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Coió: Um ato político

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 118-142)

A partir do reconhecimento dessas diferenças, se faz necessário compreender que as relações se alteram de acordo com o lugar e posição que se ocupa em determinado contexto. O poder não existe, o que existe são as práticas ou relações de poder que se estabelecem na sociedade. Dessa forma, ele é próprio do funcionamento da sociedade, como nos diz Foucault (1987). À medida que poder e saber estão diretamente implicados, deixam de estar centralizados em uma figura e espalha-se pela sociedade, exercendo sobre os corpos individuais, por meio de exercícios especialmente direcionados a ampliação de suas forças. A partir dessa perspectiva, o coió aparece como um medidor de forças nas redes sociais, em que o saber e o poder atuam de forma entrelaçada a fim de exercer uma prática política assumida nos debates.

localização que não os implanta, mas os distribui e os faz circular numa rede de relações, criando espaços arquiteturais, funcionais e hierárquicos.

Pelo fato do uso dos aparatos tecnológicos estarem ligados à distração e diversão, muitos educadores mostram uma maior resistência ao uso dos mecanismos tecnológicos para o auxílio no processo de ensino-aprendizagem, justamente por não haver uma divisão clara entre diversão e aprendizagem. Na definição da instituição escolar, Sibilia (2012) aponta que sua capacidade de adaptação aos novos fenômenos é limitada, e que sua eficácia e sentido podem ser perdidos para as futuras gerações. Já que os valores socioculturais, econômicos e políticos, mudam também os indivíduos e os corpos, alterando também a forma como esse irá interagir com o mundo e se adaptar aos processos de aprendizagem.

Quando se fala das redes sociais, e do uso das mesmas, “esse nível de atualização da autoformação se dá a partir de cooperações. Ele se regula mais numa dinâmica de desenvolvimento gradual no tempo que numa dinâmica de manifestação.”

(GALVANI, 2002).

Tenta-se enxergar um muro que está sendo destruído nesse processo que conhecemos como pós-mídia. Onde essas relações de comunicação podem se dar de forma mais livre e aberta entre as pessoas, onde as celas que separam as pessoas dão uma acessibilidade à conversa e à troca, dentre os iguais e os diferentes. “...Com a esperança de identificar os novos rumos da mudança social em nossa época e de estimular um debate sobre as implicações práticas (e, em última instância, políticas) dessas hipóteses” (CASTTELS, 2013, p.12-13)

O processo de autoformação que vêm acontecendo nas redes sociais, ao mesmo tempo em que estabelece um ambiente que se discute as diferenças, também se estabelece como ambiente de perpetuação dos discursos conservadores. Do mesmo modo que temos a possibilidade de ampliar e fazer ecoar vozes antes silenciadas, há também um processo de potencialização de vozes machistas, homofóbicas, racistas e etc.

Como temos visto nos últimos anos, o espaço virtual se tornou um grande espaço de disputas e as redes sociais se tornaram um ambiente de troca para os que se encontram e se sentem pertencente ao mesmo grupo social, étnico e de gênero. É necessário chamar a atenção para os processos que se dão nas duas vias, por vezes é um lugar em que a discussão e a ampliação de reflexão se fazem impossível. Muitas pessoas, quando entram no Facebook para debater ou discutir

seu ponto de vista, não estão dispostas à reflexão, mas apenas em apresentar sua ideia e convencer aos demais de que ela é a melhor. Tentando empurrar de forma violenta e autoritária o seu parecer aos que discordam e buscam uma reflexão ampla dos assuntos em debate.

O coió é uma palavra com alguns diferentes significados, mas para grande parte do grupo LGBTTT é comumente utilizada para dar significado a ações como:

tapa, ‘fora’, esculacho e afins. Tendo as redes sociais, como esse locus comum, estar munido de conhecimento e informações é importante para se disputar os espaços e debates, onde diferentes posicionamentos políticos e filosóficos se confrontam. Nesses encontros de ideias divergentes muitas discussões acontecem, promovendo um embate para que os debatedores consigam se saciar como vencedores do debate iniciado. Nesse processo de discussão muitas ideias podem ser submergidas ou elevadas, podendo assim contribuir para o acúmulo ou a aniquilação necessária da autoformação.

Quando ser e aparecer coincidem, o impulso de automostração85 (você é a medida que se mostra conforme acredita ser, compartilhar e produzir) se faz presente, sobretudo nas redes sociais. Tudo que pode ver deseja ser visto também.

Pensando no fato de que a subjetividade também se constrói através da linguagem, essas disputas conceituais ajudam no processo de dar formalidade à ideia e fortalece-la. Sobre essa perspectiva de automostração, tudo que pode ouvir e ler deseja falar e escrever. Torna-se importante usar certos debates que iniciam na rede como a inauguração de um futuro, um futuro que pode ser bom ou nem tanto, mas que está em constante disputa.

O coió como ato político pode ser compreendido como técnica desenvolvida nas redes sociais, como forma de punição discursiva como medida de correção para os comportamentos desviantes, útil para a formação do outro. O coió funciona como um exercício no processo de discussão online, que tenta corrigir os discursos desviantes aos pensamentos progressistas referentes a gênero e sexualidade. Quando Foucault afirma que “uma verdadeira e constante troca de saberes; garante a passagem dos conhecimentos do mestre ao aluno, mas retira do aluno um saber destinado e reservado ao mestre” (FOUCAULT, 1987,

85 “impulso de automostração – responder mostrando ao irresistível efeito de ser mostrado” (Hannah Arendt, 1999, p. 32).

p.155), faz referência ao exame que permite classificar e punir o aluno. Assim como o coió, surge em resposta a avaliação do discurso propagado de forma equivocada, a fim de “educar” aquela/aquele que o proferiu.

Como podemos ver na imagem a seguir em uma discussão iniciada no GDVF, onde uma das membras ao entender que não consegue convencer as outras do seu discurso, diz que vai se retirar do grupo, por compreender que ali não é mais seu lugar por ter uma visão diferente no debate que estava sendo realizado.

Figura 25: Coió como ato disciplinar (continua)

Fonte: Site de relacionamentos Facebook - Grupo de Discussão Vulva Fúcsia, 2016.

Como podemos observar na imagem acima, uma das membras diz que irá se retirar do grupo por compreender que ali, não é seu lugar, porque, segundo ela, sua opinião divergente não estava sendo aceita. Quando a membra seguinte a responde dizendo que ela tem que ficar, para assim aprender o seu lugar dentro do debate

estabelecido sobre o recorte étnico racial. A segunda membra então tem sua fala completada pela terceira membra, que completa dizendo que a primeira membra está tão disposta a estar certa que nega o racismo estrutural que se constituiu no Brasil. Pode-se observar nesse debate que esses “[...]Lugares determinados se definem para satisfazer não só a necessidade de vigiar, de romper as comunicações perigosas, mas também de criar um espaço útil. (FOUCAULT, 1987, p. 123). Essa discussão teve continuidade dentro do GDVF e em depois de muitos comentários, a primeira membro da imagem acima reconhece os erros do seu discurso apontado pelos outros membros do GDVF, como podemos observar na imagem seguinte:

Figura 25: Coió como ato disciplinar (continuação)

Fonte: Site de relacionamentos Facebook - Grupo de Discussão Vulva Fúcsia, 2016.

A técnica do coió, aqui apresentada, auxiliou o processo de reconhecimento de uma das membras dentro do GDVF, quando o discurso brando deixou de fazer efeito. Não que o coió seja sempre necessário para produção de efeitos na mudança de postura em algum debate, mas ele surge como recurso que pode contribuir nesse processo “educativo”.

O coió como ato educativo, em alguns casos, também é direcionado aos que se dizem querer apoiar determinadas causas (aos aliados). Quando os aliados não estão enquadrados em alguma situação que os coloquem em situação de ‘oprimido’, não estando no seu “local de fala”, dizem algo destoante no debate estabelecido, não estão isentos de levarem o coió, como um ato educativo.

Por mais empatia que os aliados tentem demonstrar aos que se encontram em situação de opressão, estes ainda se beneficiam do sistema opressor, colhendo seus benefícios e muitas das vezes reproduzindo tais violências, mesmo sem intencionalidade. Por mais que a empatia já seja o inicio de algo, nem sempre é o bastante para colocar o outro na pele do violentado, nem sempre as/os que recebem da sociedade um tratamento hostil sentem-se obrigados a serem didáticas/os a todo o momento. Quem sofre a violência simbólica ou física tem urgência de reverter o quadro. Como afirma um membro do GDVF em um de seus comentários na imagem abaixo.

Figura 26: A arte do coió

Fonte: Site de relacionamentos Facebook - Grupo de Discussão Vulva Fúcsia, 2014.

Ao pegar o trecho abaixo como referência ao que foi dito anteriormente, podemos observar essa urgência dos que estão sofrendo a violência física e simbólica de uma sociedade homofóbica.

(...) A luta contra essa homofobia e transfobia é uma coisa que eu preciso pra ontem, pq tem gente morrendo... a gente tem as medidas de trabalhar a longo prazo, que é o que está acontecendo, as afirmações de gênero e as medidas da coletividade lgbt, os debates, mas realmente é difícil lidar com os héteros que querem ser aliados mas estão em processo de desconstrução...

Por mais que os homens heterossexuais que querem ser aliados a causa LGBTTT, ainda assim reproduzem e/ou não conseguem compreender todas as problemáticas que ainda precisam ser enfrentadas, e é nessa dificuldade de entendimento que por vezes o coió, como diz o membro, se aplica.

Quando se reformula as estruturas, o papel e o lugar da/os indivíduas/os na mudança social nesse processo, por vezes implica não só em uma autoformação, mas também no esforço de construção da/o outra/o. E essa construção se dá por meio do debate, discursividade e coió. Para Lévy (2003, p. 28) “... uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências”. Por mais que haja o reconhecimento dessas habilidades, que podem ser utilizadas nas redes em prol de um processo de aprendizagem coletiva, a fim de partilhar tais conhecimentos, não podemos ignorar os que muito se esforçam para manter a sociedade estruturalizada exatamente da mesma forma que está: segregadora, racista, machista e homofóbica.

Fazendo uma busca no site de relacionamento Facebook, pode-se constatar o número de pessoas que ‘curtem86’ a página oficial do político Jair Bolsonaro87, cerca de 3.027.284 pessoas (até o dia 05/05/2016). O referido político é internacionalmente conhecido por seu posicionamento radical de oposição aos direitos humanos, direito das mulheres, dos negros e da população LGBTTT. Em contraposição a este político e suas idéias temos outro político: Jean Willys88 , que é conhecido por defender as causas das minorias, sua página oficial no Facebook reúne cerca de 1.201.846 pessoas (até o dia 05/05/2016). Como se pode observar, existe um número muito maior de pessoas que curtem a página do político conservador em comparação a do político com uma visão mais progressista, ambos foram eleitos ao cargo de Deputado Federal pelo Estado do Rio de Janeiro em 2014.

86 "Curtir" é um meio de fazer comentários positivos ou de conectar-se com coisas importantes para você no Facebook. Você pode curtir conteúdo de seus amigos publicam para fins de comentário ou curtir uma Página com a qual você quer se conectar no Facebook. Você também pode se conectar a conteúdo e Páginas por meio de plug-ins sociais ou anúncios dentro e fora do Facebook.

87 Página do político mencionado Jair Bolsonaro:

https://www.facebook.com/jairmessias.bolsonaro/?fref=ts (visto em maio de 2016)

88 Página no facebook do político mencionado Jean Willys:

https://www.facebook.com/jean.wyllys/?fref=ts (visto em maio de 2016)

Sendo o político Jair Bolsonaro o Deputado Federal mais votado no estado aquele ano.

Esse exemplo torna visível que as praticas e visões conservadoras ainda estão muito presentes em nossa sociedade. Ainda que estes espaços virtuais possam ser utilizados para a promoção da discussão em busca da equidade no que diz respeito à igualdade de direitos, ele é um espaço de disputa que necessita ser criado para fortalecer esse grupos que são tidos como minoria, fora dele, nos espaços em que a violência física se realiza.

O coió, nesse caso, passa a ser o processo de defesa do ponto de vista, nesses casos, de embates de ideias divergentes, no processo “disciplinar” que proporcionem a construção de conhecimento da/do outra/. Em que o debate se dá na tentativa de estabelecer o respeito às pessoas e a vida humana, independente do gênero e na sua diversidade sexual e étnica. Nesse sentido, fazendo uma referência as ideias de Foucault, o coió atua como prática das redes sociais, atreladas ao conjunto de militância estabelecida nos espaços virtuais. Como uma espécie de resposta daqueles que foram fabricados para serem máquinas de obedecer, moldados à submissão. Pode ser entendido como um rompimento do poder disciplinar da sociedade de controle, mas em readequação das mesmas práticas das instituições disciplinares.

Ao observar as redes sociais, podemos encontrar muitos grupos similares ao GDVF e compreende-los como uma ferramenta para o rompimento da repressão sofrida pelos grupos de mulheres, LGBTTT e outras minorias. Mesmo que ainda façam uso dos mesmos processos que se constituem as forma de controle social, aparentemente a violência. Assim como as redes sociais reproduzem as problemáticas sociais do mundo off-line, os que estão em posição de subalternidade, acabam se utilizando de formas similares do sistema disciplinador para causar um efeito no processo ensino-aprendizagem.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Início as considerações finais dessa dissertação com uma das respostas obtidas no questionário de pesquisa enviado ao grupo de discussão no Facebook Vulva Fúcsia:

...as redes sociais refletem muito do preconceito que se vivencia fora delas.

O q acontece é que ao nos colocarmos como sujeitos políticos assumimos esses espaços como um lugar de se brigar pelo que se acredita tbm. (sic)89.

Tais respostas foram utilizadas para algumas reflexões apresentadas no trabalho. O Grupo de Discussão Vulva Fúcsia e outros espaços que ilustram alguns acontecimentos nas redes sócias, apontam a finalidade da existência de Grupos nesses ambientes. Para além, nos mostra a necessidade de se construir espaços potencias de disputa política, social e ideológica em resposta a todo o conservadorismo ainda existente na sociedade, que potencializa e perpetua a violência contra grupos tidos à margem.

A interação entre os membros do GDVF possibilitam muitas situações de aprendizagem. A partir do momento em que algum/a desses membros colocam seus questionamentos, ou, levantam discussões mais acaloradas em temas mais polêmicos, contribui para a formação política e ideológica da/o outra/o, fortalecendo os argumentos dos que se colocam na discussão. Na observação do grupo, pôde-se acompanhar em algumas discussões em como esse processo contribui e resulta em mudança de opinião dos que estabeleciam o debate. Permitindo assim a desconstrução e desnaturalização das concepções essencializadas.

No início desse trabalho me volto para a pesquisa, no campo netnografico, com um olhar muito romantizado das redes sociais. No percorrer da pesquisa, foi sendo apresentado a mim um lugar que é tão hostil como qualquer outro. A diferença das redes sociais é que as pessoas tem um maior controle em escolher lidar somente com quem elas querem e sobre o tema que lhes é interessante. A minha observação de pesquisadora foi reconstruída e passei a compreender o campo de outra forma, ressignifiquei minha postura ao que a mim foi apresentado como fenômeno de postura e conduta social.

89 *O conteúdo do questionário contendo todas as respostas que contribuíram para a análise dessa pesquisa encontra-se nos anexos

Para Lévy (2003) a inteligência coletiva não é restrita a poucos privilegiados, ele considera que o saber do indivíduo pode ser considerado valioso e importante para o desenvolvimento de um determinado grupo. Ao tratar do tema gênero, sexualidade e feminismo nas redes sociais, está se coordenando os diferentes saberes sobre o tema no ciberespaço. Atrelando a ideia de Lévy (2003) à perspectiva de Paulo Freire: “Não há saber mais ou saber menos: Há saberes diferentes” (1987, p.68). O que se compreende nessas alegações no uso das redes sociais, é como esses espaços podem possibilitar esse tipo de encontro entre pessoas diferentes que estão dispostas a trocarem seus ‘saberes’ em prol de uma sociedade menos excludente e preconceituosa em relação as mulheres, aos grupos LGBTS, negras e negros e outras minorias.

Por meio da observação do Grupo e das temáticas referentes que surgiam no Facebook, mesmo fora do grupo, percebe-se que o Vulva Fucsia como um Grupo de Discussão é uma perspectiva micro do que vem acontecendo nas redes sociais.

Assim como existe o GDVF existem outros tantos grupos no Facebook que por mais micro que possam parecer ser, impactam as pessoas que ali se encontram, possibilitando uma conduta diferente na estrutura macro. Isso se reflete em como a passeata das mulheres em são Paulo e Rio de Janeiro foi construída, com intuito de interferir em uma lei que lhes parecia totalmente arbitrária. E nessas interferências, que por vezes parecem muito pequenas, diante de toda a necessidade de mudança da situação da mulher em nossa sociedade, é que se dá o inicio os processos de mudanças.

O Grupo de Discussão Vulva Fúcsia não tem a capacidade de mudar toda a estrutura da sociedade patriarcal, assim como outros pequenos grupos também não teriam. Mas essa possibilidade de abrir o diálogo, faz com que as pessoas ali presentes possam repensar muitas das questões que parecem dadas na construção de nossas subjetividades quanto mulher, lgbt e outras características que podem constituir a/o sujeita/sujeito.

A nomeação e identificação de um corpo como sendo feminino ou masculino se dão por meio da cultura adotada. A forma como grande parte da sociedade que conhecemos torna a concepção de masculino/feminino nessa configuração binária, relacionadas ao corpo biológico, ignora que essa nomeação do gênero não se faz apenas da nomeação de um corpo, mas do que se faz dele. “Os sentidos, a atribuição de significados e valores dos corpos (e de partes dos corpos) mudam

através do tempo e das comunidades” (NICHOLSON, 2000, p. 17). O ser mulher, por exemplo, tem sua definição alterada no decorrer dos séculos e décadas.

As exigências feitas ao ser feminino de hoje é diferente das exigências ao ser feminino de décadas atrás. Com a conquista de alguns direitos adquiridos no percorrer das lutas feministas, hoje se permite que as mulheres tenham um papel profissional, mas não deixam de exigir delas os valores morais e castradores. Nesse processo de limitação do exercício da sexualidade feminina, é muito comum observar no discurso de homens e mulheres (as que se mantém dentro dessa ordem estabelecida) que uma mulher que exerce sua sexualidade de forma livre não pode ser considerada uma “mulher de verdade”. Embora, o fato da sexualidade exercida de forma livre não tenha resolvido os problemas das questões de gênero, como bem ilustra Scott (1989).

E é nessa sociedade patriarcal, que tem a supremacia masculina (homens cis, heteronormativos, brancos e cristãos) como herança e que considera tudo o que foge ao homem/masculino tido como menor e inferior, que esta pesquisa foi realizada. O objetivo desse trabalho foi expor esses problemas e esboçar soluções reflexivas para as questões referentes às diversas violências que as mulheres cis, brancas, negras, hétero, lésbica e trans sofrem na sociedade. Compreender que a opressão de gênero é sistêmica na nossa sociedade, que ela se dá em diversas esferas e opera em inúmeras situações, do controle ao exercício da sexualidade às agressões físicas e verbais.

O bucetismo apresentado nessa dissertação aparece como alternativa combativa ao patriarcado, não como marca da biologização feminina, nem como revanchismo, mas como ressignificação do signo para uso das sujeitas. A partir do momento em que a mulher aprende a operar e usar a máquina, ela tem a possibilidade de usá-la como um instrumento para a transformação social, emancipação e fortalecimento das suas causas. Através da criação de grupos de autodefesa nas redes sociais, organizados horizontalmente, dando a todas/todos o direito à voz e comando.

Os conflitos suscitados no facebook nos permite notar que ele exerce um espaço de disputa, porém, um campo ainda que com maior liberdade, não deixa de sofrer ataques com a presença do conservadorismo que é refletido na sociedade.

Dito isto, pode-se dizer que o debate não se esgota, ainda há muito que se produzir

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 118-142)