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Breve Discussão dos Resultados

No documento Tese de Doutorado (páginas 173-200)

alegou ter perdido a esperança na justiça, queixando-se por não ter sido ouvido pelo delegado, pelo juiz, entre outros operadores do direito.

“Se o juiz tem uma suspeita, ele arrebenta para depois ver.” “Criaram um caminho das pedras para resolver a situação.” (Mateus).

A experiência de Mateus com as medidas protetivas o levaram a conclusão de que há uma desigualdade no tratamento dado a homens e mulheres na justiça.

Além de mencionar os desdobramentos vivenciados na relação com o filho, finalizou com a reflexão de que, ao contrário do que acontece com os direitos da mulher, os seus ficaram desprotegidos, sobretudo, o direito de exercer a paternidade.

“O lado de lá tem uma arma poderosa.” “Pega o documento certificado e leva na Vara de Família. Está virando moda. O homem não tem defesa.” “A Lei Maria da Penha é uma fábrica de medidas protetivas e tem servido para me afastar do meu filho.” (Mateus).

O entrevistado se mostrou exaurido com a batalha judicial travada com a ex- mulher na justiça cível e fomentada pela Vara Criminal. Em sua percepção, o processo criminal foi uma estratégia respaldada nas medidas protetivas provenientes da Lei Maria da Penha e utilizada pela ex para afastá-lo do filho.

nenhuma instância judicial antes da aplicação das medidas protetivas em favor da mulher, sendo, portanto, obrigados a cumpri-las.

No que tange às questões afetas ao exercício da paternidade, os entrevistados deixaram transparecer emoção ao falar sobre os filhos, e alguns revelaram desesperança em relação à justiça, afirmando que as medidas protetivas repercutiram, negativamente, no relacionamento paterno-filial.

Observou-se, por parte dos entrevistados, certo incômodo devido ao uso generalizado do termo agressor pelos profissionais que atuam nos serviços que compõem o sistema de justiça, tais como delegacias e foros, para se referirem a eles. Comentaram que não era assim que se sentiam, embora fossem vistos dessa forma pelos serviços que operam com a Lei Maria da Penha e por determinados segmentos da sociedade. Medrado, Lemos e Brasilino (2011), ao entrevistarem profissionais que atuam em serviços de acolhimento da denúncia e acompanhamento de casos de violência contra a mulher na região metropolitana de Recife, perceberam na fala dos entrevistados que a maneira de se referirem ao homem é como autor do fato, agressor, opressor, bandido, criminoso, desumano, ao passo que se referem à mulher como vítima, ofendida, submissa, abandonada, espancada, entre outros termos que denotam uma condição de passividade e vitimização.

O próprio texto da Lei 11.340/06, conforme assinalado por Medrado e Méllo (2008), não faz uso da palavra homem, e sim agressor, o que contribui para reforçar a visão dicotômica agressor-ofendida que, comumente, prevalece nas práticas sociais de intervenção no âmbito da violência doméstica contra as mulheres. Para os autores, “o termo „agressor‟ é um marcador identitário que muitas vezes não permite alguma transformação ou empenho na possibilidade de mudanças nas atitudes e reações de alguém”. (MEDRADO; MÉLLO, 2008, p. 84).

Cabe ressaltar as cartilhas sobre a Lei Maria da Penha que, conforme apontado, usaram, predominantemente, a palavra agressor para se referirem aos homens supostos agressores, corroborando para a concepção da violência conjugal a partir do dualismo vítima-agressor. O mesmo tratamento costuma ser observado em campanhas publicitárias de prevenção à violência contra a mulher, quando divulgam a imagem de mulheres espancadas, com marcas da violência em evidência, reduzindo o debate a soluções simplistas, que visam à identificação e à punição do culpado.

Assim sendo, entende-se que as estratégias de prevenção observadas nos programas implementados pelo Estado, conforme roga a Lei 11.3440/06, ao focarem sua ação na proteção das mulheres e punição dos (supostos) culpados, não despertam uma reflexão crítica e ética a respeito dos processos de socialização masculina e os repertórios interpretativos, conforme proposto por Medrado e Méllo (2008). Esses autores asseveram que as ações previstas na Lei Maria da Penha deixam lacunas no que diz respeito à perspectiva de garantir a equidade de gênero.

Inicialmente, porque elas não explicitam quais trabalhos serão desenvolvidos objetivando a promoção da saúde dos homens, como também não são claras para explicar a estrutura e a organização dos serviços de atendimento à população masculina em cumprimento de medidas ou penas. Soma-se a essas considerações a identificação de 23 cartilhas on-line sobre a temática violência doméstica e familiar contra a mulher, todas elas publicadas após o advento da Lei Maria da Penha.

Apenas uma delas é dirigida aos homens. O conteúdo predominante nas 22 cartilhas versa sobre a proteção da vítima e sobre a denúncia do agressor, sem levar em conta a dimensão relacional da violência no âmbito conjugal e a ineficiência da punição para resolver esse tipo de problema.

Em nome da prevenção, as cartilhas também investem em propostas voltadas às crianças para que aprendam, desde cedo, como identificar e denunciar a violência, podendo o acusado ser o pai. Trata-se de uma estratégia política de suposta prevenção à violência doméstica contra a mulher, que envolve questões delicadas de ordem da conjugalidade e parentalidade. Tomando por base o relato dos entrevistados de que a Lei Maria da Penha acarretou desdobramentos sobre a relação paterno-filial, acredita-se que seus efeitos serão acentuados na medida em que os filhos forem inseridos nas políticas de prevenção voltadas para a punição.

Em relação aos programas de reeducação ou recuperação, na visão de Medrado e Méllo (2008), eles têm, como efeito, o fortalecimento dos estigmas e não contribuem no sentido de que os homens também possam rever seu posicionamento frente às mulheres. Tendo em vista não só a fala dos entrevistados encaminhados para os grupos de reflexão, como também a forma como a proposta foi executada, entende-se que essa experiência não teria contribuído para fins de reeducação. A obrigatoriedade de participação nesses grupos fez aparecer neles o sentimento de descaso pela Lei Maria da Penha e a descrença na atuação da justiça, por considerá-la sexista e preconceituosa. Essas observações fazem lembrar os

programas de prevenção dirigidos aos agressores em potencial, conforme explicitado no capítulo anterior. O Estado, por meio de suas instituições de segurança e justiça, partindo do pressuposto que homens de camadas menos favorecidas economicamente, com baixa escolaridade e trabalhadores da construção civil são naturalmente propensos a cometerem violência contra as mulheres, oferece aos mesmos cursos de reeducação como medida de prevenção à violência, intensificando o estigma existente em torno daqueles que são apontados como os responsáveis.

Na pesquisa realizada por Medrado, Lemos e Brasilino (2011), os autores analisaram os argumentos construídos pelos entrevistados a respeito das possibilidades de intervenção dirigida aos homens denunciados. De modo geral, considerando a variedade de olhares e os posicionamentos a respeito da importância ou necessidade de atendimento aos homens denunciados, foram identificados três tipos de proposição: medidas punitivas, mencionando-se a prisão ou as penas complementares; medidas preventivas, partindo-se do entendimento de que a reeducação é um direito; e, por fim, medidas assistenciais, baseadas nos modelos empregados com usuários de álcool e drogas. Levando-se em conta as proposições construídas pelos entrevistados, os autores concluíram que é necessário “ampliar estudos referentes a homens envolvidos em episódios de violência contra a mulher e de investir em processos de sensibilização de gênero e ressignificação simbólica dos próprios profissionais” (MEDRADO, LEMOS E BRASILINO, 2011, p. 471).

A conclusão dos autores mencionados remete à fala dos entrevistados nesta pesquisa, ao manifestarem descontentamento com os serviços onde foram atendidos para responderem à denúncia de violência contra a mulher. Eles reclamaram que foram tratados com preconceito e descaso, já tachados como criminosos e sem direito à voz. Argumentaram que o fato de responder ao processo criminal já os coloca na condição de culpados, sendo, portanto, tratados como réus

CONCLUSÃO

Cada fim venta um começo Ruben Alves

A presente seção, além de finalizar esta tese, representa, também, o inacabado das tessituras que compõem a produção escrita e que possibilitam o surgimento de novos começos. Ao dar início ao doutorado e decidir-se pelo tema de pesquisa, tinha-se em vista uma questão, um problema. O restante, qualquer que fosse ele, estava na dimensão de um devir. Assim, a passos lentos, foram sendo construídos os objetivos deste estudo e os caminhos que levariam ao seu propósito principal. Em seguida, passou-se à etapa de escolha da maneira como essa rota seria percorrida, mesmo não se podendo antever como seria sua chegada. No ponto final do trajeto, teve-se a certeza de que, aquele que chegou não era o mesmo que partiu – um sujeito inacabado, porém transformado pela experiência de alteridade proporcionada pela pesquisa.

Desde o início, sabia-se que o estudo a respeito da convivência paterno-filial em contextos familiares, perpassados pela Lei Maria da Penha, envolvia dois eixos analíticos de grupos vistos atualmente por muitos como mais vulneráveis: a mulher e a criança. Cada qual composto de suas peculiaridades, eles possuem, em comum, alguns aspectos coincidentes. Mulher e criança são alvos das políticas de Direitos Humanos, uma e outra pertencem a grupos sociais com maior propensão a vulnerabilidades e, além disso, possuem legislações específicas57 para proteção e defesa de seus direitos.

Nesse sentido, verificou-se a importância de se compreender, primeiramente, o cenário político-social brasileiro onde aflorou o debate sobre os Direitos Humanos e o fio condutor das reivindicações de alguns segmentos da sociedade representados pelas bancadas políticas, ONGS e pelos movimentos sociais.

(ALONSO, 2009; PRADO; COSTA, 2011; RIFIOTIS, 2012; RODRIGUES; SIERRA, 2011). De acordo com os autores estudados, foram os Direitos Humanos que, na

segunda metade do século XX, no Brasil, impulsionaram as lutas sociais e democráticas em favor da igualdade de direitos nas esferas pública e privada.

Rodrigues e Sierra (2011) ressaltaram que os movimentos sociais que surgiram nesse período, além de reivindicarem os direitos trabalhistas e o bem-estar social, se interessaram por questões relacionadas à vida privada. Para Alonso (2009), esses novos movimentos sociais se tornaram mais expressivos, simbólicos e identitários, mencionando, entre outros grupos, o feminismo que, segundo Moraes e Sorj (2009), ressurgiu na década de 1970 muito mais sensível às questões provenientes das desigualdades sociais. Rodrigues e Serra (2011), conforme visto, problematizam se as questões culturais tratadas na esfera dos Direitos Humanos não estariam se sobrepondo às lutas de classe e mudando o foco das instituições públicas a respeito de suas responsabilidades.

Rifiotis (2012) apontou que, nos últimos anos, o sistema protetivo de direitos no Brasil foi o eixo condutor das reivindicações que se ancoraram nos Direitos Humanos e que não apenas trouxeram avanços, mas também desigualdades e dificuldades decorrentes dos próprios direitos. O autor assinalou um paradoxo no campo desses direitos, chamando a atenção para alguns aspectos, como, por exemplo, o interesse especial pelas vítimas – figuras construídas antecipadamente a partir da concepção de pessoas em condição de vulnerabilidade e de violação de direitos. A esse respeito, Rifiotis (2012) destacou que os Direitos Humanos não devem comprometer a capacidade de solução que as pessoas possuem de resolver certos impasses que surgem em suas vidas.

Dada a semelhança atribuída às categorias “mulher” e “criança” pelos Direitos Humanos, um dos desafios desta tese foi delimitar seu objeto de estudo. Focando no direito à convivência familiar da criança e do adolescente (BRASIL, 1990), elegeu-se a análise da convivência de filhos menores de idade com o pai acusado de praticar a violência contra a mulher e cumprindo medidas protetivas de urgência previstas na Lei 11.340/2006. No entanto, não foi afastada do campo de visão a relevância da Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006) implantada com a finalidade de coibir a violência de gênero e o que ela representa enquanto símbolo das lutas e dos movimentos sociais, sobretudo de certos grupos feministas, empenhados na conquista dos direitos das mulheres e no combate à violência doméstica e familiar

57 Lei 11.340/2006 – Lei Maria da Penha e Lei 8.069/1990 – Estatuto da Criança e do Adolescente.

motivada pela desigualdade de gênero (BRAZÃO; OLIVEIRA, 2010; MORAES;

SORJ, 2009; OLIVEIRA, 2004). Conforme alertou Mouffe (1992), a garantia de direitos de um grupo social que implique a exclusão dos direitos de outros segmentos sociais fere o próprio sentido da democracia, embora Rifiotis (2008) tenha afirmado que, no Brasil, os Direitos Humanos são, comumente, tratados de forma particularizada, como se, para defender os direitos de uns, fosse necessário excluir os de outros.

Assim sendo, os questionamentos realizados nesta pesquisa a respeito da transversalidade da Lei Maria da Penha na esfera cível tiveram o intuito de colaborar com a produção de novos conhecimentos sobre o assunto, explorando, com maior profundidade, os dispositivos utilizados para difundi-la e para coibir a violência contra a mulher. Recordando os ensinamentos de Rifiotis (2012), o reconhecimento dos direitos não garante à existência de políticas públicas que os efetivem, e a expansão da intervenção do Estado, principalmente por meio da judicialização, não é sinônimo de solução das demandas sociais. Dessa forma, o propósito deste trabalho não foi retroceder em relação ao campo de direitos conquistados pelas mulheres e muito menos fazer campanha difamatória contra o dispositivo jurídico- legal criado para proteger as vítimas da violência doméstica e familiar. A violência, na esfera privada ou pública, é um fenômeno que compromete a convivência com o outro e, dessa premissa, parte o reconhecimento da importância de se criar mecanismos para seu enfrentamento, tanto do ponto de vista jurídico, quanto no âmbito social e da saúde. Neste estudo, o destaque foi dado a situações em que o homem, acusado de praticar a violência contra a mulher, se vê cerceado do direito de conviver com os filhos menores de idade, nascidos do relacionamento com a suposta ofendida.

Em se tratando da violência conjugal contra a mulher, em virtude do conjunto de elementos que estão envolvidos, o problema se torna ainda mais delicado, interrogando a própria eficácia dos dispositivos que visam combatê-lo. Em razão de a conjugalidade situar-se muito próxima das questões que envolvem a família e os filhos e, além disso, de a relação da mulher com a prole ser, culturalmente, acentuada pela maternidade, verificou-se a importância de se fazer a distinção entre o conjugal e o parental, visando resguardar a convivência paterno-filial nos contextos em que as medidas protetivas de urgência previstas na Lei Maria da Penha foram aplicadas em favor da mulher.

Conforme exposto por Soares (2009), a violência conjugal no Brasil é conceituada com base no recorte de gênero fundamentado nas abordagens do campo feminista. Nesse sentido, a mulher é, antecipadamente, tratada como vítima da violência unilateral, e o que se busca nas políticas de enfrentamento é a criação de mecanismos a fim de protegê-la e, também, punir os culpados. Laurrari (2007) corrobora com pesquisas realizadas no contexto espanhol e pontua que, em seu país, a violência de gênero emprega, como analisador, a violência conjugal, entendendo ser no campo da conjugalidade que a desigualdade entre homens e mulheres predomina. Segundo Rifiotis (2008), a violência conjugal não apenas tem sido um “operador simbólico” (p.227) de facilitação do acesso à justiça, como também um impasse no campo dos Direitos Humanos, pois, enquanto estes preconizam a adoção de medidas despenalizadoras e humanizadoras no tratamento penal, a luta dos movimentos feministas buscou o endurecimento das leis e dos mecanismos jurídicos, para punir os autores da violência (LAGO; RAMOS;

BRAGAGNOLO, 2010; SOARES, 2009).

Como resultado do conjunto de ações, desencadeadas pelos grupos de defesa dos direitos das mulheres em favor da implantação de uma política pública para enfrentamento da violência contra a mulher, criou-se, no Brasil, em 1985, a primeira Delegacia Especializada de Atendimento às Mulheres, no Estado de São Paulo, seguida da instalação de outras delegacias espalhadas pelo país. (ABDALA;

SILVEIRA; MINAYO, 2001; MORAES; GOMES, 2009). Após 10 anos de inauguração da primeira DEAM, foram instituídos os Juizados Especiais Cíveis e Criminais, regulamentados pela Lei 9.099/1995 (BRASIL, 1995), com o objetivo de julgar delitos de menor potencial ofensivo, como os de ameaça e lesão corporal leve.

Estes crimes eram passíveis de transação penal, possibilitando o emprego das alternativas penais. A flexibilização das penas proporcionada pelos Juizados foram alvo de críticas feitas pelas organizações feministas, que alegaram a banalização da violência contra a mulher (MORAES; GOMES, 2009), dando ensejo à construção uma legislação específica para proteção das mulheres vítimas de violência no âmbito doméstico e familiar. O caso emblemático da cidadã brasileira Maria da Penha Fernandes e a pressão exercida pelos organismos internacionais de defesa dos Direitos Humanos, sobretudo os que militam em favor dos direitos da mulher, influenciaram a criação da Lei 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha.

(OLIVEIRA, 2011; ROMEIRO, 2009).

Antes de adentrar na questão da convivência paterno-filial no contexto da Lei Maria da Penha, fez-se necessário problematizar o cenário das políticas judiciárias brasileiras, que foram implementadas para difundir a Lei Maria da Penha e coibir a violência contra a mulher. Observou-se um interesse acentuado por parte do Conselho Nacional de Justiça na realização de ações, na formulação de programas, nas recomendações e resoluções que contribuíssem para a difusão da Lei Maria da Penha. Por conseguinte, verificaram-se duas frentes da política judiciária implementada pelo CNJ: uma que investia nos métodos alternativos de resolução de conflitos (LEWANDOWSKI, 2014), e outra que apostava no enrijecimento dos mecanismos punitivos para combater a violência contra a mulher. A opção do CNJ, no que tange à Lei Maria da Penha, foi investir na produção de metodologias de enfrentamento à violência contra a mulher pautada numa leitura criminalizante, privilegiando os métodos punitivos para o tratamento da violência. Somente no ano de 2016, uma Portaria do CNJ previu o uso da Justiça Restaurativa para resolver conflitos em que é aplicável a Lei Maria da Penha. Considerando as críticas tecidas por Aleixo (2012) e Augusto (2012) a respeito desse modelo de justiça, que pode tanto obliterar o direito de defesa, quanto confundir-se com “prática de julgamento”

(AUGUSTO, 2012, p. 36), sugere-se cautela diante dessa nova iniciativa do CNJ.

Constatou-se, com base nesta pesquisa, que o conteúdo do material, tanto veiculado na mídia - em campanhas, reportagens, projetos de lei e cartilhas -, como também extraído de documentos oficiais produzidos pelo Conselho Nacional de Justiça e pelas instituições judiciárias, como manuais, portarias, resoluções e recomendações sobre a política de enfrentamento à violência contra a mulher contempla, em sua maioria, os dispositivos que compõem as políticas criminais. A partir dessa constatação, pode-se concluir que a política judiciária, implementada para difundir a Lei Maria da Penha, é, essencialmente, de cunho criminal. Assim, não parece adequado se referir às “políticas judiciárias”, mas sim à política judiciária criminal (ANDRADE, 2012; WACQUANT, 2010), criada para operacionalizar os dispositivos da Lei 11.340/2006.

A leitura desse material possibilitou identificar três eixos operacionais da política criminal para efetivação da Lei Maria da Penha: a produção da denúncia, a proteção da vítima e a punição do culpado (ANDRADE, 2012; BATISTA, 2008;

COIMBRA, SCHEINVAR, 2012; GARLAND, 2008; ZAFFARONI, 2013). De acordo com Coimbra e Scheinvar (2012), a segurança está sempre associada à proteção

nas políticas criminais, fazendo pressupor que o aumento da punição para quem pratica crimes irá resguardar os interesses das vítimas. Andrade (2012) concebe a política criminal como uma metodologia de cura, que visa, por meio do diagnóstico, controlar, regular e punir a população flagrada pelo sistema penal. Nascimento (2008) comenta que o interesse pelas vítimas cresce no contexto das políticas criminais, sendo comum às iniciativas para homenageá-las com o nome das leis. A ausência de políticas sociais, segundo Wacquant (2005), explica o investimento do Estado em segurança criminal, fato que, para Neri (2010), aumenta o controle social.

Decorre daí o envolvimento da comunidade na produção da denúncia e no gerenciamento do risco (MAZZURANA, 2010).

As medidas protetivas de urgência, previstas na Lei Maria da Penha, conforme visto, possuem o condão de proteger a mulher, afastando o agressor de seu convívio. A suspensão ou restrição das visitas paternas também se configura como medida protetiva aplicada, seja com o intuito de conter a suposta violência praticada contra os filhos, seja para evitar que eles fiquem expostos à violência conjugal dos pais. Na hipótese da ausência de estudo prévio da relação do pai com os filhos, realizado por equipe inter/multidisciplinar ou de provas que evidenciem risco na relação dos filhos com o pai, restaram dúvidas sobre os critérios adotados pelo juiz no momento de aplicar a medida. Sabe-se, apenas, que as medidas protetivas de urgência existem e são amplamente empregadas não somente em nome da proteção de mulheres adultas, como também de crianças e adolescentes do sexo feminino.

Conforme exposto nesta tese, as crianças do sexo feminino, supostamente vítimas de violência na esfera doméstica e familiar, são comumente atendidas nas Varas Especializadas de Violência Doméstica e Familiar, enquanto os meninos permanecem sendo atendidos nas Varas da Infância e da Juventude, em conformidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990). Supõe- se que a prerrogativa do artigo 5º, da Lei 11.340/2006: “Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero58 que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”, seja estendida para todas as situações que envolvem a mulher, mesmo não sendo possível identificar o conflito de gênero que

No documento Tese de Doutorado (páginas 173-200)