possuem um direcionamento planejado, nos articulando a uma leitura à deriva e a uma aprendizagem criadora.
O meu convite é que deixemos um pouco de lado a leitura orientada por um desejo de autoridade, de tradução e compreensão absoluta, para nos lançarmos em um plano que nos misture com o desconhecido, sem tantas preocupações com o resultado e a apreensão do conteúdo, abrindo passagem para novos modos de conhecer. Vamos ver no que vai dar?
em uma unidade (de pensamento, modo de agir, conhecer, viver etc.). Portanto, para ela, se existe uma aposta em práticas coletivas, não basta propor questionamentos acerca da individualidade sem também colocar em xeque o que se entende como grupo.
No bojo de suas problematizações, Barros (2013) encontra o indivíduo e o grupo podendo funcionar sob os mesmos pilares: dos ideais liberais, da busca pela unidade, do reforço da individualidade.
Nesta mesma cadeia de conexões, alguns indivíduos (todos-em-si), sob certas condições, formam o grupo (todo-em-si). Prevalece a ideia da unidade/totalidade: os indivíduos são unidades totais que, ao serem reunidas por certas operações, configuram um todo unitário. Como bem se vê, o grupo, eleito intermediário na querela indivíduo/sociedade, se tem apresentado sob a mesma égide individualizante. (BARROS, 2013, p. 318)
Julgo essa leitura muito importante porque ela não encerra o dispositivo em si mesmo, nem garante quais serão os seus efeitos sob o campo pesquisado, o que coloca a nós, pesquisadoras(es), na iminência de sempre revisitar as nossas práticas.
Tanto os grupos como os indivíduos tornam-se vias pelas quais podem emergir direções unívocas e centralizadoras. Esse é um ponto, mas outro, ainda mais potente, é que ambos também podem gerar movimentos de singularização13, o que é interesse da pesquisa cartográfica.
Ainda que, dentro dessa perspectiva, o mais importante não seja o dispositivo (grupos, entrevistas individuais, formulários etc.), mas como ele acontece e o que ele é capaz de acionar, acredito que o grupo, quando atinge um funcionamento não individualizado, possui certas características que eu gostaria de destacar.
Características, inclusive, que me fazem escolhê-lo como dispositivo de trabalho.
A primeira diz da dissolução do lugar privilegiado do especialista. A polifonia do grupo, as tantas vozes que reverberam, conversam, discordam e compartilham estabelecem ligações entre modos de existência diferentes e criam (des)montagens possíveis, tornando o processo independente da figura do expert. Para Baremblitt (2002), é nesse momento que o especialista encontra de fato o seu lugar no grupo, que é um lugar conjunto, onde o seu conhecimento serve para a autogestão daquele coletivo e não para reforçar os interesses das instituições dominantes. Esse processo,
13 A singularização evoca uma relação de criação, na qual ocorre uma reapropriação da subjetividade.
Quando há reinvenção de novas formas de existir, fora das capturas capitalistas, isso é singularização, produção de intensidade, de diferença, são os processos de vida que diferem das produções serializadas e homogêneas (GUATTARI,1985).
o qual ele chama de autoanálise, pareado à autogestão, favorece que o grupo, por ele mesmo, seja protagonista das suas questões e problemáticas, sem precisar que alguém de fora lhe diga o que fazer. O próprio grupo se organiza para gerir as suas necessidades e o especialista é mais um elo que o compõe com conhecimentos que podem ser auxiliares.
Outra característica é a abdicação do lugar hierárquico do especialista, que precisa, ele mesmo, submeter suas técnicas e seus saberes a uma profunda análise crítica. Isso só ocorre quando ele se defronta com tais coletivos e suas diferenças.
Nesse contexto, a dissolução do seu lugar privilegiado não só tem efeitos para os outros, como para si mesmo, já que esse contato pode reorganizar a sua (nossa) posição profissional e integrá-lo (nos integrar) ao grupo, além de romper com tradições que colocam seus (nossos) serviços à mercê de entidades hegemônicas que tentam controlar a sociedade.
Logo, uma última característica do grupo é que ele cria abertura para um amplo trabalho analítico, com a função de desconstruir saberes que antes pareciam imutáveis. Encontrar-se com um outro desconhecido aciona situações inesperadas.
As falas, os afetos, as inquietações que circulam entre os participantes do grupo colocam em xeque o que estava naturalizado, permitindo a ruptura e, consequentemente, o arranjo com outros agentes, outras ideias, outros planos de composição. “Experimentar ouvir o outro irradia uma experimentação de ouvir outros
— outros modos de existencialização, outros contextos de produção de sujeitos, outras línguas para outros afetos, outros modos de experimentar'' (BARROS, 2013, p.
311).
Por isso, Barros (2013) prefere chamar de cartografias grupais esse trabalho desenvolvido com grupos, já que ele leva em consideração os encontros com a heterogeneidade, o distanciamento dos sistemas duais e a busca pela desconstrução dos territórios enrijecidos. O grupo se manifesta processualmente, podendo estar a serviço da problematização, da desindividualização das demandas e das experimentações multifacetadas (BARROS, 2013).
Consequentemente, nos desenhos grupais cartográficos, não basta seguir reproduzindo, é preciso duvidar para alterar as vias de acesso hegemônicas e para forjar a produção de subjetividades singulares,
eis a entrada grupal que o paradigma ético-estético-político nos abre: a de uma subjetividade que experimente, se arrisque em outros modos de composição; a de uma subjetividade que se produza heterogênea, sendo ao mesmo tempo heterogenética; a de uma subjetividade que esteja comprometida com os processos coletivos que a produzem. (BARROS, 2013, p. 323)
Quando o grupo consegue se articular dessa maneira, Guattari (1985) avalia que ele passou por um processo de ressingularização, tornando-se um grupo sujeito.
O grupo sujeito é este que se livra das amarras institucionais, seguindo direções diferentes dos referenciais dominantes, sem temer confrontar a si próprio. Se o capitalismo é um referencial dominante, com suas apostas na individualidade, na competitividade, no consumo e na produtividade, um grupo sujeito se interpõe a essa narrativa conduzindo movimentos libertários, alegres, compartilhados, solidários. Na contramão, um grupo assujeitado é aquele que funciona pela via da hierarquização e da formalidade molar, protegendo-se dos desmanches e dos confrontos, buscando a autoconservação.
Entretanto, Guattari (1985) adverte que esses movimentos grupais não acontecem separadamente, pois, ainda que sujeitado à ordem e aos valores socioeconômicos, há conservação de uma potência disruptiva. Do mesmo modo, ainda que consiga construir-se como grupo sujeito, há o risco de perder-se diante da alteridade social. “Não se trata pois, para nós, de considerar os fenômenos de alienação e de desalienanção de grupo como coisas em si, mas antes como vertentes, diferentemente exprimidas e desenvolvidas segundo contextos situacionais, de um mesmo objeto institucional” (GUATTARI, 1985, p.107).
Em minha experiência na constituição desta pesquisa, avalio que a montagem de cartografias grupais foi complexa. A atenção esteve voltada para os momentos de abertura e fechamento do grupo, para as práticas hierarquizantes, para a disponibilidade de experimentação e para as afetações. A atenção também esteve voltada para conduções desindividualizantes, para a ruptura das práticas molares e autoritárias, o desmanche do meu lugar de especialista, a busca por movimentos de singularização.
Porém, por mais que seja tenso o manejo grupal, efeito de uma condução interessada em prover consistência para a pesquisa construída, é importante frisar
que os encontros foram revigorantes e necessários para manter em nós o desejo da vida e da coletividade.
Nos encontros grupais, todos disparam questões, colocam problemas, trazem temas, inquietações que vão sendo pensadas em conjunto. Esse movimento é muito importante para nós, porque diz de uma aposta em fazer a pesquisa junto, em estar junto para pensar junto, para construir e desconstruir junto.
(Diário de campo, 10 de dezembro de 2020)
Como já escrevi, tivemos tempos difíceis com a pandemia da COVID-19 e as interações grupais foram restritas. Aulas suspensas, universidades fechadas e a modalidade de trabalho home office (trabalho em casa) foram algumas das novas formas de relação constituídas e que permaneceram, até hoje, presentes em algumas realidades.
Estivemos fisicamente distantes, com rotinas bagunçadas. O toque, a respiração aproximada e o simples aperto de mão tornaram-se comportamentos perigosos. Relações que eram simples e habituais tornaram-se arriscadas e até impossíveis. Veja bem, como reunir-se coletivamente se não era possível ocupar o mesmo espaço físico, se não podíamos estar a menos de um metro de distância uns dos outros sem o perigo do contágio?
A internet foi uma aliada nessa configuração de existência imposta, como já sinalizei. Para a construção desta pesquisa, encontramo-nos de agosto a dezembro de 2020, em grupos mediados pelas TICs. Era meu desejo inicial que as discussões fossem mobilizadas em encontros pontuais, mas, com o tempo, os próprios participantes foram ampliando os canais de comunicação, de modo que terminamos o ano de 2020 com um grupo fechado e permanente na rede social Instagram e no aplicativo WhatsApp, em que a temática seguiu sendo conversada cotidianamente, apenas entre os participantes da pesquisa.
Os participantes humanos, como eu também já sinalizei, foram minhas alunas e meus alunos, graduandas e graduandos de psicologia, interessadas e interessados em discutir a temática do adultocentrismo. Éramos sete pessoas nos reunindo para a difícil tarefa de colocar em análise as linhas que nos fabricam humanos e adultos.
Durante os encontros, muitas vozes entraram em controvérsia, se aproximaram, se
deslocaram e organizaram novos territórios. Também foram muitas as vozes que se interessaram e se acolheram.
Guattari (1985) alerta que o que acontece é revolucionário “quando as coisas não te enchem o saco, quando você fica a fim de participar, quando você não tem medo, quando você recupera sua força, quando você se sente disposto a ir fundo, aconteça o que acontecer” (GUATTARI, 1985, p. 16). Portanto, ainda que sejam muitos os efeitos das cartografias grupais para este trabalho e para nós, adianto que, se fizemos grupo, foi pela via da alegria, da aliança e do fortalecimento.
Reitero que o difícil projeto de romper as linhas molares e as durezas que nos forjam não pode estar convencionado à culpa, ao medo e ao ressentimento. Não nos reunimos para nos martirizar por sermos adultos, por nos valermos do adultocentrismo ou por nos assentarmos em condutas que podem oprimir e subjugar as crianças.
Ainda que seja duro saber o que fazemos e como fazemos, é preciso persistir na tarefa de questionar e construir territórios inéditos, incidir linhas de fuga, devires. Mas de nada adianta se os meios para essas construções forem aterrorizantes e nos paralisarem.
Por isso afirmo que, no desenho das cartografias grupais, acompanhando as nossas próprias práticas, o percurso se deu no sentido da vida e da alegria de compartilhar. Não por ingenuidade, mas por resistência. Diante das tantas forças reacionárias que assolam o nosso país, apostamos na alegria, no companheirismo, na solidariedade, na escuta e no acolhimento das diferenças como estratégia de luta.
Vale frisar que todos os encontros grupais foram gravados em áudio e vídeo, perante Termo de Consentimento Livre e Esclarecido assinado pelos participantes.