2.2 Educação em Saúde
2.2.4 Conceito de empoderamento, autonomia e emancipação
2.2.4.2 Autonomia
O conceito de “autonomia”, assim como o de “empoderamento”, também tem sido utilizado por diferentes estilos de pensamento. O ideário neoliberal incorporou o conceito com o sentido de estimular o individualismo e a competitividade. No entanto, Freire (1997) compreende autonomia com significado oposto a esse, reforçando a solidariedade como forma de luta capaz de restaurar a ética do ser humano.
Para Freire (1997), a autonomia é construída pelo próprio sujeito e conduz a liberdade a medida que preenche os espaços antes dominados pela dependência.
Essa autonomia não necessariamente se constrói sozinho. Freire (2004) estimula que o educador seja capaz de persuadir ou convencer o educando a construir sua liberdade e assumir a responsabilidade que surge com ela:
No fundo, o essencial nas relações entre o educador e educando, entre autoridade e liberdades, entre pais, mães, filhos e filhas é a reinvenção do ser humano no aprendizado de sua autonomia. (...) Posso saber pedagogia, biologia como astronomia, posso cuidar da terra com o posso navegar. Sou gente. Sei que ignoro e sei que sei. Por isso, tanto posso saber o que ainda não sei como posso saber melhor o que já sei. E saberei tão melhor e mais autenticamente quanto mais eficazmente construa minha autonomia em respeito à todos outros. (FREIRE, 1997, p. 58)
Segundo Freire (2004), é fundamental que a pessoa assuma a responsabilidade das suas decisões amparada na sua autonomia. Para ele, ninguém
nasce autônomo e, assim, é capaz de decidir, pelo contrário, a autonomia é construída através da experiência adquirida nas tomadas de decisão (Freire, 1997).
Não existe uma data marcada para a “chegada” da autonomia, a autonomia é um processo, é um vir a ser, e vai amadurecendo com o tempo.
Muitas vezes, em nossa prática profissional, não gostamos das decisões que alguns pacientes tomam por pensarmos que sabemos melhor do que eles qual decisão deveriam tomar. Algumas vezes, por estarem expropriados de sua autonomia, os usuários do sistema de saúde preferem não tomar decisão, mas deixam isso a encargo do profissional. Campos (2006) afirma que desenvolver a autonomia deveria ser uma das atribuições do sistema de saúde, no entanto, o sistema de saúde tem, muitas vezes, contribuído para o oposto, gerando mais e mais dependência. Isso não significa que o profissional da saúde não deva orientar os usuários, afinal ele tem um conhecimento sobre o seu trabalho que deve ser compartilhado para auxiliar as pessoas que procuram atendimento a tomarem decisões. Mas, o profissional precisa compreender que a decisão final será sempre do paciente e que essa decisão pode ser contrária a orientação do profissional. Essa decisão acaba se mostrando, por vezes, mais acertada, nos levando a lembrar da necessidade de nos colocarmos sempre na posição de aprendizes.
Campos (2006) defende que autonomia não é um estado de absoluta liberdade ou inexistência completa de dependências, assim como saúde não é o contrário de doenças, mas como a capacidade que um indivíduo desenvolve para lidar com sua rede de dependências. O sujeito é corresponsável pela sua constituição e pela constituição do mundo que o cerca. No entanto, a autonomia, segundo Campos (2006) depende de fatores externos ao sujeito como a existência de leis democráticas, da cultura na qual está inserido, de políticas públicas que o fortaleçam, do acesso à informação e, principalmente, da capacidade de utilizar esse conhecimento em prol do coletivo.
Campos (2006) reconhece que a clínica tradicional, biomédica, não tem contribuído para a autonomia de pessoas e de comunidades. O paciente é assumido como alguém que não tem conhecimento e, portanto, deve seguir as prescrições à risca, sendo que essas prescrições não são negociadas com o paciente. Para Campos (2006), é necessário construir uma clínica que não retire do sujeito a
responsabilidade de escolhas, mas que também não o culpabilize. Uma clínica assim permitirá que o indivíduo faça escolhas.
Para Illich (1975), o sistema de saúde, da forma como está organizado, intensifica a dependência em detrimento da autonomia da sociedade, retirando progressivamente o domínio do sujeito sobre o meio, a alimentação e a política.
Essa característica é denominada de iatrogenia social. Segundo o autor, um dos mecanismos de expropriação da autonomia está na medicalização do normal. A sociedade médico-científica tem prescrito tratamento para situações que são parte do ciclo normal de vida das pessoas, como a menopausa por exemplo. Além disso, sintomas que não necessitariam de tratamento, porque são auto-limitados, são tratados com medicamentos promovendo a ideia de que é necessário, ao menor sintoma, procurar o sistema de saúde para tratamento medicamentoso.
Outra forma de expropriação da autonomia é o diagnóstico excessivo de patologias mesmo em pessoas normais (Illich, 1975). Cada vez mais síndromes clínicas são agregadas ao rol de patologias existentes e, assim, cada pessoa que procura atendimento pode ser enquadrada em uma categoria da Classificação Internacional de Doenças (CID) e tornar-se mais um dependente de acompanhamento no sistema de saúde. Além disso, a iatrogenia social também pode ser reforçada pela prática preventivista. Illich (1975) cita a moda dos check-ups para o diagnóstico precoce de doenças, como uma das práticas preventivistas que gera muita dependência e afirma que o diagnóstico precoce transforma pessoas que estavam sentindo-se bem em pacientes ansiosos.
Illich (1975) ainda menciona a medicamentalização da morte como forma de iatrogenia social. Os profissionais de saúde, bem como o sistema de saúde, movem todos os recursos possíveis para evitá-la e para prolongar a vida daqueles que estão em fase terminal. Essa postura gera no sujeito a ideia de que o sistema de saúde é responsável por eliminar toda a dor, todo o sofrimento, toda carência e todo mal estar, deixando, com isso, de procurar outros recursos, na coletividade por exemplo, para suportar seus males. O usuário torna-se dependente do sistema de saúde na busca por tratamentos “mágicos” que demandam pouco esforço e que não estimulam a avaliação crítica da realidade:
O sofrimento cessa então de ser aceito como contrapartida de cada êxito do homem na sua adaptação ao meio e cada dor se torna sinal de alarme que apela para intervenção exterior a fim de interrompê-la. (...) A civilização médica engaja-se na redução do sofrimento aumentando a dependência. A cultura torna a dor suportável integrando-a num sistema carregado de sentido. A ideologia da medicina industrial separa a dor de qualquer contexto subjetivo para melhor destruí-la. As culturas tradicionais, em sua maioria, tornam o homem responsável de seu comportamento sob o impacto da dor. O que o homem industrializado percebe é que a sociedade industrial é responsável diante do indivíduo em dor, de que ela deve livrá-lo.
(ILLICH, 1975, p.104)