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Síntese dos discursos sobre a questão criminal na Primeira República: a “Escola

Na década de 1930, Afrânio Peixoto e Arthur Ramos, dois dos mais famosos – e autoproclamados – discípulos de Raimundo Nina Rodrigues, reeditariam parte de sua extensa bibliografia para reafirmar a importância do mestre da Escola Baiana. Na apresentação de As coletividades anormais, já em 1939, Ramos resumiria a importância do médico maranhense para os diversos saberes que integravam o discurso sobre a questão criminal no Brasil nas fronteiras entre os séculos XIX e XX. Além de fundador de escola, Nina seria o “iniciador dos estudos de etnografia e psicologia social do negro (...), estudioso de nossos problemas de raça e de cultura, aclamado como uma das autoridades em criminologia e ciência penal” (RAMOS, 2006, p. 10).

Correa (1998) possivelmente elaborou o estudo mais aprofundado a respeito da

“Escola Nina Rodrigues”, procurando entender, a partir do estudo da relação entre atuação social e produção de ideias, o grupo de intelectuais que tomou a figura do “mestre” como um

“mito de origem” da fundação da Antropologia brasileira e da Medicina Legal. A autora conclui que, nessa Escola, um determinado projeto intelectual se perpetuou e, por muitos motivos, Nina Rodrigues permaneceu, embora suas ideias tenham sido apropriadas e resignificadas por seus seguidores. Ainda que, graças ao esforço de seus “continuadores”, como Afrânio Peixoto e Ramos, em verdade tenha se criado uma “genealogia mítica” para a produção daquele médico, não é a coerência com seu mestre que torna esse grupo de intelectuais tão relevante.

O fato de ter contribuído decisivamente para a projeção de dois importantes campos do conhecimento no momento estudado já permitiria apontá-lo como um dos principais personagens de uma história dos discursos sobre a questão criminal no Brasil, mas Nina Rodrigues e o grupo de intelectuais que se criou em torno e a partir de seu pensamento e atuação resume muito bem a lógica das traduções do positivismo criminológico por muitos outros motivos.

Apontado como um dos fundadores da Criminologia brasileira118, e “quem mais se aproxima da figura do criminólogo especialista” (DUARTE, 2011, p. 206) no momento de transição para a República, Nina Rodrigues é possivelmente um dos intelectuais tradutores

118 Roberto Lyra (1977, p. 23-24), quando classifica os autores brasileiros, opõe ao grupo de “vulgarizadores, apologistas e glosadores” a Escola Brasileira, formada por “criadores, reformadores e revolucionários” de “luzes e armas próprias”. Para ele, Nina Rodrigues, embora médico, tem seu lugar entre os segundos, como um dos marcos do passado do Direito penal científico.

mais ambíguos do pensamento social brasileiro. O “autor maldito” (FARIA, 2011, p. 65),

“considerado por Cesare Lombroso ‘apóstolo da antropologia criminal no novo mundo’”

(LYRA, 1977, p. 105), foi profundamente influenciado pelo italiano, ao mesmo tempo em que, ao traduzi-lo, deixou de lado algumas de suas perspectivas, então criticadas, para adotar o pensamento de autores como Lacassagne, “rival” do médico veronês (CORREA, 1998, p.

87, 90-91; RODRIGUES, 1938)119.

Ambíguo porque, ao mesmo tempo em que passou à história como racista por ter problematizado a realidade brasileira a partir do argumento racial e da condenação da

“mestiçagem”, foi um dos maiores estudiosos da cultura negra no Brasil. Elaborou densos estudos etnográficos sobre as religiões de matriz africana e considerou seus objetos de culto como arte120. Conhecedor dos candomblés, quando pensou em se candidatar a Senador pela Bahia, contava com o apoio eleitoral dos descendentes de africanos baianos, oriundo das relações que estabeleceu121. Foi também um dos primeiros a publicar, em 1900, um artigo sobre a rebelião escrava dos malês, de 1835, no qual analisou profundamente o islamismo na África, estudando a relação entre os grupos e a história de outros movimentos, o que leva Batista, V. (2003, p. 226-227) a destacar “uma espécie de curiosidade apaixonada pela vida africana do Brasil (...) [revelada pela] uma profunda admiração pelo episódio”.

Nascido em 1862 no Maranhão, vindo de uma família dona de propriedade rural, filho de coronel, Nina Rodrigues iniciou seus estudos de medicina em 1882 na Faculdade de Medicina da Bahia, terminando o curso na Faculdade do Rio de Janeiro em 1887. Em 1889 retornou a Salvador como professor adjunto de Clínica Médica e, dois anos depois, como substituto de Medicina Legal. Em 1894 publicou As raças humanas, seu primeiro livro, e no ano seguinte assumiu a cadeira que ocupava como substituto. Em maio de 1906 fez sua primeira viagem à Europa para participar do IV Congresso Internacional de Assistência Pública e Privada de Milão, vindo a falecer em julho do mesmo ano, em Paris (CORREA, 1998, p. 319-335).

119 Fazendo justiça às parcelas de influência que aqueles autores tiveram, Rodrigues (1933, p. 23) dedica As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil a Lombroso, Ferri e Garofalo, ao lado de Alexandre Lacassagne “pelos relevantes serviços que seus trabalhos estão destinados a prestar à medicina legal brazileira”.

120 “Uma das grandes contribuições de Nina foi o seu trabalho sobre a religião dos africanos, revelando um mundo até então desconhecido e que, graças ao seu trabalho, pode ser recuperado (...)“A influência da religião africana na vida de Nina Rodrigues é algo que se revela presente a cada leitura de suas obras e na biografia da sua vida, sempre repleta de experiências nos candomblés e no convívio frequente com os fetichistas. Nina conhecia a fundo as práticas religiosas ligadas aos africanos e analisava como essas práticas influenciavam a sociedade baiana na época” (FARIA, 2011, p. 67)

121 Segundo Correa, Nina teria ironizado, em 1896, esse apoio, “o contar que uma das mães de santo havia se oferecido para fazer um feitiço com este objetivo [de dar força à sua candidatura]” (CORREA, 1998, p. 202)

Nina foi um resumo genial do período porque seu projeto intelectual é a essência da ideia do “homem de sciencia”. Era assim que “se dirigia a outros que considerava como tais e era quase como chefe de escola que dialogava com outros chefes de escola e ainda em nome da ciência é que ele tentava influenciar a opinião pública a favor de suas idéias” (CORREA, 1998, p. 202). Representou as transformações de seu tempo e se destacou pelo esforço de especialização, de luta “pela qualificação profissional” e por reconhecimento das disciplinas que ajudou a projetar: a Medicina Legal e a Antropologia, tendo valorizado a pesquisa empírica122 e dado visibilidade à perícia e aos novos “objetos de ciência” sobre os quais erigiu sua compreensão da “nação” e da “cidadania” (CORREA, 1998, p. 77, 199-204).

Sua abordagem da “questão racial” – o argumento para a interpretação estrutural da sociedade brasileira, sempre colocada em termos de “nacionalidade” – teve óbvias consequências políticas. Como observa Duarte (2011, p. 241), o pensamento pessimista de Nina Rodrigues (1938, p. 93-110) complementava a visão dos grupos detentores de poder. No entanto, também se pode dizer que estava inserida num determinado projeto intelectual.

Cinquenta anos depois de sua morte, em 1956, o médico Leonídio Ribeiro (1975, p.

15), um dos intelectuais que, por ser discípulo de Afrânio Peixoto, acabou se filiando à

“linhagem” da “Escola Nina Rodrigues”, invocava o espírito criador de Nina, destacando características que podemos valorar como indicativos de sua inserção na ideia aqui trabalhada de “tradutor traidor” – ou “criador, reformador” e não mero glosador, diria Lyra (1977):

O primeiro capítulo da história da Medicina Legal brasileira foi escrito pelo espírito criador do médico maranhense Nina Rodrigues, ao inaugurar, em 1898, o ensino prático da especialidade, em sua cátedra da tradicional Faculdade da Bahia.

Ouçamos o depoimento autorizado do eminente mestre paulista Acantara Machado:

'Em ves de se limitar, à maneira de todos quanto o precederam, ao manuseio e à divulgação dos livros europeus, Nina Rodrigues fita os olhos lúcidos e penetrantes na gente e nas coisas circunstantes. Observa, compara, investiga, experimenta, e conclui: há problemas que são peculiares e condicionados a certos fatores humanos que entre nós, atuam e não aconselham soluções importadas, o que nos obriga a verificar e modificar as teorias ou ideias alienígenas. A glória de Nina Rodrigues é ter dado um sentido marcadamente brasileiro à Medicina Legal, professada como ciência ou exercida como arte. Bandeirante, chamou-lhe com razão Afrânio Peixoto, porque traçou os rumos, abriu as picadas, descobriu as terras virgens, fecundo-as sem descanso e incorporou-as, afinal, desbravadas, amanhadas, semeadas ao patrimonio da comunhão’. Morreu cedo, em 1906, o grande chefe da escola baiana, deixando, porém, dois grandes discípulos: Afrânio Peixoto e Oscar Freire.

Os intercâmbios culturais nos quais Nina e seus seguidores estavam inseridos é evidente pela influência que o pensamento de autores das escolas positivistas francesa e italiana teve na incorporação de discursos criminológicos no Brasil do fim do século XIX e

122 Nesse sentido, “a ênfase da época e de seu campo de saber nas pesquisas experimentais foi o que levou a descer da cátedra e verificar empiricamente as idéias mais ou menos declaradas de sua classe sobre os ‘outros’”

(CORREA, 1998, p. 95)

início do século XX. Principalmente desde o campo médico, esses autores promoveram

“adaptações”, “acréscimos”, “combinações” que expressam a forma como “traíram” as ideias originais para construir um saber novo no contexto para o qual traduziam o pensamento central. A própria aplicação do estudo da patologia social focada na ideia de “raça”, para a qual Nina Rodrigues foi precursor, é uma imensa tradução. Segundo Cunha (2002), o maranhense possuía uma “vocação eclética” quando conjugava o atavismo lombrosiano123, com as ideias francesas de degeneração, e acrescentava ao determinismo racial a influência do meio124.

Nina foi evidentemente influenciado pelas matrizes que fervilhavam no contexto europeu, mas as incorporou à sua produção de forma crítica e não “copiando” ou simplesmente “mimetizando” aquelas ideias para aplicá-las a uma realidade muito diferente da europeia. Se seu pensamento foi refinado quando “tomou conhecimento da obra de Lombroso e de seu grupo e dos trabalhos de Lacassagne”, por outro lado, sua interpretação não foi acrítica. “Sua admiração pelos principais teóricos do grupo da antropologia criminal italiana e pelos da escola médico-legal francesa permaneceu inalterada, ainda que considerasse discutível a aplicação de alguns de seus postulados no cenário brasileiro”

(CORREA, 1998, p. 88). A própria ideia de antropologia de Nina foi ampliada em relação à escola italiana:

A crítica que o determinismo estreito de Lombroso recebia já em sua época, a começar pelos próprios membros de seu grupo, como E. Ferri, levaria Nina Rodrigues a incorporar outras perspectivas teóricas em seus trabalhos, sem abandonar no entanto a suposição básica da hereditariedade como destino que informava a pesquisa de Lombroso (...) Mas a consequência mais relevante para esta pesquisa, desta nova concepção penal e política, foi o deslocamento da questão da responsabilidade. A liberdade de vontade, a intenção de atuar conscientemente de determinada maneira e em determinada direção, deixava de ser relevante no julgamento de um ato ou na análise de um acontecimento, uma vez que o comportamento de cada um estava predeterminado pela sua pertinência a certas

‘classes biológicas’ que, se foram pesquisadas e definidas em prisões e hospícios, acabaram por ser utilizadas para a sociedade como um todo. A questão da responsabilidade deixava de girar em torno do ‘livre arbítrio’ como na chamada escola clássica de direito, e passava-se a investigar quais as medidas de ‘defesa

123 “Como Lombroso, para Nina a compleição biológica e os sinais hereditários presentes nos ‘atavismos’

tornavam possíveis o diagnóstico das enfermidades e o desenvolvimento de patologias. Assim, negros e mestiços figuraram como exemplos desses estudos devido ao caráter ‘primitivo’ e a inadaptação social dos primeiros, e pela má-formação e danos psicológicos que resultaram dos cruzamentos que produziram os segundos. (...) Ao mesmo tempo, também eram estes os sinais da degenerescência a qual estavam irremediavelmente ligados os mestiços, enquanto ‘grupo racial não puro’” (CUNHA, 2002, p. 337)

124 “Essa tradução das determinações hereditárias que pesavam sobre indivíduos acometidos por moléstias, na abordagem que lhe foi conferida no Brasil, foi acrescida de mais um elemento: o ‘meio’. Ou seja, o ‘meio’, visto enquanto um conjunto de condições que capacitariam o desenvolvimento tanto de potencialidades quanto de fraquezas hereditárias. E, se todos os indivíduos têm sua ‘história biológica’ vinculada a um terminado lugar da tipologia ‘racial’, a matemática e a estatística se encarregariam de demonstrar a ‘incidência’ e a frequência das moléstias em determinada ‘raça’.” (CUNHA, 2002, p. 334-335)

social’ mais adequadas para lidar com aquelas ameaças. A necessidade de calcular precisamente qual o grau de periculosidade (...) deu também uma nova relevância à figura do perito, o especialista neste cálculo. (CORREA, 1998, p. 90-91)

Além de um observador da realidade brasileira, um dos eixos que delimitou a temática de sua obra foi o esforço em “definir as condições para a reorganização do controle social”

(DUARTE, 2011, p. 225) e, embora, desde a publicação, em 1894, de As raças humanas, tenha condenado as contradições da programação criminalizante brasileira de 1890 – por ele considerada incompatível com os postulados da nova escola positiva – observou que nosso sistema penal corrigia as distorções da criminalização primária, mediante a criminalização secundária, quando selecionava preferencialmente a população não-branca125. Mesmo diante da “constatação científica das diferenças raciais na determinação da responsabilidade penal”

(CORREA, 1998, p. 68), reconhecia o papel que a seletividade concreta tinha na atribuição de responsabilidades.

Sua perspectiva sobre a responsabilidade penal chama a atenção pela projeção sobre determinados grupos e não meramente sobre indivíduos. A noção de distinção nos critérios de atribuição de responsabilidade professada por Nina estava colada à sua discriminação dos

“elementos anthropologicos distinctos em que naturalmente se resolve a população brazileira”

(RODRIGUES, 1938, p. 111). Essa diferenciação, marcada pelo elemento geográfico e climatológico (RODRIGUES, 1938, p. 89-92) conduziria, no pensamento de Rodrigues, a níveis de responsabilização criminal diferenciados. Embora o “exame das individualidades”

integre a perspectiva de análise da inferioridade e da “raça” como fator criminógeno, é na desigualdade entre grupos e na necessidade de direcionamento do controle social a esses contingentes que sua obra estava focada126. De acordo com Cunha (2002, p. 337), Nina Rodrigues:

125 Nesse sentido, Duarte (2011, p. 225, 231-232) que a aparente contradição de Nina ao modelo “liberal” do Código de 1890 seria falsa. Segundo esse autor, Nina advogava a aplicação diferenciada das regras de direito penal e propunha a alteração do sistema mediante uma nova racionalidade orientada para o controle social dos negros. Sua prática ideológica apontaria para o comportamento dessa parcela da população como perigoso para garantir uma eficaz seleção preferencial desses grupos de pessoas. Portanto, “cedia, diante de uma situação concreta, à ‘necessidade’ de manutenção total do sistema do livre arbítrio, não aceitando uma reforma parcial, pois era preciso garantir a atuação concreta do sistema penal que vinha correspondendo na prática à defesa social eficaz ‘das raças superiores’”.

126 Assim entende Duarte (2011, p. 279): “a obra de Nina convergia para perceber no Brasil um contínuo conflito entre grupos distintos (...) vislumbrando através de uma visão geopolítica da distribuição das raças e da

possibilidade de controle das raças inferiores e, doutra parte, para perceber o ‘exame das individualidades’ como ponto de aplicação do saber médico legal na descoberta da inferioridade racial entendida como fator

criminógeno. Propunha, neste caso, uma utopia de controle social, na qual os fazedores de ciência pertencentes ao grupo racial branco, com seus olhares de especialistas, partiriam para o exame das individualidades na determinação da pertinência do indivíduo para os grupos raciais tidos como inferiores. A hipótese criminológica principal era a da pertinência ao grupo racial, que deveria ser considerada a partir do grau, presente em cada indivíduo, de elementos que o aproximassem ao grupo inferior criminoso. Tal exame supunha o exercício e aplicação diferenciada das regras de Direito, conforme o grupo racial e a proximidade do indivíduo a um desses

propõe a diferenciação das penas impostas aos criminosos a partir de critérios

‘climatológicos’ e ‘raciais’. Esboçam-se em seu discurso as primeiras aplicações das idéias de individualização da análise do delito direcionadas não a casos particulares envoltos nos debates dos tribunais, mas sim dirigidas à segmentação e diferenciação da população brasileira, quanto ao seu grau de responsividade.

Além das classificações que remetem a Ferri, Garofalo também era uma inspiração para Nina (RODRIGUES, 1938, p. 44), que concebia “a diferença que separava as raças inferiores e superiores era determinada pela intensidade com que os sentimentos de piedade e probidade estavam presentes” (DUARTE, 2011, p. 227). Assim é que “as differenças, que a sciencia positiva constata, no tempo e no espaço, no modo de considerar os actos criminosos, elle as explica pelo sentido em que se dá o aperfeiçoamento social desses sentimentos básicos” (RODRIGUES, 1938, p. 43). Na base de seu enquadramento da população brasileira, a distinção racial marcava também a diferença na responsabilidade penal. Para além das três

“raças puras”: a “branca”; a “negra”; e a “vermelha”; Nina distinguia os “mestiços” em quatro grupos que compreenderiam os “mulatos”; os “mamelucos”; os “cafuzos” e os “pardos”

(RODRIGUES, 1938, p. 89-90). Para cada uma dessas raças, a “inferioridade” ou

“superioridade” pela presença daqueles sentimentos aos quais Garofalo se referia orientariam distintas formas de responsabilização, compatíveis com os respectivos graus de civilidade de brancos, negros e mestiços (RODRIGUES, 1938, p. 126).

No entanto, se o “apóstolo” maranhense é, por suas ideias, um resumo, o primeiro criminólogo brasileiro a construir “a interseção entre teorias criminológicas e teorias raciais”

(DUARTE, 2011, p. 236), talvez seja a partir do grupo de intelectuais que assumiu uma determinada filiação à sua figura que tenha verdadeiro significado a produção e atuação de Nina, suas traduções e os campos de conhecimento a partir dos quais outras ideias fluíram, vindo a se projetar diretamente no controle social brasileiro, por meio das agências policiais.

Conforme Schwarcz (2014, p. 277), Nina Rodrigues estava à frente do movimento da medicina legal. Foi por meio de uma mitologia construída a seu respeito e de sua efetiva contribuição a um saber para o qual reivindicava autonomia e valorização – especialmente por suas explicações sobre a questão criminal – que se viabilizou “a criação de uma identidade de grupo, bem como a mudança na imagem social dos médicos, cuja prática tinha sido tão menosprezada”.

grupos”. Ainda, é possível afirmar que, desde o início, seus trabalhos “mostram uma ênfase no estudo do comportamento de grupos sociais tentando a extrapolação de análises de casos individuais. Não só as doenças dos indivíduos o interessavam, mas também todas as manifestações de ‘patologia social’ (...) Desde aí ele já explicitava também a sua visão da raça negra como elemento patológico na composição de nossa população”

(CORREA, 1998, p. 114).

Além de reivindicar a autonomia e protagonismo da Medicina Legal para

“diagnosticar” as desigualdades, Nina lutou para harmonizar a convivência entre o “poder médico” e o “poder policial”, mediante a colaboração entre ensino médico e polícia. O serviço de perícia foi o fio condutor dessa relação, pois desejou e se esforçou para incorporar o serviço médico-legal da polícia pela faculdade, estabelecendo um acordo com a Secretaria de Polícia com a Faculdade de Medicina da Bahia em 1905, para a realização de exames e coleta de dados127.

Depois do falecimento de Nina Rodrigues, seus antigos alunos continuaram a trabalhar sob a matriz do seu pensamento na Faculdade de Medicina com força pelo menos até a década de 1920, quando as correntes eugenistas passam a hegemonizar o discurso médico local. Os

“discípulos” baianos que migraram para o Rio, como Afrânio Peixoto e Juliano Moreira, e São Paulo, como Oscar Freire, desenvolveram novos projetos, valendo-se da figura do

“mestre”. Embora seus trabalhos se distinguissem, em muitos pontos, das ideias do maranhense, “o que eles fazem é retomar certos temas tratados por Nina Rodrigues – e por vários intelectuais de sua época – e redefini-los em seus próprios termos, ou nos de sua própria época, arranjando-os dentro de outro sistema de relações” (CORREA, 1998, p. 205).

Assim é que entender a “Escola Nina Rodrigues” é também estudar a atuação do grupo de intelectuais que, “além de manter relações estreitas com a vida política nacional, sendo eles próprios algumas vezes também homens de partido, fizeram carreira predominantemente nos quadros administrativos de instituições públicas ligadas à Educação e à Saúde.” (CORREA, 1998, p. 206). Ou seja, é preciso observar a projeção das ideias da geração de 1870 nos membros da geração de 1920-1945.

A penetração desses “discípulos” nas agências policiais, mediante a fundação de Institutos médico-legais e Gabinetes de Identificação, com destaque para o período pós-1930, é um caminho possível para se compreender a presença do discurso racial nas ideias que posteriormente se construíram no campo da identificação e nos estudos da biotipologia e do constitucionalismo.

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127 Segundo Correa (1998, p. 138) se destaca nesse processo de colaboração “o seu empenho sistemático nessa luta, transformando a perícia num tema de tal importância que não só os legisladores foram obrigados a prestar atenção a ela, nas propostas de modificações da lei penal ou na resolução de casos judiciais, como ela acabou tornando-se uma arma ideológica da maior utilidade para as faculdades”.

3 UMA CONFLUÊNCIA DE DISCURSOS: CAMPO POLICIAL, PENSAMENTO CRIMINOLÓGICO E REESTRUTURAÇÃO DA POLÍCIA CIVIL DO DISTRITO FEDERAL

Qual deve ser o papel da polícia numa cidade civilizada? Em todos os congressos penitenciários, até agora tão úteis como o nosso último latino-americano, ficou claramente determinado. A polícia é uma instituição preventiva, agindo com o seu poder de intimidação, e o Dr. Guillaume e o Dr.

Baker chegaram, em Estocolmo, às conclusões de que uma boa polícia tem mais força que o Código Penal e mais influência que a prisão.

A nossa polícia é o contrário. Para que a detenção dê resultados, faz-se necessário seja conforme ao fim predominante da pena, com o firme desejo de reformar e erguer a moral do culpado. Que fazemos nós? Agarramos uma criança de catorze anos porque deu um cascudo no vizinho, e calma, indiferente, cinicamente, começamos a levantar a moral desse petiz dando-lhe como companheiros, durante os dias de uma detenção pouco séria, o Velinho, punguista conhecido, o Bexiga Fraga, batedor de carteira e um punhado de desordeiros da Saúde!

João do Rio

A criminologia positivista já foi definida como uma grande confluência entre os discursos jurídicos e médicos no século XIX. A polícia, por sua vez, é um objeto de estudo indissociável do pensamento criminológico de matriz positivista, justamente porque a