n´umero inexpressivo contradiz os dados do GSI e essa disparidade pode ser explicada devido `a natureza do banco de dados do CTDC, que combina dados do IOM com dados do Pollaris e Liberty Asia (esse que n˜ao capturam fluxo intrarregional de pessoas na Am´erica do Sul). De acordo com a GLOTIP (2014, 2016, 2018), 92 % dos escravos contemporˆaneos da Am´erica do Sul foram v´ıtimas dom´esticas.
Como discutido nos Cap´ıtulos 1 e 2, existem muitos fatores que tornam as pes- soas vulner´aveis `a escravid˜ao. Alguns dos fatores impulsionadores s˜ao popula¸c˜ao jovem, pobreza, instabilidade social e pol´ıtica, produ¸c˜ao agr´ıcola, corrup¸c˜ao governamental, den- sidade populacional etc. (SEO-YOUNG, 2015; BALES, 2007). Na Argentina, o setor tˆextil emprega trabalho escravo da Bol´ıvia e do Peru. A uni˜ao tˆextil local tem sido de grande valia no combate `a escravid˜ao contemporˆanea, pois investiga e relata casos de es- cravid˜ao (BARATTINI, 2010). A crise econˆomica venezuelana aumentou a migra¸c˜ao para pa´ıses vizinhos, como Brasil e Colˆombia. O custo financeiro da migra¸c˜ao formal ´e uma barreira para se candidatar a empregos formais, de modo que os venezuelanos tendem a ser explorados, conforme indica o relat´orio legal para a Colˆombia de Guerra et al. (2018).
Em 2017, segundo a UNODC39, foram computadas 1117 v´ıtimas de explora¸c˜ao sexual na Colˆombia, 242 no Chile e 4 na Guiana. O Equador registrou 291 v´ıtimas em 2015, mais 103 v´ıtimas no ano seguinte e um total de 414 em 2017. Al´em disso, h´a meninas v´ıtimas de servid˜ao dom´estica na Argentina e Venezuela (GLOTIP, 2016), que migraram para ter uma educa¸c˜ao melhor e foram exploradas. A GSI (2018) contabilizou uma ONG no Peru que estimou aproximadamente duas mil v´ıtimas de explora¸c˜ao sexual em uma ´unica mina de ouro, das quais 60% eram crian¸cas. As atividades de minera¸c˜ao est˜ao frequentemente relacionadas aos servi¸cos sexuais.
Na pr´oxima se¸c˜ao, o Brasil, como pa´ıs proeminente na Am´erica do Sul, ser´a anali- sado de acordo com a base de dados de escravid˜ao contemporˆanea do (SMARTLAB, 2018).
A an´alise permitir´a identificar as particularidades do perfil da escravid˜ao contemporˆanea no Brasil (em compara¸c˜ao `a Am´erica Latina).
tema no Brasil. A base de dados possui informa¸c˜ao das v´ıtimas resgatadas entre os anos de 2003 (ano de lan¸camento do I Plano Nacional de Erradica¸c˜ao do Trabalho Escravo) e 2017. Os dados contˆem informa¸c˜oes de indiv´ıduos benefici´arios e n˜ao benefici´arios do Seguro-Desemprego, modalidade trabalhador resgatado (Lei n. 10.608, de 20 de dezembro de 2002, que alterou a Lei n. 7.998, de 11 de janeiro de 1990).
A sistematiza¸c˜ao da base de dados sobre escravid˜ao contemporˆanea pelo MPT representa um avan¸co para estudos emp´ıricos sobre o tema, todavia, ´e importante ressaltar que a quantidade efetiva de trabalhadores em condi¸c˜oes an´alogas `a escravid˜ao no Brasil ´e incerta, ou seja, h´a uma popula¸c˜ao oculta relacionada a este fenˆomeno40. A existˆencia de uma popula¸c˜ao oculta, segundo Bales, Hesketh e Silverman (2015), est´a relacionada ao fato da escravid˜ao contemporˆanea ser um crime e n˜ao se apresentar de maneira evidente na sociedade. Ou seja, tais atividades podem existir sem necessariamente estar relacionadas a atividades tipificadas como infra¸c˜oes legais. Em geral, o n´umero de v´ıtimas ´e maior do que o n´umero de indiv´ıduos resgatados, o que pode subestimar a base de dados.
A natureza criminosa da escravid˜ao contemporˆanea impossibilita a quantifica¸c˜ao do n´umero de v´ıtimas no Brasil e portanto sua prevalˆencia. Isso posto, existe um n´umero de v´ıtimas conhecido e existe uma figura sombria de propor¸c˜ao desconhecida.
O Brasil tem apenas dois cadastros de escravos, o primeiro e mais antigo ´e o mantido pela CPT com 54.057 v´ıtimas (1995-2018), e o segundo ´e o do Observat´orio 36.446 v´ıtimas (SmartLab, 2003-2018), e as listas de sobrep˜oem. A escassez de dados para a escravid˜ao contemporˆanea e tr´afico de pessoas no Brasil inviabiliza que a estima¸c˜ao da popula¸c˜ao de escravos atrav´es do m´etodo Multiple System Estimation (MSE ) (BALES;
HESKETH; SILVERMAN, 2015; BALES; MURPHY; SILVERMAN, 2019).
A escravid˜ao contemporˆanea pode ocorrer em grandes centros urbanos metropoli- tanos, como, por exemplo, os casos da ind´ustria tˆextil na Regi˜ao Metropolitana de S˜ao Paulo (RMSP)41 e da ind´ustria pesqueira na Regi˜ao Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ)42, e/ou em locais de dif´ıcil acesso, pertencentes a hierarquias urbanas menos expressivas, por exemplo atividades an´alogas `a escravid˜ao nos setores agropecu´ario e ex-
40Bales, Hesketh e Silverman (2015), Bales, Murphy e Silverman (2019) e WFF (2016) utilizam o m´etodo Multiple System Estimation (MSE) para estimar a popula¸c˜ao oculta de v´ıtimas potenciais de escra- vid˜ao contemporˆanea. A aplica¸c˜ao desse m´etodo est´a condicionada `a disponibilidade de informa¸c˜oes espec´ıficas sobre trabalho for¸cado e degradante.
41hhttp://www.prt2.mpt.mp.br/507-condenada-por-trabalho-escravo-m-officer-pode-ser-proibida-de-ve nder-em-sp-por-10-anosi. Acesso em 20 de novembro de 2018.
42hhttps://oglobo.globo.com/rio/bairros/donos-de-embarcacoes-de-pesca-sao-autumnados-por-travel-e scravo-em-niteroi-1-16365975i. Acesso em 20 de novembro de 2018.
trativo mineral em munic´ıpios de Goi´as43 e do Par´a44, respectivamente.
A partir dos dados fornecidos pelo Observat´orio Digital do Trabalho Escravo no Brasil (MPT, 2017) ´e poss´ıvel realizar uma caracteriza¸c˜ao da escravid˜ao contemporˆanea no Brasil. As informa¸c˜oes dispon´ıveis est˜ao relacionadas aos munic´ıpios de naturalidade e de residˆencia dos trabalhadores resgatados, idade, sexo, cor, escolaridade, ocupa¸c˜ao e setor de atividade.
As figuras 7 e 8 apresentam, respectivamente, a quantidade de escravos contem- porˆaneos resgatados e a quantidade de opera¸c˜oes de fiscaliza¸c˜ao realizadas pelo Minist´erio P´ublico do Trabalho no per´ıodo 2003-2017. Observa-se que durante o subper´ıodo 2003- 2009, h´a um aumento expressivo do n´umero de v´ıtimas resgatas, o que pode estar re- lacionado `a expans˜ao da quantidade de opera¸c˜oes de fiscaliza¸c˜ao realizadas pelo MPT (estimulada pelo lan¸camento do I Plano Nacional de Erradica¸c˜ao do Trabalho Escravo em 2003) e ao expressivo dinamismo dos mercados de trabalho brasileiros, principalmente formais, na primeira d´ecada dos anos 200045.
Figura 7 - Quantidade de v´ıtimas resgatadas (SmartLab, 2003-2017)
Fonte: A autora, 2020.
Em contrapartida, durante o subper´ıodo 2010-2017, observa-se dr´astica redu¸c˜ao do montante de trabalhadores resgatados e da quantidade de opera¸c˜oes de fiscaliza¸c˜ao para erradica¸c˜ao do trabalho escravo do MPT. Essa tendˆencia pode estar relacionada
43hhttp://portal.mpt.mp.br/wps/portal/portal mpt/mpt/sala-imprensa/mpt+noticias/f8918f9d-4ffd-4 5f4-83ab-91eb26a64f17iAcesso em 20 de Novembro 2018.
44hhttp://portal.mpt.mp.br/wps/portal/portal mpt/mpt/sala-imprensa/mpt+noticias/f8918f9d-4ffd-4 5f4-83ab-91eb26a64f17iAcesso em 20 de novembro de 2018.
45Segundo Giambiagi e Pinheiro (2012, p. 59-60), o estoque de desempregados no Brasil no per´ıodo 2003-2011 teve uma redu¸c˜ao de 45% e a taxa de desemprego diminuiu de 12% para 6%. ´E prov´avel que o expressivo dinamismo econˆomico observado no pa´ıs durante o per´ıodo tenha desestimulado a precariza¸c˜ao das rela¸c˜oes de trabalho (GIAMBIAGI; PINHEIRO, 2012).
Figura 8 - Quantidade de opera¸c˜oes de fiscaliza¸c˜ao (SmartLab, 2003-2017)
Fonte: A autora, 2020.
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as dificuldades financeiras impostas ao MPT devido `a crise fiscal e econˆomica brasileira, iniciada em 2013 e intensificada nos anos mais recentes (redu¸c˜ao da receita or¸cament´aria destinada ao minist´erio)46. Ressalta-se ainda que o aumento das opera¸c˜oes de fiscaliza¸c˜ao na primeira fase do per´ıodo analisado pode ter contribu´ıdo para a redu¸c˜ao da popula¸c˜ao oculta de v´ıtimas de escravid˜ao contemporˆanea e, consequentemente, para a diminui¸c˜ao do n´umero de resgates nos anos posteriores.
A Figura 9 mostra a rela¸c˜ao negativa entre escolaridade e explora¸c˜ao do trabalho:
quanto maior a escolaridade dos indiv´ıduos, menor a submiss˜ao `a condi¸c˜ao de escravid˜ao contemporˆanea. A taxa de analfabetos para a popula¸c˜ao brasileira acima de 15 anos ´e de 9,6 % e para as ´areas rurais ´e de 23,2 % (IBGE, 2010). O analfabetismo de escravos ´e quase 10 % superior ao analfabetismo na popula¸c˜ao rural. Isso pode indicar a educa¸c˜ao como um fator chave de vulnerabilidade. Essa rela¸c˜ao ´e demonstrada por Bales e Lize (2005). Os autores identificaram uma correla¸c˜ao negativa entre a vulnerabilidade ao trabalho for¸cado (e tr´afico de pessoas) e a escolaridade nos Estados Unidos: quanto menos os indiv´ıduos s˜ao instru´ıdos, mais f´acil ´e manipul´a-los (cren¸ca em contratos de trabalho falsos).
A propor¸c˜ao de v´ıtimas de escravid˜ao contemporˆanea resgatas por setor de ativi- dade no per´ıodo de an´alise est´a representada no Figura 10. os setores produtivos que mais empregam trabalhadores em condi¸c˜oes an´alogas `a escravid˜ao s˜ao: agropecu´aria (77,9%), agricultura (8,8%), constru¸c˜ao civil (6,7%) e minera¸c˜ao (2,6%).
As figuras 11 e 12 demonstram a dispers˜ao das v´ıtimas de escravid˜ao contem- porˆanea por munic´ıpio de naturalidade e residˆencia, respectivamente. De forma geral,
46Mais informa¸c˜oes sobre a crise fiscal deflagrada no pa´ıs a partir de 2013 podem ser obtidas em (BACHA, 2016).
Figura 9 - Propor¸c˜ao de v´ıtimas de escravid˜ao contemporˆanea por grupo de escolaridade (SmartLab, 2003-2017)
Fonte: A autora, 2020.
Figura 10 - Propor¸c˜ao de v´ıtimas de escravid˜ao contemporˆanea por grupo de atividade (SmartLab, 2003-2017)
Fonte: A autora, 2020.
Figura 11 - V´ıtimas de trabalho escravo por munic´ıpio de naturalidade (SmartLab, 2003-2017)
Fonte: A autora, 2020.
Figura 12 - V´ıtimas de trabalho escravo por munic´ıpio de residˆencia (SmartLab, 2003-2017)
Fonte: A autora, 2020.
Figura 13 - Distribui¸c˜ao espacial das v´ıtimas de trabalho escravo em ocupa¸c˜oes agropecu´arias (SmartLab, 2003-2017)
Fonte: A autora, 2020.
observa-se que as regi˜oes Nordeste (52,5% e 43,1%) e Norte (16,2% e 23,8%) concen- tram a maior parte das v´ıtimas resgatadas, o que evidencia a correla¸c˜ao expressiva entre vulnerabilidade social e ocorrˆencia de escravid˜ao contemporˆanea. Todavia, ´e importante ressaltar que nas regi˜oes Centro-Oeste e Sudeste, essas propor¸c˜oes n˜ao s˜ao desprez´ıveis (entre 15% e 12%, respectivamente). Essa dinˆamica regional evidencia a complexidade da explora¸c˜ao laboral: o fenˆomeno possui correla¸c˜ao positiva com elevados n´ıveis de pobreza e desigualdade (vulnerabilidade social), mas simultaneamente persiste em regi˜oes mais pr´osperas economicamente. Os estados que concentram a maior parcela das v´ıtimas res- gatadas de condi¸c˜oes de trabalho an´alogas `a escravid˜ao s˜ao, respectivamente, Maranh˜ao, Par´a, Bahia, Minas Gerais e Tocantins A amostra indica que 42,2% das v´ıtimas s˜ao mi- grantes (ou seja, foram resgatadas em um munic´ıpio diferente do local de nascimento).
Conforme descrito anteriormente (Figura 10), 77,9% das v´ıtimas resgatadas de condi¸c˜oes de trabalho an´alogas `a escravid˜ao exerciam atividades no setor agropecu´ario.
Logo, ´e interessante observar a dispers˜ao espacial desse indicador (Figura 13). Percebe-se a ocorrˆencia deste fenˆomeno em todo territ´orio nacional, todavia, com maior intensidade nos munic´ıpios e estados especializados nesse setor (localizados majoritariamente nas regi˜oes Norte e Centro-Oeste).
Para ilustrar a correla¸c˜ao existente entre a ocorrˆencia de escravid˜ao contemporˆanea
Figura 14 - ´Indice de Desenvolvimento Humano por munic´ıpio – IDHM (IBGE (2013))
Fonte: A autora,2020.
e vulnerabilidade social, representada por elevados ´ındices de pobreza e desigualdade, ´e interessante analisar a dinˆamica espacial do ´Indice de Desenvolvimento Humano Munici- pal (IDHM) no Brasil. De forma geral, observa-se, a partir das figuras 12 e 14, que os munic´ıpios com maior volume de v´ıtimas de trabalho escravo resgatas (por residˆencia) possuem valores menos expressivos de IDHM (em 2010). A escravid˜ao contemporˆanea concentra-se em munic´ıpios menos desenvolvidos, mas n˜ao se deve negligenciar que si- multaneamente h´a ocorrˆencia do fenˆomeno em menor grau em grandes centros urbanos metropolitanos. ´E preciso analisar a complexidade desse fenˆomeno, visto que o mesmo n˜ao ocorre apenas em ´areas rurais, pobres e de baixa escolaridade; a escravid˜ao contemporˆanea coexiste em uma gama diversificada de atividades e ambientes. Nessa perspectiva, ´e fun- damental identificar seus principais determinantes, provavelmente relacionados a vari´aveis econˆomicas, sociais e institucionais.
Tabela 3 - Caracter´ısticas dos escravos identificados por sexo - CPT(2003-2018) e SmartLab (2003-2018).
Fonte: A autora, 2020.
3.3 Considera¸c˜oes sobre a escravid˜ao contemporˆanea feminina: explora¸c˜ao