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Campos multivalentes e operadores não-locais

4.2 Sistemas de campos escalares

4.2.2 Campos multivalentes e operadores não-locais

Aqui aplicaremos o estudo da multivalência dos campos a operadores não-locais.

Estes operadores são caracterizados por necessitarem de uma região do espaço para serem definidos ao contrário daqueles ditos locais que são avaliados em um ponto específico do

Figura 14 - Possíveis cruzamentos entre a linha que liga

−∞ ao pontox e a superfícieK.

Legenda: Três possíveis casos onde teremos resultados diferentes de acordo com a escolha do caminho.

Olhando da direita para a esquerda temos, o cruzamento em um ponto, três pontos ou nenhum ponto entre a linha que liga o −∞ao ponto xpassando pela superfícieK.

Fonte: O autor, 2018.

espaço. O exemplo mais famoso destes operadores não-locais é o loop de Wilson e sua representação dual oloop de t’Hooft.

Considere então um exemplo onde temos uma teoria de campo escalar em uma variedade Euclidiana e o operador

J =eRdDxφ(x)J(x)ˆ . (307)

OndeJ representa uma 0-brana. Note que a brana esta fazendo o papel desta região que define o operador não-local. Introduziremos o operador ˆφ tal que este satisfaça

hφ(x),ˆ Π(yi=D(xy). (308)

Uma possível idealização deste operador é o momento canonicamente conjugado onde na representação dos campos seria da forma iδφ(x)δ , tal que a atuação do operador ˆφ se dá pela simples multiplicação por φ. A atuação do operador momento canônico pode ser estudada pela regra de comutação deste com uma função do campo φ, ou seja,

hJ,Πˆi = heRdDxφ(x)J(x)ˆ ,Πˆi

= i δ

δφ(y)eRdDxφ(x)J(x)ˆ

= −αJ(y) ˆWJ. (309)

Levando em conta a unitariedade do operador ˆW podemos concluir que a atuação deste se dá por meio de uma translação em ˆΠ por αJ uma vez que

JΠ(x) ˆˆ WJ−1 = ˆΠ(x)−αJ(x). (310)

Observe que o mesmo procedimento realizado com o operador ˆW e com o momento canô- nico pode ser feito diretamente com o operador ˆφ. Assim, podemos definir um operador TˆQ tal que este irá transladar ˆφpor uma 0-branaQ. Escreveremos a relação de comutação de ˆTQ com ˆphi como

Qφ(x) ˆˆ TQ−1 = ˆφ(x)−βQ(x). (311)

Assim podemos concluir que a forma funcional deste operador será TˆQ = eRdDx Q(x) ˆΠ(x)

= eβ

RdDx Q(x)δφ(x)δ

. (312)

A relação entre ˆT e ˆW pode ser obtida da seguinte maneira TˆQJQ−1 = WˆJ( ˆφβQ)

= eiαβRdDx Q(x)J(x)J. (313)

Assim a forma explicita da relação de comutação entre estes operadores será

hJ,Qi=eiαβRdDx Q(x)J(x). (314)

Note que para facilitar usamos as fontes destes operadores como 0-branas. Porém nada nos impede de generalizar esta construção parap-branas. Podemos tomar como exemplo quando consideramosQcomo uma 1-brana, ou seja uma linha que tem origem no infinito e se estende até um pontoxno espaço e considerarmosJ como uma (D−1)-brana teremos

hJ,Qi=eiαβRdyµK˜µ(y). (315)

Que é justamente a parte singular do campo escalar em (303) se identificarmosiαβ = 2π.

Note também que esta álgebra é a mesma dada por (286) se considerarmos o grupo de simetria singular. Aqui reside a primeira realização da ideia abordada em (MARINO;

SCHROER; SWIECA, 1982) para a generalização para sistemas contínuos da álgebra de Kadanoff. A diferença entre as propostas se dá pelo modo com que estas são construí- das. Na seção anterior discutimos que a proposta feita em (MARINO; SWIECA, 1980) que envolve a singularização de uma simetria discreta do grupoZn em uma determinada região do espaço. O que desenvolvemos até agora é uma construção baseada em objetos extensos que são as branas. A atuação do operador ˆT em um funcional do campoφ tem como resultado criar uma parte singular para este campo. Observe que nesta constru- ção ao considerarmos os operadores não-locais nós obtemos naturalmente a álgebra dos operadores de ordem e desordem.

O cálculo da função de correlação destes operadores se dá pela inserção dos mesmos e será definida por

DJFˆ(φ)E = 1 Z

Z

WJF(φ)eS

= 1

Z

Z

Dφ F(φ)eS+RdD(x)J(x)

= DF( ˆφ)E

J. (316)

Onde Z =R Dφ eS e F(φ) é um funcional qualquer do campo φ. Logo concluímos que o cálculo da função de correlação é feito calculando a integral de trajetória com a ação modificada peloloop W.ˆ

Agora podemos calcular a função de correlação do operador ˆT tomando inserções deste. Sabendo que a atuação de ˆT em qualquer funcional do campo φ é dado pela

generalização de (311) temos

DQFˆ(φ)E = DFˆ( ˆφβQ)E

= 1

Z

Z

Dφ F(φβQ)eS

= 1

Z

Z

0 F(φ0)eS(φ

0+βQ)

= DF( ˆφ)E

Q. (317)

Onde φ0 =φβQ. Note que a medida de integração sofre uma mudança quando reali- zamos a troca de varável φ por φ0, o que pode levar a uma não trivialidade pois agora o campo tem uma parte singular. Porém como vimos anteriormente podemos contornar este problema lembrando que a integral funcional deve ser feita na parte regular do campo e a contribuição da parte singular e feita por uma soma sobre todas as possíveis configurações deQ. Esta definição sugere que o valor esperado do operador ˆT será expresso por

DQE= 1 Z

Z

0 eS(φ

0+βQ). (318)

Outra forma de observar a relação entre os operadores ˆW e ˆT é observando a correspondência de dualidade entre eles. Para tal, considere um sistema escalar em duas dimensões, tal que sua integral de trajetória é escrita sob a forma

Z

Dφ e

Rd2x(12µφ∂µφiαφJ) = Z DφDξ e

Rd2x(µµφ+12ξ2iαφJ)

=

Z

Dξ δ(µξµiαJ)eRd2x12ξ2. (319) Aqui nós simplesmente realizamos um processo de dualidade, onde o campoξ é o campo auxiliar responsável por baixar a ordem de derivadas deφ. A passagem da primeira linha para a segunda envolve uma integração por parte no primeiro termo e a realização da integral sobre o campoφ, nos deixando o vínculo representado pela função delta.

Como visto anteriormente em 1.4 podemos tomar dois pontosx0 ex00 como bordas de uma linha e escrever

J(x) =µKµ. (320)

OndeK representa uma 1-brana dada por Kµ(x) =

Z

Υx

0 x00

dσ dyµ

dσ δ(xy(σ)). (321)

Tal que Υ a linha que conecta os pontosx0 ex00. Assim, podemos resolver o vínculo dado pela função delta introduzindo um campo regularψ tal que

ξµ=µννψreg+αKµ. (322)

Note que o lado direito desta expressão tem a mesma estrutura de (305). Então podemos escrever ψ como a derivada de uma função multivalente tal que ξµ = µννψ, onde este novoψ será escrito como

ψ(x) = ψreg(x)−α

Z x

dyµµνKν

= ψreg(x)−α

Z

d2z Lµ(z;x,−∞)µνKν(z;x0, x0). (323) OndeLµ(z;x,−∞) e o caminho parametrizado pela coordenada z por onde realizaremos a integral desde−∞ até o pontox. Podemos representar Lµ(z;x,−∞) por

Lµ(z;x,−∞) =

Z

Γx−∞

dτ dyµ

dτ δ2(zy(τ)). (324)

Assim como discutimos em 4.2.1 observe que a multivalência do campo ψ encontra-se toda codificada na arbitrariedade do caminho Γ que irá definir Lµ(z;x,−∞). A integral em (323) conta o número de vezes que a linha Γ cruza a linha Υ como mostra a figura 15.

Note que existe uma ambiguidade na definição deLµ(z;x,−∞) pois

ν(x)Lµ(z;x,−∞) = δµνδ2(zx). (325) O que nos permite escrever

Lµ(z;x,−∞)→Lµ(z;x,−∞) +ρ(z)Mρµ(z). (326) Como Lµ(z;x,−∞) é uma linha a expressão da borda de M deve ser também uma li- nha, que deverá conectar um ponto em−∞ ao ponto x porém percorrendo um caminho diferente. Isto em duas dimensões espaciais pode ser escrito como

Mρµ(z) = ρµ

Z

d2y δ2(zy) = ρµΘ(z : Ω). (327)

Tal que Ω é área varrida pela linha Γ como mostra a figura e Θ é uma função do tipo degrau definida por

Θ(x; Ω) =

1 se x∈Ω 0 se x /∈Ω

(328)

O mesmo irá acontecer para Kµ(z;x0, x00), uma vez que J é definido por (320), temos a liberdade de mudar K pela divergência de uma função cuja borda será uma outra linha

Figura 15 - Possíveis cruzamentos entre as curvas Γ e Υ.

Legenda: (a) Γx e Υx

0

x00 se cruzam em um ponto (b)Γx e Υx

0

x00 não se cruzam (c) Γx e Υx

0

x00 se cruzam em dois pontos.

Fonte: O autor. 2018.

conectandox0 e x00, tal que

Kµ(z;x0, x00)→Kµ(z;x0, x00) +ρ(z)Nρµ(z). (329) Tal que da mesma forma que fizemos paraLµ(z;x,−∞) teremos

Nρµ(z) = ρµ

Z

Σ

d2y δ2(zy) = ρµΘ(z : Σ). (330)

Onde (328) também irá valer para Kµ(z;x0, x00) porém com a região sendo delimitada pela área Σ.

Agora definiremos um número que irá caracterizar a interseção de Γ e Υ como nx−∞,Υx

0

x00) =

Z

d2z Lµ(z;x,−∞)µνKµ(z;x0, x00). (331) Onden ∈Z. Ao realizarmos a transformação (326) teremos

δΓnx−∞,Υx

0

x00) =

Z

d2z δΓLµ(z;x,−∞)µνKµ(z;x0, x00)

=

Z

d2z ∂ρ(z)Mρµ(z)µνKµ(z;x0, x00)

= −

Z

d2zΘ(z; Ω)ρ(z)Kρ(z;x0, x00)

= Θ(x00; Ω)−Θ(x0; Ω). (332)

Onde na segunda linha usamos a expressão (326), na terceira linha usamos (327) e uma integração por partes. Se fizermos o mesmo procedimento para a transformação (329) teremos

δΥnx−∞,Υx

0

x00) =

Z

d2z Lµ(z;x,−∞)µνδΥKµ(z;x0, x00)

=

Z

d2z Lµ(z;x,−∞)µνρ(z)Nρµ(z)

= −

Z

d2zΘ(z; Σ)ρ(z)Lρ(z;x,−∞)

= Θ(x; Σ). (333)

Em termos de nx−∞,Υx

0

x00) a expressão para o campo ψ dada por (323) pode ser escrita como

ψ(x) = ψreg(x)−αnx−∞,Υx

0

x00). (334)

Agora note que sob a transformação (329) teremos

δΥψ(x) =δΥψreg(x)−αΘ(x; Σ). (335)

Para garantir a invariância do campo sob estas transformações, uma vez que objetos físicos

não devem ser capaz de sentirem qualquer mudança na brana, devemos ter

δΥψreg(x) =αΘ(x; Σ). (336)

Note que mesmo que a parte regular do campo sofra uma transformação devido a uma mudança na parte singular nós teremos[µν]θ(x; Σ) = 0. Assim a regularidade é garan- tida.

Portanto a integral de trajetória sobre configurações do campo ξ se traduz numa integral de trajetória sobre configurações da parte regular do campoψ e uma soma sobre os números inteiros classificando a interseção da curva Γ com a curva Υ. Observe que a soma sobre o cruzamento destas duas curvas deve ser entendida como uma soma sobre todos os possíveis caminhos que define Γ uma vez que Υ se mantém fixa ao longo de todo o processo. Logo a função de partição dual será

Z

Dφ eRd2x(12µφ∂µφiαφJ) = X

n

Z

reg eRd2x12(µψregαµνKν)2. (337) Podemos concluir que para realizar o cálculo da função de dois pontos no forma- lismo dual precisamos realizar a integração funcional sobre um campo escalar multivalente ψ. A multivalência do campoψ fica explicita na soma sobre o número de vezes que temos o cruzamento das curvas Γ e Υ. Entretanto, observe que neste exemplo não existe a necessidade de que escrevamos tal soma. Note, que a função de partição para o cenário dual já esta completamente escrita em termos dos invariantes de brana, de modo que a simetria de brana da parte singular é completamente cancelada pela simetria da parte regular de ψ, neste caso, e somente para casos assim a soma será uma redundância. A função de partição é construída como uma integral sobre a parte regular do campo e a soma sobre o número de vezes que a curva circula a singularidade na inserção dos pontos x0ex00. Note que a carga precisa ser quantizada, logoα = 2πe assim a função de partição não dependerá do caminho que liga os pontos x0 ex00.

Note que o lado direito de (337) nos diz que o campo ψ sofreu uma mudança de ψψregαRxdyµµνKν(y). Observe que esta mudança pode ser entendida como a atuação do operador ˆT definido pela sua atuação em um funcional do campo escalar como em (313) porém aqui temos Q(x) = αRxdyµµνKν(y), que é a prescrição usada no começo desta seção para o cálculo do valor esperado de ˆT porém com as variáveis da teoria dual. No entanto, o lado direito é a prescrição do cálculo do valor esperado de ˆW. Assim, podemos concluir que calcular o valor esperado de ˆW na teoria original é o mesmo que calcular o valor esperado de ˆT na teoria dual, onde J = ∂K = −∂∂Q.

Este resultado é conhecido se fizermos a identificação de ˆW com oloop de Wilson e de ˆT com oloop de t’Hooft e assim identificando estes como operadores de ordem e desordem.

Mais ainda, observe aqui a relação entre ordem e desordem, a ordem esta definida na teoria "original"enquanto a desordem na teoria dual, por isso é natural que as variáveis de

ordem dependam de quantidades termodinâmicas da teoria original e que os operadores de desordem sejam definidos tais que desempenham o papel de introduzir defeitos no sistema original.