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Das Histórias Contadas nos Autos

No documento Tese de Doutorado (páginas 143-147)

5 RESULTADOS

Este capítulo foi dividido em dois tópicos. Primeiramente, apresenta-se uma breve explanação das histórias contadas pelos sete homens entrevistados, circunscritas pela Lei Maria da Penha, com foco na convivência paterna dos acusados com os respectivos filhos. Em seguida, realizou-se a análise de conteúdo das entrevistas utilizando-se os analisadores: 1. Entre o conjugal e o parental; 2.

Relação paterno-filial; 3. Repercussão social; 4. Dispositivos penalizadores; 5.

Implicações da judicialização. Os dois primeiros foram extraídos da matriz analítica

“Convivência Familiar” e os demais de “Processos de Criminalização”. Das histórias contadas por Francisco, Paulo, Jorge, Mateus, Tadeu, Rodrigo e Gustavo,52 faz-se importante frisar que não se caracterizou como objeto de análise a violência contra a mulher, logo, não foram exploradas questões relativas à desigualdade de gênero, aos motivos que explicam a violência e aos meios eficazes para combatê-la.

Todavia, isso não significa atribuir pouca importância ao debate sobre gênero e violência doméstica e familiar contra a mulher, nem também desconsiderar a necessidade de se criar meios de combate às desigualdades motivadas pela diferença de gênero.

frequentação de determinados lugares a fim de preservar a integridade física e psicológica da mulher. Na data da entrevista de pesquisa, Francisco relatou que as medidas haviam sido aplicadas há dez meses e que, somente depois de passados sete meses, o juiz criminal determinou a realização de estudo por equipe interprofissional. Assinalou que, transcorridos três meses do despacho, o estudo ainda não havia sido realizado. Na opinião de Francisco, o processo criminal teve desdobramentos na Vara de Família, contribuindo para que ele perdesse a guarda do filho e seu convívio ficasse restrito às visitas, com frequência quinzenal. O entrevistado acusa a ex-mulher de praticar a alienação parental.

Caso 2.Quem manda na casa dela são as mulheres” (Paulo)

Paulo, 44 anos de idade, divorciado da autora da acusação há dois anos, pai de uma menina de cinco anos de idade, nascida desse relacionamento. Ele foi acusado pela ex-mulher de praticar violência sexual contra a filha quando já estava separado e seu contato com a criança ocorria através das suas visitas com frequência quinzenal. Não tinha um bom relacionamento com a ex-mulher depois do fim do casamento, e tudo piorou com a denúncia. Foram aplicadas medidas protetivas em favor da criança, com a suspensão das visitas paternas. Ele informou que essas medidas protetivas repercutiram nas decisões da Vara de Família e alegou que teve todos os pedidos, relacionados à convivência paterna, negados pela juíza responsável pelo processo. Relatou que estava há doze meses sem ter contato com a filha e, à época da entrevista de pesquisa, havia sido atendido pela equipe técnica da vara criminal e aguardava o resultado dos estudos psicológico e social.

Caso 3. “A história da mocinha e do bandido” (Jorge)

Jorge, 56 anos de idade, relatou que rompeu o relacionamento com a suposta vítima há dois anos. É pai de uma criança do sexo masculino, de sete anos de idade, nascida desse relacionamento conjugal, que ele denominou de namoro.

Acusado pela ex-companheira de praticar violência psicológica (ameaça), foram aplicadas medidas protetivas em seu desfavor, proibindo-lhe o contato e a aproximação com a ofendida e os familiares e a frequentação de determinados lugares, a fim de preservar a integridade física e psicológica da suposta vítima. Além

52 Nomes fictícios.

das medidas convencionais, foi determinada sua participação obrigatória em um grupo de reflexão dirigido a agressores. À época, ficou afastado do filho por cinco meses. As medidas haviam sido aplicadas há onze meses, considerando a data da entrevista de pesquisa, sendo o estudo técnico determinado nos autos depois de quatro meses e, passados sete meses, ainda não havia sido realizado.

Caso 4.É como uma marca de touro no corpo” (Mateus)

Mateus, 47 anos de idade, divorciado da suposta ofendida há três anos, pai de um adolescente com 12 anos de idade nascido desse relacionamento. Segundo relatou, teve um divórcio litigioso motivado pela partilha de bens e, depois que já estava separado, foi acusado pela ex-mulher de praticar violência física contra ela.

Por isso, foram aplicadas as medidas protetivas de proibição de contato e aproximação com a ofendida e os familiares desta, e sua frequência em determinados lugares a fim de preservar a integridade física e psicológica da denunciante. À época, contratou uma pessoa para buscar o filho na casa da ex- mulher nos dias estipulados para a visitação até ser acusado de cometer violência física contra o menor. A ex-mulher pediu extensão da medida protetiva para o filho e, como seu pedido foi negado na Vara Criminal, entrou com uma nova ação na Vara da Infância e Juventude, acusando-o de agressão contra a criança, além de pedir a suspensão de visitas paternas na Vara de Família. Ambos os processos não foram adiante e, segundo relatou, a ex-mulher foi advertida pelo juiz da Vara de Família de estar fazendo alienação parental com a criança. Na data da entrevista de pesquisa, completavam-se oito meses que o entrevistado não tinha contato com o filho, sendo que estava há dois anos e um mês cumprindo as medidas protetivas. Ademais, aguardava há seis meses a realização de estudo técnico, conforme determinação do juiz da Vara Criminal. O entrevistado disse que impetrou uma ação de alienação parental contra a ex-mulher na Vara de Família.

Caso 5. “É quase uma inquisição” (Tadeu)

Tadeu, 43 anos de idade, divorciado da suposta vítima há dois anos, pai de três filhas, com idades de 20, 13 e 6 anos, nascidas desse relacionamento. Relatou que, no primeiro processo criminal, foi acusado de praticar violência psicológica contra a ex-mulher e, por ausência de provas, a ação foi arquivada. Posteriormente, foi acusado por ela de crime de perturbação de sossego, sendo aplicadas as

medidas protetivas em seu desfavor, proibindo-lhe o contato e a aproximação com a ofendida e os familiares e a frequentação de determinados lugares a fim de preservar a integridade física e psicológica da mesma. Na data da entrevista de pesquisa, estava há onze meses cumprindo as medidas protetivas e impossibilitado de ter contato com as filhas mais velhas, que passaram a esnobá-lo e a não aceitar sua interferência na vida delas. O estudo técnico na Vara Criminal foi realizado depois de nove meses do despacho judicial. O entrevistado relatou que entrou com uma ação de Alienação Parental contra a ex-mulher na Vara de Família.

Caso 6. “Nunca fui ouvido: só eu que estou errado?” (Rodrigo)

Rodrigo, 48 anos de idade, divorciado da suposta vítima há quatro anos, pai de seis filhos, sendo os menores com idades de 17, 15, 10 e 8 anos, nascidos desse relacionamento. Foi acusado pela ex-mulher de praticar violência física e psicológica contra ela. Foram aplicadas medidas protetivas em seu desfavor, proibindo-lhe o contato e a aproximação com a ofendida e os familiares e a frequentação de determinados lugares, a fim de preservar a integridade física e psicológica da denunciante. Segundo relatou, em função de reiteradas denúncias feitas pela ex- mulher de que ele não estava cumprindo a medida, o juiz criminal determinou o uso da tornozeleira eletrônica. Diga-se, de passagem, que Rodrigo é vizinho da ex- mulher. Concomitantemente ao processo na Vara Criminal, o entrevistado perdeu a guarda dos filhos na Vara de Família, sendo resguardado seu direito de visitação.

Desde as ocorrências relatadas, não havia tido contato com a filha mais velha, uma vez que esta não aceitava seu convívio. Na percepção dele, a adolescente se beneficia do seu afastamento porque, assim, pode usufruir de maior liberdade. Ele relatou que nunca foi atendido pela equipe técnica da Vara Criminal, embora fosse seu interesse receber atendimento no setor psicossocial. Logo após encerrar a pesquisa de campo, teve-se notícia de que o processo criminal de Rodrigo havia sido arquivado.

Caso 7. “O pai bandido” (Gustavo)

Gustavo, 46 anos de idade, na data da entrevista relatou que havia rompido o namoro com a suposta vítima há três anos. É pai de uma criança do sexo feminino, dois anos e seis meses de idade, nascida desse relacionamento amoroso. Foi acusado pela ex-namorada de praticar violência física contra ela, sendo aplicadas

medidas protetivas em seu desfavor, proibindo-lhe o contato e a aproximação com a ofendida e os familiares e a frequentação de determinados lugares a fim de preservar a integridade física e psicológica da suposta vítima. O pedido de extensão das medidas protetivas para a criança, conforme pretendido pela mãe, foi negado pelo juiz, que determinou, primeiramente, a realização do estudo pela equipe interprofissional da Vara Criminal. Transcorridos três meses, o estudo técnico foi realizado e, segundo relatou, foi constatada a ausência de elementos que justificassem a extensão das medidas para a criança. O entrevistado queixou-se de que, mesmo assim, estava há um ano sem ter contato com a filha tendo sido obrigado, com outros supostos agressores, a participar de um grupo de reflexão.

Paralelamente ao processo criminal, o entrevistado impetrou ação de guarda da filha junto à Vara de Família, acusando a ex-namorada de praticar Alienação Parental.

No documento Tese de Doutorado (páginas 143-147)