Preparação especial do "INSTITUTO MEDICAMENTA"
FONTOURA, SERPE & - S. Paulo
O S I N I M I G O S D O T E L E G R A P H O Os leitores conhecem a historia, certa- m e n t e apocryplia, do c a m p o n ' o simplo- r i o , que, ao enviar noticias ao fi l h o , sol- d a d o e m A f r i c a , lhes j u n t o u u m par d e sapatos, que suspendeu a o f o electrico, p e r s u a d i d o de que o e m b r u l h o seria trans- p o r t a d o , n u m f e c h a r de olhos, da Fran- ça a A l g é r i a .
Os camponezes estão lioje mais fami- liarizados com o telegrapho, p r e f e r i n d o o
" c o l i s " postal ao '.clegraphioo, e m q u a n t o esperam q u e o " c o l s " por avião seja d e f i n i t i v a m e n t e i n t r o d u z i d o nos nosso3 usos e costumes.
T o d a v i a , o u t r a r a z ã o ha para q u e o c a m p o n i o n a d a m a i s suspenda ao fio te-
Ielcgraphico, e as crianças se a b s t e n h a m de tirar pedras aos postes. E' por que a lei os d e f e n d e e os infractores são seve- r a m e n t e p u n i d o s .
A s s ' m , os postes lelegraphicos, os fios e isoladores são » m a l m e n t e respeitados pelo h o m e m . T ê m , p o r é m , outros inimi- gos, q u e n ã o r á c i o : i n a m e m u i t a s vezes escapam á v gilancia e repressão. S ã o cs a n i m a e s q u a d r u p e d e s , os passaras, peixes e os proprios ir,tectos.
Os p e x e s atacam os cabos submari- nos. O espadarte é o mais temivel. En- contram-se aos cabos f r a g m e n t o s de bar- b a t a n a , em f ô r m a de espada, de são pro- v d o s , a q u a l penetra até os fios do cabo q u e arrebenta.
T a m b é m se observaram sérias avarias, p r o d u z i d a s p o r baleia, no cabo do golfo Persico. O cetáceo, coberto de parasitas, q u i z e r a desembaraçar-se delles, esfrígan- do-se de e n c o n t r o ao cabo, e com tama- n h a violenc a e persistência, q u e o en- v o l t o r i o se r o m p e u . O e n o r m e m a m m i f e r o f o i c o l l r d o pelas j u n e ç õ e s dos fios, q u e o e s t r a n g u l a r a m c o m p l e t a m e n t e .
A i n d a mais p e r g o s o s são alguns ver- mes, p r i n c i p a l m e n t e o " t e r e d o n a v a l i s " , q u e corroem e f u r a m o cabo, a b r i n d o os fios protectores, o envoltorio de c a n h a m o e a gutta-percha, de tal m o d o , que o cabo, collocado e m g r a n d e extensão, f c a em condições de n ã o poder ser r e p a r a d o , t e n d o de ser substituído.
F e l i z m e n t e está ahi a telegraphia sem f i o , para compensar l a r g a m e n t e a tele- g r a p h a s u b m a r n a , até q u e de todo a
substitua. v As linhas telegraphicas terrestres es-
t ã o mais expostas aos ataques e á hos- t i l i d a d e dos a n i m a e s do q u e as submari- nas.
M u i t o s q u a d r u p e d e s esfregam-se de en- c o n t r o aos postes, q u a n d o sentem comi- c h ã o , e n ã o raro é v ê r u m a vacca ou um cavallo d e x a r o pasto e ir coçar-se nos postes das estradas.
N o s pa zes h a b t a d o s por macacos, estes q u a d r u m a n o s alçam-se aos fios e nelles se b a l a n ç a m como n u m trapézio, estor- v a n d o , assim, a c o m m u n i c a ç ã o telegra- phica.
Os passaros, como corvos, pegas e gra- lhas alcandoram-sc nos fios e d e i t a m , no local o n d e p e r m a n e c e m , uina c a m a d a de g u a n o , bastante p r e j u d i c i a l ás l i n h a s te- l t g r a p h i c a s . N ã o falemos dos pardaes, d a s a n d o r i n h a s e de outros passarinhos, q u e p a g a m c a i o a sua temeridade, q u a n d o fazem poleiro dos fios. A' p r i m e i r a trans- rr. ssão electrica levam um choque terrí- vel e v ã o despedaçar a cabeça de encon- tro aos postes e ás pedras. No c a t i v o são f r e q u e n t e m e n t e encontrados passaros mor- tos j u n t o aos postes do telegrapho.
U m dos i n i m i g o s alados perigosos p a r a o telegrapho é o pica-pau. que trepa nas arvores para caçar insectos. Dá bicadas fortes nos f u r o s dos 'soladores de porcel- l a n a o u v i d r o , j u l g a n d o q u e servem d e esconderijo aos insectos. E n ã o ?e enga- n a , p o r q u a n t o , m u i t a s vezes mais de um ali se aboleta, e as a r a n h a s tecem as teias nos logares o n d e o telegrapho n ã o f u n c c i o n a constantemente.
Os norueguezes constataram m u ' t a s ve- zes q u e o urso é i n i m i g o do t e l e g r a p h o , e q u e deruba os postes.
Explica-se. O r u m o r p r o d u z i d o pela t r a n s m i s s ã o da corrente eléctrica é se- m e l h a n t e ao z u m b i r das abelhas; d a h i o aerditar o urso q u e os isoladores são colmeias, d e r r u b a n d o o poste, q u e é, para elle, u m a arvore, a f i m de fazer c a h i r a presupposta colmeia e colher o m e l de q u e tanto gosta.
O s lobos, a o c o n t r a r i o , e v i a m , com p r u d ê n c i a , possar por baixo das l i n h a s telagraph cas, parecendo q u e as t o m a m p o r a r m a d i l h a s suspensas.
Os suécos aproveitam-se do seu t e m o r p r u d e n t e , estabelecendo os curraes, t a n t o q u a n t o possível, nas p r o x ' m i d a d e s dos te-
Iegraphos.
O R I G E N S A R A B E S D E D A N T E E D E P A S C A L
E ' o hespanhol M . A s i n Palacios q u e m , em estudos tão p r o f u n d o s q u ã o curiosos,, d e m o n s t r o u a s origens m u s u l m a n a s d a Divitta Comedia r e ' n t e g r a n d o assim o Is- lam entre os elementos q u e t ê m p r e s i d i d o
á nossa arte occidental.
O p r i m e i r o versciulo da " S o u r a t e X V I I " , int t u l a d o A viagem nocturna, m a r c a o inicio das invest gaçõca de M.
A s i n . Sobre u m simples vers'eulo d o Al- corão, a i m a g ' n a ç â o oriental p r e p a r o u as
m a i s s u r p r e h e n d e n t e s visões.
T o d o um cyclo de hadits ou c o m m e n - tar-os se abre lá. d e s e n v o l v e n d o as mara- vilhas q u e o propheta, m o n t a d o sobre o cavallo feérico Borac, ou c o n d u z i d o pelo a r c h a n j o G n b r e l . v i u nos m u n d o s ultra- terrestres. T o d a u m a escliatologia se ima- g i n a lá em c ' m a : descripção das tortu- ras da gelienna e das alegrias do p a r a i z o .
U m a p r i m e :ra m é t a m o r p h o s é poética s e opera nos liaditht: aí dcscnp-rV • i ,n
a excitar os sentidos os m a i s d e l i c a d o s .
f
cs pelos quaes se pode exercitar já a se despregar da m a t e r a , isto é: o olfa- cto, o o u v i d o e a v i s t a ; o v i a j a n t e se eleva a ura paraizo se p e r f u m e s , de mu- sica e de l u z .
O m a i s c o m p l e t o desses desenvolvi- m e n t o s da legenda p r l m:t i v a é consti- t u:d o p o r u m a parte do Fotuhat, u m a obra do theologo A b e n a r a b i de M u r c i e , pertencente á seita dos soufiles, i j i o é, dos mysticos. fcille é drs c i p u l o dcAbenmo- sarrd, um theologo cordovão instruido por d o u t r i n a s orientaes, cm p a r t x u l a r da he- resia m o n t a z i l t a e da philosophia ale- x a n d r i n a , e q u e devia i n f l u e n c ' a r pro- f u n d a m e n t e a escholastica christã.
O Fotuhat d ' A b e n a r a b i c o n t e m o h:s- torico d u m a evolução interior, u m a auto- b i o g r a p h ' a religiosa semelhante á d ' u m a S a n t a T h e r e z a , ou d u i n santo Jean-de-Ia- C r o:x . Esses exetcicios, sinceramente nar- rados e a t t i n g i n d o aos mais altos extasies, nos m j s t r a n . n ã o somente q u e a m y s t e a christã e a inystica m u s u l m a n a são ir- m ã s , mas q u e ha entre seus adeptos u m a espccie dc u n:d a ú c psychologica.
T o d o s os detalhes das visões infernaes e paradisiacas d ' A b e n a r a b i , a descripção des s u p p l i r i ^ s c a ascensão através as efpherac celestes apresentam com a Divina Comedia i n n u m e r a s relações. A demons- t r a ç ã o de M. A s i n se desenrola com um r i g o r q u e p e r t u r b a . A semelhança mani- festa-se poi t u d o . D a n t e , por outro lado, fala s e g u d o dos arabes. E l i e considera o I s l a m i s m o n ã o como u m a religião dif- f e r e n t e , mas como u m a seita christã.
D a n t e t r a n s m u d a a velha legenda e a applica a sua v i d a e a eleva a ..-ua al- t u r a . U n i a v a j e m através o i n f e r n o , o p u r g a t o r i o c o paraizo torna-se u m a via- j e m através u m a a l m a h u m a n a .
M . A s:n Palacios escreveu u m estudo do m e s m o g e n e r o sobre as origens arabes d o s estudos de Pascal. A argumenta- ção de Pascal se e n c o n t r a no theologo a r a b e Al-Ghazali.
O s a p a i x o n a d o s trabalhos d e M . A s i n Pa"acios nos m o s t r a m como d u a s civiii- azções p o d e m f o r j a r sobre o p r o b l e m a d o a l é m concepções similares.
Jean Cassou.
íML a C o n n a i s s a n c e " )
A I N S T R U C Ç A O N O P I A U H Y O D r . J o ã o L u i z F e r r e i r a , g o v e r n a d o r d o P i a u h y , r e u n i u e m T h e r e z i n a , u m congresso de m u n i c i p a l i d a d e s , no q u a l os representantes dos 31 m u n i c í p i o s do Es- t a d o a d o p t a r a m p o r u n a n i m i d a d e as se- g u i n t e s resoluções:
" 1 . * — C a d a m u n i c í p i o d e s p e n d e r á c o m a i n s t r u c ç ã o p r i m a r i a v i n t e p o r c e n t o , n o m í n i m o , d o t o t a l d e s u a r e c e i t a arre- c a d a d a a n n u a l m e n t e .
2 . " — A I n t e n d e n c i a de c a d a m u n i c i - pio_ procederá, de 5 em 5 a n n o s , a prin- c i p i a r d e J a n e i r o d e 1 9 2 2 , a o recensea- m e n t o d a p o p u l a ç ã o e m e d a d e e s c o l a r , i s t o é, d o s 7 aos 14 a n n o s de edade. O r e s u l t a d o ^ deste r e c e n s e a m e n t o s e r v i r á de base á c r e a ç ã o de e s c o l a s p a r a c a d a sexo o u p a r a a m b o s o s sexos e n g l o b a d a - m e n t e , n a p r o p o r ç ã o d e 5 0 a l u m n o s p a r a c a d a escola das c i d a d e s e v i l l a s , e 25 n o s p o v o a d o s .
3.® — As escolas m a n t i d a s p e l a s m u - n i c i p a l i d a d e s f i c a r ã o sob a j u r i s d i c ç ã o t e c h n i c a e a d m i n i s t r a t i v a d a D i r e c t o r i a G e r a l d a I n s t r u c ç ã o P u b l i c a , q u a n t o a o r e g i s t r o escolar, f i s c a l i s a ç ã o e n o m e a - ç ã o d e p r o f e s s o r e s . O s m u n i c í p i o s for- n e c e r ã o p a r a e s s a s escolas, a l é m dos v e n c i m e n t o s dos p r o f e s s o r e s , c a s a p a r a s u a i n s t a l l a ç ã o , m a t e r i a l escolar e de e x p e d i e n t e , l i v r o s , p a p e l e r o u p a a o » a l u m n o s pobres. Os professores n ã o po- d e r ã o r e s i d i r n o s p r é d i o s esco'ares.
4." — Q u a n d o o m u n i c i p i o n ã o p u d e r m a n t e r escolas p a r a i n s t r u c ç ã o p r i m a - r i a , será a p p l i c a d o seu a u x i l i o p a r a a i n s t a l l a ç ã o e m a n u t e n ç ã o de escolas' es- t a d u a e s e p a r a d e s e n v o l v i m e n t o do en- s i n o d e i n i c i a t i v a p r i v a d a .
5." — As subvenções a escolas de ini- c i a t i v a p a r t i c u l a r , feitas e m c o n s e q u ê n - cia d a c o n c l u s ã o a n t e r i o r , s ó d e v e r ã o ser r e a l i z a d a s q u a n d o essas escolas apre- s e n t a r e m o n u m e r o de m a t r i c u l a s indi- c a d o n a c o n c l u s ã o 2 .a, o b s e r v a r e m o p r o g r a m m a das escolas p u b l i c a s e pre- e n c h e r e m os d e m a i s r e q u i s i t o s do re- g u l a m e n t o g e r a l d a i n s t r u c ç ã o d o Es- t a d o , f i c a n d o f a c u l t a d o a o m u n i c i p i o exi- g i r t a m b é m o e n s i n o g r a t u i t o p a r a crian- ç a s p o b r e s .
6.» — C a d a m u n i c i p i o p o d e r á d e n t r o da q u o t a c o m q u e c o n t r i b u i r p a r a a ins- t r u c ç ã o p r i m a r i a , m a n t e r o u s u b v e n - c i o n a r a l u m n o s n o c u r s o d a escola nor- m a l , o s q u a e s s e o b r i g a r ã o , depois d o c u r s o , a o m a g i s t é r i o n o m u n i c i p i o "
Q U E S T Õ E S S O C I A E S
O C R I M E O R G A N I S A D O Deu-se, ha dias, nesta cidade, um fa- c t o horrível, d e u m horrível p r o f u n d o e
inenarravel, como um pesadelo obsessor.
E n t r e t a n t o , passou quasi d e s p e r c e b i d o ! Vrn t e l i n h a s singelas e frias de um jor- n a l , perdidas entre m i l outras coisas, c o n t e n h a m embora o extracto c o n d e n s a d o d o s horrores possíveis, passam sempre despercebidas.
V a m o s ao theatro, e a a v e n t u r a vul- gar de um pôtro i n s o f f r i d o , m e l o s a m e n t e a p a i x o n a d o por u m a lambisgóia ingrata, nos põe tremeiiques na palpebra h u m i d e c i d a ; e, da platéa ás galerias, percebe-se q u e r e c h i n a m , em suspiros abafados, e n t r e f u r t i v o s revôos de lenços, as comportas da universal choradeira, prestes a estala- rem — só p o r q u e o m o ç o r o m â n t i c o g e m e com e l o q u e n c i a e sem v e r g o n h a as decepções o seu appetite. L e m o s u m a n o v e l l a , e scrip ta nos c o n f i n s o m u n d o , com u m a t r a m a nos c o n f i n s d o passado e da r e a l ' d a d e ; e bate-nos o coração com m a ' s força ao enxergarmos, meio diluí- do em tantas b r u m a s , um espectro vaga- m e n t e h u m a n o que soluce u m a desven- t u r a corriqueira. Passa, p o r é m , a Des- g r a ç a ao •€ de n ó s , e espalha soifrimen- tos atrozes, com u r r o s e g e m i d o s soan- tes com sangue e lagrimas de v e r d a d e , c o m desesperos e pavores q u e sacolejam e esfarrapam almas v i z i n h a s ás nossas,
— e n a d a vemos, n a d a pejeebemos. n a d a sentimos, beat f c a m e n t e occupados á p r o c u r a de emoções d y n a m i s a d a s , cm li- vros e obras dc arte, m u i t a s vezes va- zios de h u m a n i d a d e e de intelligenc'a c o m o esculpturas de papelão e gesso ar- m a d a s com sarrafos!
*
O caso do o u t r o d i a é de u m a sim- p l i c i d a d e atroz.
E m S . P a u l o h a le:s q u e p r o h i b e m o trabalho d a s crianças nas fabricas; mas —
as fabricas r e v o g a m as leis e a p r o v e i t a m o t r a b a l h o das crianças. S ã o estas u n s operários ideaes: fracos, m a s espertos, t m i d o s , respeitosos; governam-se facil- m e n t e ; g a n h a m pouco. V e n h a , pois, quan- to m a i s se p u d e r a r r a n j a r dessa l e n h a t e n r a e preciosa, q u e a r d e bem e custa b a r a t o ! Encham-se as o f f i c i n a s de rapa- zelhos na p r i m e i r a flor, delgados e palli- dos estes, corados e jov'aes aquelles, u n s buliçosos e brincalhões como borbole- tas. outros silenciosos e diligentes como f o r m i g u i n h a s a j u ' z a d a s ; l a b u t a m mono- t o n a m e n t e em cantos escuros Je galpão, a dobrar impressos, v e r g u e m e suem ao peso de cargos, m a n o b r e m m e c a n i c a m e n t e a cochilar, ao pê de um appai lho estu- p r o . tostem-se a o calor d e u m a caldeira ou ao bafo de um f o r n o , absorvam ga- zes, ácidos, saes e p o e r a s nocivas be- zuntem-se de graxas e tintas, encurvem- se, repuxem-se, torçam-se e esfalfem-se na repet'ção i n d e f i n i d a de p o s ç õ e s for- çadas e de m o v i m e n t o s excess vos, per- cam a côr e a alegria, t o m e m ares pá- vidos de c ã e z:n h o s m a l t r a t a d o s , ou ares opacos de h o m e n s sem mais m n o c e n c i a n e m m a:s d o ç u r a , chatos e r u d e s . . . o h ! q u e importa t u d o isso, desde q u e as m a c h i n a s f u n o c i o n e m e a fabrica r e n d a i
Quebra-se ás vezes um braço, ás vol- tas de u m a p o l i a ? Rebentam-se todos os dedos da m ã o sob o c h o q u e de u m a bar- ra de ferro ou ao golpe de u m a alavan- ca? Parte-se u m a cabeça no soalho, ao peso de u m a r u m a de coisas, por effeito de um tropeção :n f e l i z ? T u d o sso é n a d a d i a n t e do interesse s u p r e m o das empre- sas ricas, conchavado com a g a n a n c i a ignorante dos paes.
V a i d a h i , h a dias, u m p e q u e n o d e doze annos, cançado, ao f m do t r a b a l h o , adormeceu n u m canto da f a b r i c a , e lá f i c o u esquecido.
S o m n o pesado devia ser o seu — o s o m n o dos q u e t r a b a l h a m e n ã o fazem m a l ; s o m n o descuidado, s o m n o tran- quillo, talvez povoado de doces v s õ e s .
Q u a d r o interessante: as e n t r a n h a s com- plicadas de u m a fabrica em socego, cheia de sombras p r o f u n d a s com laivos de cla- ridade f r o u x a , de o n d e em onde, a lam- berem traves, ferragens, perfis de ma- cn n a s ; e. neste a m b i e n t e desolado e al- g i d o , r e s o n a n d o sobre um caixão, sere- n a m e n t e , como n u m a cama d e p l u m a s e m seu lar aconchegado e f e l i z , u m a crian- ç a d e doze a n n o s —
M a s n a fabrica h a v i a u m g u a r d a terrí- vel. Esse g u a r d a terrível d s p u n h a , p a r a o seu serviço, de cinco ou seis cães po- liciaes, fortes e bravos, afeitos a f a r e j a r carne h u m a n a , e com dentes m a g n i f e o s n u n s t n h x i l U i es òe aço. O r a , o g u a r d a , q u a n d o a noite era fechada, sahiu, como de c->stuinc, a percorrer a fabrica, levan- do os seus bellos cães p o r diante. Os molossos c o r r e m , a f u r o a m , f a r e j a m , e, de repente, d ã o com o p e q u e n o adorme- cido. Estacam, l a d r a m e ra v a m , erriçan- do o pello, a r r e b:t a n d o a orelha, arrega- n h a n d o a d e n t u ç a , a l ç a n d o a c a u d a , e acabam por investir com o m e n i n o , q u e , n a t u r a l m e n t e , já acordado, sc encolhia r e t r a n s i d o de pavor, defendendo-se com os braços, e m o r d e m furiososo, e reta- l h a m roupas e carnes, e a r r a n c a m talvez pedaços frementes e sangrentos do cor- p n h o e s t r e b u c h a n t e . . .
A c ó d e af nal o g u a r d a , c o n t é m os cães, e soccorre a c r a n ç a . M a s , antes houvesse deixado q u e morresse logo! E l l a só mor- r e u m u i t a s horas mais tarde, após inú- teis e atrozes cuidados qi^e só p u d e r a m prolongar-lhe a agon a e o -soffrimento.
*
Imag:ne-se um pouco, se é possível, o q u e se passou na a l m a desse desgraçadi- n h o que acorda de repente atacado, c o m o u m a n i m a l bravio, por u m a m a t i l h a d e cães a s s a n h a d o s . . . E imagine-se a ex- pressão de horror com q u e elle succum- b u no seu m a r t y r í o .
P o b r e c r a n ç a ! O teu sacrifício a i n d a seria b o m , se tivesse a v i r t u d e de levar u m rebate bastante forte á s c o n s c e n c i a s e m p e d e r n i d a s e ás almas egoístas e cruéis, e dahi resultasse acabar-se com a igno- m i n i a , a i n f a m e exploração d o trabalho i n f a n t i l , em terras de S. P a u l o . A t u a agonia espantosa a i n d a poderia ser aben- çoada, se fosse o s'gnal da r e d e m p ç ã o para esse i m m e n s o rebanho, composto de m l h a r e s de meninos-forçados como t ú , q u e desabrocham f r o u x a m e n t e para a v i d a n u m a atmosphera escura e pestosa de m a l v a d e z , de nsensibilidade e de hypo- c r s i a . A t u a m o r t e seria quasi bella no seu horror, se tivesse o poder de l a n ç a r u m a sincera, religiosa r a i a d a d e p e d a - de. de arrepend m e n t o e de t e r n u r a atra- vés der,ta sociedade esteril e chata, f u t l e feroz, q u e esmaga e devora impass vel os renovos e as flores da própria vita- lidade. M a s , pobre cr a n ç a ! A t u a trage- d:a parece que n e m sequer f o i percebi- d a . . .
E' certo que os j o r n a e s a n o t i c i a r a m , — r a p i d a m e n t e , como c u m p r i a em caso tão'
breve, tão simples e tão " d e s a g r a d á v e l M a s a historia n ã o a b r i u o m i n i m o sulco*
na consc encia da p o p u l a ç ã o .
N ã o h o u v e para ahi coração d e m u l h e r q u e deixasse escapar u m b r a m i d o d e m a t e r n dade arrepiada, diante desse me- n i n o de doze annos q u e d o r m e descui- doso e t r a n q u lio, e acorda dilacerado e t r i t u r a d o entre as tenazes e as p ú a s de seis fauces diabalicas. N ã o h o u v e bocca.
de sociologo, de p h i l a n t h r o p o . de educa- dor ou de moralista, que viesse c l a m a r contra o estup do, o ignóbil descaso com q u e tratamos a i n f a n c i a pohre sujeitando-a a um regimen a t r o p h i a n t e e desmorali- sador de escravidão ao d i n h e i r o dos ri- cos. N ã o h o u v e sequer consc.encia bas- tante destemerosa ou bastante despren- d da, para se dar o g r a n d e ' n c o m m o d o de um protesto contra esta i n n . j m i n a v e l ini- q u i d a d e e esta r e q u i n t a d a ferocia de se fazer p o l:c ' a de fabricas com o auxilio- de toda u m a m a t i l h a de cães, sob o risco, já agora p r o v a d o , de se t r u c i d a r um i n n o c e n t e , ou de se c u m p r i r u m a injus- tiça m m o r a l e s a n g u i n a r i a , sem processo- c sem exame, i n d o i m m e d i a t a m e n t e da suspeita ao s u p p l i c i o !
M a s , porque essa ind f f e r e n ç a ? E' sim- ples. A população a n d a v a attenta a ou- tros objectos, mais sérios do q u e a m o r t e Je u m a criança, fosse embora n u m de- sastre h o r r i p i l a n t e e culposo.
H a v i a as exhib ções f u t u r s t a s : a arte e a literatura são fontes de alta em >ção (com q u e se regalam p r i n c i p a l m e n t e os.
i n ' c:a d o s ) — e a V;d a , ao q u e parece, n ã o c o m m o v e , n e m interessa. H a v i a o C a r n a v a l q u e chegava: o tempo era escas- so para os preparativos da s u m p t u o s a e réles bacchanal, — ú n i c o verdadeiro d:- v e r t i m e n t o possível para u m a sociedade q u e v i v e aos balanços entre a crueldade- t ô r v a e o sensualismo esbagachado, e q u e é incapaz desses doces recolh mentos do espirito, em q u e as almas rei giosas e:
sinceras se vão rehaver e reconfortar em silencio. E b a v ' a a c a m p a n h a presidencial
— outra m o d a l dade do p r o f u n d o e co- heso c a r n a v a l i s m o i n d i g e n a , feita como- os demais de espectaculosidades, de ru- mores. de vaias, de intrigas, d? impostu- ras e de " f a n t a s ' a s " , e que, como as de- mais, depois de dar a impressão de um oceano em f ú r i a , acaba tristemente, ao- r a i a r de u m a quarta-feira de cinzas, corno- um prest:to desmantelado e roto sob a c h u v a . . .
P o r sso. à pobre c r i a n ç a ! a t u a trage- dia enternecedora e m e d o n h a appareceu, nos jornaes, aos olhos i n d i f f é r e n t e s da.
m u l t i d ã o , como o relato resfriado de al- g u m a atroe dade or:ental. colhido em li- vros de argila com inscripçÕes cunéifor- mes, dos tempos de Assur-bani-pal, ou de- S e n n a c h e r b e .
M a s , a o cabo, t u a i n d a foste fel'z. T u d o n n a?, t r a n q u i l l a , n u m canto da fabri- ca. S o n h a v a s , talvez. Talvez sorrisses.
O asfalto da ferocidade h u m a n a trans- f u n d i d a nos cães deu-te a amostra mais.
•'ntensa e perfeita desta c i v i ü s a ç ã o c a n i n a , q u e o r g a n i s o u o er me, para o q u a l o»
a m o r e a d o ç u r a são v e r g o n h a ; e, em
•seguida, lançou-te p a r a o o u t r o m u n d o ,
•onde c o n t i n u a r a s o teu somno t r a n q u ilo,
•e talvez — q u e m sabe? — o teu sonho 1 Amadeu Amaral.
( " O E s t a d o " , 4-3-922).
P O L I C I A D E C A E S I
E ' r a d e Christo. S é c u l o X X . E m S ã o P a u l o . N o interior d e u m a f n h r c a .
Silencio e solidão. N a s sombras da n o i t e m o r t a , entre raros rrtallios de es- cassa claridade, m a l se d i s t ' n g u e m os v u l t o s negros das g r a n d e s m a c h i n a s , as quaes, m u d a s c inimoveis como q u e se a m o n t o a m , exhaustas de fadiga, a dormi- rem o pesado s o m n o da materia inerte, p a r a l y s a d a , por a l g u m a s horas, a cyclopi- ca f o i ç a , q u e lhes i n f u n d e , na muscula- t u r a de aço, a intelligencia h u m a n a .
Já vai alta a hora E m b u ç a d o em seu capote, porrete á m ã o . em passo lento e cauto, l a n ç a n d o o o l h a r p e r q u i r j r , ora p a r a a d:reita, ora oara a esquerda, um h o m e m entra a percorrer os corredores, longos e escuros.
E o v i g i a da fabrica, um pobre diabo, q u e , para n ã o m o r r e r á fome, al: passa as no'tcs a m o n t a r . { u a r d j a i s milhC"S do patrao, e m q u a n t o este. descuMlndo C f e l i z , d o r m e r e g a l a d a m e n t e , n a desfrueta o s n o c t u r n o s prazeres d a f o r t u n a . A ' sua f r e n t e , correm, alvoroçados, s a l t a r i l h a n d o , f a r e j a n d o os cantos, desapparecendo a q u i , r e s u r g i n d o acolá, seis terriveis cães po- liciaes.
S ã o a g u a r d a do g u a r d a .
O r a , na vespera, prostrado pela can- seira de oito ou dez horas de t r a b a l h o , um pobre m e n i n o de doze annos, — a
"bem dizer u m a c r a n ç a ! — recostára-se sobr* um m o n t e de lenha a um canto escuso da fabrica. E, q u a n f o esta se es- v a s i o u , ao cahir da n o i t e , da m u l t i d ã o de operários, vencidos de fad:sra e de f o m e , m a s alegres com o p e n s a m e n t o de Tepouso nos modestos lares, aquelle ope- r a r i o s i n h o h u m i l d e para a l: f i c á r a , aban- d o n a d o , a d o r m i r p r o f u n d o s e m n o . A d o r n r r e a sonhar, talvez. A sonhar q u e já era m o ç o e forte, q u e já menos lhe pesava o r u d e trabalho q u o t i d i a n o , q u e j á g a n h a v a m a:s a l g u n s m i l réis diários, e que, embora, estes m a l lhe dessem p a r a c o m p r a r o suado pão de cada dia, tal- v e z já lhe fosse poss:vel pedir a namo-
rada e m c a s a m e n l o . . .
C o m o é b o m s o n h a r ! E q u e l i n d o so- n h o a q u e l l e !
E i s q u e de Súbito, o rapazelho acorda, t r e m u l o d e susto: o u v i r a , bem j u n t o aos seus o u v i d o s , u m r u m o r pavoroso, q u e , de começo, n ã o p o u d e c o m p r e h e n d e r se era o rolar de trovões, ou o r u g i r de al- g u m a f é r a . . . M a s , a i ! n ã o era u m a f é r a : eram seis féras, q u e , de i m p r o v i s o
e de r o l d ã o , se l h e a t i r a r a m sobre o fran- zino corpo, e n c a r n i ç a d a e sanguiseden- t a m e n t e .
D e s v a i r a d o pelo terror, o mísero ope- r a r i o s i n h o tenta levantar-se, para correr, para f u g i r , para defender-se ao m e n o s a pontapés, dos se:s ferocíssimos molossos.
J á n ã o p o u d e , p o r é m , sequer levantar-se.
I ' o u d e apenas gritar. G r i t o u , apenas, m a s n ã o só de m e d o : g r i t o u de d ô r , n u m de- sespero i n e n a r r a v e l , p o r q u e sentia reta- lharem-se-lhe as vestes e rasgarem-se-Ihe as carnes, nos dentes, agudos como p ú a s , daquelles seis lobos b r a v os.
A c o r r e , presurosamente, o g u a r d a , o chefe da m a t i l h a , a m r o s o por se apoderar d a caça h u m a n a ( a l g u m l a d r ã o . . . ) , pela qual o patrão lhe d a r i a , com certeza, u m a grossa g o r g e t a . . . M a s , ao deparar a scena, r e c u o u , h o r r o r i z a d o , como um cri- minoso em presença da sua v e t i m a : o p e q u e n o o p e r á r i o , com as roupas dilacera- das e tintas do sangue q u e lhe escorria, cin filetes, das faces e das m ã o s , n e m j á , com estas, p o d ' a m a ' s cobrir, se- q u e r , o rosto, contra a implacavel sa- n h a das seis dentuças, q u e o investiam, pois a c a b á r a d e s m a i a n d o .
A q u e l l e d e s m a ' o já era o começo da a g o n i a f r a n c a : desvelos da f a m i l i a , re- cursos d a m e d i c i n a , f o i t u d o i n ú t i l . E , ao cabo de longas horas de atrozes sof- f r m e n t o s , o desgraçado o p e r a r i o s i n h o p o u d e , e m f i m , c o n t i n u a r o seu d e r r a d e i r o r o m n o , d o q u a l , j á agora, n ã o conse- g u i r ã o m a i s arrancal-o o egoísmo dos scelcrados dinheirosos e a ferocidade dos seus cães de f i l a !
N i n g u é m se oceupará m a i s com o caso.
N ã o se g u a r d a r á sequer o n o m e desses p e q u e n i n o m a r t y r d a actual organisação
" d e s t a sociedade esteril e chata, f ú t i l e feroz, q u e esmaga e devora impossível os renovos e as flores da sua propria vi- t a l i d a d e " , desta " s o c i e d a d e q u e v i v e aos balanços entre a c r u e l d a d e tôrva e o sensualismo e s b a g a c h a d o e m s u m m a , desta nossa a d m i r a v e l " c i v i l i z a ç ã o cani- n a , q u e o r g a n i z o u o crime, e para a q u a l o a m o r e a d o ç u r a são v e r g o n h a . . . "
M a s , sobre a s e p u l t u r a , rasa e sem lou- sa, desse a n o n y m o p e q u e n i n o m a r t y r , mais r e f u l g e n t e do q u e os soberbos 6ar- cophagos da o p u l ê n c i a , ficará refulgin- do, c o m o um halo de g l o r i a a f o r m o s a g r i n a l d a d c piedade, q u e , como a l g u é m já disse, c o m m o v i d a m e n t e lhe teceu em artigo e m o c i o n a n t e , o alto e nobre espi- r.to d e A m a d e u A m a r a l .
E, ao lado dessa g r i n a l d a , ha de f i c a r a arder, p e r e n n e m e n t e , a c h a m m a pu- ríssima da sagrada i n d i g n a ç ã o do poeta, para q u e i m a r , como un» c a s t r o , as faces dos q u e se a p p r o x i m e m desse t u m u l o , sem sentirem nellas um pouco de calor, de revolta, ou de v e r g o n h a .
Heitor dc Moraes.
( " C o m m e r c i o de S a n t o s " , 19-3-922).
P O L I C I A D E C A E S I I
N ã o f a l t a r á q u e m d i g a , e j á foi dito, q u e esse caso, da morte do p e q u e n o ope- r a d o , esquecido a d o r m i r n u m c a n t o da f a b r c a , é, sem d u v i d a , impressionante c doloroso, mas, a f i n a l de contas, se re- d u z apenas a um l a m e n t a v e l accidente.
Na v e r d a d e , n ã o é j u s t o se p r e t e n d a ver, no triste facto, u m a prova directa da m a l d a d e f r i a , com que, salvo raras excepções, os senhores industriaes cos- t u m a m tratar os seus operários. M a s , n:n g u e m p o d e r á negar q u e esse episodio é u m a vergonhosa consequência do espi- r i t o de i n i q u o e sordido egoísmo, q u e preside, a n d a h o j e , e m p l e n o meio-dia da civilização, a nossa evolução social.
A h i está a p r o v a , a t r e m e n d a p r o v a , de q u e é um verdadeiro c r i m e a h a b ' t u a l apathia, a i m m ufa v e l inércia, em q u e p e r m a n e c e m , na sua quasi totalidade, os nossos c h a m a d o s estadistas, em face dos m ú l t i p l o s , graves c delicados problemas da questão social, a q u a l , em u l t i m a ana- lyse, o u t r a ceisa n ã o é sinão a u r g e n t e , a ínadiavel necess:dade, sentida por todos os povos cultos, de se r ; f o n n a r , de alto a b a i x o , de m a n e i r a m e n o s i n j u s t a e m a i s h u m a n a , o actual regimen do t r a b a l h o .
Um dese^ problemas mais del'cados é o da r e g u l a m e n t a ç ã o do trabalho f a b r i l da in f a n e ia. Este é um dos m a i o r e s m a l e s , de q u e çoffre a sociedade mo- d e r n a , c u j a rnelnor v i t a l i d a d e , c u j o san- gue nia's n o v o , p o r q u e é o sangue da in- f â n c i a , e c o n s t a n t e m e n t e dessorado, en- v e n e n a d o , e l i m i n a d o , p^r esse c a n c r o r o a z , q u e , assim, lhe esgota, dia a dia, h o r a a hora, as forças v i v a s e as novas energias.
E n t r e n ó s , n ã o temos a i n d a , ou se os temos n ã o os applicamos convenientemen- te, leis e r e g u l a m e n t o s , q u e p r o t e j a m a s a ú d e , physica e m o r a l , dos infelizes filhos do proletariado, aos quaes a misé- ria, ou a g a n a n c i a dos paes obriga a sa- c r i f i c a r o m e l h o r da v i d a , q u e é a me- n:n i c e , n o penoso trabalho das f a b r i c a s . A s s i m , ao passo q u e , em varias legis- lações estrangeiras se estabelece o má- x i m o de seis a oito horas d i a r ' a s p a r a o trabalho dos menores, de 10 a 14 a n n o s d e edade, a q u i , n o B r a s i l , e m S . P a u l o , um dos seus maiores e m a i s cultos in- dustriaes, d e espirito r e c o n h e c i d a m e n t e liberal, confessou, coram populo, q u e nas suas fabricas tem a seu serv ço cerca de 300 crianças, de a m b o s os sexos, as quaes
" t r a b a l h a m todas dez horas, como os a d u l t o s " ; e q u e isto é um m a l , t a m b é m o reconheceu o m e s m o cavalheiro, em- b ó r a p r o c u r a n d o a t t e n u a r o seu conceito, nesta s i g n i f i a c t i v a c o n f i s s ã o . . . " o rela- tivo i n c o n v e n i e n t e , q u e confesso, do tra- b a l h o de dez horas p a r a essas c r a n ç a s . "
O r a , sem j á f a l a r d o q u e f i c o u , e d a m í s e r a dos salarios, q u e ellas g a n h a m , os quaes v a r i a m entre 1$200 e 2$000 por dia, pensemos, u m m i n u t o , nos perigos d e ' t o d a sorte, c o m q u e ameaça a in-
f a n c i a o t r a b a l h o fabril. A t é h o j e , e r a m conhecidos os perigos o r d i n á r i o s , resul- tantes d o f u n c ' o n a m e n t o das m a c h i n a s , o u dos descuidos dos i m p r u d e n t e s : u m a polia, q u e f i l a por u m braço u m infel z , e em segundos l h ' o t r i t u r a , ou l h ' o de- cepa, d e a r r a n c a d a ; u m a l i n g u a d a , q u e , de súbito, se desprende do g u i n c h o , e esmaga um thiorax, ou u m a cabeça; a r u p t u r a de um cano de a g u a a f e r v e r , q u e irrompe, inesperada, e escalda as faces de um desgraçado; o imprevisto es- c a p a m e n t o d e a l g u m gaz a s p h y x i c o ; u m a explosão i n o p i n a d a . . .
O que, p o r é m , até ha p o u c o , n ã o se conhecia, o de q u e n ã o se suspeitava, era esse • perigo e x t r a o r d i n á r i o , absoluta- m e n t e i n é d i t o , de esquecer-se um o p e r á r i o v c n c ' d o de cansaço, a d o r m i r n u m canto da fabrica, e de repente acordar n u m
«obresalto como n u m pesadelo, transfor- m a d o em pasto de cães ferozes! E i s o perigo, o i n a u d i t o perigo, d e n u n c i a d o no e m o c i o n a n t e artigo com q u e A m a d e u Ama- ral protestou " c o n t r a esta i n n o m i n a v e l i n i q u i d a d e e esta r e q u i n t a d a feroc:a de se fazer policia de fabricas com o au- xilio de t o d a u m a m a t i l h a de cães, sob o r'sco, já agora p r o v a d o , de se t r u c i d a r um i n n o c e n t e , ou de se c u m p r i r u m a i n j u s t ça í m m o r a l e s a n g u i n a r i a , sem pro- cesso e sem exame, indo i m m e d i a t a m e n t e da suspe ta ao s u p p l i c i o ! "
M a s , j á n ã o h a q u e a d m i r a r n a pra- tica de taes abusos, por part'culares, se se considerar que elles n a d a mais s ã o do q u e os fruetos n a t u r a e s dos altos exemploí, de a l t r u í s m o , d e m o n s t r a d o s pe- 'os detentores dos prderes públicos, nes- ta nossa l i b é r r i m a democracia de boto- cudos.
S i n ã o , v e j a m esta scena:
Em S a n t o s — na terra da liberdade, a
" C h a r . a a n dos c a p t i v o s " . N a P r a ç a d o s A n d r a d a s . N a Cadeia P u b l i c a .
I n j u s t a m e n t e suspeitado d a p r a t:c a d e um acto m u i t o v u l g a r , e, em seus effei- tos, m u i t o semelhante ao que, nas rodas da alta politica, tem a elegante qualifi- cação d e a d v o c a c a a d m i n i s t r a t i v a , u m pobre h o m e m do povo, com o rosto col- l a d o ás grades do xadrez, m a t a o seu t e m p o a observar o q u e se passa, no l u g u b r e casarão, j á m e r g u l h a d o nas pri- m e i r a s sombras da noite.
R e i n a , em t o r n o , o silencio, o silencio a b a f a d o das p r s Õ e s , o n d e , de q u a n d o em q u a n d o , sc o u v e o r a n g e r doá ferrolhos o brado das sentinellas, ou um g r i t o de desespero n o f u n d o d e u m cárcere.
E i s q u e se abre o pesado portão cen- tral. E n t r a m no pateo dois negros, em passo arrastado e cambaleante. Segue-os, de perto, o carcereiro, a c o m p a n h a d o de um e n o r m e cão policial. Os dois pretos, c o m u m a r d e a p a r v a l h a d o s , p a r a m , u m i n s t a n t e . . . D e s g r a ç a d o s l P o r q u e o u s a r a m p a r a r ? Cahe-lhes em c i m a , brutalmente»
a soccos e pontapés, o miserável, q u e os c o n d u z . N ã o reagem. S o f f r e m o i n s u l t o , sem u m a s ó p a l a v r a d e protesto. Ator- doados, dobram-se-!hes os joelhos, esten- dem-se p o r terra. O carrasco faz um ra-
p i d o s i g n a l ao cão. E s t e se l a n ç a , e n t ã o , sobre a s d u a s v i c t i m a s , e , n u m a f ú r i a egual á do seu d g n o e m u l o , e a m o , lhes estraçalha as vestes e lhes r o m p e os carnes. Presos de p a v o r , levantam-se os dois h o m e n s , com extrema d i f f i c u l d a d e . T e n t a m , n u m g r a n d e esforço, livrar-se com os braços e com os pés, das dentadas d o terrível a n i m a l . M a s , este c o n t i n u a a i n v e s t d a . Ataca-os, ora n u m salto, pondo-lhes as possantes patas sobre os h o m b r o s . ora n u m rastejo, cravando-Ihes nas pernas a d e n t u ç a de a ç o . . . E assim, acuados, c o m j caça, a d e n t a d a s , sopapos e pontapés, lá se v ã o os dois míseros pretos p a r a a solitaria, o n d e os aguar- d a m outros horrores de novos supplicios.
M a;s t a r d e , f o r a m r e m o v i d o s para o cárcere, o n d e , aos c o m p a n h e i r o s de infor- t ú n i o , m o s t r a r a m a s pernas a i n d a man- chadas do sangue escorrido das denta- d a s , q u t lhes déra o cão, com t a m a n h a f ú r i a , q u e , cm certos pontos, lhes atra- vessaram as carnes, de um lado p a r a o o u t r o .
H a v e r á a i n d a , c m Santos, q u e i n du- v i d e da veracidade d'esse caso, c o n h e c i d a como é, e de ha m u i t o p r o v a d a , a mons- truosa, a i n a u d i t a ferocidade da p o l i c i a c a n i n a , q u e a q u i campea a solta, a as- saltar a bolsa e a v i d a dos desprotegidos, e a m a n c h a r Je opprobio as tradições d'este n o b r e povo, a m a n t e da l;berdade e a m i g o da j u s t i ç a , c u j o passado se co- b r i u d e g l o r i a n a c a m p a n h a libertadora dos escravos?
C u s t a a crer, na v e r d a d e . M a s , eu creio, p o r q u e a vergonhosa scena me f o i n a r r a d a p o r u m a testemunha ocular. E essa t e s t e m u n h a , h o m e m do povo, hu- m i l d e m a s h o n r a d o , merece a b s o m t o cre- d i t o .
Q u e a P r o v i d e n c i a se amcrceie de nós, n a s u a i n f i n i t a m i s e r i c ó r d i a I
Heitor de Moraes.
( " C o m m e r c i o de S a n t o s " , 21-3-922).
N O T A S D O E X T E R I O R
" A S D A K Z A S a U I J O T E S C A S "
O s n o v o s
P a r a a " R E V I S T A D O B R A S I L "
I . S a l v a d o r A l f r e d o G o m i s .