2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.3 O PROFISSIONAL DE ENFERMAGEM E O PSF
2.3.1 Atitudes gerenciais e a multifuncionalidade do enfermeiro no PSF
Como profissão, a enfermagem se torna fundamental a qualquer sistema de saúde, pela promoção de um atendimento de qualidade fundamentado em processo de trabalho moderno e garantida de técnicas completamente aceitáveis em sociedades desenvolvidas. Diante disso, entende-se que a enfermagem se trata de um trabalho fundamental, de necessidade pública, e de grande valor (MACHADO, 1999 apud ARAÚJO; OLIVEIRA, 2009).
O PSF é uma estratégia implantada pelo Ministério da Saúde para a reorganização da prática assistencial à saúde, aproximando os serviços de saúde da população. Neste contexto, para lidar com a dinâmica da vida social das famílias assistidas e da própria comunidade, a valorização dos diversos saberes e práticas contribui para uma abordagem mais integral e resolutiva (LEITÃO, 2001, p. 104-15).
Conforme relatos de Lazzarotto (2001) compete ao enfermeiro do PSF as atividades de supervisão, treinamento e controle da equipe e atividades consideradas de nível gerencial. Como gerente da assistência de enfermagem no PSF, o enfermeiro deve ser o gerador de conhecimento, com o desenvolvimento de competências, inserindo novidades à equipe e definindo responsabilidades.
O tratamento conceitual percebe que as competências se tratam do fundamento para a gestão de organizações, desempenhadas através da absorção de
32 conhecimentos e conexão de habilidades e atitudes durante o trabalho prático, permitindo a tomada de decisões baseadas em conhecimentos. A definição do termo competência é fundamentada em três dimensões: conhecimento, habilidades e atitudes.
Na concepção de Arnauts et. al. (2005), o enfermeiro exerce uma importante função junto com a equipe multidisciplinar que compõe a ESF, visto que, pratica ações assistenciais, gerencias e educativas.
O enfermeiro que atua na ESF necessita trabalhar junto à população visando à promoção e prevenção da saúde, de modo a consolidar os princípios básicos do SUS, tomando um pouco do esquecimento do antigo modelo de recuperação da saúde, que abrangia somente a forma curativa (XIMENES NETO; SAMPAIO, 2007, p. 687-95).
Sob a ótica de Nascimento e Nascimento (2005), o enfermeiro que trabalha no PSF, precisa atuar profissionalmente, empregando todos os artifícios admissíveis, utilizando em conjunto com o conhecimento específico e com a tecnologia material existente, de forma que se aproxime do seu objeto de trabalho. Tais artifícios devem estar conforme as necessidades de saúde, atreladas à lógica das idéias, da política e da economia, interferindo nas práticas nas ações de saúde. Diante desta perspectiva, a enfermagem com o trabalho organizado e também com estratégias empregadas com a equipe de saúde, consegue alcançar a meta de que cada membro da equipe exerça seu trabalho, contribuindo para a satisfação do programa, tornando-se administrador de transformação.
Para Rocha e Zeitoune, (2007), por causa do apoio ao trabalho prestado por estratégias como o Programa Agente Comunitário de Saúde e o PSF, a procura por enfermeiros aumentou. Por isso, a promoção da saúde está cada vez mais se expandindo, devido ao princípio de descentralização que permeia o SUS. Tal sistema foi estabelecido através da Constituição Federal de 1988, e regulamentado por Leis Orgânicas que asseguram o fortalecimento da participação popular e do controle social da população em tudo que se relaciona com a saúde.
33 Estes autores consideram que o enfermeiro deve desempenhar atividades em conjunto com a comunidade e dentro da própria unidade, utilizando como parceiros todo o pessoal do PSF, que supervisiona o trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), e oferece as necessárias assistências de enfermagem às pessoas que precisam.
Conforme os procedimentos básicos deste programa, o enfermeiro tem como meta debater cidadania junto com a equipe de trabalho e com a comunidade, explicando os direitos à saúde; controlar o processo de trabalho na unidade de saúde; cumprir atividades que objetivam a prevenção de doenças, tratamento e encaminhamento dos pacientes; fornecer processo de capacitação aos ACS e auxiliares de enfermagem; efetuar consultas de enfermagem no campo individual; executar educação sanitária; exercer ações na atenção à criança, à mulher, ao trabalhador;
fazer o controle de doenças como hanseníase, tuberculose; possuir um olhar clínico também para as doenças crônico-degenerativas e infecto-contagiosas; e realizar ações básicas de vigilância sanitária e epidemiológica.
Arnauts et. al. (2005) expõe que além das ações assistenciais e educativas/comunitárias, um dos grandes desafios dentre as competências do enfermeiro no PSF, é a prática gerencial que ele apreende diante do programa, coordenando e supervisionando toda equipe. É justamente o enfermeiro que gerencia a assistência de enfermagem, e, ao mesmo tempo, práticas prestadas a toda comunidade através dos serviços realizados pela ESF.
A gerência é uma função inerente ao profissional de enfermagem.
Partindo deste princípio, a gerência torna-se verdadeira e contribui na viabilidade de fazer o melhor uso dos recursos para atingir os objetivos que foram planejados (BENITO et. al., 2005, p. 635-640).
Figueiredo (2003) apud Benito et. al. (2005) salientam que compete ao enfermeiro cumprir a previsão, provisão, organização e controle dos materiais, ainda realça que, gerência se trata de uma função que direciona e administra, alcançando o fornecimento dos insumos e capturando os recursos da instituição, demonstrando tudo isto em um meio de maior produtividade.
34 O exercício da gerência pela enfermagem está vinculado a um processo maior, ou seja, o de gerenciamento em saúde. Visando o PSF, é adequada a amplitude da complexidade de atividades que são desempenhadas pelas equipes. Diante disto, é explorado por todos os profissionais, o aperfeiçoamento de novos conhecimentos, habilidades e tecnologias, esperando assegurar o acesso e uma atenção integral.
Entretanto, alterar a maneira de atuar no gerenciamento do enfermeiro, num trabalho educativo que orienta os indivíduos a realizar uma auto-análise e a modificar sua ação em algo com criatividade, democracia e atitude cidadã, se trata de um grande desafio (VILLAS BÔAS et. al., 2008).
Segundo Mattos (1979) apud Benito et. al. (2005), o caráter gerencial que distingue uma participação considerável na administração, é o compromisso e a competência.
O trabalho em equipe incita a criatividade direcionando os participantes a se comportarem de forma positiva diante da escolha de melhores opções, apresentando como maior motivação, o desenvolvimento profissional.
É importante ressaltar que este desafio leva à necessidade de construir e desenvolver, de maneira articulada, das competências técnica, organizacional, comunicativa e sociopolítica. O profissional deve estar certo de que essa construção ultrapassa um conjunto de conhecimentos de acordo que a responsabilidade e atitude social devem acontecer de formas simultâneas. Significando que a prática do profissional de enfermagem se mostra na capacidade humana do cuidar, em suas várias extensões teórico-científica, social, política e acima de tudo a ética (VILLAS BÔAS et. al., 2008, p.
1355-1360).
A enfermagem é exibida sob diversas categorias no âmbito profissional. Todas em compromisso com a saúde da pessoa e também com a coletividade, com performance para promoção, proteção, recuperação e reabilitação dos indivíduos. O profissional de enfermagem é considerado um agente de mudança, visto que, busca relações entre o indivíduo e o meio em que vive durante seu processo de vida. Logo, atua de forma estratégica, identificando as necessidades de saúde da comunidade, oferecendo meios de comunicação e participação efetiva (DIAS et. al., 2005).
Fernandes et. al. (2010) garante que com o surgimento do PSF, dando prosseguimento ao modelo de atenção básica, e ordenando todo o sistema de atenção à saúde do SUS, e sua conquista de espaço no país, torna-se
35 imprescindível distinguir e determinar um modelo de gerência à esta área, devendo dispor de planejamento ideal e fluxo de atendimento distante de empecilhos aos usuários, combinando com os princípios que orientam o programa.
Dias et. al. (2005) destacam ainda que o enfermeiro participante de todo o processo de implantação do PSF deve conhecer o espaço geográfico e social onde as famílias estão inseridas e os principais agravos à saúde vividos pelas mesmas, ou seja, deve conhecer o perfil epidemiológico e social da área de abrangência.
Conforme esta perspectiva, o enfermeiro do PSF, tem que enfatizar os problemas de saúde da população visando o aperfeiçoamento nas condições de vida. A pesquisa de estratégias deste processo assegura o conhecimento sobre o desempenho de enfermeiros-gerentes, segundo a capacidade de administração dos fatores que intervêm na organização da atenção à saúde, sobretudo na visão de médio e longo prazo.
Sob a ótica de Peduzzi e Ciampone (2005) apud Ximenes Neto e Sampaio (2005), o método de trabalho em enfermagem objetivando a atenção e gestão se origina na invenção feita por Florence Nightingale, da primeira escola de enfermagem durante o século XIX, onde existiam duas categorias de enfermeiras, as nurses responsáveis pelo cuidado diretamente ao paciente e ladyes nurses, que praticava o ensino e administração desse cuidado.
O enfermeiro ao se dividir no trabalho, tendo em vista a responsabilidade do gerenciamento ao território e a de prestar assistência de enfermagem à um número determinado de famílias, talvez poderá não dar conta das duas atribuições como deveria, devido o quesito demanda-tempo. Conciliar atividades de enfermagem e gerenciamento torna-se a principal dificuldade dos gerentes, porque a atribuição de gerência advindas do território é muito complexa e as competências identificadas na Política Nacional de Atenção Básica que o enfermeiro necessita realizar na atenção são numerosas (XIMENES NETO; SAMPAIO, 2007, p.
687-95).
Estes autores definem estas competências como: assistência completa, seguindo princípios de promoção e proteção à saúde, de modo a prevenir agravos, diagnosticando, tratando, e atuando na reabilitação e manutenção da saúde, aos
36 indivíduos e/ou famílias nas ESF, e caso necessário, oferecer os serviços no domicílio e também em espaços comunitários, atuando na assistência às diferentes etapas do desenvolvimento do indivíduo: na infância, na adolescência, no adulto e idoso; segundo protocolos e/ou normas técnicas fixadas pelo gestor do município ou do Distrito Federal, conforme as disposições legais da profissão de enfermeiro, realizar consulta de enfermagem, fazer solicitações de exames complementares e prescrição de medicações.
Compete ao enfermeiro do PSF o planejamento, gerenciamento, coordenação e avaliação das ações desenvolvidas pelos Agentes Comunitários de Saúde (ACS);
supervisionar, coordenar e realizar comumente, ação educativa dos ACS e da equipe de enfermagem; contribuir e também participar das atividades relacionadas com a Educação Permanente do Auxiliar de Enfermagem, Auxiliar de Consultório Dentário (ACD) e Técnico em Higiene Bucal (THD); ter participação no gerenciamento de insumos necessários para um bom funcionamento da Unidade de Saúde da Família (USF).
Historicamente, a profissão de enfermagem se apresenta em grande compromisso com a Saúde Pública no Brasil, e na Estratégia de Saúde da Família (ESF) e é dotada de grande responsabilidade sanitária, juntamente com várias ações que desenvolve com as famílias, indivíduos e comunidades.
Villas Bôas et. al. (2008) mencionam que o enfermeiro do PSF adota o objeto do cuidar quando assegura o trabalho assistencial, já no trabalho gerencial, se torna seu objeto, os trabalhadores da equipe de enfermagem, e também a organização do trabalho, cujo objetivo é adequar uma melhoria na assistência de enfermagem, e em todo trabalho prestado.
Benito e Becker (2007) destacam as ações e atitudes prestadas pelos enfermeiros que venham a integrar o perfil de gerência, função em que o mesmo assume de modo inerente com a ESF. Além da prática gerencial realizada por ele, precisa ter um perfil que facilite esta prática, aprimorando o monitoramento sobre toda a equipe, favorecendo as ações da equipe na atenção à saúde da comunidade, satisfazendo as metas e indicações do programa objetivando promover assim, a assistência
37 apropriada e de qualidade aos pacientes e usuários da respectiva área de abrangência da ESF.
Atentando ao que foi citado acima, Benito e Becker (2007) indicam ações que o enfermeiro deve cumprir para dotar do perfil gerencial esperado para o cumprimento das atividades gerenciais. Ser justo integra o perfil gerencial, que contribui para a contraposição de preconceitos, adotando posições justas em situações que deverá enfrentar, analisando princípios éticos e sociais; apresentar atitude de afetividade;
estar aberto a negociações; estar aberto às mudanças, de maneira a seguir novas metodologias, instrumentos de trabalho e conhecimento; ser comunicativo também faz parte do perfil gerencial, cooperando com a qualidade dos relacionamentos, seja entre a equipe, com o indivíduo, família, ou comunidade.
A criatividade se torna fundamental diante de várias situações, e em ambiente dinâmico como é o caso do PSF; saber escutar os outros que se encontram ao seu redor, na esperança de prever problemas; estar aberto ao diálogo também se torna de suma importância devido ao relacionamento interpessoal entre a própria equipe, ou com os usuários; apresentar eficiência no trabalho prestado; promover o trabalho com grupos da comunidade, reconhecendo os fatores que dependem do desenvolvimento do trabalho realizado por sua equipe de saúde; possuir iniciativa e autonomia da equipe e usuários; se tornar um líder educador, através da educação em saúde; se envolver no trabalho em equipe e comunidade, para satisfação pessoal do cliente e manutenção da instituição, objetivando uma melhor assistência de qualidade; ser humildade, de maneira a aprender com outras pessoas aperfeiçoando seu próprio conhecimento e também a atuação da equipe; privilegiar o trabalho em equipe; ter resolutibilidade, oferecendo e implantando possíveis soluções que estão de acordo com a realidade do indivíduo e/ou comunidade; estar aberto a críticas; possuir uma visão em conjunto, considerando que na ESF a atenção está centrada na família; ter visão única a respeito de sua própria atuação, visando missão e as metas requeridas pela organização.
O gerente também precisa exibir um raciocínio lógico, interpretando textos, realizando a transformação dos dados em informações e conseqüentemente, em
38 conhecimento; ter compromisso e responsabilidade; apresentar atitude ética, de modo a resgatar conceito de valores.
Portanto, as atribuições realizadas pelos enfermeiros do PSF são extensas.
Na visão de Fernandes et. al. (2010):
Dentre as competências gerenciais dos enfermeiros pode-se citar:
análise crítica para tomada de decisão gerencial e o desenvolvimento do pensamento autônomo; organização de redes de serviços de saúde; desenvolvimento de instrumento para análise da situação de saúde e provisão de serviços e elaborar estratégias de intervenção; identificação de potencialidades e limitações institucionais que diminuam ou impeçam a efetividade das ações de saúde; realização de planejamento e programação, fundamental à análise de situação e elaboração de propostas de intervenção. Utilização do sistema de informação, avaliando suas potencialidades e limitações, desenvolvimento dos conhecimentos gerenciais a partir de novos enfoques e modernas técnicas de gestão, entre outras (p. 11-5).
De acordo com o Ministério da Saúde (BRASIL, 2001) apud Arnauts et. al. (2005), o gerenciamento na ESF efetuado pelos enfermeiros, ocorre através do trabalho de supervisão, planejamento, coordenação, execução e avaliação das USF. Também organizam e coordenam a formação dos grupos de cada patologia específica;
supervisionam e coordenam ações que venham a contribuir com o trabalho de capacitação dos ACS e auxiliares de enfermagem, objetivando o cumprimento de suas respectivas funções. Também é atribuição do enfermeiro, além de ter como necessidade, realizar atividades em favor das áreas que possuem prioridade, devem ter intervenção na atenção básica.
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