De posse das leituras que foram feitas até aqui, está claro que definir compreensão e interpretação de texto pode parecer um caminho arriscado, mas é necessário porque nos leva a discernir as habilidades. Contudo, se conseguirmos concluir que tais habilidades são processos para se chegar ao todo (compreensão leitora – aquela abordada como base para a aquisição da leitura por Kleiman (2008), Colomer e Camps (2002), Smith (1999), Marcuschi (2008) e Leffa (2012) –, perceberemos que será muito mais fácil chegar a um entendimento.
Partindo então de uma visão etimológica, Leffa explica que
‘Compreender’ vem de duas palavras latinas: ‘cum’, que significa
‘junto’ e ‘prehendere’ que significa ‘pegar’. Compreender é, portanto,
‘pegar junto’. Essa ideia de juntar é óbvia em uma das principais acepções do verbo compreender: ser composto de dois ou mais elementos, ou seja, abarcar, envolver, abranger, incluir (LEFFA, 2012, p. 254).
A lexicografia complementa tal definição como “[...] alcançar com a inteligência, entender [...] perceber as intenções de” (HOUAISS, 1995). Comumente, dizemos que compreender o texto significa entendê-lo. Assim, entender o texto será o ponto de partida rumo à diferenciação. Marcuschi diz que a “[...] compreensão não é um simples ato de identificação de informações, mas uma construção de sentidos com base em atividades inferenciais” (MARCUSCHI, 2008, p. 7).
Já para Silva, o processo de compreensão “[...] é a descoberta de sentido de um texto a partir de seus elementos linguísticos” (SILVA, 2015, p. 37). Grundling vai além ao dizer que esta é “[...] a etapa responsável pelo reconhecimento dos principais tópicos do texto, assim como por mobilizar regras morfológicas, sintáticas, semânticas e textuais” (GRUNDLING, 2013, p. 31). Assim, em uma situação em que uma colega de trabalho diz às demais que “Ele acreditou”, é provável que os
interlocutores tentem preencher as lacunas de cunho linguístico antes que a compreensão se estabeleça e possam interpretar a mensagem.
Ao citar as estratégias de compreensão sugeridas por Dascal (2006) em seu livro Interpretação e Compreensão, Grundling destaca que, para se chegar a uma teoria da compreensão, seria preciso envolver “fatores pragmáticos e semânticos”
(GRUNDLING, 2013, p. 7) a níveis analíticos, posto que o texto é objeto permanente de interação e significação. Dascal (2006) fala também sobre os níveis de compreensão e sugere, para tanto, estratégias de compreensão que envolvem:
paráfrase, definição da relevância das informações, análise de exemplos e estabelecimento de associações necessárias.
Para reforçar a ideia de que compreender é um processo complexo que evoca fatores distintos entre si, Leffa (2012) apresenta como o exemplo o Hino Nacional Brasileiro. Eis aqui um texto que a grande maioria de nós canta, mas não consegue compreender, tampouco interpretá-lo. Para tanto, seria preciso traduzi-lo antes (isso mesmo!), como se estivesse escrito em outro idioma. Assim, fica claro que a compreensão é a base para interpretar.
Já que falamos sobre interpretar, Leffa explica que
Etimologicamente, a palavra ‘interpretar’ vem do latim ‘interpres’, que se referia à pessoa que examinava as entranhas de um animal para prever o futuro. Do ponto de vista da leitura, há um pressuposto interessante aqui: o significado daquilo que é lido não está na cabeça do interpres, do adivinho, mas contido no objeto. (LEFFA, 2012, p.
260).
Lexicograficamente falando, interpretar é “1. aclarar, explicar o sentido de; 2.
tirar de uma indução ou presságio [...]; 4. Traduzir de uma língua para outra”
(HOUAISS, 1995). Santana diz que
[...] esta habilidade reporta à ideia de inferência, de conclusão do que está escrito. Assim, o que direciona a interpretação está além do texto. O que leva o leitor às conclusões a que chega são as pistas norteadoras do texto. Essas pistas permitem que sejam feitas inferências, deduções, conclusões, que se perceba, enfim, o que está subentendido a partir do texto lido (SANTANA, 2015, p. 19).
Na mesma vertente, Grundling destaca que, quando o leitor utiliza a “sua capacidade crítica”, ele interpreta, “[...] pois é o momento de ‘julgamento’ do texto, a
partir do qual o leitor poderá ampliar conhecimentos e / ou reformular conceitos”
(GRUNDLING, 2013, p. 32).
Sob a perspectiva da Análise do Discurso, Schneider diz que “[...] o sujeito interpreta a todo instante e os sentidos não estão prontos, acabados” (SCHNEIDER, 2015, p. 28). A interpretação de um texto é produto da compreensão, segundo Marcuschi (2008, p. 230), e configura a construção de sentido quando parte do que o texto/enunciado diz. Assim, “[...] todo sujeito interpreta a partir de um dispositivo ideológico que o faz interpretar de uma maneira e não de outra” (ORLANDI, 2010, p.
26).
É importante destacar que, embora a interpretação dependa de fatores (socio)cognitivos, ela não é livre no sentido de permitir infinitas possibilidades, visto que algumas interpretações extrapolam os limites estabelecidos pelo próprio texto.
Para ilustrar essa afirmação, evoco uma piada de Freud utilizada por Sírio Possenti em uma entrevista dada à Revista Presença Pedagógica, em 2001, para defender a ideia de que há interpretações que podem ser equivocadas. Veja:
Um banqueiro sai ao final do dia junto com seu secretário.
Trabalharam o dia inteiro, saem para a rua, passam perto de um Café – que está cheio de gente – e então o banqueiro convida o secretário para entrar. ‘Vamos entrar e tomar alguma coisa?’ E o secretário diz: ‘Mas, senhor, está cheio de gente’ (POSSENTI, 2001, p. 14).
Possenti diz que a compreensão é óbvia, de modo que a interpretação é que pode ser comprometida. Comumente, as pessoas chegam a interpretações do tipo
“o secretário está cansado de ver gente” ou “eles são gays e o secretário não quer que sejam vistos juntos”, quando, na verdade, o sentido está ligado a uma construção ideológica, social e histórica de que “banqueiros são ladrões” e que, portanto, o Café não seria um bom lugar para roubar as pessoas porque não seria escondido.
Para Leffa, a interpretação pode se dar de forma direta (através da paráfrase), de forma indireta – aquela que dialoga com o autor, rebatendo-o ou contestando o que foi dito originalmente – ou, ainda, enquanto “procedimento dialético”, “[...]
procedimento pedagógico de indução ao conhecimento, feito por meio de perguntas”
(LEFFA, 2012, p. 265). É a partir desse procedimento dialético que se constituirá a nossa proposta de estudo.
Assim, na tentativa de sintetizar os conceitos, Santana define a compreensão de texto como “[...] aquilo que está escrito no texto, ou seja, coletar dados do texto, perceber o que o texto informa, o que revela, entender” (SANTANA, 2015, p. 19, grifo da autora), enquanto interpretação de texto configura aquilo que está além do texto, que se pode deduzir, concluir a partir do texto.
Para reforçar a sua definição, Santana retoma a ideia de Mascuschi (2008) de que é possível ler um texto e entendê-lo sem necessariamente chegar a uma compreensão (global) bem sucedida; que, “[...] para se compreender bem um texto, tem-se que sair dele, pois o texto sempre monitora o seu leitor para além de si próprio e esse é um aspecto notável quanto à produção de sentido” (MARCUSCHI, 2008 apud SANTANA, 2015, p. 35). Segundo a autora, “[...] compreensão é um processo linguístico, enquanto a interpretação busca sentido em fatores externos à língua” (SANTANA, 2015, p. 38). Interpretar, então, seria preencher as lacunas do texto a partir de fatores extralinguísticos.