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Aurelino Leal: de tradutor do positivismo a “Trepov carioca”

3.3 Traduzindo a polícia científica: intelectuais, positivismos criminológicos e campo

3.3.3 Aurelino Leal: de tradutor do positivismo a “Trepov carioca”

e propagandista do que se convencionou chamar-se de policia scientifica” (CARVALHO, E., 1913c, p. 23).

Para além da “estranha evolução”, Elysio de Carvalho representa, no campo policial, as disputas da “intelectualidade policial” pela redefinição das estruturas internas desse

“microcosmo social” (BOURDIEU, 2004). Entusiasta da reforma de 1907, defensor da

“polícia científica”, tradutor engajado do positivismo criminológico e fundador da Escola de Polícia, não deixou de realizar “incursões extremamente sugestivas na questão étnica. O pensamento policial, na pena desse autor, sofisticou-se e introduziu uma visão moderna do controle social” (NEDER, 2012, p. 277). Não é sem razão que Pechman (2002, p. 365) se refere ao alagoano como “o maior teórico da polícia”.

Ciências Jurídicas e Sociais, nas cadeiras de Direito Constitucional e Administrativo, temas dos demais trabalhos que produziu no século XX (GALVÃO, 2013, p. 155, 164).

Como jurista, Aurelino Leal iniciou sua carreira na promotoria pública. Exerceu a função de 1895 a 1898 publicando, nesse período, dois trabalhos: Prisão Preventiva, em 95, e Germens do Crime, em 96. Em 1900, já fora dos quadros do Ministério Público, foi eleito deputado estadual, renunciando ao mandato em 1902 para dirigir a Penitenciária do Estado da Bahia até ser nomeado Secretário de Polícia e Segurança Pública. Com a unificação das secretarias de governo, tornou-se Secretário Geral daquele Estado (BOLETIM POLICIAL, 1914, p. 342).

Quando se mudou para o Rio de Janeiro, em 1912, já havia vencido duas eleições para o cargo de deputado federal, tendo o mandato rejeitado pelo Congresso Federal.

Estabelecendo novos vínculos políticos na capital, inseriu-se no Instituto dos Advogados e no IGHB (GALVÃO, 2013, p. 154-156) e, em 1914, alcançou a nomeação de Wenceslau Braz para o principal cargo no âmbito do exercício do controle social da República Velha. A Chefia de Polícia do Distrito Federal se apresentava como a oportunidade de demonstrar suas aptidões administrativas e conseguir maior prestígio político, reprimindo os movimentos operários213, expurgando opositores políticos dos quadros da Polícia Civil e agradando ao patronato carioca (TÓRTIMA, 1996, p. 247-248).

Deixou a instituição em 1918, um ano após a realização da Conferência Judiciário- Policial de 1917, e voltou à cena como interventor no Estado do Rio de Janeiro em 1923, nomeado por Arthur Bernardes. Nesse cargo, administrou de forma autoritária, perseguindo políticos opositores, aliados de Nilo Peçanha214, e concentrando poder político, o que levou a receber, no Congresso Nacional, críticas de “parlamentares [que] insinuaram a postura

‘ditatorial’ que Aurelino Leal teria assumido na interventoria” (GALVÃO, 2013, p. 174).

Muito antes de se destacar como o “Torquemada” ou “Trepov carioca” (DULLES, 1973), ou de ser um “pensador da polícia”, Leal também foi um tradutor do positivismo criminológico. Publicado ainda na Bahia, “Germens do Crime” (1896) reúne reflexões do autor sobre alguns dos principais temas que a Escola Positiva e as “modernas doutrinas”

(LEAL, A., 1896, p. ii) problematizavam no plano do sistema de justiça. De um longo questionamento à instituição do Júri até a reincidência e o ensino da Antropologia Criminal, o

213 O que lhe rendeu, segundo Tórtima (1996, p. 247) e Duffles (1973) a comparação, entre os trabalhadores cariocas, com o Chefe de Polícia da Rússia czarista pré-revolucionária.

214 Segundo o Decreto de Intervenção, “o interventor também poderia preencher, nos termos das leis locais, os cargos que vagassem. Tais dispositivos legitimam qualquer ação de Aurelino Leal no sentido de varrer da máquina pública fluminense os políticos ligados a Nilo Peçanha.” (GALVÃO, 2013, p. 172)

livro é uma grande metáfora biológica que pretende diagnosticar, como uma doença, as condições de propagação do “crime” na sociedade brasileira. As falhas da legislação criminal e os institutos baseados na “metafísica” da “Escola Clássica” forneceriam as condições para a

“contaminação”.

Em sua definição, os “germens” seriam justamente as disposições que, no seio do direito penal positivo, serviriam de “terreno fértil” à impunidade e à “animação dos malfeitores”, favorecendo o florescimento da “semente” do “crime” (LEAL, A., 1896, p. 17- 18). Os “germens do crime” poderiam ser, na trilha do positivismo, classificados e hierarquizados em “primários” e “secundários”. Dentre os primeiros estariam a própria instituição do Júri215 e a impunidade da “cogitação” ou “intenção criminosa”. Os segundos se expressariam por institutos como a prescrição, a fiança, a anistia, a reincidência216 e as nulidades processuais (LEAL, A., 1896, p. 19-20), que tornariam ineficiente a defesa social.

Afinado com a trindade Lombroso, Ferri e Garofalo217, mas também com os discursos das matrizes francesas, Leal (1896, p. vi), chamava a atenção para as novas orientações do positivismo, da biologia e da sociologia para o Direito Penal. A observação seria o primeiro passo para a “limpeza do sangue” e cura do “organismo da sociedade de seu actual depauperamento”. Os legisladores modernos deveriam, portanto, seguir um modelo

“civilizado” em que:

immergem os seus olhos até o mais profundo das camadas sociaes, para estudar-lhes a hygiene, o meio, a educação, a índole, o movimento do mundo psychologico do cada um; nega-lhes o livre arbítrio em nome da physio-psychologia; mede-lhes com extremo cuidado a responsabilidade, levando em conta relativa as alterações de seu systmea nervoso, as suas anomalias; lança os seus olhos para a prole do criminoso para desvendar-lhes os phenomenos do atavismo, a hereditariedade, estuda o phenomeno da imitação como influente na actividade criminosa, e reconhece-lhes o grande papel que representa na animação da criminalidade (LEAL, A., 1896, p. v)

Um dos caminhos para a consagração do método positivo de observação no âmbito da questão criminal estava situado na defesa que Aurelino fazia do estudo do criminoso nas

215 Segundo Leal (1896, p. 28), “a escola moderna, na observação criteriosa dos factos, já reconheceu a sua inefficacia absoluta na repressão dos crimes; de modo que, o desapparecimento do jury não deve soffrer contestação, ante os progressos admiraveis que vae fazendo o positivismo pessoal, cujo triumpho, quer queirão quer não, é uma fatalidade social”. Traduzindo o positivismo de Ferri, afirmava que cabia à justiça e à ciência, unicamente, a aferição da responsabilidade. O júri seria uma instituição ultrapassada diante dos avanços do positivismo.

216 Leal era um ferrenho opositor da reincidência específica. O “recidivista” deveria ser objeto do controle social mesmo quando praticasse fato distinto, afinal, a reincidência revelaria que o criminoso é “refractario á

adaptação”. Se a pena era um instrumento de prevenção e correção do indivíduo, a reicidência atestava o seu grau de “temibilidade” (LEAL, A., 1896, p. 241-243).

217 “Não é própria a occasião para tractarmos da apologia da escola moderna. A acceitação que suas idéas vão tendo nos differentes paizes do globo; os combatentes que se levantam decididos contra os postulados da metaphysica criminal,tudo isto autorisa a formação de uma these, de cuja veracidade não se póde de modo algum duvidar. (...) Ferri, Garofalo, Tarde, Lombroso, todos pedem, e ao lado d’estas reclamações (...) vão sempre aquellas provas que fazem calar, porque a verdade, com todo o rigor, as assiste” (LEAL, A., 1896, p. 54).

“casas de prisão”. Mirando-se em Lombroso, defendia a fundação de uma “sciencia penintenciaria” estudada nas faculdades, a partir da qual “os estudantes de direito deverião ser admittidos ao que M. Ellero chama uma ‘clinica criminal’, isto é, ás visitas scientificas e ás observações methodicas sobre os detidos” (LEAL, 1896, p. 270-271).

Na direção da Polícia Civil do Distrito Federal, Aurelino incorporou o espírito reformador dos anos anteriores, “tentando introduzir as modernizações requeridas para uma atualização da instituição policial” (NEDER, 2012, p. 288). Crítico da organização da agência, o baiano reivindicava maior autonomia ao Chefe de Polícia, “inclusive para lançar atos normativos quando necessário, sem necessidade de aprovação do Congresso ou da Presidência da República” (GALVÃO, 2013, p. 158). No entanto, a expressão de suas preocupações e de sua visão sobre a polícia foi sintetizada pelas Conferências de 1917.

Segundo Neder (2012, p. 280), o evento procurava dar nova “forma às estratégias de controle social no Rio de Janeiro, definindo a geopolítica que tramou o poder na cidade, complementar às reformas urbanas da década anterior.”. Sob sua “batuta severa” (TÓRTIMA, 2002, p. 140), o evento durou três meses e, segundo Tórtima (1996; 2002), representa um amadurecimento da repressão, a partir de então ainda usuária do método da “pata de cavalo”, mas também ciente da necessidade de exercer a mediação entre patrões e empregados, entre polícia e justiça.

Em 1918, suas teses e discursos foram reunidos num livro intitulado “Polícia e Poder da Polícia”. Ao justificar a necessidade da convocação da Conferência, no turbulento ano de 1917218, Leal (1918, p. iv e v), retornava à imagem negativa da instituição que preocupou os dirigentes que o precederam, afirmando que a polícia era “sempre mal vista e mal julgada”.

Seria necessário reformá-la a partir da articulação com o próprio judiciário, que permanecia dificultando seu trabalho, por exemplo, com a concessão de Habeas Corpus. Em 1915, seu esforço reformador o levou à elaboração de um projeto de lei que acabou não vingando, mas que já traduzia a atenção dada à criminalização das atividades praticadas por estrangeiros. A conferência pode ser lida, então, como uma nova “estratégia” direcionada, principalmente, à difusão de “novas ideias a respeito do poder de polícia” e ao direcionamento de uma

“convergência entre posições de magistrados e a polícia” (GALVÃO, 2013, p. 162).

No discurso inaugural que proferiu no então novo prédio da Biblioteca Nacional, Leal (1918, p. 6), assumia a teorização da polícia, afirmando que “máxime sua função preventiva, [esta] vela, antes de tudo, para que não se afrouxem ou despedacem aquelles elos que, em

218 Nesse ano irrompeu uma Greve Geral e, em 1918, viria a ocorrer a Insurreição Anarquista do Rio de Janeiro (GALVÃO, 2013, p. 159).

essência, constituem o sustentáculo da disciplina social”. Defendia o conservadorismo como contrapeso às tendências liberais, que eclodiam no Rio de Janeiro, “sabidamente, uma cidade de grandes fermentos” (LEAL, A., 1918, p. 70). Segundo ele, “liberdade não é licença para a confusão e anarquia” (LEAL, A., 1918, p. 12) e a ameaça do anarquismo, que, para o autor, grassava em “meios de escassa cultura mental”, deveria ser controlada pelo poder de polícia na capital, “o cérebro do Brazil” (LEAL, A., 1918, p. 37, 41).

Dentre as teses que apresentou e relatou219, se destacam novas leituras das pretensões profissionalizantes e a retomada de proposições de ampliação da esfera de controle da polícia220. Renovada, a agência deveria excluir a influência da política, tornar-se centralizada e autônoma, fortalecendo a carreira e reduzindo a discricionariedade das indicações (LEAL, A., 1918, p. 82-83). Por outro lado, à crítica ao “empirismo” e a solução científica que marcou a “intelectualidade policial” se expressava na defesa que Aurelino promovia dos novos métodos de identificação221 e da necessidade de consolidação da Escola de Polícia, projetada por Elysio de Carvalho.