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Todo supercondutor é topologicamente ordenado

3.5 Supercondutores topológicos

3.5.2 Todo supercondutor é topologicamente ordenado

OndeM1 eM2 são parâmetros com dimensão de massa. Nós podemos resolver a integral para o campo η usando suas equações de movimento, assim tome a ação (199) e sua variação co respeito aη e obteremos

iq

Aµ+ 1

e∂µθ+2π e Kµ

+ 1

M12ηµ+ 1

M242ηµ= 0. (201)

Porém como queremos o comportamento em baixas energia podemos dispensar o último termo e escrever

ηµ =−iqM12 Aµ+1

q∂µθ+ 2π q Kµ

!

. (202)

Levando esta solução de volta para a função de partição (199) temos

Z[j] =X

K

Z

DA Dθ e

Rd4x

1

4FµνFµν+q2M2 2(Aµ+1qµθ+2πq Kµ)2

eieRd4x Aµjµ. (203) Esta ação representa a resposta eletromagnética de um sistema supercondutor cujo com- primento de penetração é 1/M.

AµAµ+µχ

θθ+eχ. (205)

Aqui será conveniente escrever a ação (204) em termos das variáveis invariantes de ca- libre ˜Aµ = Aµ1eµθ e ψ = ρ e. Note que aqui estamos considerando θ como um campo regular. De fato θ aparece como a transformação de calibre do campo Aµ nestas novas variáveis e até este momento do texto não tratamos de transformações de calibre multivalentes. Este caso será tratado na seção 4.3. Logo a ação de Ginzburg-landau se torna

S=

Z

d4x

−1

4(µA˜ννA˜µ)2+1

2(µρ)2+ 1

2e2ρ2( ˜Aµ)2− 1

2(ρ2v2)2

. (206)

Note que o mínimo da energia se dá quando temosρ=v. Note também que ao escrevermos a ação nestas variáveis temos o surgimento de um termo massivo. Este termo massivo é costumeiramente tratado na literatura como um termo que quebra espontaneamente a simetria de calibre. Note que este é um erro grave uma vez que não existe quebra da simetria de calibre para qualquer sistema físico, em particular na ação (206) a simetria de calibre encontra-se escondida nas novas variáveis, assim a geração do termo massivo claramente não quebra a simetria de calibre (CHERNODUB; FADDEEV; NIEMI, 2008).

Tomar este termo como quebra espontânea da simetria de calibre seria considerar uma redundância matemática como algo observável fisicamente.

O campoψtambém é responsável por representar um aspecto importante na descri- ção dos supercondutores. Este representa o parâmetro de ordem da fase supercondutora, mais precisamente seu valor esperado ψ(r) = hΨ(r)|Ψ(r)i será diferente de zero para a fase ordenada de um supercondutor. Como apontado em (HANSSON; OGANESYAN;

SONDHI, 2004) existem problemas em definir o valor esperado do par de Cooper como um parâmetro de ordem, o principal deles é a não localidade de ψ(r). Podemos notar também que o problema aparece quando tentamos definir ψ(r) como tendo um valor es- perado não nulo, porém isto falha ao observarmos queψ por sí só não é invariante sob as transformações de calibre (205). Note que somente a combinação que usamos para escre- ver a ação (206) o será. O ponto fundamental para este argumento reside no teorema de Elitzur (ELITZUR, 1975) que assegura que estas quantidades vão a zero mesmo na fase onde temos a simetria de calibre "quebrada". Uma tentativa de resolver este problema é toma uma forma não local para o campo que representa o par de Cooper introduzida por

Dirac (DIRAC, 1955) que pode ser escrito sob a forma de operador ψD(~r) =eRd3r ~Ecl(~r~r

0)A(r)~ ψ(~r) (207)

Onde E~cl representa o campo elétrico clássico enquanto ψ e A são operadores. Note que nesta forma temos a invariância sob (205) e o operadorψD tem a interpretação de operador de criação. Porém ainda existem problemas com essa descrição, por mais que tenhamos no operador (207) invariância de calibre e localidade como mostrado em (KENNEDY; KING, 1985) este acessaria estados onde podemos ter a presença de bósons de Goldstone que não são permitidos em um supercondutor. Uma alternativa seria descrever o parâmetro de ordem usando operadores do tipo Loop de Wilson o que nos levaria ao problema da não localidade.

Em (HANSSON; OGANESYAN; SONDHI, 2004) também é apontado que os graus de liberdade na descrição de baixas energias de um supercondutor têm sua dinâmica dada por uma ação topológica. Esta característica que pretendemos dar atenção a partir de agora uma vez que iremos mostrara na seção 3.5.4 que acontece o mesmo para um supercondutor topológico.

Existem três tipos de graus de liberdade que podemos ver em (203). Temos par- tículas de carga e originada pelo acoplamento com a corrente externa j, vórtices K in- troduzidos pela identidade de Poisson e fótons massivos uma vez que o campo de calibre adquiriu massa. Por mais que tenhamos a intenção de representar estas partículas com uma cargae, estas devem ser classicamente neutras uma vez que sua fonte esta acoplada com um campo de calibre massivo que tem o fluxo zero quando tomamos distâncias maio- res que o comprimento de penetração 1/M do material. Porém estas partículas carregam cargas topológicas devido a uma interação do tipo Aharonov-Bohn com os vórtices. A densidade de energia permanece finita quando assintoticamente os camposFµν e o termo de massa vão a zero. Assim considerando grandes distâncias temos

I

c

dxµAµ = 2π q

I

c

dxµKµ= 2πn

q . (208)

Onde usamos o fato de que a integral da 1-corrente K sobre a curva c será um número inteiro n representando o linking number entre a curva c e o vórtice definido por K.

Portanto o vórtice carrega um fluxo dado porφ =φ0n, tal que definiremos φ0 = 2πq como o fluxo fundamental de uma configuração de vórtice. Note que ao olharmos para o último termo em (203) veremos que este representa uma quasi-partícula de cargae. Se tomarmos esta por interagir com um vórtice teremos

θAB =e

I

c

dxµAµ=0 = 2πe

q . (209)

Porém a cargaqem um supercondutor representa a carga de um par de Cooper, assimq= 2e, logo neste caso temos uma fase não trivial θAB =π e esta será uma das características fundamentais para que um supercondutor seja considerado um estado topológico. A ação efetiva que descreverá o supercondutor no regime de baixas energias é uma ação topológica responsável por descrever as interações entre vórtices e a linha de mundo destas quasi-partículas. Em particular este sistema é descrito pela teoria BF dada pela ação (SCHWARZ, 1979; BLAU; THOMPSON, 1991)

S=

Z

d4x

1

πµνρσbµνρaσaµjµbµνJvµν

. (210)

Onde Jvµν = µνρσρaσ é a corrente de vórtice e jµ = µνρσνbρσ é a corrente das quasi- partículas. Teorias de campo topológicas representam um papel fundamental na descrição de materiais topológicos e há uma vasta bibliografia sobre este tópico (QI; HUGHES;

ZHANG, 2008; WANG; QI; ZHANG, 2011; HANSSON; KARLHEDE; SATO, 2012).

Nosso objetivo aqui será obter a teoria topológica BF para o supercondutor usual sob a luz do que fizemos na seção anterior, usando mecanismos de condensação. Para tal acoplaremos o campo de calibre com uma corrente externa cuja carga será igual a carga de um par de Cooperq= 2e. Assim, a ação da função de partição (199) poderá ser escrita como

S=

Z

d4x

1

4FµνFµν−2ieAµηµiθ∂µηµ−2πiKµηµ+ieAµjµ

+Sη. (211)

Note que os vórtices desta teoria são identificados através da corrente de vórtice Jvµν = µνρσρKσ. Esta informação pode ser implementada com o uso da identidade

X

K

f(K) =X

Jv

Z

DaGFδ(Jvµνµνρσρaσ)f(a). (212)

Ondef(k) é uma função arbitrária. Uma prova desta identidade é fornecida no apêndice C. O campo de calibrea tem o seu calibre fixado porµaµ= 0. Esta expressão substitui o vórtice k pelo campo de calibre a em todo lugar na ação, o que nos permite escrever

S =

Z

d4x

1

4FµνFµν−2ieηµ

Aµ+ 1

2e∂µθ+π eaµ

+ieAµjµ

+ ibµν(Jvµνµνρσρaσ)) +Sη. (213)

Ondeb é um multiplicador de Lagrange implementado pela condição (212).

Agora temos o supercondutor parametrizado pela corrente de vórtice Jv, de tal forma que se tomarmos Jv = 0 o multiplicador de Lagrange b força ∂a = 0. Portanto a= 0, porém lembre-se que fixamos o calibre como∂a= 0, assim uma vez que integramos η obteremos um estado supercondutor sem a presença de vórtices. Entretanto se Jv condensa a soma nas configurações da corrente de vórtice na função de partição irá se tornar uma integração sobre o novo campo Jv, tornando-se assim um multiplicador de Lagrange forçando b = 0 e assim retornaremos a teoria de Maxwell acoplado com uma correntejµ destruindo o estado supercondutor.

Retornando ao caso intermediário onde ainda existem vórtices no sistema porém estes ainda não estão condensados, podemos realizar a integral sobre η. Para tal basta que resolvamos a equação de movimento

δS

δηµ = 2ie

Aµ+ 1

2e∂µθ+ π eaµ

+δSη

δηµ = 0. (214)

Onde iremos considerar

Sη =

Z

d4x 1

2M2ηµηµ. (215)

Assim obtemos paraη

ηµ = 2iM2e

Aµ+ 1

2e∂µθ+ π eaµ

. (216)

Levando esta solução de volta na ação (213) obtemos

S =

Z

d4x 1

4Fµν(B)Fµν(B) + π2

4e2Fµν(a)Fµν(a)−2π

e BνµFµν(a) + 2eM2B2

+ ieBµjµ+ibµν(Jvµνµνρσρaσ)). (217) Onde definimosBµ=Aµ+2e1µθ+πeaµ eFµν(B) = Fµν(A) + πeFµν(a). Integrando sobre B nós obteremos somente ordens mais altas de derivadas em ∂F(a) para a ação efetiva.

Portanto, no regime de baixas energias podemos escrever

Sef =

Z

d4x(−iµνρσbµνρaσiπaµjµ+ibµνJvµν). (218) Podemos redefiniraπ1a eb → −b e obtemos

Sef =i

Z

d4x

1

πµνρσbµνρaσaµjµbµνJvµν

. (219)

A qual reconhecemos como sendo a teoriaBF definida por (210). Note então que podemos descrever um supercondutor no regime de baixas energias por uma teoria topológica que representa a interação entre quasi-partículas e vórtices. Juntando esta informação com a que fornecemos no início desta seção, onde foi discutido que o parâmetro de ordem de um supercondutor não é bem definindo, podemos concluir que um estado supercondutor é um estado topologicamente ordenado. Nas próximas seções mostraremos como tomar um supercondutor com mais de uma superfície de Fermi nos leva naturalmente a ação efetiva para um supercondutor topológico. Porém antes revisaremos alguns aspectos da ação obtida por Qi, Zhang e Witten em (QI; WITTEN; ZHANG, 2013).