A Lei de Introdução ao Código Civil concebe o ato jurídico perfeito como sendo “o já consumado segundo a lei vigente ao tempo em que se efetuou (“§ 2º - Consideram-se adquiridos assim os direitos que o seu titular, ou alguém por ele, possa exercer, como aqueles cujo começo do exercício tenha termo prefixo, ou condição preestabelecida inalterável, a arbítrio de outrem.”).
Segundo Ferreira, “no sentido genérico, o ato jurídico perfeito é toda manifestação licita de vontade que tenha por fim criar, modificar ou extinguir uma relação jurídica.
Alexandre de Moraes83 assim conceitua o ato jurídico perfeito:
Ato Jurídico Perfeito é aquele que reuniu todos os seus elementos constitutivos exigidos pela lei. O principio constitucional do respeito ao ato jurídico perfeito aplica-se a todas as leis e atos normativos inclusive às leis de ordem pública.
Vale inserir algumas jurisprudências do STF e outros Tribunais, acerca da proteção ao ato jurídico perfeito, direito adquirido e cosia julgada – Princípio da Segurança Jurídica:
Proteção ao ato jurídico perfeito, direito adquirido e coisa julgada – Princípio da Segurança Jurídica: STF – Contrato.
Depósitos em cadernetas de poupança. Ato Jurídico Perfeito.
Princípio constitucional da intangibilidade das situações definitivamente consolidadas (CF, art. 5ª, XXXVI). Impossibilidade da incidência de nova lei destinada a reger os efeitos futuros de contratos anteriores celebrados. Hipótese de retroatividade mínima vedada pela Constituição da República. Precedentes do STF.
Agravo improvido. O sistema constitucional brasileiro, e a eficácia retroativa das leis – a) que é sempre excepcional b) que jamais se presume e c) que deve necessariamente emanar de disposição legal expressa – não pode gerar lesão ao ato jurídico perfeito, ao direito adquirido e a coisa julgada. A nova lei não pode reger os efeitos futuros gerados por contratos a ela anteriormente
83 MORAES, Alexandre de. Constituição do Brasil Interpretada e Legislação Constitucional, 7º Edição, São Paulo: Atlas, 2007, p. 245.
celebrados, sob pena de afetar a própria causa – ato ou fato ocorrido no passado – que lhes deu origem. Essa projeção retroativa da lei nova, mesmo tratando-se de retroatividade mínima, incide na vedação constitucional que protege a incolumidade do ato jurídico perfeito. A cláusula de salvaguarda do ato jurídico perfeito, inscrito no art. 5º XXXVI, da Constituição, aplica-se a qualquer lei editada pelo Poder Público, ainda que se trate de lei de ordem pública. Precedentes do STF. A possibilidade de intervenção do Estado no domínio econômico não exonera o Poder Público do dever jurídico de respeitar os postulados que emergem do ordenamento constitucional brasileiro, notadamente os princípios – como aqueles que tutela a intangibilidade do ato jurídico perfeito ou razões do Estado – que muitas vezes configuram fundamentos políticos destinados a justificar, pragmaticamente, ex parte princips, a inceitável adoção de medidas que frustram a plena eficácia da ordem constitucional, comprometendo-a em sua integridade e desrespeitando a em sua autoridade – não podem ser invocados para viabilizar o descumprimento da própria Constituição, que, em tema de atuação do Poder Público, impõe-lhes limites inultrapassáveis, como aquele que impede a edição de atos legislativos vulneradores da intangibilidade do ato jurídico perfeito, do direito adquirido e da coisa julgada. Doutrina e jurisprudência”
(RTJ 163/795). Como ressaltado pelo Ministro –Relator Moreira Alves, a previsão do art. 5º,XXXVI, “consagra principio fundamental destinado a resguardar a incolumidade das situações jurídicas definitivamente consolidadas.” 84
Pela jurisprudência abaixo conferida verifica-se a aplicação do Instituto em análise:
Direito de construir e ato jurídico perfeito: TJSP – “Demolição – Loteamento – Restrição convencional imposta pelo loteador – Obrigação propter rem – Projeto aprovado observando tais restrições – Obrigação comum assumida pelo proprietário de executar a obra segundo projeto aprovado. – Descumprimento da obrigação – Irrelevância da concessão do habite-se pela Prefeitura Municipal, em decorrência de lei anistia das construções irregulares – Ato Jurídico Perfeito e acabado, que está incólume aos efeitos da lei ( artigo 5º, XXXVI, da Constituição Federal) – Recurso provido – Segundo o nosso direito, a regra é a liberdade de construir, mas as
84 STF – 1ª T. – Rextr. Nº 144.996/SP Rel. Min. Moreira Alves – RTJ 164/1093.
restrições e limitações a esse direito formam exceções, e somente são admitidas quando expressamente previstas em lei, regulamentos ou contrato. Quando previstas em Regulamento do Loteamento, e consignadas do título translativo da propriedade.
Daí que a concessão do habite-se pela Prefeitura Municipal, por força de lei que concedeu anistia às construções irregulares, não leide a obrigação do devedor, em face da proteção outorgada pela Carta Magna (artigo 5º, XXXXVI). Não estando a edificação de acordo com as restrições negociais, e nem com projeto aprovado segundo a obediência dessas restrições , impõem-se a correção das irregularidades, demolindo-se parte da construção em desacordo com tais restrições.”85
A jurisprudência explicitada demonstra a aplicação do princípio constitucional do ato jurídico perfeito, seja-se:
Aplicação do princípio constitucional do ato jurídico perfeito às leis de ordem pública: STF: “Em linha de princípio, o conteúdo da convenção que as partes julgaram conveniente, ao contratar, é definitivo. Unilateralmente, não é jurídico entender que uma das partes possa modificá-lo. Questão melindrosa, todavia, se põe, quando a alteração de cláusulas do ajuste se opera pela superveniência de disposição normativa. Não possui o ordenamento jurídico brasileiro preceito semelhante ao do art.
1.339, do Código Civil italiano, ao estabelecer: As cláusulas, os preços de bens ou de serviços, impostos pela lei, são incertos de pleno direito no contrato, ainda que em substituição das cláusulas diversas estipuladas pelas partes. A inserção de cláusulas legais, assim autorizadas, independentemente da vontade das partes, reduz, inequivocadamente, a autonomia privada e a liberdade contratual. Decreto, nos países cuja legislação consagra regra de extensão do preceito transcrito do direito italiano, as modificações dos contratos cujo conteúdo se introduzam, por via da lei, cláusulas novas em substituição às estipuladas pelas partes contratantes, a aplicação imediata das denominadas leis interventivas aos contratos em curso ha de ser admitida, como mera conseqüência do caráter estatutário da disciplina a presidir essas relações jurídicas, postas sob imediata inspiração do interesse geral, enfraquecido, pois, o equilíbrio decorre do acordo das partes, modo privativo, da autonomia da vontade. Essa liberdade de o legislador
85 TJSP – Apelação Cível nº 63.745.4/5 – Barueri – 9º Câmara de Direito Privado – Rel. Des. Ruiter Olica, decisão: 21-11-1997.
dispor sobre a sorte dos negócios jurídicos, de índole contratual, nele intervindo, com modificações decorrentes de disposições legais novas, não pode ser visualizada, com idêntica desenvoltura, quando o sistema jurídico prevê, em norma hierárquica constitucional, limite à ação do legislador, de referencia aos atos jurídicos perfeitos.Ora, no Brasil, estipulando o sistema constitucional, no art. 5º, XXXVI, da Carta Política de 1988, que a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada, não logra assento, assim, na ordem jurídica, a assertiva segundo a qual certas leis estão excluídas da incidência do preceito maior mencionado.”86
No mesmo sentido:
STF: “O princípio constitucional do respeito ao ato jurídico perfeito se aplica também, conforme é o entendimento desta Corte, às leis de ordem jurídica pública. Correto, portanto, o acórdão recorrido ao julgar que, no caso, ocorreu afronta ao ato jurídico perfeito, porquanto, com relação à caderneta de poupança, ha contrato de adesão entre o poupador e o estabelecimento financeiro, não podendo, portanto, ser aplicada a ele, durante o período para a aquisição da correção monetária mensal já iniciado, legislação que altere, para menor, o índice dessa correção”87
Conferir ainda:
STF: “O princípio constitucional do respeito ao ato jurídico perfeito se aplica, também, conforme é o entendimento desta Corte, às leis de ordem pública. Correto, portanto, o acórdão recorrido ao julgar que, no caso, ocorreu afronta ao ato jurídico perfeito, porquanto, com relação à caderneta de poupança, há contrato de adesão entre o poupador e o estabelecimento, não podendo, portanto, ser aplicada a ele, durante o período para a aquisição da correção monetária mensal já iniciado, legislação que altere, para menor, o índice dessa correção.”88
86 STF – Rextr. Nº 198.993-9/RS, Rel. Min. Néri da Silveira, Diário da Justiça, Seção I, 22 ago.
1996, p.29.102
87 STF – Rextr. Nº202.584/RS – Rel. Moreira Alves – RTJ 163/414
88 STF – AI º 181.317-2 1ªT. – Rel. Min. Moreira Alves.
Uma vez estudado cada Instituto de forma detalhada, e assim observando que tais existem para efetivar a segurança jurídica, adentrar-se-á a segurança jurídica propriamente dita, para que de posse de todo o exposto, se confira a efetividade destes institutos frente ao uma nova Constituição, ou seja, frente ao Poder Constituinte Originário.