— Buenos Aires — 1921.
" Borderland " ! Bello titulo, dos mais adequados que conhecemos pa- ra um livro desta natureza, onde se romanceia a vida de creaturas" meio cá meio lá " como diz o povo. Chiap- pori, ja conhecido como critico d'àrte, tendo dado na "Belleza In- visível " magnificas amostras da sua sensibilidade esthetica, capaz de to- das as finuras, aborda aqui a nove- la, pela primeira vez. M a s escolhe para elementos deOlla personagens especialíssimos, esses seres myste- riosos, precursores talvez da huma- nidade de a m a n h ã e como que do- tados de sentidos novos, ainda no vago, no indeciso, no inconsciente da formação. N ã o loucos, embora a loucura nos pareça, em innumeros casos, u m a consequência da vida em
" Borderland ", a zona que separa os dois mundos, este physico que todos conhecemos e um outro, que pre- sentimos, e que será no futuro tão conhecido como o primeiro.
D ' a h i o estranho das suas novel- las, que lembra a vida nos sonhos.
E como o autor é um artista de finissimos quilates e sabe contpcr com mestria, o livro resulta ao mes-
mo tempo que farto, singular e es-
tranho, lembrando por vezes o ex-
traordinário romance de J. A. No-
gueira, " A m o r I m m o r t a l " .
Osorio Casar — A CHIMICA DA VIDA (Ensaios philoso- phicos) — Ed. Vieira dos San- tos & Irmão — São Paulo — 1922.
O volume " A chimica d a v i d a " , com cerca de cento e vinte paginas, impressas em magnifico papel, hon- ra os seus editores, bem como as artes graphicas de São Paulo. E' u m a luxuosa brochura, ornada com uma linda capa, que não faria má figura num livro de versos.
N ã o é, porém, de poesia que se trata, mas de sciencia. Os "ensaios philosophicos" do sr. Osorio Cas- sar são alguns capítulos da chimica e da biologia, sem outra philoso- phia senão a que se contém nos phenomenos expostos e que nelles se conserva á es-pera do philosopho.
De resto, sem fins didácticos nem literários, que, uns e outros, n ã o se lhe percebem, " A chimica da vida "
seria u m a obra de vulgarisação si n ã o fosse materialmente rica e si não abundassem no mercado as bi- bliothecas de Educação Scientifica.
Altamirando Requião •— CONS- CIÊNCIA E LIBERDADE
(Critica polygraphicc) — Ed.
Livraria dos Dois Mundos —
• Bahia — 1922.
" Consciência e liberdade" é um conjunto de artigos sobre vários assumptos, taes como politica, lite- ratura, arte e factos locaes que fi- zeram ruido na cidade que lhes foi theatro, a Bahia. Em todos, do pri- meiro ao ultimo capitulo, o fogoso jornalista, como é elle comprehen- dido em nosso paiz, se revela niti- damente : um grande ardor, um santo enthusiasmo forrado de u m a linguagem tão correntia quanto vio- lenta. Nem é tanto o jornalista, co- mo é o polemista. Comtudo, o illus- tre escriptor bahiano se conserva sempre em nivel elevado, sem des- cer ao theor da polemica de cam- panario.
" Mesologia ethnica e diagnose so- cial " intitula-se o primeiro estudo
do livro. E' um titulo " d i f f i c i l " , uma bomba para espantar o indí- gena, que olha para aquillo e n ã o entende nada. Comprehenderá, po- rém, desde que leia. O escriptor se revolta contra a imprensa que com- mémora o 13 de M a i o . . . Pois si essa mesma imprensa é responsável pelo atrazo com que se fez a abo- l i ç ã o . . . A proposito, o autor ataca com desassombro as instituições e os governos aci.uaes : não somos u m a n a ç ã o ; somos menos que u m a tribu.
O u t r o capitulo traz o titulo : —
" R e p u b l i c a de scelerados! " com a epigraphe — " Allocução civica, para um comicio popular ". Esse discurso começa : " Senhores ! Mal- dicta a Republica que nos conduziu até a q u i ! Maldicta, sim, com todas as suas deturpações o d i o s a s . . . "
Eis ahi, neste ou naquelle traba- lho, puras indignações generalisa- d a s , soltas, atiradas ao ar como bombas. Já era tempo de termos dei- x a d o o genero, exactamente o mes- mo em que foi ferltil Silva J a r d i m e de onde sahiu esta " maldicta Re- p u b l i c a " . Generalisar sobre indi- gnações é um processo errado, po- sitivamente. N ã o é com raciocínios de paixão descabellada, (si é pos- sível reunir essas palavras) não é com essa lógica vulcanica que algu- ma coisa melhor se fará deste paiz.
Essas tempestades são excellentes para augmentar a confusão e o des- crédito do genero.
A cada caso a sua solução. De resto, mais ideias nos juizos de conjuncto, menos descomposturas e m?is serenidade não nos farão mal.
Ou tamanha differença irá entre São P a u l o e a Bahia que os senti- mentos bahianos não nos sejam ac- cessiveis ?
Charles Steinmets — L'INDUS- TRIE ÉLECTRIQUE — Ed.
Gauthicr-VilUirs & Cie. — Pa- ris — 1921.
Os Srs. Gauthiers-Villars, edito-
res em Paris (55, Q u a i des Grands
Augustins) publicam neste volume,
traduzido do inglez por B e n j a m i n
Giraud, o trabalho de Charles Stein- metz sobre a industria electrica.
Esta obra, já em 5.' edição no idioma original, trata da producção, controle, transmissão e utilização da energia electrica, enocrrando-se com um estudo sobre a influencia da ele- ctricidade na civilisação moderna.
O volume in-8, com 195 paginas, é illustrado com 50 gravuras.
J. B. Pomey — ANALOGIES MÉCANIQUES DE L'ÊLE- CTRIC1TÉ Ed. Gauthier- Villars & Cie. — Paris — 1921.
Publicam-se neste volume as con- ferencias que, perante os alumnos do curso de telegraphia sem fio da Escola Superior de Electricidade de Paris, fez o sr. J. B. Pomey, en- penheiro-chefe dos Telegraphos da França.
C o m o o indica o proprio titulo do volume, occupa-se o A. de ques- tões pertinentes á mecanica e á ele- ctricidade, principalmente das :.heo- rias de Maxwell e Bjerknès e das exposições de lord Rayleigh, Gutton e Blondel.
Pedro Costxi — ALAOR E OC&DE — Ed. Loester & CL'.
Bahia — 1922.
" E m bons terrapos que já la se foram, um bello príncipe do Orien- te, chamado Alaôr, que aqui para o Brasil viera em peregrinação não bem definida ou revelada, e pasáàra modestamente incognito como sim- ples pianista, apaixonára-se em uma estação balnear, por u m a galante menina da plebe, mocinha esthetica-
mente formosa, mas que não sou- bera aquiilatar-lihe de antemão o dedicado e desinteressado amor, bem como o valor subido de sua mui nobre personalidade.
Entretanto, annos depois e já
«nuito melhor educada e instruída, ella que o despresára de um modo m u i decidido e franco, senão cruel
— é irresistivelmente attrahida por eile, ao encontrai-o mysteriosamen- te modificado »em toda a sua ante- rior idiosycrasia... "
Essa é a " l e n d a " que fornece argumento ao poema lyrico de Pe- d r o Costa, de S ã o Bento de Lages.
" A l a ô r e O c é d e " começa, natu- ralmente, em " Preludio " :
R e i n a o silencio m u i p r i v a t i v o D a s altas c u l m i n a n c i a s d o oriente...
E q u e eu i n t e r r o m p o . M u i t o g e n t i l leitora O u attento leitor,
•— M e u prezado senhor, M i n h a v i r t u o s a s e n h o r a —
E u , A l a ô r , D e i x a n d o o leito, D e i x a n d o o l a r , C o m o desejo a m p l o
D e saber, J á passo a o c a m p o A o coração d a n a t u r e z a , A l m o x a r i f a d o da belleza — E a m p h i t h e a t r o da g r a n d e z a
— P a r a aprender C o m santo a r d o r , A m i n h a lição de a m o r .
C o m o se vê, lá do seu retiro no sertão bahiano surge um poeta de envergadura que não pede meças aos próceres do nosso ultra-civiili- sado futurismo. " J á passo ao cam- po, ao coração da natureza, almoxa- rifado d a b e l l e z a . . . " Eis ahi. N o Theatro Municipal n ã o esfusiou imagem egual, com ta! vigor rea- lista e tal senso do futuro.
D i a virá, de facto, em que a na- tureza será c o m o u m a repartição publica de deposito, em que as co- res serão dispostas em caixinhas de luxo, as flores empilhadas aos mo- lhos pelos cantos, as paizagens dis- tribuídas em feixes de claros para um lado, feixes de escuros para ou- tro e, de permeio, novos feixes furta-côres de claros-escuros.
Perfeito almoxarifado^ donde,
com um simples requerimento, Sel-
lado e assiignado, se retirará, grátis,
um pouco de côr para um quadro,
flores para a rhetorica e luzes para
as paizagens. Mecanismo admiravel,
a arte futura, mecaraisada como a
vida e como a mesma vida, auto-
matisada, será feita por supprimen-
tos democráticos, egualitarios de
belleza, talento e gênio. Esse, de-
certo, é o sentido da i m a g e m : —
"natureza, a l m o x a r i f a d o da beille- za ".
O novo chefe futurista tem pa- ginas que fazem inveja aos nossos,
( desbancando, a léguas, as melhoresda " Paulicéa desvairada". Eis al- g u m a coisa como a dança dos tan- garás :
" E s t a l a " o c a n a r i o l
— T r i n o s ! T r i n o s , T r i n o s ! R e p e n t i n o s !
P e r e g r i n o s 1 E a c u y u b a " c h i l r e i a " . . .
( E ' b a r d o d e a l d e i a l ) M a s outro alado v ô a , e repete u m " r o s á r i o " :
— M a r i d o I . . . M a r i d o ! . . . Marido-é-dia?l...
Ma-ri-do-é-dia?!...
Ma-ri-do-é-dia?l...
(E como " d e l l e " o canto c o m a h o r a con- C d i z ! ) E lá stá u m a q u e á l u z d i z :
— S u r g i ! S u r g i ! S u r g i ! E e m q u a n t o este assim c l a m a , A c o l á j á u m o u t r o e x c l a m a : Bem-te-vi! bem-te-viI bem-te-vi!
A h ! desperta I N a t u r e z a A l m o x a r i f a d o d a b e l l e z a ! . . .
Gastão Franca Amasal — AS BELLAS-LETTRAS — Livra- ria Azevedo — Rio — 1922. . Em seu ensaio " As Bellas-I-et- tras ", o sr. Gastão Franca do Ama- ral desenvolve ideias aprecia veis sobre literatura, sua comprehensão, sua utilidade e relações com as outras artes. Desenvolve — disse- mos — porém, n ã o errariamos se, ao contrario escrevessemos — con- centra. Pois, de facto, os altos themas da critica o autor os per- lustra rapidamente, tocando em to- dos, em synthese, para nos dar um quadro summario de conjuncto.
N ã o .pretendemos, com isto, apoucar-llhe o trabalho. As suas boas qualidades de estudioso estão patentes na sua obrkiha, seja pelo espirito critico, seja pelo methodo de analyse, seja ainda pelo estylo
— onde vae o seu melhor elogio
— de u m a grande sobriedade.
Alberto Veiga — O DECLIVE
— Typ. Instituto — Santos — 1921.
" O D e c l i v e " é um livro bom.
Pelas ideias e pela composição faz jus, perfeitamente, ao qualificativo.
L i v r o de ensinamento moral, va- sa-se nos mais sãos dos princípios ethicos, recorr»mendaado-se á lei- tura e meditação da mocidade.
O fim visado pelo autor está nas seguintes linhas do prefacio:
" N a s linhas aqui escriptas n ã o se pretende, roçando pela imperti- nência e até pela ingenuidade par- voa, que a mocidade se retraia hu- milde, laboriosa e abstinente sem derivativos para o espirito absor- vido, durante toda unia semana de afazeres, em trabalho material e embrutecedor". E mais adiante :
" . . . o que se lhes diz é que todo excesso é um erro funesto, com repercussão próxima ou remota e que entre o uso e o abuso vão dis- tanc.as inteiras "
C o m o se vê, é um livro são.
Roque Callcüe — RINCÃO — Ed. Livraria Brasil — Porto Alegre — 1922.
Roque Callage, autor de vários livros, apresenta-se em " Rincão "
como um bello escriptor, cheio de
vigor na concepção e no estylo. E'
um " c o n t a d o r " , que conta coisas
com propriedade e relevo, üs seus
quadros da vida gaúcha são vivos,
bem delineados e animados de um
romanesco e dramaticidade, que
agradam sem exceder a medida. O
senso artístico do autor não o dei-
xou cahir na tentação da bravata
fácil e o heroísmo derramado, tão
communs na pintura dos nossos
heroes do matto ou do campo. Pa-
ginas heróicas, não faltam em " R i n -
cão ", narradas, porém, com verdade
humana. Os recontros da fronteira,
propnios á manifestação da detes-
tável paitriotice literaria, fornecem-
lhe matéria para a apresentação de scenas e typos, que, na justa me- dida são os ignorados campeões da nacionalidade no extremo sul, na lucta diuturna da vida, sem que de- generem em semi-deuses irrisorios na sua invulnerabilidade.
A labuta dos pampas offerece ao autor o thema de narrativas e des- cripções cheias de pittoresco.
" R i n c ã o " é livro que interessa o leitor.
R E C E B E M O S :
" Revista de Cultura Religiosa",.
de Campinas, dirigida pelos srs.
Epaminondas Mello A m a r a l e Mi- guel R i z z o Júnior, com a collaDora- ção dos srs. Américo de M o u r a , Ottoniel Motta, Bento Ferraz e ou- tros.
" Vozes de Petropolis", revista religiosa, quinzenal, com artigos de Viveiros de Castro e Fr. Pedro.
Sinzig.
D E / E N H A
. D O .
M E Z
A R T E S E A R T I S T A S
A C a m a r a M u n i c i p a l de S a n t o s t e v e a idéa feliz de c o l l o c a r em s u a sede o r e t r a t o d a P r i n c e z a I z a b e l , c o m o j u s t a liomenag-em á excelsa r e d c m p t o r a d o s es- c r a v o s . E a c e r t o u e s c o l h e n d o p a r a exe- c u t a l - o a o p i n t o r A n g e l o C a n t u , d e q u e m a R e v i s t e r e p r o d u z n e s t e n u m e r o n ã o s ó essa tela c o m o d i v e r s a s o u t r a s , t o d a í r e t r a t o s . A r t i s t a s e g u r o , f i r m e e ele- g a n t e n o d e s e n h o , c o m p o s i t o r d e a l t a s q u a l i d a d e s , é , e n t r e t a n t o , n o r e t r a t o q u e C a n t ú c u l m i n a , tendo-os e x e c u t a d o , nu- m e r o s o s , n a I t a l i e e a q u i . N e s t e , d a p r i n c e z a I z a b e l , c o n c o r r i a m d i f f i c u l d a d e s sérias. R e t r a t o p o s t h u m o , c o m r e l a t i v a - m e n t e p o u c o m a t e r i a l c o n s u l t i v o d e va- lor a r t í s t i c o , d a d a a e x i g e n c i a restri- c t i v a de f i x a r as feições q u e a p r i n c e z a t i n h a n o an.no d a abo-lição, t o d o s o s o b s t á c u l o s v e n c e u C a n t u c o m v i v a ga- l h a r d i a p r a ç a s á f u n d a c o m p r e h e n s ã o q u e t e m elle da s u a a r t e e g r a ç a s t a m - b é m á s u a p r o b i d a d e . Conseguiu- c o m p o r u m a tela q u e á f i d e l i d a d e p o s s í v e l d o a s p e c t o p h y s i c o d á o r e t r a t o p s y c h o l o - g i c o d a p r i n c e z a regemte. S u a b o n d a d e , sua simplicidade^ d e m a n e i r a s , s u a aver- s ã o ao l u x o do" v e s t u á r i o e ao excesso d e j ó i a s t r a n s l u z e m d o q u a d r o d e ma- n e i r a f l a g r a n t e . E c o m o , t e c h n i c a m e n t e , a p i n t u r a é u m d o c u m e n t o e x c e l l e n t e d a
* v a l i a do a r t i s t a , a o b r a r e s u l t o u desses r a s g o s felizes q u e o s p i n t o r e s t e m pou- cos n a v i d a . N e c e s s i t a n d o d e u m teste- m u n h o p e s s o a l sobre esse r e t r a t o con- s e g u i u C a n t u q u e viesse vel-o a vene- r a n d a b a r o n e z a d e L o r e t o , a m i g a inti- m a d a p r i n c e z a , o b t e n d o delia a c a r t a a b a i x o t r a n s c r i p t a , m u i t o h o n r o s a p a r a o p i n t o r .
S . P a u l o , d e M a r ç o d e 1 9 2 2 . I l l m . » S r . C a n t u
P r o f u n d a m e n t e c o m m o v i d a v i o b e l l o
• q u a d r o a oleo q u e r e p r e s e n t a a A u g u s t a P r i n c e z a I s a b e l , a R e d e m p t o r a , n a é p o c a d a A b o l i ç ã o , 1888.
A p r e c i e i b a s t a n t e esse r e t r a t o e a d m i - rei-me q u e V . S., t e n d o a p e n a s i n f o r m a - ções e p h o t o g r a p h i a s , c o n s e g u i s s e repro- d u z i r c o m t a m a n h a f i d e l i d a d e a d o c e p h y s i o n o m i a , o p o r t e e s b e l t o e t u d o
q u a n t o d i z r e s p e i t o á M a g n a n i m a Se- n h o r a C o n d e s s a d ' E u , e m t r a j e s d e C o r t e .
Q u e i r a , S r . C a n t u , a c c e i t a r o s para- b é n s e c u m p r i m e n t o s a f f e c t u o s o s d a
Baroneza de Loreto.
— N ã o p r o v o c a r , n e m r e c u a r .
— N ã o o p i n a r sem ser t o n s u l t a d o .
— N ã o p r o m e t t e r d e p r e s s a .
— N ã o s e v i n g a r , n e m d i s t e n d e r re- s e n t i m e n t o s .
— N ã o a b u s a r de álcool e de credores.
— N ã o e s t a r n a c a m a d e p o i s d o nas- cer d o Sol.
— N ã o f i c a r serio q u a n d o o s o u t r o s r i r e m .
— N ã o c o n f u n d i r v e r s o c o m poesia.
- N ã o r e s p o n d e r n o m e s m o t o m á p r i m e i r a i n d e l i c a d e z a .
— N ã o d i s c u t i r d u r a n t e a s refeições.
— N ã o ser o p r i m e i r o a e x p e r i m e n t a r r e m é d i o s n o v o s .
— N ã o ler m e n s a g e n s p r e s i d e n c i a e s .
— N ã o r e c l a m a r c o n t r a i m p o s t o s .
— N ã o c i t a r t r e c h o s latincxs a conva- lescentes.
— N ã o se j u l g a r p r e j u d i c a d o p e l a fe- l i c i d a d e a l h e i a .
— N ã o c o n t a r c o m o b s é q u i o s com- p l e t a m e n t e g r a t u i t o s .
— N ã o r e s p o n d e r a u m a p e r g u n t a in- d i s c r e t a s e n ã o c o m o u t r a .
— N ã o c o n c e d e r a o b o m s e n s o a l h e i o m a i s d e 3 3 % .
-Não r e p e t i r s e r v i ç o s a u m i n g r a t o .
— N ã o d e i x a r d e ler d i a r i a m e n t e o o b i t u á r i o .
— N ã o r e p l i c a r a g r a n d e s a s n e i r a s .
— N ã o cmpreistar a t r a t a n t e s g r a n d e s q u a n t i a s .
— N ã o d i m i n u i r i n t i m i d a d e c o m o sa- b ã o .
- N ã o p r e z a r o s h o m e n s p e l a c a r t e i r a m a s pelo c a r a c t e r .
2 6 . * — N ã o e m p r e i t a r b r i g a s alheias-.
2 7 .a— N ã o d i s p u t a r , n o s e n t e r r o s , a a l ç a d o c a i x ã o .
2 8 . "—N ã o a c r e d i t a r e m r e l i g i õ e s , respei- t a n d o t o d a s .
2 9 .a— N ã o a l m o ç a r p o u c o n e m j a n t a r m u i t o .
3 0 .a— N ã o falar s e m p e n s a r .
A U T O - B I O G R A P H I A D E V I C E N T E D E C A R V A L H O
P a l e s t r a p r o f e r i d a n a E s c o l a N o r m a l d o B r a z . M i n h a s j o v e n s p a t r í c i a s . P o r g e n t i l e z a q u e n ã o sei c o m o agra- d e ç a , q u i z e s t e s p r e s t a r c o m esta lindís- s i m a festa a f f e c t u o s a h o m e n a g e m a u m dos nossos poetas. M a s e x i g i s t e s delle q u e , a p r o p o s i t o disso, vos dissesse al- g u m a c o u s a d e s i m e s m o . E * u m a gra- ciosa t r a v e s s u r a q u e a v i c t i m a t e m de a f f r o n t a r s o r r i n d o . . .
P r o c u r a r e i c o m c u i d a d o n ã o ser mal- d i z e n t e . O poeta de q u e m q u e r e i s q u e vos fale n u n c a m e fez m a i l Q u a n d o des- c a m b i v n m e m p l e n o d e l í r i o o s e x a g e r o s r o m â n t i c o s , o s p o e t a s l a s t i m a v a m - s e c o m a m a r g u r a de o s e r e m . Z o r r i l l a e s c r e v e u q u e
El p o e t a en su m i s s i o n S o b r e l a t i e r r a q u e h a b i t a E s u n a p l a n t a m a l d i t a C o n f r u c t o s de be-ndicion.
O n o s s o g r a n d e G o n ç a l v e s D i a s , a i n d a v e r d e e m a n n o s , a f f i r m o u n u m dos seus p r e f á c i o s q u e p u n h a g r a n d e e m p e n h o e m a c a b a r c o m a d e s g r a ç a d a v i d a de p o e t a . E u n u n c a t i v e essa a m b i ç ã o . N u n c a pen- sei q u e fazer versos fosse u m a d e s g r a ç a . N e m m e s m o q u e fosse u m defeito. N u n - c a m e e n v e r g o n h e i d o vício d e r i m a r s i n ã o q u a n d o , e m u i t a s vezes m e t e m a c o n t e c i d o , r e c o n h e c i q u e r i m a r a detes- t a v e l m e n t e . N ã o l a s t i m o c o m o p e r d i d a s a s h o r a s q u e e m p r e g u e i a v e r s e j a r ; n e m c h o r o c o m o d e s p e r d i ç a d a t o d a a po-rção d e a l m a q u e nessa t a r e f a v e n h o h a tan- t i s s i m o s a n n o s g a s t a n d o . N ã o c o n s i d e r o a poesia c o m o u m v e n e n o . P a r a m i m n ã o o tem sido. N e m o c o n v í v i o c o m as m u - sas me p r i v a de v i v e r c o m o v i v e o com- m r m das p e s s o a s q u e t ê m j u í z o ; n e m m o r r i m o ç o , c o m o foi m o d a e m poeta d e v a r i a s gerações. D i z e m q u e m o r r e m ce- do os a m a d o s dos deuses. Eu d e v o agra- de cr a os deuses o seu d e s a m o r . Os p o e t a s p r e c i s i m e n v e l h e c e r : s ó u m poe- t a v e l h o p o d e r i a receber, m i n h a s j o v e n s p i t r i c i n s , esta d e m o n s t r a ç ã o d e s y m p a - t h i a q u e n ã o vos a c a n h a e s d e manífes- tar-me. N ã o me f e s t e j a e s , e n ã o correis o risco de q u e n i n g u é m o s u p p o n h a , pe os m e u s b o n i t o s o l h o s . O q u e achaes b o n i t o s s " o o s m e u s versos. D e v o dís- s u a d i r - v o s d i s s o ? C a b e aos vossos pro- fessores, e aos c r i t i c o s , fazel-o. N ã o sou n e m u m a c o u s a , n e m o u t r a . N ã o m e c o m p e t e a o b r i g a ç ã o de vos t i r a r desse erro. Si eu t i v e s s e tal o b r i g a ç ã o , t a l v e z a c u m p r i s s e ; m a s h a v i a de ser c o m g r a n d e dor d e c o r a ç ã o . . .
O q u e o s m e u s versos m e c u s t a r a m , e t ê m - m e c u s t a d o m u i t o , pois foi-se nelles b o a p a r t e d a m i n h a e x i s t e n c í a , e s t á l a r g a m e n t e p a g o . A s y m p a t h i a q u e a q u i m e estaes t ã o s u a v e m e n t e m a n i - f e s t a n d o é u m a das f ô r m a s m a i s cora.- m o v e n t e s d a l a r g a r e c o m p e n s a q u e te- n h o o b t i d o . E u escrevi a l g u r e s c o m re- ferencia á o b r a d e u m p o e t a :
" U m l i v r o c o m o este represen- t a , e d i s f a r ç a na s i m p l i c i d a d e ap- iparente e p r o c u r a d a dos seus ver- s o s , um esforço v i o l e n t o e du- r a d o u r o . N ã o o p r o d u z i u o meio- i n d i f f e r e n t e , s í n ã o h o s t i l ; fel-o o p o e t a s o s i n h o , d e s a j u d a d o , consa- g r a n d o - l h e o m e l h o r da sua moci- d a d e , s a c r f i i c a n d o p o r ella a bem- a v e n t u r a n ç a t ã o c o b i ç a d a d e s e d e i x a r v i v e r , t r o c a n d o a d e l i c i a fácil de a p e n a s v e g e t a r sobre a iterra pela a n c i o s a t o r t u r a q u e é o d e s e j o i n s a c i a v e l da p e r f e i ç ã o . S ó explioa t ã o forte e m p e n h o e m g r a n g e a r t ã o m o d e s t o r e s u l t a d o c o m o é um l i v r o de versos aquel- l e f o r t í s s i m o i n s t i n c t o , p r o f u n d a - m e n t e h u m a n o , q u e s e rebela c o n t r a a m o r t e s o n h a n d o , p a r a d e p o i s d e l i a , u m a c o n t i n u a ç ã o m o r t i f i c a d a d a v i d a . A a m b i ç ã o d e d e i x a r a s u a a l m a e c h o a n d o s o n o r a m e n t e em ou-tras a l m a s é, sem d u v i d a , o i n c e n t i v o dos poe- t a s , e a i l l u s ã D de q u a s i t d o s ell» 8 Q u e r e c o m p e n s a m e l h o r p r o m e t t e a l g u m a r e l i g i ã o aos q u e e s t i m u l a n a i n c e r t a e p e n o s a c o n q u i s t a d o c é u ? "
S o u dos q u e a l i m e n t a m essa i l l u s ã o , e c o m ella se c o n t e n t a m . . . M a s o q u e m e e n c o m m e n d a s t e s foi u m a auto-bio- g r a p h i a ; e eu t e n h o e s t a d o a t a g a r e l a r a o acaso. A o f i m d e t u d o q u e vos t e n h o d i t o , a p e n a s sabeis p o r m i n h a b o c c a q u e n ã o sou m o d e s t o e n ã o s o u f i n g i d o . E n ã o peccaria eu p o r i n g r a t i d ã o si me f i n g i s s e m o d e s t o d e a n t e d a vossa sym- p a t h i a , a q u e d o u t o d o o a p r e ç o q u e ella merece, e q u e me e n c h e de v a i d a d e ? A s y m p a t h i a d e v o s s a m o c i d a d e e m flor pelo v e l h o p o e t a q u e e u sou v a l e p a r a o m e u c o r a ç ã o d e s v a n e c i d o , e é na ver- d a d e , c o m o u m c o m e ç o d e p o s t e r i d a d e .
Q u a n t o á m i n h a b i o g r a p h i a . . . Sabeis- q u a n d o n a s c i . Contei-o e m v e r s o s a o
M a r , b e l l o m a r s e l v a g e m D a s n o s s a s praiais s o l i t a r i a s :
Q u a n d o e u n a s c i , r a i a v a
O c l a r o m e z d a s g a r ç a s forais te i r a s : A b r i l . . .
N a s c i e m A b r i l . Q u a n t o a o a r n n o . . . A t t i n g i u m a i d a d e e m q u e a g e n t e j á n ã o g o s t a d e falar d a q u e t e m . E u sinto*
j á s a u d a d e d o t e m p o e m q u e e s c r e v i es- tes v e r s o s :
"Tu, m o ç a ; e u q u a s i v e l h o . . . E n t r e n ó s [dois, q u e h o r r o r , V i n t e a n n o s d e d i s t a n c i a . E n t r e n ó s d o i s ,
[ m a i s n a d a . E h o j e , p e n s a n d o em t i , p u z - m e a so-
[ n h a r d e a m o r S o m e n t e p o r q u e v i p o r a c a s o , n a e s t r a d a , S o b r e u m m u r o e m r u i n a , u m a roseira
[em f l o r . . . U s e i de t o d o s esses rodeios p a r a che- g a r â difficil c o n f i s s ã o d e q u e j á n ã o s o u . . . q u a s i v e l h o . N a s c i h a m u i t o tem- p o , m u i t o . H a c i n c o e n t a e d o i s a n n o s q u e isso a c o n t e c e u . M u s s e t dis-se p e l a v o z d e u m dos s e u s p e r s o n a g e n s : J e s u i s v e n u t r o p t a r d d a n s u n m o n d e
[trop v i e u x E u d i r i a , a o c o n t r a r i o :
J e s u i s v e n u t r o p t o t d a n s u n m o n d e [trop j e u n e . N a s c i e m S a n t o s .
C o m e s t a d e c l a r a ç ã o c a t e g ó r i c a pre- t e n d o p o u p a r á s sete c i d a d e s d o n o s s o l i t t o r a l , de C a n a n é a a U b a t u b a , o per- d e r e m t e m p o a d i s p u t a r - s e , no f u t u r o , a
h o n r a d e ter s i d o m e u berço.
S o u d e a n t i g o t r o n c o p a u l i s t a , m i s t u r a r e m o t í s s i m a d e s a n g u e g o d o e s a n g u e g u a y a n á . . . D a m i n h a e s t i r p e i n d i g e n a c o n t e i n u m a c a r t a :
A i , n o f u n d o n ã o sou m a i s d o q u e u m [ b u g r e , eis t u d o . C o r r e a b u n d a n t e e m m i m s a n g u e d e gua-
[yanáy.
V e s t e - m e a pelle b r a n c a o e s p i r i t o des- [ n u d o , S i m p l e s , r u d i m e n t a r , i n s u b m i s s o , i n c a p a z Q u e p o r v e n t u r a h e r d e i d e a l g u m a v ô [beiçudo.
I m a g i n a q u e s o u n e t o d e a l g u m c a c i q u e C u j a v i d a feliz d e n ó m a d e sem l a r
"Tinha a a l e g r e feição de um g r a n d e pi- [ q u e - n i q u e ; E e m c u j a f r o n t e a l t i v a a s p l u m a s d e
[um c o c a r E r a m c o m o a e x p r e s s ã o r i t u a l d o u l t i m o Ichic;
A l g u m b u g r e feroz, c u j o c o r p o bron- [zeado M a n t i n h a a l i b e r d a d e i n a t a d a n u d e z ; Q u e d o r m i a t r a n q u i l l o u m s o m n o des- c u i d a d o
— P a s s i v o , i n d i f f e r e n t e , e n f a r a d o t a l v e z — S o b o myisterio a z u l do c é u t o d o estrel-
[lado.
I g n o r a n d o o p a v o r d o v i d a e x t r a - t e r r e n a ,
"Tinha p a r a o F u t u r o u m o l h a r d e imbe- [cil;
E , p a s s a n d o n a t e r r a , i n ú t i l , e m p e q u e n a V i a g e m a t r a v e z d a n a t u r e z a h o s t i l , V i v i a s e m c u i d a d o , e m o r r i a sem p e n a .
V e g e t a v a feliz, s e m lei, s e m r e i n e m ro- [que.
S u a ú n i c a a m b i ç ã o e r a a f o m e v i v a z , S u a ú n i c a r i q u e z a — u m a flexa e u m bo- [doque, E abria-se n u m r i s o e t e r n o e c o n t u m a z O seu l á b i o — f e n d i d o ao peso do b a t o q u e . I m a g i n a t u , p o i s , a a l m a d o a v ô selva-
g e m C o m p r i m i d a , e s m a g a d a , a t t o n i t a , i n f e l i z , M e t t i d a n u m a v a s t a e c o m p l e x a engre-
[ n a g e m D e d e v e r e s m o r a e s e t r a m ó i a s s u b t i s , De a p u r o s de d i n h e i r o e a p u r o s de lin-
[ g u a g e m . V ê s i esse h u m i l d e e t o s c o e s p i r i t o i m a - g i n a s A o s a b o r d e u m a i t u r b a e m g r i t a e e m
[ c o n f u s ã o , P e l a p r e d i c a e o l i v r o , os j o r n a e s e as
[mofinas, A r r a s t a d o e m t r o p e l — d i s p u t a d o e m l e i l ã o E m n o m e d e t r e s m i l S y s t e m a s e D o u -
t r i n a » . I m a g i n a o a p t i v a , e n t r e g u e , s-ubmettida A o s c a p r i c h o s da M o d a e á e x i g e n c i a d a s
[Leis, E n t r e o e n c a n t o do M a l e a i d é a da
[ O u t r a V i d a , E n t r e o c u l t o de D e u s e o c u l t o do M i l -
[réis, E as p o m p a s de um s a l ã o e o pó de u m a
[ a v e n i d a ; A i , i m a g i n a a s s i m a a l m a d o b u g r e b r a v o M e u a v ô — q u e , n o m a t t o , era o d o n o [feliz D o seu t e m p o v a z i o e d o seu g o s t o igna- [vo, Q u e , era, e m f i m , o s e n h o r do s-eu p r ó p r i o [ n a r i z
— A l m a l i v r e q u e e m m i m r e v i v e u n u m [escravol A l m a a p e n a s cap:'.z -de a d e j a r , f u g i d i ç a , Em v ô o s l e / e s de um i az : d.- beija-flor, E o b r i g a d a a p . u r a r n a s regiões da J u s -
[tiça C o m o u m c o r v o q u e scfce au ceu t o d o
[ e s p ' e n d o r P a r a , d o alito, m e l h o r l o b r i g a r a c a r n i ç a . A i , a a l m a d o t u p y , b e m m a l d o m e s t i -
c a d a A ' m a c a q u e a ç ã o c a b o c l a d o e u r o p e u , C o n s e r v a , forte e v i v a , a a n g u s t i a de
[exilada, A s a u d a d e fiel d e t u d o q u e p e r d e u , D a floresta n a t i v a , a u s e n t e e d e v a s t a d a . A s s i m , d e q u a n d o e m q u a n d o a s s a l t a - m e [a c a c h o l a U m f u r i o s o d e s e j o o u d o m a t t o , o u d o [ m a r . D e v a s t a s solidões o n d e n i n g u é m m e
[ a m o l a ; E , p a s s a r o c a p t i v o , e u f u j o , a m e e s c a p a r D a C i v i l i s a ç ã o — c o m o d e u m a g a i o l a .
F u j o , escapo, d i s p a r o a t r a v e z das v i e l l a s P l e n a s d e a g i t a ç ã o , d e a t t r i c t o s , e d e p ó ; S a l v o - m e , aos esbarrões1, d a n d o c ê b o á s [canellas, A o u v i r a v o z de a l g u m d e c e n d e n t e de
[Job Q u e a p r e g o a m o r a l c o b e r t o d e m a z e l l a s . L i b e r t o , a s a l v o e m f i m , p e n e t r o n a flo-
[resta C o m o n u m t e m p l o a u g u s t o h a b i t a d o p o r
[ D e u s ; E a n t e o v a s t o e s p l e n d o r da n a t u r e z a
[em festa, S o b a a u r e o l a em q u e a c i n g e a aboba-
[da dos ceus R e n d o - l h e a a d o r a ç ã o q u e o m e u o l h a r [lhe p r e s t a . N e m p a d r e s , n e m a l t a r , n e m l i t u r g i a . . . [ U m c ô r o D e a v e s c a n t a a a l e g r i a i n g ê n u a d e v i v e r . D e l o n g e e m l o n g e reza e r e s m u n g a u m [bezouro.
E sobe, c o m o i n c e n s o , o p e r f u m e , a se [ e r g u e r D a s o m b r a e m flor d o c h ã o q u e o sol
[ p o l v i l h a d e o u r o . E , p o r u m d i a , o u dois, eis-me e n t r e g u e , [ a l m a a n t i g a D e b u g r e r e s u r r e o t o , o o l h a r v a g o , o s [pés n u s , A ' doce R e l i g i ã o d a N a t u r e z a a m i g a . . . E r r o á t o a : o p r i m e i r o a t a l h o m e c o n d u z ; V e r o ceu m e c o n t e n t a ; u m a a r v o r e m e [ a b r i g a . E s t e n d o - m e n a r e l v a ; e , n a d e l i c i a ab- [sorto De se-ntir a a l m a leve, ô c a , v a z i a . , .as-
[sim C o s o a beatitu.de i n t e i r a do c o n f o r t o D e m e d e i x a r l e v a r pelo t e m p o sem f i m C o m o u m t ò c o sem v i d a a b o i a r n u m [ m a r m o r t o . N ã o p e n s a r , n ã o q u e r e r . . . A a m b i ç ã o e a [ s a u d a d e A d o r m e c i d a s ; m o r t a essa i l l u s ã o p u e r i l D e fazer i n t e r v i r n o D e s t i n o a V o n t a -
[ d e , . . I g n o r a r o M i n u t o , i n s e c t o odioso e v i l Q u e róe a v i d a e vae t e c e n d o a eterm-
[dade.
N a s o l i d ã o d o m a t t o , e s q u e ç o , i g n o r o . . . [ E m s u m m a : S o u f e l i z ; d o u s u é t o a esta a l m a d e alu-
[guel Q u e v i v e , d e a u t o e m a u t o , a desfazer- s e e m e s p u m a . E , l i v r e d o c a n u d o a t r o z d e b a c h a r e l , P a s s o o r g u l h o s a m e n t e a ser c o u s a ne-
[ n h u m a . S o u , c o m o vêdes d e c l a r a d o nesses ver- sos, u m a p l a n t a b e m d a n o s s a t e r r a , u r a c a b o c l o b e m b r a s i l e i r o , e q u e n u n - ca q u i z e n e m q u e r ser o u t r a c o u s a .
N a s c i d o e m 1866, p o u c o depois,^ e m 1 8 8 5 , p u b l i q u e i o m e u p r i m e i r o l i v r o . E u t i n h a d e z e n o v e a n n o s . O l i v r o inti- t u l a v a - s e " A r d e n t i a s " . A sua p u b l i c a - r ã o foi u m a e s t r o i n i c e d e e s t u d a n t e . E r a u m h o r r e n d o f o l h e t o e m q u e versos d e
a d o l e s c e n t e a p p a r e c i a m i m p r e s s o s e m b a r r õ e s . . .
Q u a s i t u d o b o r r õ e s , — a s p e c t o e subs- t a n c i a . E u a c o n s e l h a r i a aos p o e t a s jo- v e n s q u e d e i x a s s e m a m a d u r e c e r a s u a poesia a n t e s d e a f i x a r e m n u m l i v r o . A s " A r d e n t i a s " c u s t a r a m - m e , m a i s tar- de, u m a p e n i t e n c i a q u e c o n t e i e m pre- facio aos " V e r s o s d a M o c i d a d e " , l i v r o o r g a n i s a d o em 1909, e q u e a p p a r e c e u e m 1912. T i v e d e r e f a z e r m u i t o s dos ver- sos q u e , c o m a i m p r u d ê n c i a dos dezeno- v e a n n o s , a v e n t u r a r a á p u b l i c i d a d e e m 1885. Q u e m o s lesse, depois, n a s u a fôr- m a p r i m i t i v a , n ã o s e l e m b r a r i a p a r a o s p e r d o a r a o p o e t a , — d e q u e e r a m versos d e c r i a n ç a . C o m t u d o , e n t r e a q u e l l e s v e r s o s v i ç a v a m , a q u i e a l l i , a l g u m a s i m a g e n s , a l g u m a s e s t r o p h e s q u e e u m e s e n t i m a i s t a r d e d e m a s i a d o pobre p a r a delias d e s f a l c a r o m e u m o d e s t o patri- m ô n i o . P r e f e r i c o n c e r t a r , m e s m o á c a s t a d e u m g r a n d e esforço, aquelles v e l h o s v e r s o s q u e t i n h a m s i d o c o m o a tosca m o r a d a d a m i n h a a l m a d e m o ç o . F u i i m p i e d o s o p a r a c o m a s " A r d e n t i a s " , d e q u e fiz u m o u t r o l i v r o . M a s comservei d e l i a s , c o m c a r i n h o , o q u e m e p a r e c e u q u e m e r e c i a ser c o n s e r v a d o . Estas* d u a s i m a g e n s , p o r e x e m p l o , d a p o e s i a " N e - v e r m o r e " , q u e e u escrevi, aos d e z o i t o a n n o s , n a i l l u s ã o s i n c e r a e i n g ê n u a d e q u e u m a r r u f o e r a c o m o u m f i m d e v i d a :
Um d i a e r g u e s t e o vôo. O r o s e o torve- l i n h o D e u m a e x i s t e n c i a n o v a e eisp"endida
[arrastou-te.
V o a s t e p a r a a l u z — e a q u i f i q u e só- ts i n h o N o f u n d o d e s t e a m o r o n d e c a h i r a a
[ n > u t r . H o j e , m e i g a , t a l v e z a r r e p e n d i d a , v o l t a s M e n d i g a n d o á m i n h ' a l m a u m p o u c o d o
[passado, T e n t a n d o r e u n i r a q u e l l a s f o l h a s s o l t a s E m q u e a t i r a s t e a o v e n t o u m s o n h o des- f o l h a d o . . . E r a m t a m b é m das " A r d e n t i a s " estes v e r s o s d e s a n i m a d o s q u e e s c r e v i a o s de- zesete a n n o s :
E i s o n i n h o a b a n d o n a d o D o s s o n h o s d o n o s s o a m o r . E ' o m e s m o c h ã o o n d e oscilla A m e s m a s o m b r a t r a n q u i l l a D o s a r v o r e d o s e m flor.
E' o m e s m o o b a n c o de p e d r a O n d e , a s s e n t a d o s , n ó s dois F a l á m o s d e a m o r u m dia.
L e m b r a s - t e ? E n t ã o , q u e a l e g r i a , E q u e t r i s t e z a d e p o i s !
F a l á m o s d e a m o r . . E sobre M i n h ' a l m a a r q u e a v a - s e o a z u l D o t e u o l h a r t r a n s p a r e n t e C o m o o ceu a l v o r e c e n t e D a s n o s s a s m a n h ã c d o s u l .
Q u a n d o e u p a r t i a , c h o r á m o s . T o d a a a l m a se me desfez.
C a d a l a g r i m a - c a h i d a E r a u m a folha d e v i d a Q u e eu d e s f o l h a v a a t e u s p é s . E n t ã o a m a v a m o s t a n t o ! T a n t o e s q u e c e m o s a p o z ! E de m i n h ' a l m a , a l t o e doce, Foi-se a f a s t a n d o . . . e calou-se O u l t i m o s o m de t u a voz.
H o j e v o l t o . . . T u d o é o m e s m o Q u e q u a n d o a m á m o s a q u i : S o m b r a s , p a s s a r o s ^ f r a g r a n c i a , T u d o m e fala d a i n f a n c i a , T u d o m e fala d e ti.
A b r i l d e s e n r o l a e m t o r n o Seu- e s p l e n d o r f e s t i v a l ; T u d o é j u b i l o . . . N o e m t a n t o N ã o mes'clas t e u doce e n c a n t o A este e n c a n t o m a t i n a l . N ã o v o l t á s , . p o m b a e m i g r a n t e , A o n i n h o d e o n d e s e e r g u e u T e u v ô o , a b r i n d o c a m i n h o E m b u s c a d e u m o u t r o n i n h o S o b o a z u l d e u m o u t r o c e u . . . E o p o b r e p o e t i n h a de dezesete a n n o s t e r m i n a v a d e s c o n s o l a d a m e n t e :
. E a q u i deixo nestes versos . . O u l t i m o s o n h o d e a m o r . . .
O u l t i m o . . . T a l v e z n e m c h e g a s s e b e m a ser o p r i m e i r o . . . . E ' t a m b é m d a q u e l l e t e n i p o este s i m u l a c r o d e s o n e t o q u e , t r i n t a a n n o s depois q u e elle a p p a r e c e r a , ou m e l h o r , d es a p p a r e c e r a , nas " A r d e n - t i a s " , t i v e o prazer, d e o u v i r r e c i t a d o d e c ó r p o r A f f o n s o A r i n o s :
D O N A F L O R
Elilia é t ã o m e i g a ! E m seu o l h a r me- [droso, V a g o c o m o o s c r e p u s c u l o s d o e s t i o , T r e m e a t e r n u r a c o m o sobre u m rio T r e m e a s o m b r a d e u m b o s q u e si'en-
[cioso.
Q u a n d o , n a s a l v o r a d a s d a a l e g r i a , A s u a b o c c a h ú m i d a florece, N a q u e l l e > r o s t o a n g e l i c a l p a r e c e Q u e é p r i m a v e r a , e q u e a m a n h e c e o dia.
U m r o s t o d e a n j o , l í m p i d o , r a d i a n t e . . . M a s , a i ! sob esse a n g é l i c o s e m b l a n t e M o r a e s e esconde u m a a l m a d e m u l h e r Q u e a rir-se e s f ó l h a os s o n h o s de q u e [eu v i v o
— C o m o a t i r a n d o a o v e n t o f u g i t i v o A s f o l h a s s e m v a l o r d e u m m a l m e q u e r .
M a s a s " A r d e n t i a s " n ã o c o n t i n h a m a p e n a s versos nesse g e n e r o . E r a n a t u - ral q u e o j o v e m p o e t a , t ã o d e s i ü u d i d o do a m o r , c o m o se d i z i a e t a l v e z se acre- d i t a s s e em c e r t a s h o r a s , se v o l t a s s e p a r a a p h i l o s o p h i a . V o l t o u - s e . E v e r s c:o u b l a s p h e m i a s f u r i o s a s , d e u m a r e t ó r i c a
ô c a e m e s t r o p h e s q u e e u p r e f e r i a q u e ele n u n c a t i v e s s e p e r p e t r a d o . N ã o o s de- s e n t e r r e n u n c a d o p ó e m q u e j a z e m se- p u l t a d o s a l g u m i m p l a c á v e l p e s q u i z a d o r de c o u s a s e s q u e c i d a s . . . O p a r n a z i a n i s - m o era e n t ã o a m o d a d a g e n t e g r a n d e . O p o e t i n h a d a s " A r d e n t i a s " r e s i s t i u - l h e s e m p r e , p o r i n s t i n c t o . M a s n ã o p ô d e e s c a p a r de t o d o á s u a i n f l u e n c i a . Ri- m o u a s s u m p t o s ' g r e g o s , d e q u e n a d a e n t e n d i a ; e p i n t o u a i m p r e s s ã o de u m a n o i t e n o " S a h a r a " , d e s e r t o d o q u a l ape- nas t i n h a u m a v a g a n o ç ã o g e o g r a p h i c a . T a m b é m sob a i n f l u e n c i a d e l e t e r i a d e B a u d e l a i r e , r i m o u c o u s a s q u e t i n h a m a i n t e n ç ã o de ser s a t a n i c a s , e e r a m ape- n a s i n g e n u a m e n t e d e c a m a t o r i a s . E tra- d u z i u , a g r a n e l , p o e t a s e s t r a n g e i r o s . E r a m o d a , p o r esse t e m p o , no geral dos nos- sos p o e t a s , — - " t r a d u t t o r e , t r a d i t o r e " -—
t r a h i r s i m u l t a n e a m e n t e poeta-s estran- geiros e a i n s p i r a ç ã o p r ó p r i a . A f u n c ç ã o de um poeta é d i z e r o q u e c o n c e b e e sente, e n ã o o q u e os o u t r o s concebe- r a m e s e n t i r a m . O q u e foi d i t o em verso s ó p ô d e , e m o u t r a l i n g u a , ser r e p e t i d o em prosa. E o vicio de t r a d u z i r h a b i t u a ao a r t i f i c i o e á i n s i n c e r i d a d e , dois ini- m i g o s c a p i t a e s d a poesia.
D e i x e m o s , p o r e m , a s " A r d e n t i a s " , d e q u e a p e n a s m e l e m b r o c o m o d e u m pec- cado d e q u e m e a r r e p e n d o . Trez a n n o s depois delias p u b l i q u e i o " R e l i c á r i o " . E s s e era j á u m . l i v r i n h o p e r d o á v e l — p e r d o á v e l e m p o e t a p r o v i n c i a n o q u e n ã o c o m p l e t a r a v i n t e e dois a n n o s Eu co- m e ç a r a a e n t r e v e r q u e só se t r a n s m i t - t e m i m p r e s s õ e s q u e se r e c e b e r a m . A ú n i c a f o n t e da poesia é a v i d a q u e o p o e t a v i v e , o u vê. N ã o h a l a n t e j o u l a s de . e s t y l o q u e s u p p r a m a s i n c e r i d a d e . A arte, s a l v o nas épocas de d e c a d e n c i a em q u e o a r t i f i c i o a s u b s t i t u e , em q u e a r e t ó r i c a s u p p l a n t a a poesia, é, e s e m p r e foi, s i m p es. N o " R e l i c á r i o " j á h a v i a c o u s a s d e s t a s :
V i v o a q u i n e s t e e r m o a g r e s t e E n t r e p a s s a r o s e rosas B e i j a n d o a s l e t r a s g r a c i o s a s D a s c a r t a s q u e m e escreveste.
S i n t o o c o n t a g i o s u a v e D e t u d o q u e m e r o d e i a : M i n h ' a l m a p a l p i t a , cheia De v ô o s t r e m u os de a v e . V i m tíío t r i s t e ! E u m s o p r o doce D a v i r a ç ã o p e r f u m a d a
V a r r e a n e b l i n a e s g a r ç a d a D e s s a s t r i s t e z a s q u e e u t r o u x e . V o l t a - m e o s a n g u e . . . A a l e g r i a B r o t a e m m e u p e i t o d o e n t e C o m o u m l y r i o surprehenden-te N u m a c a v e i r a s o m b r i a . E espero poder em b r e v e
— S a d i o , i n t r é p i d o , forte, M i n h a e x i s t e n c i a depor-te N e sc',s m ã o s i n h a s d e r e v e . E d e s t a » :
E r a u m t r o n c o s o m b r i o , M o r t o d e sede á b e i r a d a c o r r e n t e . . . S o b r e o s b a r r a n c o s á s p e r o s d o r i o
B e b i a u n i c a m e n t e
F r e s c u r a e seiva — q u a n d o o r i o e r g u i a A s a g u a s t u r v a s n a e x p l o s ã o d a e n c h e n t e . M a s e n t ã o c o m o o t r i s t e r e v i v i a I C o m o v i n g a v a o pobre t r o n c o , u f a n o ,
N u m a h o r a d e a l e g r i a A t r i s t e z a d e u m a n n o l S o f f r e g a m e n t e s u b m e r g i n d o n ' a g u a ,
Bebia-lhe a f r e s c u r a ; E ao f u n d o dessa m a g u a N u a , i n f e c u n d a , d o l o r i d a , e s c u r a , F o l h a s b r o t a v a m , r e b e n t a v a m flores, R e v e r d e c i a o t r o n c o . . .
O ' m i n h a p u r a , O ' m i n h a doce a m a d a ! E m m e u s a m o r e s S o u c o m o essa r a i z m o r t a d e sede E q u e floria d e a n n o e m a n n o a p e n a s .
R a r o , r a r o succede
Q u e raie e m m i n h a s p e n a » A v e n t u r a de v e r - t e . . . P a s s o a v i d a T r i s t e , a u s e n t e d e t i , d e s c o n s o l a d o . . . M a s b a s t a q u e t e v e j a o r o s t o a m a d o P a r a s e n t i r m i n h ' a l m a reflorida.
V e r s o s d e m o ç o q u e t i n h a v i n t e a n n o s , e q u e era s i n c e r a m e n t e , nos seus versos c o m o n a s u a v i d a , u m m o ç o . . . U m m o ç o q u e c a n t a v a a v o l t a de S e t e m b r o tra- z e n d o o s o l :
O l á , d e v o l t a , p r i m a v e r a ! E ' s t u , b e m vejo e se c o n h e c e N o ceu a z u l q u e r e v e r b e r a , N o c a m p o e m flor, q u e reverdece.
F o r m o s o s o l ! E ' c e r t a m e n t e A festejar a s u a v o l t a Q u e a n a t u r e z a i m p a c i e n t e , Ã n a t u r e z a d e s e n v o l t a G a r r i d a m e n t e s e e n g r i n a l d a De flores e m o s t r a a r i q u e z a D o s seus v e s t i d o s d e e s m e r a l d a , D a s s u a s j ó i a s d e p r i n c e z a .
M e u c o r a ç ã o , esse e s t o u v a d o Q u e a luz da a u r o r a c o n t a m i n a , Sente-se prezo e a s f i x i a d o E n t r e a s p a r e d e s d a n e b l i n a .
M a s h o j e v o l t a s , p r i m a v e r a , A ' t e r r a , verde e r e f l o r i d a , A o ceu a z u l q u e r e v e r b e r a , A * m i n h a v i d a r e v i v i d a . . .
N o i v a d o sol e m i n h a n o i v a . . .
Q u a n d o , a s o r r i r , s u r g e s e t o r n a s Q u a n d o , r a d i o s a e a l e g r e , a s s o m a s No ceu, e sobre o t e r r a e n t o r n a »
A s t u a s a m p h o r a s d e a r o m a s ;
M e u c o r a ç ã o floresce t o d o , P o r elle todos o s risos v è m ; E e u rio, rio c o m o u m d o u d o E sou feliz c o m o n i n g u é m 1
N ã o era n a t u r a l q u e esse m o ç o d e v i n t e a n n o s fosse t r i s t e , e s i m q u e sen- t i s s e e c a n t a s s e o q u e a v i d a l h e dava,, e m a i s a i n d a , o q u e lhe p r o m e t t i a . M u i - t o m a i s t a r d e , elle referiu-se á q u e l l a C a n ç ã o d e a m o r s e n t i d a e m u r m u r a n t e Q u e e u v i m c a n t a n d o , s e m saber s i a [ o u v i a m , P e l a m a n h ã d e sol dos m e u s v i n t e an- [ n o s . . . , V e l h o , r e s u m e s a v e l h i c e i n t e i r a : C a n ç a d o a p p r o x i m a r d o u l t i m o s o m n o , B r u x o l e i o d e l a m p a d a a g o u r e i r a , M e l a n c ó l i c a t a r d e e m ceu d i o u t o m n o ; A b y s m o o n d e a a l m a c h e i a d e c a n s a ç o , D o r m e dos d e s a l e n t o s c a r c o m i d a E p a r a o n d e m e a r r a s t a c a d a p a s s o C o m q u e t r o p e ç o pelo c h ã o d a v i d a . V e n d o - í e , l e m b r a - m e a v e l h i c e , 6 v e l h o t S o m b r a q u e foste a u r o r a e p r i m a v e r a , O l h o - t e , e v e j o c o m o n u m e s p e l h o A i m a g e m d o f u t u r o q u e m e espera.
H a d e t a m b é m c a h i r , s a u d o s a e c a l m a , S o b r e o m e u dia a t a r d e m e r e n c ó r i a , E Assistirei m o r r e r e m n a m i n h ' a l m a S o n h o s d e a m o r , a s p i r a ç õ e s d e g l o r i a . E m t i b e m v e j o o q u e h e i d e ser, l á
[ q u a n d o P a r a o d e a n t e , s e d u ç õ e s e e n g a n o s Da m o c i d a d e — f o r e m - m c r o l a n d o N a c o r r e n t e z a r a p i d a dos a n n o s . Q u a n d o a força v i t a l q u e h o j e m e a n i m a F u g i r - m e aos f r o u x o s m e m b r o s — e e u , [no e s c u r o * E r g u e r o s o l h o s pelo ceu n c i r n a . . . E n ã o a c h a r n e m a s t r o s , n e m f u t u r o . D e v e ser t r i s t e o l h a r p a r a o s c a m i n h o s D a v i d a , e ver, n a t r o c a das i d a d e s , F l o r e s t r a n s f i g u r a d a s e m e s p i n h o s , E s p e r a n ç a s m u d a d a s e m s a u d a d e s ; D e v e ser t r i s t e , p o r u m c h ã o a g r e s t e , D e s i l l u d i d o de i l l u s õ e s falazes,
I r p r o c u r a n d o a s o m b r a d e u m c i p r e s t e C o m o s i fosse u m d e r r a d e i r o o a z i s . . .
O p o e t a t i n h a , c o m o p r e s e n t i m e n t o - d e q u e e n v e l h e c e r i a , u m m e l a n c o l i c o re- ceio d a velhice. H ã o d e c o m p r e h e n d e l - o , e dar-lhe r a z ã o , t o d o s os q u e já vive- r a m , c o m o eu.
A p p a r e c i a t a m b é m n o " R e l i c á r i o " u m a . o u t r a n o t a h u m a n a — n o s versos escri- p t o s a p r o p o s i t o d e u m a c r e a n ç a m o r t a . M a s o p o e t a d e v i n t e a n n o s n ã o p o d i a d e f i n i r em t o d a a s u a e x t e n s ã o a d ô r c a u s a d a p o r essa c r u e l d a d e d a n a t u r e z a q u e é a m o r t e de u m a c r i a n ç a . A mo- c i d a d e p ô d e soffrer, m a s s ó a v i d a j á v i v i d a e n s i n a a c o m p r e h e n d e r o soffri- m e n t o . Os v e r s o s a q u e me refiro fe- r i a m apenais, m u i t o d e leve, a s u p e r f í c i e d o a s s u m p t o :
A m a n h ã t u s e r á s o lodo d e u m m o n t u r o , U m a c a v e i r a a rir u m riso d e i d i o t a , E s u r g i r á s no l i m o , e h a s de ser v e r m e
[ i m p u r o , E h a s d e v i r n a h e r v a m á q u e a sepul- [ t u r a b r o t a . E m b o r a 1 T e r á s s e m p r e a a l v u r a do ala-
[bastro A ' v i s t a e s p i r i t u a l d e u m a i l l u s ã o m a *
[terna.
A h , p a r a t u a m ã e , t u s e r á s s e m p r e u m [astro F u l g u r a n d o n o a z u l d e u m a s a u d a d e
[eterna.
F o i sobre o m e s m o t h e m a , m a s c o m a l m a m a i s e x p e r i m e n t a d a , e u m a a r t e m a i s a m a d u r e c i d a , q u e escrevi, m u i t o s a n n o s depois, o " P e q u e n i n o m o r t o " . Ha- v i a t a m b é m n o " R e l i c á r i o " u n s v e r s o s , a " M a r i n h a " q u e a c a b o d e o u v i r deli- c i o s a m e n t e g o r g e i a d o s , n a f ô r m a defini- t i v a , p o r u m a de v ó s . A " M a r i n h a " é u m d o c u m e n t o d e q u e o p o e t a c o m e ç a r a a libertar-se d a s i m p r e s s õ e s d a s leitu- r a s , e c o m e ç a v a a i n t e r e s s a r na _ s u a a r t e m a i s o q u e v i a do q u e o q u e lêra...
M a s tal q u a l s i n c e r i d a d e n a e m o ç ã o e s i m p l i c i d a d e n a e x p r e s s ã o , fidelidade n a s i m a g e n s e c o h e s ã o n a s idéas, q u a l i d a d e s essenciaes d a p o e s i a v i v i d a , a p p a r e c i a m n o " R e l i c á r i o " a i n d a c o m m e r o s p r e n ú n - cios. E q u a n d o foi da r e f o r m a , ou da d e s t r u i ç ã o d a s " A r d e n t i a s " , e m 1909, t i v e d e refazer t a m b é m o " R e l i c á r i o " , d e q u e a p e n a s u m a p a r t e , e essa m e s m a m u i t o a l t e r a d a q u a n t o á f o r m a , foi con- s e r v a d a n o v o l u m e dos " V e r s o s d a mo- c i d a d e " .
O " R e l i c á r i o " a p p a r e c e u e m 1888. M a u g r a d o a b e n e v o l e n c i a r a r a c o m q u e o f e s t e j a r a a c r i t i c a , a p u b l i c a ç ã o desse l i v r i n h o n ã o m e c o n t e n t o u . E u s e n t i a b e m q u e n ã o t i n h a a i n d a a d q u i r i d o a l í n g u a e m q u e p r e c i s a v a falar. Reco- l h i - m e a u m l o n g o s i l e n c i o d e q u a t o r z e a n n o s . E só em 1902 p u b l i q u e i — " R o s a , rosa d e a m o r . . . " O successo d a q u e l l e p e q u e n o p o e m a e s t i m u l o u - m e a r e u n i r em v o l u m e o q u e t i n h a e s c r i p t o de me- l h o r ; e em 1 9 0 8 a p p a r e c e r a m os " P o e - m a s e C a n ç õ e s " . A esse l i v r o eu dei tu- do q u e t i n h a . F i z nelle, e p o r elle, o m á x i m o d e q u e era c a p a z u m a v i d a t ã o t r a b a l h a d a de p r e o c u p a ç õ e s de o u t r a or- d e m . Na terceira e d i ç ã o , a p p a r e c i d a o a n n o p a s s a d o , o l i v r o v e m a u g m e n t a d o d e a l g u m a s p r o d u c ç õ e s dos ú l t i m o s an- nos, e n t r e ellas a l g u n s t r e c h o s d a " A r t e d e A m a r " , p o e m a d a m a d u r e z a , q u e e u n ã o sei si me r e s t a r á v i d a p a r a con- c l u i r . . . I n f e l i z m e n t e n ã o faço versos q u a n d o q u e r o , e sim q u a n d o elíes que- r e m . Q u a n t o á o r i e n t a ç ã o c o m q u e pro- c u r o e n c a m i n h a r a m i n h a poesia resu- mi-a n e s t a n o t a á p r i m e i r a e d i ç ã o d o s
" P o e m a s e C a n ç õ e s " :
N a escolha d a s poesias a q u i r e u n i d a s a d o p t o u o a u t o r c o m o c r i t e r i o r p r e f e r i r as q u e lhe pa- r e c e r a m e x p r i m i r m e n o s m a l , i s t o é, em p h r a s e s s i m p l e s e corre- d i a s , c o m i m a g e n s , s ó b r i a s e m a i s
ou m e n o s c l a r a s e fieis, idéas c o n c e b i d a s c o m l ó g i c a , s e n t i m e n - t o s sinceros, i m p r e s s õ e s recebi- d a s . A poesia, c o m o s e m p r e am- b i c i o n o u o a u t o r deste l i v r o rea- lisal-a nos l i m i t e s ao sei a l c a n c e , d e v e ser, a n t e s d e t u d o c o u s a q u e se e n t e n d a . Si n e s t e l i v r o ha es- t r a v a g a n c i a s a p a r a t o z a s , q u e r d e i d e a s a b s t r u z a s , q u e r de senti- m e n t o s a r t i f i c i a e s , o u d e p h r a s e s c o m p l i c a d a s , ou de p a l a v r a s me- r a m e n t e d e c o r a t i v a s , a ellas res- v a l o u o a u t o r sem o perceber e a c o n t r a g o s t o ; e d i s s o se peni- t e n c i a h u m i l d e m e n t e " . E i s , l o n g a m e n t e c o n t a d a , a m i n h a pou- c o i n t e r e s s a n t e b i o g r a p h i a l i t e r á r i a . Que- r o a p e n a s a c c r e s c e n t a r - l h e u m t r a ç o . F a z hoje p r e c i s a m e n t e u m a n n o q u e e u recebi d a n o s s a t e r r a u m a c o m o v e d o r a m a n i f e s t a ç ã o de a p r e ç o , p o r o c c a s i ã o do a p p a r e c i m e n t o dos " P o e m a s e C a n ç õ e s "
em n o v a e d i ç ã o . F o i , e x a c t a m e n t e a 10 de j u n h o . A c o i n c i d ê n c i a é i n t e r e s s a n t e . E d e s v a n e c e - m e receber a t ã o c u r t o in- t e r v a l l o d u a s t ã o e x p r e s s i v a s d e m o n s t r a - ções d e e s t i m a pelo t e i m o s o p o e t a q u e sou. Creio q u e á m i n h a t e i m a e m r i m a r d e v o e m b o a p a r t e a s y m p a t h i a d e q u e cercaes e q u e h o n r a o m e u n o m e . Os p o e t a s p r e c i s a m e n v e l h e c e r , e envelhe- cer f a z e n d o versos. E m nossa h i s t o r i a l i t e r a r i a é c o m m u m o c a s o de p o e t a s q u e só o f o r a m na m o c i d a d e . Q u a n t o s , a m e i o d o c a m i n h o , d e s a n i m a m d a a r t e q u e s ó p o r esse m o t i v o n ã o c h e g a m a c o n q u i s - t a r ! A b i o g r a p h i a dos p o e t a s q u e enve- l h e c e m é u m a l i ç ã o a esses d e s a n i m a d o s sem r a z ã o . O s m o ç o s d e v e m g a n h a r co- r a j e m v e r i f i c a n d o q u e a t e n a c i d a d e , e esforço, e o s a n n o s , p o d e m l e v a r u m p o e t a d e s d e a poesia i n f o r m e das " A r - d e n t i a s " e das t e n t a t i v a s i n c e r t a s d o
" R e l i c á r i o " a t é b a s t a n t e l o n g e delias. E v a l e a p e n a i n s i s t i r . A s u a v e e m o ç ã o q u e e s p e r i m e n t o , m i n h a s j o v e n s patrí- cias, ao ver a u r e o l a d o s pela vossa esti- ma os m e u s versos, r e c o m p e n s a de so- b e j o o s t r i n t a a n n o s d e esforço q u e t e n h o g a s t o r i m a n d o estrofes e n a m o - r a n d o a g l o r i a . P o r essas e m o ç ã o q u e a vossa g e n e r o s i d a d e me p r o p o r c i o n a , e u , t ã o o r g u l h o s o q u a n t o a g r a d e c i d o , beijo- vos a s m ã o s . . .
Vicente de Carvalho.
( D ' " A C i g a r r a " ) .
O C O M M E R C I O E X T E R I O R D A F R A N - Ç A E D O B R A S I L
N o b a n q u e t e r e c e n t e m e n t e offerecido e m P a r i s pelo m i n i s t r o d o c o m m e r c i o e d a a g r i c u l t u r a aos a d d i d o s c o m m e r c i a e s a c r e d i t a d o s na c a p i t a l f r a n c e z a , enalte- ceu esse m i n i s t r o , em p h r a s e s c a l o r o s a s , a a c ç ã o d e s e n v o l v i d a p o r a q u e l l e s func- c i o n a r i o s , q u e , d e s e j a n d o , c o m o lhes c o m p e t i a , p r o d u z i r o b r a u t i l aos respe- c t i v o s paizes, h a v i a m c o m t u d o contri- b u í d o t a m b é m , e e n o r m e m e n t e , para o r e e r g u i m e n t o m o r a l e m a t e r i a l da F r a n - ç a .
Em v e r d a d e , qu-ando os a d d i d o s cora- m é r c i a e s e s t r a n g e i r o s f a z i a m n a s p r i n - c i p a e s cidades d a F r a n ç a , c o m i n t u i t o s n a t u r a l e f o r ç a d a m e n t e egoisticos, a pro- p a g a n d a d o c o m m e r c i o , d a i n d u s t r i a d a s
s u a s p a t r i a s d e o r i g e m , f o r n e c i a m a o m e s m o p a s s o aos c o m m e r c i a n t e s e ho- m e n s d e n e g o c i o s francezes i n f o r m a ç õ e s p r e c i o s a s p a r a o s seus p r o p r i o s interes-
ses, i n c i t a n d o - o s ao e s t u d o e á obser- v a ç ã o d e n o v o s m e r c a d o s e s t r a n g e i r o s , q u e , s e n d o c e n t r o s d e p r o d u c ç ã o p a r a
• d e t e r m i n a d o s a r t i g o s , e r a m t a m b é m , pa- r a o u t r o s , m a g n í f i c o s c e n t r o s d e consu- m o . D a s p a l a v r a s d o m i n i s t r o D u p e y r a t , deprehende-se t e r e m os a d d i d o s com-
•merciaes c o n c o r r i d o g r a n d e m e n t e p a r a o e q u i l í b r i o d a b a l a n ç a c o m m e r c i a l exte- rior, j á q u a s i c o n s e g u i d o e m 1921.
P a r e c e r á e s t r a n h o á p r i m e i r a v i s t a q u e o s a g e n t e s estabelecidos p o r c a d a go-
v e r n o em F r a n ç a c o m o fito de incre- m e n t a r e m a l i a " i m p o r t a ç ã o " , p o s s a m -actuar de f ô r m a a c o n c o r r e r e m p a r a e q u i l i b r a r a " i m p o r t a ç ã o " e a " e x p o r t a - ç ã o " f r a n c e z a s e n ã o , a o c o n t r a r i o , p a r a d e s e q u i l i b r a l - a s . . . Os ^ paizes e u r o p e u s , p o r é m , c u j o t e r r i t o r i o é , e m g e r a l , insuf- f i c i e n t e á p r o d u c ç ã o dos v i v e r e s neces- s á r i o s á s u b s i s t ê n c i a d o s p r o p r i o s habi- t a n t e s , f u n d a m a s u a p r o s p e r i d a d e eco- n o m i c a n o t r a b a l h o i n d u s t r i a l , p e l o q u a l a s m a t é r i a s p r i m a s " i m p o r t a d a s " s e t r a n s f o r m a m e m p r o d u c t o s d e " e x p o r - t a ç ã o " . O f a c t o d e c r e a r e m e m F r a n ç a n o v o s m e r c a d o s consumidores- d e m a t é - r i a s p r i m a s , levou- os a d d i d o s c o m m e r - ciaes e s t r a n g e i r o s a d a r e m á i n d u s t r i a f r a n c e z a n o v o s e l e m e n t o s d e t r a b a l h o . E c o m o , p a r a a v e n d a fácil de taes mer- c a d o r i a s n o p a i z , a q u e l l e s a d d i d o s torna- v a m c o n h e c i d a s e m F r a n ç a a s p r a ç a s d e a l é m - m a r , " i p s o f a c t o " . f o r n e c i a m t a m - b é m a o c o m m e r c i o f r a n c e z p o s s i b i l i d a - des excepcionaes de c o l l o c a ç ã o c o m m e r - cial n o e s t r a n g e i r o dos a r t i g o s d e fabri- c a ç ã o f r a n c e z a .
N o n o s s o p a i z , c o m o e m t o d a s a s na- ç õ e s a g r í c o l a s em d e s e n v o l v i m e n t o , o p H e n o m e n o é i n v e r s o . A q u i , n ó s vemo- n o s forçados a i m p o r t a r , q u a n d o n ã o as p r ó p r i a s s e m e n t e s e os b r a d o s para semeal-as, pelo m e n o s as m a c h m a s ^ e
•os u t e n s i l i o s a g r a r i o s q u e nos p e r m i t - i a m a r r e g o a r , a r a r , s e m e a r , colher, en- f a r d e l a r . . . A n o s s a e x p o r t a ç ã o d e p e n d e a s s i m t a m b é m , e m m a i o r o u m e n o r es- cala, da nossa i m p o r t a ç ã o . E c o m o as
• c u l t u r a s a g r í c o l a s s e e s t e n d e m a q u i p o r z o n a s cada vez m a i o r e s , é t a m b é m c a d a vez m a i o r a n e c e s s i d a d e q u e s e n t i m o s d e o b t e r d o e s t r a n g e i r o o s i n s t r u m e n - t o s de t r a b a l h o i m p r e s c i n d í v e i s á g r a n - de o b r a c i v i l i z a d o r a . D ' a h i o desequilí- b r i o p e r m a n e n t e , s e m p r e _ d e s f a v o r á v e l , d a n o s s a b a l a n ç a c o m m e r c i a l , q u e s ó s e p o d e r á i n v e r t e r d e f i n i t i v a m e n t e q u a n d o
a área p r o d u c t i v a em e x p ' o r a ç ã o alcan- ç a r m a i s d e m e t a d e d a superfície t o t a l
d a P a t r i a .
A s c o n d i ç õ e s e c o n o m i c a s d a F r a n ç a , i n t e i r a m e n t e d i v e r s a s , p e r m i t t e m - l h e , de- p o i s de crise g r a v e , e q u i p a r a r as cifras d o seu c o m m e r c i o e x t e r i o r c o m facili- d a d e r e l a t i v a . O c a p i t a l p o r ella empre-
g a d o n a c o m p r a d e m a t é r i a s p r i m a s , v o l t a a c r e s c i d o , o u t r a vez, á n a ç ã o , l o g o q u e , ao f i m de l i m i t a d i s s i m o t e m p o , taes m a t é r i a s p r i m a s , t r a n s f o r m a d a s pelo tra- b a l h o fabril, são d e n o v o e n v i a d a s p a r a f ó r a d o p a i z .
D e a c c o r d o c o m o r e s u m o e s t a t í s t i c o p u b l i c a d o a g o r a , a s i m p o r t a ç õ e s france- z a s s o f f r e r a m n o a n n o d e 1921, relati- v a m e n t e ao a n t e r i o r , a d i m i n u i ç ã o im- m e n s a de " v i n t e e seis m i l h õ e s trezen- tos e o i n c o e n t a e seis m i l h õ e s c q u a t r o - c e n t o s e v i n t e e q u a t r o m i l f r a n c o s " , b a i x a n d o d e francos 4 9 . 9 0 4 . 8 9 7 . 0 0 0 e m 1 9 2 0 a f r a n c o s 2 3 . 5 4 8 . 4 3 7 . 0 0 0 em 1921
— ou seja " m e n o s da m e t a d e da c i f r a t o t a l a n t e r i o r 1"
Q u a n t o á e x p o r t a ç ã o , a l c a n ç o u ella a s o m m a g l o b a l , e m 1921, d e f r a n c o s 2 1 . 5 5 3 . 1 0 1 . 0 0 0 , c o n t r a 2 6 . 8 9 4 . 9 3 8 fran- cos e m 1920, o u s e j a m m e n o s francos 5 . 3 4 1 . 8 3 7 . 0 0 0 .
A d i f f e r e n ç a e n t r e a i m p o r t a ç ã o e a e x p o r t a ç ã o , q u e fóra d e 2 3 . 0 0 9 . 9 5 9 . 0 0 0 f r a n c o s n u m a n n o , j á n o s e g u i n t e s e re- d u z i u a 1 . 9 9 5 . 3 7 2 . 0 0 0 .
Em r e l a ç ã o ao B r a s i l , s ã o estes os al- g a r i s m o s d o c o m m e r c i o f r a n c e z , e m mi- lhões- de f r a n c o s :
Importação
E m 1 9 2 0 8 8 1 E m 1921 5 3 7 D i f f e r e n ç a p a r a m e n o s . 3 4 4
Exportação
E m 1 9 2 0 3 6 2 E m 1921 1 2 9 D i f f e r e n ç a p a r a m e n o s . 2 3 3
Conclue-se d e s t a s c i f r a s t e r e m sido o s s a l d o s " a n o s s o f a v o r " , e m m i l h õ e s d e f r a n c o s :
E m 1920 5 1 9 E m 1921 4 0 8 D i f f e r e n ç a p a r a m e n o s . 111
N o d i s c u r s o c o m q u e o a d d i d o com- m e r c i a l b r a s i l e i r o e m P a r i s , sr. F r a n - cisco G u i m a r ã e s , r e s p o n d e u , p o r delega- ç ã o de todos os seus c o l l e g a s , ao b r i n d e do m i n i s t r o D u p e y r a t , frizou esse es- f o r ç a d o f u n c c i o n a r i o a i m p o r t a n c i a cres- c e n t e d a m i s s ã o d e s e m p e n h a d a p o r essa classe especial de a g e n t e s r e p r e s e n t a t i - v o s , a c u j a a c ç ã o t a n t o d e v e o desen- v o l v i m e n t o d o c o m m e r c i o i n t e r n a c i o n a l . E a g o r a , q u e o C o n g r e s s o , a p ó s h a v e r t o m a d o c o n h e c i m e n t o d a l i m p i d a mensa- g e m d o sr. p r e s i d e n t e d a R e p u b l i c a , v a i refazer o o r ç a m e n t o de despeza, é op- p o r t u n o l e m b r a r aos legisladores a ne- cessidade de fornecer-se ao pniz, c o m a r e o r g a n i z a ç ã o do seu a p p a r e l h o de pro- p a g a n d a no e s t r a n g e i r o , c o m a c r e a ç ã o de n o v o s c a r g o s de a d d i d o s e da repar- t i ç ã o c e n t r a l d e i n f o r m a ç õ e s c o m m c r - ciaes, o s m e i o s q u e t ã o l a m e n t a v e l m e n t e l h e t ê m faltado^ a t é h o j e , de desenvol- ver p r a t i c a e i n t e l l i g e n t e m e n t e o sei*
c o m m e r c i o exterior.
Afonso Lopes de Almeida.
( " O P a i z " ) .
V I D A F O R E N S E
O cyclo do idealismo, m e s m o nesta phase grosseira da v i d a h u m a n a , ao con- t r a r i o d o que m u i t a gente pensa, a i n d a n ã o se encerrou. H o j e , como nos pri- meiros séculos da civilisação christã e na éra e s p l e n d i d a da cavallaxjia a n d a n t e , a i n d a ha q u e m m o r r a por u m a idca e q u e m padeça por u m a crença. Mudou-se apenas o c o n t e ú d o de u m a e outra. N ã o se põe mais d e n t r o da crença a f i g u r a de um D e u s , nem se indaga da espiri- t u a l i d a d e d a idéa. Época d a " j a z z b a n d " , q u e é a expressão m u s i c a l da doença de S ã o G u i d o , t u d o nos serve h o j e , n a m e i a d e m e n c:a em que vivemos, para exercício di f a c u l d a d e de r e n u n c i a e de ascenção q u e , ora viva, era adormecida, ora visí- v e l , ora occulta, c a d a u m d e n ó s t r a z d e n t r o de si. E x i l a d o s os deuses, cana- nalisa-se a fé em d i s p o n i b h d a d e para o c u l t o dos p r o g r a m m a s em q u e os politicos desdobram a sua capacidade de cynisrno e das promessas de b e m a v c n t u r a n ç a 60- cial com q u e as se:tas rc\olucionarias l a u d a n i s a m as misérias do rebanho hu- m a n o . M e n o s exigentes q u e o s j u d e u s do Ê x o d o , n ã o p e d ' m o s q u e seja de o u r o o bezerro a c u j o s pé? deitamos o t r i b u t o da nossa adoração. A c c e iamol-o até de barro e n ã o nos r e p u g n a que elle seja, no real ou no f i g u r a d o , um touro annoso...
D e m o n s t r a ç ã o eloquente desse pheno- m e n o psychologico ahi está nesse caso forense, q u e o " E s t a d o " n o t i c i o u na sex- ta-feira u l t i m a , — no caso d a q u e l l a da- ma que, por a m o r a u m a boneca, agitou os ti b u n a e s civis e c r i m i n a e s , a f i m de obter para a c o m p a n h e i r a q u e se apode- r o u da f i g u r i n h a q u e r i d a um aposento na cadeia publica. N a conquista d o velocino de o u r o . T h e s e u n ã o gastou provavel- mente' mais e n e r g a do que a d i s p e n d i d a na retomada da boneca, por essa deinan- dista heróica. A proesa do grego recla- m o u m u i t o menos obstinação e m u i t o me- nos sangue f r i o ao q u e a dóse m i n ma sem a q u a l n ã o se leva a termo, em nossos dias, com êxito ou sem elle, o mais insi- g n i f e a n t e processo.
D u a s causas i n t e n t o u a d a m a para ad- q u i r i r a boneca. Imagine-se quantas n ã o i n t e n t a r i a se, em vez da boneca, lhe hou- vesse a a m i g a escamoteado o e s c o l h d o do coração, se ella n ã o é das q u e pensam q u e os h o m e n s v a l e m rnenos q u e as bo- necas. . .
O que mais nos- a d m i r a , neose episodio, n a o é a f r i a i n t r e p:d e z da d a m a q u e se a v e n t u r o u aos trabalhos e as decepções de do s processos. E' a soberba da q u e s u p p o r t o u até o f i m , por amor da boneca, os intoleráveis i n c o m m o d o s dus ócis pro- cessos e v i u , sem desfallecimento. abr r-se, a pouco e pouco, para sorvel-a, as portas d o calabouço. N e m A b e l a r d o recebeu n u n c a de Heloisa d e m o n s t r a ç ã o de a m o r tão ardente como essa q u e u m a simples boneca acaba de receber das duas d a m a s q u e a d e p u t a r a m . A guerra de T r o y a , c o m o p h e n o m e n o d e aberração m e n t a l ,
m i n g u a de i m p o r t a n c i a diante dessa ba- t a l h a forense. Trucidarem-se dois povos- pela posse de u m a m u l h e r , q u e era a mais bella do tempo, é l o u c u r a , mas, lou- c u r a q u e se c o m p r e h e n d e e que. p e l a SUÍ galanteria, se a b s o l v e . . . D e g l a d a - rem-se, p o r é m , duas pessoas na arena dos tr b*iraes, q u e é toda s u l c a d i de l a m i n a s cortantes, para o d o m í n i o de u m a boneca, é coisa que ultrapassa a nossa capacidade de c o m p r e h e n s ã o c .le i n d u l g ê n c i a .
A t é agora f i g u r a v a e m p r i m e r o l o g a r , na lista das pendencias curiosas entre- m u l h e r e s , aquella que, a proposito da m a t e r n i d a d e de u m a criança, foi senten- c ada por S a l o m ã o . D ' o r a v a n t e , esse lo- gar pertence, de pleno direito á contro- vérsia sobre a m a t e r n i d a d e da boncca.
M u i t a gente h a v e r á para q u e m este episod:o n ã o será mais do q u e u m a sim- ples florescência no terreno j u d i c i á r i o , da rose ra do capricho f e n r n i n o , q u e é a mais tenaz, a mais p r o l f e r a , a m a:s avassaladora e a m a:s venenosa das plan- tas ^ h u m a n a s . E n t r e t a n t o , n ã o é a s s m . S e r á antes, parece-nos, m a n i f e s t a ç ã o s'n- g u l a r da fatalidade c da e x h u b e r a n c a do- a m o r na a l m a da m u l h e r . C a n ç a d a de a m a r bonecos de c a r n e e osso, e n t r o u ella a a m a r bonecas d e " b s c u i t " . . . E ' u m a expressão n o v a d o m e s m o s e n t i m e n t o q u e a submette á t y r a n i a pouco asseiada.
dos cães e dos gatos. A sua necessidade de affectos n ã o soffre i n t e r r u p ç ã o , n e m disfarce. E' p e r m a n e n t e e :mperiosa. P a r a . satisfazel-a, tanto lhe m o n t a um boneco locomovei, como u m a boneca estatica — u m h o m e m o u u m a f i g u r a d e porcellana.
N e m se diga q u e é u m a e x t r a v a g a n c:a . R e s p o n d e r i a ella q u e n ã o é: entre a bo- neca de louça e o boneco de m u s c u l o s a d ' f f e r e n ç a é m u i t o m e n o r do q u e se c u:d a . E' apenas de c a l o r : o boneco tem- no p r o p r i o , ao passo q u e a boneca pre- cisa que lhe c o m m u n i q u e m . De espirito não- ha entre os dois d i f e r e n ç a a p r e c i a v e l . . . ( " O E s t a d o " ) .
L E I D E I M P R E N S A
A proposito da debatida questão de u m a lei de m p i < n s a no Brasil, escreve- ram os nossos b r i l h a n t e s collegas d ' " O '
" E s t a d o d e S ã o P a u l o " :
•4E ' prece to eterno de justiça q u e a todo accusado se devem proporcionar os- n i c o s de defesa: na imprensa n a c i o n a l , contra o q u e se pratica em todo o mundo- civilisado, esse preceito é letra m o r t a . U n i 1'o.ncm i e r i d o cm sua h o n r a , i n j u r;ado, e n l a m e a d o , coberto de calumnias- atrozes, ach n c a l h a n d o com requintes de ferocidade ignóbil, ou tem q u e a p p e l l a r para o r e c u s o terrível do r e v ó l v e r , ou tem q u e res'gnar-se a tragar todos os d:a s u m a a f i o n í a , a ver todos os d as o seu n o m e r o l a n d o nas sargetas. P o r q u e o recurso ás nossas famosas leis, ás nos- sas m a g n i f i c a s , a d m r a v e i s leis, é dispen- dioso, é lento é precar o, e é quasi sem- pre c o n t r a p r o d u c e n t e .