Assim, uma vez estabelecida a influência decisiva do cognitivismo na Psicologia Social — em particular em sua corrente psicológica —, os rumos e os desenvolvimentos deste campo de estudo foram definitivamente retraçados de forma a possibilitar desdobramentos ulteriores que resultaram na postulação contemporânea da abordagem da Cognição Social.
O primeiro deles estabelece que o foco da Cognição Social é a investigação mesma dos fundamentos cognitivos de todo e qualquer fenômeno social, considerando, por conseguinte, que tanto as estruturas quanto os processos cognitivos, além de elementos constitutivos da Cognição Social, estão inerentemente entrelaçados e devem assim ser analisados e compreendidos. ―[...] in a social cognition approach structure and process are inherently intertwined, so that efforts to understand one require some attention to the other as well‖ (HAMILTON; DEVINE;
OSTROM, 1999, p. 3).
O segundo ponto relevante é o que reconhece o modelo do processamento da informação como o modelo base para a compreensão do fenômeno social.
In any circumstance, the person attends to and encodes information from the (real or imagined) social context, interprets and elaborates on that information through evaluative, inferential, and attributional processes, and represents that elaborated
―knowledge‖ in memory, from which it later can be retrieved for use in subsequent thought and judgment processes and for guiding behavior. [...] The goal of the social cognition approach is to understand how these information processing mechanisms mediate the social perceptions and behaviors that have always been the grist of social psychology‘s mill (HAMILTON; DEVINE; OSTROM, 1999, p. 3-4).
O terceiro ponto diz respeito à assunção da Cognição Social sobre diferentes domínios da Psicologia Social. Nesse sentido, entende-se que o fenômeno social a ser investigado é o cerne da questão e que a perspectiva apresentada pela Cognição Social tão-somente pretende servir como uma outra possível abordagem ao fenômeno. ―The phenomena to be understood are the heart of social psychology.
Social cognition‘s role is to offer new explanatory constructs to explain these phenomena‖ (HAMILTON; DEVINE; OSTROM, 1999, p. 4).
O quarto e último ponto deixa claro que a Cognição Social é, antes, uma abordagem — dentre outras tantas possíveis — e não uma área específica e própria de estudo.
Social cognition is not defined by any particular content or substantive issue, but rather by an approach to one‘s content or issue. [...] that approach rests on an information processing analysis that guides one‘s conceptual and empirical investigation of the cognitive processes underlying one‘s topic. As such, its application is not constrained by content; it can be adopted in the study of any topic in social psychology (HAMILTON; DEVINE; OSTROM, 1999, p. 5).
Esclarecendo ainda mais os pressupostos que fundamentam a Cognição Social, Fiske e Taylor (1991, p. 14) sugerem que seu objeto específico de estudo é a investigação sobre como as pessoas significam a si e aos outros. E que, como tal, é relevante para o estudo das atitudes, da percepção social, dos estereótipos, dos pequenos grupos, dentre outros. Nesse sentido, identificam quatro pressupostos básicos comuns sobre as quais se fundamentam as pesquisas sobre Cognição Social nestes campos de estudo.
The first of these assumptions, an unabashed commitment to mentalism (cognition), has just been discussed at some length. The cognitive elements people naturally use to make sense of other people [...] (p. 14).
The second basic assumptions in research on social cognition concerns cognitive process, that is, how cognitive elements are formed, used, and changed over time (p.
15).
The third theme, cross-fertilization between cognitive and social psychologist, is another feature of social cognition research [...] (p. 16).
The fourth theme of social cognition research is application to real world. [...]. Social cognition applications to real-world issues define some boundary conditions for cognitive process. That is, the research reveals phenomena that do not lend themselves to a purely cognitive analysis; other factors must be considered in many interpersonal settings of consequence (FISKE; TAYLOR, 1991, p. 17).
Deste modo, seja perscrutando os elementos cognitivos que o homem usa para significar os outros e o mundo em vive; seja investigando como tais elementos se formam, se transformam e são usados; seja compreendendo a aplicação teórica e metodológica dos pressupostos cognitivistas à Psicologia Social; ou seja aplicando tais pressupostos às situações mais cotidianas; a Cognição Social, como abordagem psicossociológica, abre caminho para novas e diferentes investigações acerca das interações humanas e de suas conseqüências.
Depreende-se, então, que a Cognição Social — como perspectiva analítica de fenômenos sociais — desenvolve-se fundamentada em dois aspectos básicos.
Primeiro busca investigar a forma como as pessoas, em interação social, constróem seus entendimentos acerca de si próprias, dos outros e do contexto que a todos inscreve e circunscreve. E, segundo, alicerça sua investigação nas estruturas, nos processos e nos conteúdos cognitivos que constituem o fenômeno social. Estruturas, processos e conteúdos estes que, entre si, formam uma unidade estrutural indissolúvel, uma vez que o homem constrói seu entendimento acerca do real (conteúdos significativos) a partir da codificação e da avaliação das informações que dele extraí e, posteriormente, representa na memória (estruturas) como conhecimento elaborado.
É nesse sentido, pois, que a Cognição Social se estabelece como uma abordagem da Psicologia Social destinada ao entendimento de processos psicossociais. Acrescente-se, todavia, que é uma das abordagens existentes e, se se considera a distinção entre uma Psicologia Social psicológica e uma Psicologia Social sociológica, esta abordagem é notadamente de cunho psicológico. O que não invalida, tampouco prioriza ou sugere primazia, nem para ela nem para qualquer outra abordagem, uma vez que partem de pontos de vista diferentes e distintos.
Mais uma conclusão parcial — a segunda — já pode ser, então, antecipada neste estudo. Se, como ressalta Pinker (2004) não há como sustentar a existência de uma cisão absoluta entre natureza e cultura, dentre outras coisas, porque o cultural só existe a partir do biológico uma vez que
[...] a mente é equipada com uma bateria de emoções, impulsos e faculdades para raciocinar e comunicar, que têm uma lógica comum a todas as culturas, são difíceis de apagar ou redesenhar a partir do zero, foram moldados pela seleção natural atuando ao longo do evolução humana e devem parte de sua estrutura básica (e parte de sua variação) a informações no genoma (PINKER, 2004, p. 111).
Se, nesse sentido, a cognição assume papel central nesta relação entre a natureza e a cultura. E, no caso específico da Psicologia Social, a perspectiva cognitivista — psicológica — é capaz de fornecer fundamentos sólidos, lógicos e, sobretudo, congruentes à apreensão e compreensão da realidade que nos inscreve e circunscreve.
Se a Cognição Social, como abordagem cognitiva desta Psicologia Social psicológica, se destina à investigação e intervenção nos fenômenos de ordem psicossocial, através da análise e compreensão das estruturas, dos processos e dos conteúdos cognitivos que lhes são subjacentes.
E se a cultura é parte integrante deste cenário; seja considerada — do ponto de vista individual — como alicerce que possibilita a cada ser humano atribuir sentido e significado a si próprio, ao outro e ao mundo em que vive; seja considerada — do ponto de vista social — como a caracterização típica de determinado grupo humano — no caso específico deste estudo, a cultura das organizações sociais de produção.
Parece não só possível, do ponto de vista teórico, mas perfeitamente coerente e lógico, do ponto de vista empírico, a elucidação das convergências que se podem estabelecer entre a abordagem da Cognição Social e o fenômeno da Cultura Organizacional, partindo do pressuposto que a análise propiciada pela Cognição Social acerca das organizações sociais de produção possa efetivamente contribuir para a transformação efetiva destes sistemas organizacionais quando necessário. Isto de forma a proporcionar condições de trabalho mais dignas ao ser humano e, consequentemente, viabilizar o desenvolvimento sustentável e sustentado destas organizações e da sociedade como um todo. Situação esta que, hoje, ainda não se configura como tal, um vez que as transformações
organizacionais são sempre muito difíceis e, no mais das vezes, não levam em consideração as reais condições de trabalho a que sujeitam os homens.
4 CULTURA ORGANIZACIONAL E COGNIÇÃO SOCIAL
Considerando que o objetivo último deste estudo é o de investigar as convergências possíveis entre o fenômeno da cultura organizacional nas organizações sociais de produção e a abordagem psicossociológica da Cognição Social — de forma a verificar a viabilidade e a oportunidade de aplicação desta abordagem na análise, compreensão e intervenção nas manifestações culturais dessas organizações — convém que se esclareça, antes, as relações que se pode estabelecer entre cultura e cognição.
Nesse sentido, o capítulo em questão, primeiro, cuidará de elucidar estas relações para, em seguida, discutir as convergências que se pode estabelecer entre o fenômeno da cultura nas organizações sociais de produção e a Cognição Social como abordagem teórica da Psicologia Social.