizes Curriculares:

 Incentivar o desenvolvimento da capacidade empreendedora e da compreensão do processo tecnológico, em suas causas e efeitos;

 Incentivar a produção e a inovação científico-tecnológica, e suas respectivas aplicações no mundo do trabalho;

 Desenvolver competências profissionais tecnológicas, gerais e específicas, para a gestão de processos e a produção de bens e serviços;

 Propiciar a compreensão e a avaliação dos impactos sociais, econômicos e ambientais resultantes da produção, gestão e incorporação de novas tecnologias;

 Promover a capacidade de continuar aprendendo e de acompanhar as mudanças nas condições do trabalho, bem como propiciar o prosseguimento de estudos em cursos de pós- graduação;

 Adotar a flexibilidade, a interdisciplinaridade, a contextualização e a atualização permanente dos cursos e seus currículos;

 Garantir a identidade do perfil profissional de conclusão do curso e da respectiva organização curricular.

Ainda segundo MEC, entre os referenciais para caracterização do tecnólogo e a correspondente formação em determinada área podem ser destacados os seguintes:

a) natureza: certas áreas são, por natureza, essencialmente científicas e outras essencialmente tecnológicas. No primeiro caso, por exemplo, matemática, comporta cursos de Bacharelado e não de Tecnologia. No segundo, por hipótese, informática, comporta cursos, onde a ênfase da formação e da atuação do profissional situa-se, fortemente, tanto no campo da ciência quanto no da tecnologia.

b) densidade: a formação do tecnólogo é, obviamente, mais densa em tecnologia. Não significa que não deva ter conhecimento científico. O seu foco deve ser o da tecnologia, diretamente ligada à produção e gestão de bens e serviços. A formação do bacharel, por seu turno, é mais centrada na ciência, embora sem exclusão da tecnologia. Trata-se, de fato, de uma questão de densidade e de foco na organização do currículo.

c) demanda: é fundamental que tanto a oferta de formação do tecnólogo como do bacharel correspondam às reais necessidades do mercado e da sociedade. Há uma tendência perniciosa de se imaginar e supor certa demanda comum tanto do tecnólogo como do bacharel. Às vezes, os dois juntos, para a mesma área, sem perfis profissionais distintos, acarretam confusões nos alunos e no próprio mundo do trabalho. É necessária clareza na definição de perfis profissionais distintos e úteis.

d) tempo de formação: é muito difícil precisar a duração de um curso de formação de tecnólogo, objetivando fixar limites mínimos e máximos. De qualquer forma, há um relativo consenso de que o tecnólogo corresponde a uma demanda mais imediata a ser atendida, de forma ágil e constantemente atualizada.

e) perfil: o perfil profissional demandado e devidamente identificado constitui a matéria primordial do projeto pedagógico de um curso, indispensável para a caracterização do itinerário de profissionalização, da habilitação, das qualificações iniciais ou intermediárias do currículo e da duração e carga horária necessárias para a sua formação.

Esse Catálogo Nacional dos Cursos Superiores de Tecnologia (MEC, 2010), visando promover a qualidade da educação no Brasil, induz o desenvolvimento de perfis profissionais amplos, com capacidade de pensar de forma reflexiva, com autonomia intelectual e sensibilidade ao relacionamento interdisciplinar, permitindo aos seus egressos prosseguirem seus estudos em nível

de pós-graduação. O catálogo orienta que os cursos sejam também constituídos de cultura, historicidade, atualidade e ética, tendo em vista o desenvolvimento social, integrado e sustentável da sociedade brasileira e a soberania nacional.

Foram Instituídas pelo Catálogo, até o momento, oito grandes áreas de cursos, sendo uma delas a de “Hospitalidade e Lazer”, que abriga cursos de Gestão de Turismo, Hotelaria, Eventos, Gastronomia, Gestão Desportiva e de Lazer. Essa área compreende tecnologias relacionadas aos processos entendidos como de recepção, entretenimento e interação.

Quanto ao mercado de trabalho, o catálogo (MEC, 2010, p.46) orienta que o Tecnólogo em Gestão de Turismo atue no “planejamento e desenvolvimento da atividade turística nos segmentos público e privado. Desenvolve ações no âmbito do planejamento turístico, agenciamento de viagens (emissivas, receptivas e operadores de turismo), transportadoras turísticas e consultorias voltadas para o gerenciamento das políticas públicas e para a comercialização e promoção dos serviços relativos à atividade. A Identificação dos potenciais turísticos do receptivo, considerando a diversidade cultural e os aspectos sócio-ambientais para o desenvolvimento local e regional constitui-se em atividade relevante desse profissional”. Prevê carga horária mínima de 1600 horas e recomenda laboratório de agência de viagens e informática com programas específicos.

Esses instrumentos legais são necessários para que se tenha um nivelamento de conceitos daquilo que se planeja e oferta em termos de educação no país. Sua concepção atualmente permite flexibilização em termos de currículo e proposta pedagógica regionalizada, de modo que as diferentes demandas sejam adequadamente atendidas. Ocorre que, muitas vezes, por uma questão de atendimento à legislação vigente, muitas IES baseiam seus projetos unicamente ou prioritariamente nesse aspecto, para que o curso seja legalmente autorizado e reconhecido mas não analisam os aspectos regionais, as demandas efetivas do mercado de trabalho e setor produtivo e muito menos as políticas governamentais em termos de qualificação de pessoal, como bem mostrou Silva (2005).

Vários instrumentos dos organismos oficiais são utilizados para conduzir o processo da educação em turismo no Brasil a exemplo das diretrizes curriculares nacionais e específicas por curso; formulários para avaliação “in loco” das condições de oferta de cursos de turismo e áreas afins; além do Plano de desenvolvimento Institucional (PDI) e outros.

O que hoje são conhecidas como Diretrizes Curriculares Nacionais e Diretrizes por Curso e os parâmetros de qualidade para avaliação das condições de ensino para fins de autorização e reconhecimento de cursos na área de turismo, passaram por um processo de amadurecimento (TRIGO, 1998; ANSARAH, 2002; NASCIMENTO, 2002; MATIAS, 2002), pois apresentam:

 padrões de qualidade para autorização de novos cursos que contempla o projeto pedagógico do curso, o corpo docente, coordenador, a infra-estrutura física, tecnológica e recursos materiais, a biblioteca e o planejamento econômico- financeiro. Fica a cargo do INEP e da comissão de especialistas de ensino de turismo, subordinada à coordenação das comissões de especialistas de ensino (CEE) da Secretaria de Educação Superior (SESu) do MEC;

 Padrões de qualidade para reconhecimento e renovação de reconhecimento de cursos já instalados, que foram elaborados inicialmente pelas CEE das diversas áreas do conhecimento da SESu/MEC. Desde 2002, a Avaliação das Condições de Ensino (ACE) é realizada “in loco” por uma comissão de avaliadores do INEP que leva em conta três dimensões: organização didático-pedagógica, corpo docente e instalações É a partir dessa avaliação que o curso recebe seu reconhecimento ou a renovação do reconhecimento.

A área da educação em turismo no Brasil tem se submetido a políticas normativas, norteadoras e regulatórias ditadas por vários organismos oficiais, envolvidos com diferentes níveis de responsabilidade, agindo direta e indiretamente na questão do ensino, tais como a Coordenação de aperfeiçoamento de pessoal de nível superior (CAPES), o Ministério da Educação (MEC), o Instituto nacional de estudos e pesquisas educacionais (INEP); o Conselho nacional de educação (CNE), a Câmara de educação superior (CES), o Ministério do Turismo (Mtur), o Conselho Nacional de Turismo (CNT), a Associação nacional de programas de pós-graduação em turismo e hospitalidade (ANPTUR) e outras comissões de especialistas, fóruns, conselhos, associações de classe.

Todos esses organismos oficiais envolvidos e seus respectivos instrumentos são os responsáveis pela criação, condução, avaliação e reconhecimento das instituições de ensino e seus cursos ofertados no mercado nacional. São essas políticas públicas por eles traçadas que dão o direcionamento o andamento dos cursos de turismo e áreas afins e da quantidade e qualidade da oferta que hoje se apresenta. Integram esses aspectos legais que são necessários, importantes e direcionam a construção dos projetos de cursos e sua oferta, mas precisam ser um instrumento a mais, e não o único, no momento do planejamento educacional e acompanhamento da quantidade e qualidade dos cursos oferecidos no Brasil.

No documento Keila Cristina Nicolau Mota1.pdf - Univali (páginas 77-83)