3 ESTRATÉGIAS DE LEITURA COM FOCO NA INTERPRETAÇÃO E NA COMPREENSÃO DE TEXTO: CAMINHOS METODOLÓGICOS E
SISTEMATIZAÇÃO DAS EXPERIÊNCIAS INOVADORAS
Neste capítulo, apresentarei os procedimentos do presente estudo, discorrendo sobre a natureza da pesquisa, seu objeto, a contextualização e o percurso da pesquisa, além dos procedimentos de análise.
O distrito de Barrolândia surgiu por volta de 1962, com a construção da estrada Belmonte – Itapebi, e conta com uma população estimada de 10 mil habitantes4. A economia local gira em torno das oportunidades de renda criadas com a chegada de uma pequena usina produtora de álcool, da Veracel Celulose, e da agricultura local, além da Prefeitura Municipal. Apesar do cenário, é uma comunidade que não possui uma economia aquecida, de modo que a oferta de empregos é bastante limitada e as possibilidades de desenvolvimento acabam migrando para o município sede (Belmonte) e os municípios vizinhos.
Trata-se de uma localidade que oferece poucas oportunidades de crescimento pessoal e desenvolvimento social, cultural e econômico. Em função disso, entendemos que propor avanços no âmbito da leitura pode ajudar a comunidade a galgar uma melhoria na educação, o que representaria uma possibilidade de transformação social da realidade local.
Nesse sentido, quanto ao tipo de pesquisa, o presente trabalho se configurou como uma Pesquisa de Natureza Interventiva (PNI), na perspectiva de Teixeira e Megid Neto (2017), com foco na produção de conhecimento sistematizado a partir de práticas inovadoras significativas voltadas para o ensino de leitura.
Entendemos por pesquisa de natureza interventiva as “[...] práticas que conjugam processos investigativos ao desenvolvimento concomitante de ações que podem assumir natureza diversificada” (TEIXEIRA; MEGID NETO, 2017, p. 1056).
Nessa perspectiva,
[...] podemos testar ideias e propostas curriculares, estratégias e recursos didáticos, desenvolver processos formativos, nos quais, os pesquisadores e demais sujeitos envolvidos, atuam na intenção de resolver questões práticas sem deixar de produzir conhecimento sistematizado (TEIXEIRA; MEGID NETO, 2017, p. 1056).
Utilizamos como procedimento a pesquisa de aplicação e análise de processos didáticos, que se diferencia da pesquisa-ação por basear a investigação em ações cujas “[...] prioridades de investigações são definidas integralmente pelos pesquisadores” (TEIXEIRA; MEGID NETO, 2017, p. 1068). Este procedimento metodológico envolveu “[...] o planejamento, a aplicação e a análise dos dados sobre o processo desenvolvido, em geral, tentando demarcar limites e possibilidades
4 Disponível em <https://www.facebook.com/495873727145603/posts/555994187800223/>. Acesso em 17 dez 2019.
daquilo que é testado ou desenvolvido na intervenção” (TEIXEIRA; MEGID NETO, 2017, p. 1069), de modo que os processos da investigação levaram em consideração os fundamentos teóricos que dão suporte ao estudo. É importante ressaltar que:
Os objetivos não estão necessariamente voltados para a transformação de uma realidade, mas sim, amiúde, dar contribuições para a geração de conhecimentos e práticas, envolvendo tanto a formação de professores, quanto questões mais diretamente relacionadas aos processos de ensino e aprendizagem, como a testagem de princípios pedagógicos e curriculares [...] e recursos didáticos. Como parte dos trabalhos desenvolvidos nesta modalidade temos pesquisas buscando informações e dados empíricos relativos ao teste de sequências e estratégias didáticas, oficinas, unidades de ensino, materiais didáticos, propostas de programas curriculares, cursos e outros processos formativos, etc. (TEIXEIRA; MEGID NETO, 2017, p. 1069).
Para ratificar a ideia de que “[...] nem toda pesquisa de natureza interventiva pode ser caracterizada como Pesquisa-Ação” (TEIXEIRA; MEDIG NETO, 2017, p.1059), Teixeira e Megid Neto apresentam a figura a seguir para ilustrar as modalidades ou tipologias que estão contidas nas PNI.
Figura 1 - Matriz: uma tipologia para as Pesquisas de Natureza Interventiva (PNI)
Fonte: Teixeira; Megid Neto, 2017.
A pesquisa foi realizada entre 05 e 22 de agosto de 2019, com 15 alunos do 9º ano do Ensino Fundamental, visando atender a um dos objetivos do Mestrado Profissional em Letras que propõe “[...] o desenvolvimento de pedagogias que efetivem a proficiência em letramentos compatível aos nove anos cursados durante o ensino fundamental”5. Por se tratar de uma pesquisa de participação voluntária, disponibilizamos 15 vagas (a serem preenchidas por ordem de inscrição) e convidamos alunos das turmas do matutino da série escolhida para participar da pesquisa, seguindo o rito exigido pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP).
Após analisar os resultados do IDEB 2015 – o último realizado na unidade escolar, com média 2,3 –, optei por trabalhar com alunos do 9º ano (entre 13 e 18 anos) por considerar que há notáveis deficiências de leitura que precisam ser trabalhadas e por entender que esse público traz, na bagagem, um acervo significativo de conhecimentos prévios necessários ao desenvolvimento da leitura.
Assim, a participação na pesquisa possibilitou-lhes vivências de compreensão e interpretação de texto que, de acordo com os dados e os depoimentos dos alunos, contribuíram para diferenciar essas habilidades e fornecer-lhes melhor preparo para o Ensino Médio e práticas de leituras futuras.
A hipótese que levantei refere-se ao fato de que as habilidades de compreensão e interpretação de texto, quando ensinadas e aprendidas como sinônimas – ou seja, sem que se estabeleçam as diferenças entre elas –, comprometem a autonomia do aluno enquanto leitor competente.
Durante o tratamento dos dados da pesquisa, a identificação dos sujeitos foi feita a partir da substituição dos nomes de registro por códigos compostos pela letra P (inicial da palavra Participante) e números de 01 a 15 (referentes ao total de participantes) seguindo a ordem alfabética. Para ilustrar, imaginemos que um dos sujeitos da pesquisa se chamasse João da Silva e que, na lista de identificação, a ordem em que o seu nome apareceu corresponda ao número 14. Assim, sempre que João da Silva entregava uma atividade proposta, ao lado do seu nome registrava-se o código P14, o que me auxiliou na identificação dos sujeitos da pesquisa no processo de análise dos dados, assegurando-lhes o direito ao sigilo da
5 Disponível em (http://www.uesc.br/cursos/pos_graduacao/mestrado/profletras/). Acesso em 15 jun.
2018.
identidade, assim como possibilitou-me a melhor sistematização e tratamento verossímil dos dados.
Tendo em vista que toda pesquisa envolvendo seres humanos exige um acompanhamento no que se refere aos aspectos éticos, conforme a Resolução n°
466/12, esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP – UESC), com base nos documentos exigidos – a saber: Declaração de Responsabilidade da pesquisadora, Carta de Anuência do diretor da escola, Termo de Assentimento dos alunos participantes, Termo de Consentimento Livre e Esclarecido dos responsáveis pelos participantes –; e, a partir da avaliação de conhecimentos e da proposta de intervenção aqui inicialmente apresentadas, visando, assim, atender a todos os requisitos exigidos pelo referido comitê.
É importante destacar que a pesquisa transcorreu conforme o previsto, respeitando o direito ao sigilo, bem como a saúde e a integridade física dos participantes, não registrando qualquer evento que tivesse afetado a crença, a sexualidade, a etnia, a liberdade ou quaisquer outros valores resultantes de constrangimento para o partícipe, conforme descrito nos relatos de experiência.
Apesar de algumas faltas pontuais, nenhum participante desistiu da pesquisa e foi garantido o direito daqueles que não quiseram participar de algumas atividades.
Como já mencionei, esta pesquisa contou com o apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), de modo que os recursos didáticos necessários para o seu desenvolvimento foram cedidos pela escola e aqueles que envolveram custos para produção de material e similares contaram com o auxílio financeiro destinado através de bolsa a esta pesquisa.