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Aspectos morfolexicais das terminologias

Conforme já observado em Almeida e Vale (2008), nas terminologias que têm sido objeto de estudo do GETerm, constatamos que há padrões morfológicos específicos. A terminologia de Revestimento Cerâmico, por exemplo, possui uma alta frequência de lexias complexas (argila refratária aluminosa, análise granulométrica por peneiramento, resíduo em malha, etc.) e lexias simples com determinados morfemas que podem servir como identificadores de termos, como os sufixos derivacionais -agem, -ção, -mento que podem indicar que o conceito veiculado é um processo: secagem, moagem, britagem, ensilagem, etc; trituração, atomização, defloculação, etc;

peneiramento, destorroamento, envelhecimento, etc.

Na terminologia da Fisioterapia, o que é realmente produtivo são as formações eruditas, já que essa terminologia tem muitos termos emprestados da Medicina, ou seja, contém termos cujos morfemas, tanto radicais quanto afixos, têm origem grega ou latina, como por exemplo: artr(i/o)- (do gr. árthron) – elemento de composição que significa 'juntura'; 'articulação': artralgia, artrectomia, artrite, artrocentese, etc.; -óide (do gr. -(o)eîdos, pelo lat. cient. -īdes) – sufixo que pode significar 'aspecto ou forma de', 'semelhante a', 'relativo a':

deltóide, escafóide, articulação elipsóide, articulação trocóide, etc.; -ose

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(do lat. cient. -osis < gr. -ōsis) – sufixo muito produtivo na Anatomia e na Medicina, utilizado para formar os substantivos de diversos processos patológicos e doenças, agregando-se a uma base que designa quer o órgão, quer parte dele: artrose, aterosclerose, escoliose, hiperlordose, etc9

A terminologia da Nanociência e Nanotecnologia.

10, por sua vez, apresenta lexias simples e complexas, entretanto, uma das características é a alta frequência do prefixo11 nano-12

Além de o prefixo nano- figurar como forma presa (unindo-se a uma base com ou sem hífen), aparece também como forma livre, neste caso, exercendo as funções de substantivo e de adjetivo. Observem-se os exemplos:

(18.370 ocorrências num corpus de 2.565.490 palavras) em muitas unidades:

nanocompósitos, nanocristais, nanoeletromecânicos, nanossistema biológico, nanopó cristalino, filme nanoestruturado, nanotubo de carbono, nanopartícula de dióxido de titânio, imunonanoconchas, etc.

1. substantivo – nano-segregação, nanopartículas; e ocorrendo como forma livre: Estima-se também que sejam criados mais de cinco milhões de empregos em “nano” nos próximos cinco anos.

2. adjetivo – material nanocristalino, sistema nanoeletromecânico;

e ocorrendo como forma livre: escala nano, ou ainda: Para 2014, recente estudo internacional aponta que o mercado de produtos “nano” será de cerca de US$ 2,3 trilhões.

9 As observações etimológicas referentes aos morfemas citados no texto foram obtidas nos dicionários Ferreira (2004) e Houaiss e Villar (2001).

10 Terminologia elaborada no âmbito do projeto “Terminologia em Língua Portuguesa da Nanociência e Nanotecnologia: Sistematização do Repertório Vocabular e Elaboração de Dicionário-Piloto – NANOTERM”, com apoio do CNPq (cf. COLETI et al., 2007).

11 Foram encontrados no corpus alguns casos em que o formante nano ocorre na posição de base, tais como: escala micro-nano, dispositivos plasmo-nano, catenano, etc, como se poderá observar na sequência deste artigo.

12 O prefixo nano- é assim definido pelo dicionário Houaiss (HOUAISS e VILLAR, 2001): “nano-: do SI, simbolizado por n, do gr. nánnos,é,on 'de excessiva pequenez' ou nânos 'anão', adotado na 11ª Conferência Geral de Pesos e Medidas, de 1960 (resolução nº 12), equivalente a um multiplicador 10-9, ou seja, milésimo milionésimo (na nomenclatura tradicional brasileira bilionésimo) da unidade indicada.”

O que observamos nessas análises de distintas terminologias é que os processos de formação de palavras mais produtivos ainda são os vernáculos, tais como: derivados prefixais, derivados sufixais, compostos e compostos sintagmáticos, confirmando as pesquisas realizadas pelo grupo TermNeo13

Outro aspecto digno de nota é que, ao contrário de que se imagina e do que dizem os discursos midiáticos, os empréstimos do inglês não são tão preponderantes. Para se ter uma ideia, de 765 termos de Revestimento Cerâmico, apenas 9 são anglicismos, o que equivale a cerca de 1,2%: ball-clay, china-clay, flint-clay, fire-clay, insert, creta print, euroline, mesh e sistema rotocolor. Há na verdade mais termos oriundos do italiano e do francês: muratura, bombatura, festone, mármore travertino, bordura, mate, tamização, terracotta/cotto, grês, tozzeto, etc.

Na terminologia da Fisioterapia, dos 1.200 termos que compõem o repertório, apenas 9 são anglicismos (ou 0,75%): biofeedback, hot pack, shaking, shuttle test, spray, maitland, leg-press, splint, rash cutânea. No vocabulário da Nanociência e Nanotecnologia, Coleti (2009) analisou 10% dos termos mais frequentes de um total de 3.069 termos. Para essa seleção, foram consideradas as listas de uni, bi, tri e tetragramas (termos compostos de 1, 2, 3 e 4 palavras respectivamente), em seguida, foi feita a seleção de 10% dos termos mais frequentes em cada uma das listas, o que correspondeu a: 80 unigramas, 59 bigramas, 60 trigramas, 16 tetragramas, perfazendo um total de 315 termos, desse total, apenas 13 termos são empréstimos ou contêm empréstimos em sua composição sintagmática: campo de stokes, chip, conformação por spray, frequência do laser, frequência do laser escravo, frequência do laser mestre, ingap, laser, laser escravo, laser mestre, laser semicondutor, spin, stokes. Se considerarmos que o item léxico laser

(ALUÍSIO et al., 2006).

14

13 Acrônimo do projeto "Observatório de Neologismos Científicos e Técnicos do Português Contemporâneo", coordenado por Ieda Maria Alves, criado em 1988 e sediado no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

já está dicionarizado nos

14 Proveniente do inglês laser (1960), acrônimo de Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation (amplificação de luz por emissão estimulada de radiação) (HOUAISS e VILLAR, 2001).

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grandes repertórios da língua portuguesa, teríamos na verdade 6 empréstimos (todos anglicismos). Há ainda que considerar que stokes se repete, pois constitui um unigrama e um bigrama, portanto, temos 5 ocorrências de empréstimos nos grupos dos 10% mais frequentes, o que corresponde a 1,6%.

Assim, ao se analisar terminologias do português, desvenda-se na verdade o próprio funcionamento da língua, o que para nós não constitui uma novidade, uma vez que os termos são signos linguísticos e, portanto, estão afeitos às regras internas da língua. O que, a propósito, só vem confirmar o fato de que os repertórios terminológicos não estão separados da língua geral, mas são parte constitutiva dela:

Parece ser que existe consenso en la idea de que la diferenciación entre el término y el no término es pragmática, puesto que los términos se forman del mismo modo que el resto de los elementos léxicos de la lengua: siguen los tipos de estructura que el sistema permite, emplean los mismos recursos de formación de palabras, y se someten a las mismas reglas de combinación y a sus restricciones. Son, en fin, tan signos lingüísticos como cualquier otro.

(Castillo, 1998, p.99)

6. A semântica por trás das ontologias de domínio e da