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Canção popular

No documento História - LEMAD-USP (páginas 34-43)

O gênero canção popular tem sido um recurso constantemente utilizado tanto nas aulas como nos materiais didáticos.

Os historiadores têm procurado cada vez mais registrar os fatos cotidianos, de pessoas comuns, com o objetivo de incorporar na História esses novos objetos e su-

jeitos, sobre os quais pairavam o silêncio e o esquecimento. A busca dessas outras vozes como contraponto ao discurso ofi- cial é uma necessidade quando o ensino dessa disciplina visa à problematização e à análise, não apenas à coleta e à reprodu- ção de informações.

Textos literários têm sido incluídos para estudo em livros di- dáticos. A epopéia de Gilgamesh, por exemplo, é conteú- do do livro História por eixos temáticos – 5ª série (PEDRO e LI- MA, 2002, p. 153-60).

Essa proposta foi ela- borada pela profes- sora Carmem Bassi Barbosa, da EMEF Rodrigues Alves.

Nessa linha, as obras dos cronistas revelam-se importantes objetos de estudo, por meio da identificação do autor, de sua época, de seu espaço, do lugar de onde faz seu discurso e do olhar que revela. Músicos e cancioneiros aparecem, ao longo do tempo, como observa- dores sensíveis do mundo a seu redor, com suas contradições, transformações e resistências.

Para discutir a linguagem poética musical, é preciso ter clareza de que seus dife- rentes suportes permitem diversas análises: ler a letra de uma música ou ouvi-la em sua versão original ou em releituras mais modernas são possibilidades distintas. Do ponto de vista da História, localizar a versão original possibilita a aproximação com a sonoridade de uma época e a análise de estilo. Já as versões mais modernas são mais facilmente encontradas e sua sonoridade soa mais familiar aos alunos. Percebe-se isso com clare- za quando se observa uma poesia de Cartola, uma versão original de suas canções ou uma regravação feita por Marisa Monte: a sonoridade muda, deixando marcas de cada época; a letra permanece, remetendo-nos ao contexto de sua produção. Em qualquer uma dessas situações, é importante que o professor contextualize a produção. Nas au- las de História, a música é um documento.

Como no trabalho com outros materiais, antes de iniciar a leitura da canção, é im- portante realizar uma análise exploratória do texto com os alunos:

• Antecipar temas e a idéia principal com base no título e no gênero musical sele- cionado.

• Antecipar o tempo e o lugar de sua produção.

• Levantar expectativas em relação a sua contribuição ao tema em estudo.

• Definir objetivos da leitura.

• Apresentar o autor e seu tempo.

Durante a leitura, devem ser explorados o vocabulário, a linguagem, as histórias e os temas narrados:

• De que trata o texto?

• O que o texto desenvolve a respeito do assunto que estudamos? Qual a particu- laridade do ponto de vista do autor?

• Quais os indícios de elementos específicos da época no texto?

Depois da leitura, podem-se propor sínteses que evidenciem a contribuição do au- tor para o tema em estudo:

• Registro escrito da idéia transmitida pela canção.

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• Contextualização (relação do texto com o contexto de sua produção).

• Diálogo com outros documentos que ampliem a visão do período.

Como exemplo de trabalho utilizando a canção popular escolheu-se Adoniran Bar- bosa, por sua singularidade na cultura paulistana.

Saudosa maloca (1954) Adoniran Barbosa Se o senhor não tá lembrado Dá licença de contá

Que aqui onde agora está Este edifício arto

Era uma casa véia Um palacete assobradado Foi aqui, seu moço,

Que eu, Mato Grosso e o Joca Construímo nossa maloca.

Mais, um dia,

Nóis nem pode se alembrá Veio os home co’as ferramenta:

‘O dono mandô derrubá’

Peguemo todas nossas coisa E fumo pro meio da rua Apreciá a demolição Que tristeza que nóis sentia Cada tábua que caía Doía no coração Mato Grosso quis brigá Mas em cima eu falei:

‘Os home tá co’a razão Nóis arranja outro lugá’

Só se conformemo quando o Joca falou:

‘Deus dá o frio conforme o cobertô’

E hoje nóis pega as paia nas grama do jardim E pra se esquecê nóis cantemo assim:

Saudosa maloca, maloca querida,

Dim, dim, donde nóis passemo dias feliz de nossas vida”

Nas aulas de História, as canções de Adoniran Barbosa podem ser utilizadas para estudar diferentes temas: a cidade de São Paulo, industrialização e crescimento urbano, imigração italiana para o Brasil, cultura brasileira, desenvolvimento econômico e exclusão social etc. Permitem, assim, explorar diversos contextos históricos e podem ser pontos de partida para dimensionar distintas temporalidades no texto e na música.

Quais são os procedimentos para trabalhar Saudosa maloca do ponto de vista his- tórico? Com que intenções? Que questões podem ser dirigidas à canção para aprofun- dar os estudos a respeito da época? E como, com base em pesquisas, o professor pode selecionar o que e como estudá-la em sala de aula?

A música é um samba paulista dos anos 1950. Antes da leitura da canção, é pos- sível conversar com os alunos a respeito do que sabem sobre o tema.

• O que é samba?

• O samba foi importante na história da música popular brasileira?

• Quais sambistas vocês conhecem?

• Qual o significado das escolas de samba?

• As escolas de samba sempre foram como são hoje?

• A música se chama Saudosa maloca. O que significa isso?

• A palavra “maloca” hoje tem sentido pejorativo. Será que é esse o sentido da música?

• Quem foi Adoniran Barbosa?

As respostas a essas questões possibilitam identificar os conhecimentos prévios dos estudantes e também os temas que requerem mais informações.

Com uma pesquisa, sabe-se, por exemplo, que as biografias indicam 1910 como a data de nascimento de Adoniran Barbosa em Valinhos, interior de São Paulo, e a de morte em novembro de 1982, na capital paulista. No entanto, parece que, na verdade, Adoniran nasceu em 6 de julho de 1912.

A data foi “maquiada” para que ele pudesse trabalhar ainda menino. Seu verdadeiro nome era João Rubinato. Mudou-se para Jundiaí e começou a trabalhar nos vagões de carga da estrada de ferro, para ajudar a família, que já não conseguia convencê-lo a freqüentar a escola. Foi entregador de marmitas, varredor etc. Em 1924, mudou-se para Santo André, onde foi tecelão, pintor, encanador, serralheiro, mascate e garçom. No Liceu de

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para tentar ganhar a vida, transferiu-se para São Paulo, onde se instalou em uma pensão. Nessa época, já compunha algumas músicas. Participou do programa de calouros de Jorge Amaral, na Rádio Cruzeiro do Sul, e, após muitos gongos, conseguiu passar com o samba Filosofia, de Noel Ro- sa. Em 1933, assinou um contrato para cantar em um programa semanal de 15 minutos, com acompanhamento regional. Adotou, então, o nome artístico Adoniran Barbosa: o prenome incomum era uma homenagem a um amigo de boemia e o sobrenome foi inspirado em Luiz Barbosa, sam- bista de que João Rubinato era fã.

Desde sua propagação, nos anos 20, o rádio foi obrigado a abrir espaço para manifestações da cultura e da música popular local. “Não foi o rádio que lançou a música popular, mas o contrário” (SEVCENKO, 1998, p. 513).

Daí Adoniran ter alcançado no rádio seu sucesso. Em 1941, foi para a Rádio Record, onde fez humorismo e radioteatro, criando tipos inesquecíveis, co- mo Pernafina e Jean Rubinet; só sairia dessa emissora com a aposentadoria, em 1972. Em 1955, estreou o personagem Charutinho, seu maior sucesso no rádio, no programa História das malocas, de Oswaldo Molles. Vem daí sua imagem mais conhecida: de chapéu e gravata-borboleta. Posteriormente, ele levou seu humor para a televisão, onde trabalhou como ator das primei- ras telenovelas da TV Tupi, como A pensão de D. Isaura. Atuou também no cinema. Entre suas músicas destacam-se Samba do Ernesto, Trem das onze, Saudosa maloca, Malvina e Joga a chave, estas duas premiadas em concursos carnavalescos de São Paulo. (<http://www.sampa.art.br/SAOPAULO/Biog%2 0Adonirar%20barbosa.htm>. Acesso em: dezembro de 2006.)

Durante a leitura da letra da canção com os alunos, quais questões podem estimu- lar o entendimento do que é dito nos versos? Como chamar sua atenção para a relação entre o texto, a música e a época em que a letra foi composta? E como pedir para ob- servarem a linguagem e o vocabulário da canção?

A proposta é fazer-lhes as seguintes perguntas:

• O autor “fala errado”? Por quê?

• Qual é a história que a música conta?

• É uma história dos anos 1950. Quais elementos da época pode- mos identificar no texto?

• O problema narrado no texto existe ainda hoje? Qual a diferença?

nesse caso, o autor

“canta errado”. Sua canção é quase uma crônica da cidade, mas é oral, e não escrita.

A primeira coisa que salta aos olhos é, sem dúvida, a linguagem. A letra da can- ção não segue a norma culta e traz para a narrativa o popular. O próprio Adoniran afir- mou: “Nunca me chamaram a atenção dos meus erros, todo mundo erra, às vezes eu falo errado porque eu quero, mas às vezes é porque eu não sei mesmo, mas eu gosto de falar errado, eu acho mais bonito, é mais pitoresco” (entrevista ao programa MPB Especial, TV Cultura, 1972).

A linguagem registrada por Adoniran é fruto do convívio e da observação de suas andanças por São Paulo – uma cidade multicultural. Entre 1872 e 1934, a cidade

“configurou uma prodigiosa taxa de crescimento populacional da ordem de 5.689%, ou, posto de outra forma, cresceu numa escala de 6,77% ao ano” (SEVCENKO, 1992, p. 293). Essa população se deslocou para o centro cafeeiro, oriunda de diferentes re- giões: todas as partes do Brasil, interior do Estado, países platinos e europeus. Entre os imigrantes, destacam-se os italianos, que tão fortemente marcaram a cultura e a linguagem paulistana; aliás, o próprio Adoniran é filho de imigrantes italianos: Fer- nando e Ema Rubinato, venezianos de origem. Esse perfil multicultural tendeu a per- manecer como marca da cidade, e é a fala emaranhada de São Paulo que Adoniran capta e registra.

Assim, Saudosa maloca expressa a narrativa popular de São Paulo.

“Insistirá em emprestar uma nova dicção às vozes bandeirantes letradas, com a clas- se de um artista lírico e com a peculiaridade de quem sabe falar errado (Adoniran cantava que ‘pra faze uma boa letra de samba [...] a gente tem que sê, em primeiro lugal, narfabeto’ – Cordovil & Molles, 1998). O compositor, assim, remará contra a corrente hegemônica, impondo um registro lírico numa voz silenciada e coletiva, que insiste em andar contra vocações unitárias” (CARMO).

O autor conta, em primeira pessoa, uma história, lembranças de um passado pe- la observação da transformação. Um edifício alto substituiu a casa antiga que havia se transformado na maloca do grupo de amigos. É o registro de um processo de trans- formação que marcou a primeira metade do século XX. Em primeiro lugar, porque o intensivo crescimento populacional já citado não correspondeu a uma infra-estrutura urbana planejada. “Ao chegar [os imigrantes], não encontrariam sequer uma cidade; te- riam que improvisar suas habitações e suas vidas, enfrentando um volume inexorável de contrariedades” (SEVCENKO, 1992, p. 109). Os cortiços proliferaram. Ao mesmo tempo, o processo de metropolização trouxe consigo os projetos das elites para a construção de uma cidade compatível com a idéia de trabalho e de modernidade da “cidade que mais cresce do mundo”, de acordo com os modelos europeu e norte-americano. A ver-

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Mas não é esse o olhar de Adoniran, e sim o da tristeza: a perda da maloca e do espaço construído, “donde nóis passemo dias feliz de nossas vida”. Isso não impede o narrador de dar razão aos homens; afinal, como ir contra o processo? Adoniran ressalta a solidariedade. Resta ao grupo a grama do jardim – sem-tetos! Como Luiz Tatit obser- vou em participação no programa Ensaio (TV Cultura, 2006):

“Quanto mais a gente canta, mais a gente gosta, ele coloca humor e também triste- za ao mesmo tempo nas suas letras, elas são de uma riqueza muito grande. E partes ambíguas em Saudosa maloca, onde ‘e pra esquecê nóis cantemos assim’. É engraça- do que ele coloca que para esquecer eles cantam, cantam para lembrar da saudosa maloca e para esquecer da perda da maloca”.

Adoniran contou como nasceu Saudosa maloca:

“Ah, eu tinha um cachorrinho, o Peteleco. De noite saía para dar um passeio com ele pela rua Aurora. Onde hoje é o Cine Áurea era o Hotel Albion, que acabou sen- do demolido. O prédio ficou abandonado uma porção de tempo. Uns e outros sem compromisso, que pra cachaça e pro sanduíche faziam biscates nas feiras, lavavam carros ou eram engraxates, de noite se escondiam lá dentro, pois não tinham onde dormir. Eu conhecia todos – o Mato Grosso, o Joca, o Corintiano. Eu visitava eles, junto com o Peteleco, naquela moradia. A gente batia papo, se entendia e se queria bem.

No dia que começou a demolição do casarão, cheguei lá e num vi mais nenhum dos meus amigos. Sumiram, fiquei triste e tive a idéia de fazer um samba para eles. Tava na rua andando, do viaduto do Chá para a Quintino Bocaiúva, e o samba foi saindo, letra e música, tudo junto: ‘Saudosa maloca, maloca querida, / Dim, dim, donde nóis passemo / dias feliz de nossas vida’” (citado por CARMO).

Depois da leitura da canção com os alunos, é possível organizar atividades de escri- ta. Por exemplo, algumas questões registradas no caderno podem levá-los a organizar os temas das discussões realizadas antes e ao longo da leitura.

• Adoniran nos conta, nessa canção, uma história. Qual?

• Existe um problema social retratado na música? Qual?

• Como os personagens retratados na canção reagem à situação que enfrentam?

• Em sua opinião, por que essa música fez tanto sucesso?

• Que características da cidade de São Paulo nos anos 1950 aparecem na canção?

• Entendendo essa música como um documento histórico, como ele contribuiu para enriquecer o tema que estamos estudando?

Além de possibilitarem sínteses, algumas questões podem ter a intenção de sensibi- lizar para a pesquisa de temas ainda não estudados e também importantes para enten- dermos melhor a relação entre a música e o contexto histórico da cidade de São Paulo.

Uma pesquisa sobre a época da canção indica o contexto de 1954. A comemo- ração do Quarto Centenário de São Paulo é pretexto que impulsiona mais uma vez a

“modernização” da cidade, processo identificado com a idéia de verticalização e de expansão urbana. Novas construções e remodelações urbanísticas alteram o espaço e reforçam a imagem de uma cidade em constante transformação – “a cidade que mais cresce no mundo” –, que impressiona pelo crescimento populacional acelerado (chega nessa época a 2,5 milhões de habitantes).

A “evolução” que se busca ressaltar nas imagens é identificada com as novas ave- nidas, os arranha-céus, a suntuosidade e a imponência das construções. Tal identifica- ção não é, de modo algum, característica apenas dos anos 50. Desde a década 30, a inauguração do Edifício Martinelli, com 26 andares e 105 metros de altura, é saudada como “realização urbanística notável”.

As intervenções urbanísticas dos anos 40 aliam o incentivo ao processo de vertica- lização e o amplo investimento no sistema viário. O prefeito Prestes Maia (1938-1945) coloca em prática o “Plano de Avenidas”, com a preocupação de abrir caminho para os automóveis e para a circulação de mercadorias: termina o viaduto do Chá, a avenida Nove de Julho, com seus viadutos e túneis, e o estádio do Pacaembu. Prolonga a avenida São João e transforma em avenidas as ruas Ipiranga e São Luís. Abre as avenidas Duque de Caxias, Anhangabaú (atual Prestes Maia), Liberdade, Vieira de Carvalho, Senador Quei- rós e o primeiro trecho da Itororó. Constrói os viadutos Jacareí, Dona Paulina e Nove de Julho e a ponte das Bandeiras, sobre o rio Tietê. Na gestão do prefeito Armando de Arruda Pereira (1951-1953), libera-se a construção de prédios na avenida Paulista.

A construção da imagem de São Paulo como metrópole moderna e equiparável às grandes cidades do mundo já vinha sendo objeto de intensa propaganda desde os anos 20. Segundo Nicolau Sevcenko, o centenário da Independência foi a justificativa para os investimentos e esforços para ultimar reformas urbanas. Diz o autor:

“É em torno de 1919-20 que – refletindo sobre o grande investimento industrial do período da guerra, as estatísticas do último censo demográfico-econômico, a imi- nência de se tornar um dos palcos de celebração do centenário de Independência e o complexo conjunto de reformas desenvolvidas neste momento – a imprensa sus- cita e repercute, ao mesmo tempo, a imagem de São Paulo como uma das grandes

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“A preocupação dos governantes e governados é derrubar e fazer maior e mais bonito”, observa Alcântara Machado (citado por SEVCENKO, ibidem). Como conseqüên- cia desse processo de incentivo à transformação e modernização do espaço urbano, diversas medidas governamentais, de um lado, garantem a algumas empresas privadas o poder de manipulação do mercado de valorização do solo urbano, como a Cia. City e a Light and Power; de outro, a habitação vai se constituindo no mais sério problema da população: bairros operários abandonados pelos serviços públicos, aumento de pensões e cortiços como alternativa de acomodação. Diversas ações visam desapropriar e excluir das áreas centrais os núcleos de populações pobres, principalmente negros, identifica- dos com sujeira, doença e crimes (idem).

Os anos 50 e os preparativos da comemoração do Quarto Centenário de São Paulo marcam novos investimentos que moldam a imagem da metrópole. Dois grandes ícones da época são o Parque do Ibirapuera e a agenda cultural da cidade.

O Parque do Ibirapuera, “destinado a perpetuar a grandeza da data”, segundo seu grande idealizador, Cicillo Matarazzo, “modelo ideal para divulgar a importância e o estágio de desenvolvimento tecnológico e industrial” em seus quatro séculos de existên- cia, consome 80% do orçamento total da Comissão do IV Centenário (Cidade, 1994). O projeto reúne os maiores nomes da arquitetura e paisagismo, visando abrigar um centro cultural permanente, com manifestações artísticas e divulgação da indústria, comércio e agricultura: o conjunto de edifícios para exposições, feiras, teatro e museus fica a cargo da equipe de Oscar Niemeyer; o projeto paisagístico é assinado por Roberto Burle Marx;

os bandeirantes de Victor Brecheret tornam-se os “guardiões do parque”.

A II Bienal de Arte, com obras de Paul Klee, Marcel Duchamp, além de Guernica, de Pablo Picasso, marca a abertura extra-oficial dos festejos. Esse e outros eventos cul- turais só são possíveis com o apoio de uma elite empresarial que toma iniciativas para valorizar a cidade e promover a cultura; um mecenato que já “fazia parte dos padrões das famílias tradicionais, imitados pela elite ascendente” (WILLER, 1994, p. 17).

Para aprofundar a discussão sobre a cidade de São Paulo, podem ser estudadas outras canções. Por exemplo, a música Abrigo de vagabundos, de Adoniran Barbosa, 1958.

Essa canção é quase uma continuidade de Saudosa maloca, mas nela surgem novos temas que se entrelaçam com aqueles discutidos anteriormente.

Ainda com saudade de Joca e Mato Grosso, o narrador conta sua trajetória, come- çando pelo trabalho na cerâmica da Mooca, fonte da sobrevivência, da moradia e de tudo que se almeja conseguir. O tema aparece em outras canções de Adoniran, muitas

vezes de maneira irônica ou com breques que dão espaço para sua negação, como em Conselho de mulher: “Pogressio, pogressio. / Eu sempre iscuitei falar que o pogressio vem do trabalho. / Então amanhã cedo nóis vai trabalhar. / [...] / Amanhã vou trabalhar, se Deus quiser, mas Deus não quer!”.

O tema central de Abrigo de vagabundos é a construção da nova maloca e, prin- cipalmente, sua legalização; aí aparece o novo personagem, João Saracura, fiscal da prefeitura que arranja “tudo”. O cumprimento das regras de construção, plantas e au- torizações da prefeitura nem sempre é acessível a parcelas da população pobre, que arduamente conseguem recursos para terreno e material de construção. Além disso, ainda sobrevém o esquema burocrático. Por sorte, o amigo “dá uma força”.

Por fim, o mais importante: o oferecimento da maloca “aos vagabundos que não têm onde dormir”. Vagabundos que poderiam estar jogados nas avenidas ou “vendo o sol quadrado na detenção” – é a eles que Adoniran oferece seu barraco, sua música, seu humor, sua crítica, seu espaço de ação, sua solidariedade. O processo de exclu- são social, econômica e política de amplas parcelas da população pobre, muitas vezes analfabetas, pouco fez parte dos discursos dominantes. A imagem de São Paulo, cen- tro econômico da nação, como cidade da ordem e do trabalho, da modernidade e do progresso, buscava encobrir as contradições e oposições. Adoniran é uma voz popular, dissonante, mas que consegue ocupar espaço pelo rádio.

A utilização de um documento semelhante e complementar ao anteriormente ana- lisado pode ser interessante para avaliar os conhecimentos e capacidades adquiridos pelos alunos ao longo da leitura da canção. É importante, ainda, criar questões que permitam verificar como eles retiram informações do texto, quais informações chamam sua atenção, qual sua compreensão do documento (da canção) e quais de suas reflexões dão conta da historicidade da letra e da música.

No documento História - LEMAD-USP (páginas 34-43)

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