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COISA JULGADA MATERIAL E COISA JULGADA FORMAL

Como é de se perceber – não esquecidas as demais indagações – o ponto nodal da problemática, para o presente trabalho, gira em torno da decisão que, ao constatar a inexistência de uma das condições da ação, extinguirá o processo sem o exame do mérito (lide) e, de conseguinte, não se sujeitará à imutabilidade da coisa julgada material, aos olhos do seu caráter meramente terminativo, assim como não haverá ocorrido atividade jurisdicional.

Dessa forma, esboçados os principais problemas a serem enfrentados com a adoção do instituo “condições da ação”, necessário se ter em mente a noção de coisa julgada material e coisa julga formal.

Indubitável que o juiz – antes de decidir o mérito – deverá apreciar os requisitos de admissibilidade do exame do mérito (pressupostos processuais e condições da ação), de forma que não preenchidos tais requisitos, sobrevirá à extinção do processo sem resolução do mérito.235

Tal episódio é definido por Cândido Rangel Dinamarco como “extinção anômala do processo”:

Verdadeira crise do processo só existe quando ele é extinto sem julgamento do mérito. Como toda instituição humana, o processo não é destinado a ser perpétuo e, precisando terminar um dia, ele termina de modo natural e ordinário quando seu objetivo se consegue – a pretensão trazida pelo autor é julgada e assim a tutela jurisdicional é concedida a uma das partes [...]; crise existe quando ele deve terminar sem esse julgamento. Ordinariamente diz-se extinção do processo para designar sua terminação anômala, ou seja, extinção sem haver cumprido o objetivo de julgar a demanda (CPC, art. 329), embora rigorosamente também haja extinção quando o mérito é julgado (art. 269).236

Nessa perspectiva, não é demais lembrar que esta decisão não ficará acobertada pela imutabilidade absoluta – ou seja, repercutindo efeitos na vida dos litigantes fora processo –, tendo em vista que “[...] só as sentenças de mérito, que decidem a causa acolhendo ou rejeitando a pretensão do autor, produzem coisa julgada material”.237

De toda sorte, o juiz desenvolveu as atividades necessárias para declarar inadmissível o exame do mérito238, pelo que “[...] a sentença se limita a decidir sobre o processo, extinguindo-o sem julgamento do mérito, sua imutabilidade é fenômeno puramente processual, inerente e interno ao processo que se extingue [...]”.239

Assim sendo, a imutabilidade – ainda que relativa – da sentença circunscrita ao próprio processo, quando “[...] exauridos os possíveis recursos contra ela

235 DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil: teoria geral do processo e processo de conhecimento. Bahia: Juspodivm, 2009, v.1, p. 535.

236 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil. 4. ed. São Paulo:

Malheiros, 2004, v. 3, p. 181.

237 CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; DINAMARCO, Cândido Rangel; GRINOVER, Ada Pellegrini.

Teoria Geral do Processo. 25. ed. São Paulo: Malheiros, 2009, p. 329.

238 CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; DINAMARCO, Cândido Rangel; GRINOVER, Ada Pellegrini.

Teoria Geral do Processo. 25. ed. São Paulo: Malheiros, 2009, p. 328.

239 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil. 4. ed. São Paulo:

Malheiros, 2004, v. 3, p. 296.

admissíveis, não mais se poderá modificá-la na mesma relação processual, dá-se o nome de coisa julgada formal [...]”.240

É também o que afirma Luiz Guilherme Marinoni: “a coisa julgada formal, como se nota, é endoprocessual, e se vincula à impossibilidade de rediscutir o tema decidido dentro da relação jurídica processual em que a sentença foi prolatada”.241

Em expressiva síntese, elucida Cândido Rangel Dinamarco que “coisa julgada formal é a imutabilidade da sentença como ato jurídico processual”.242

A propósito, Antônio Carlos de Araújo Cintra, Cândido Rangel Dinamarco e Ada Pellegrini Grinover destacam as situações em que haverá coisa julgada formal, de modo a não propalar seus efeitos fora do processo:

Não têm essa autoridade (embora se tornem imutáveis pela preclusão) as sentenças que não representam a solução do conflito de interesses deduzido em juízo – ou seja, as que põem fim à relação processual sem julgamento de mérito, as proferidas em procedimento de jurisdição voluntária, as medidas cautelares – assim como as interlocutórias em geral (salvo raras exceções).243

Dessa forma, na hipótese de inadmissibilidade do exame do mérito quando verificado o fenômeno “carência de ação” (art. 267, VI do CPC), por se tratar de decisão terminativa – i.é., por não adentrar no mérito da questão – torna-se possível a repropositura da ação, desde que sanados os defeitos identificados.244

Isso ocorre por expressa disposição do art. 268 do Código de Processo Civil:

“[...] salvo o disposto no art. 267, V, a extinção do processo não obsta a que o autor intente de novo a ação. A petição inicial, todavia, não será despachada sem a prova do pagamento ou do depósito das custas e dos honorários de advogado”.245

Reproduza-se, aliás, a lição de José de Albuquerque Rocha:

Se o processo foi encerrado sem decisão de mérito, ou seja, sem que o Estado tenha-se pronunciado sobre a situação jurídica substancial deduzida nele, a repropositura da ação é normal, vez que as partes têm direito à prestação jurisdicional. Mas se o processo foi

240 SILVA. Ovídio Araújo Baptista da. Curso de Processo Civil: processo de conhecimento. 7. ed.

Rio de Janeiro: Forense, 2006, v. 1, p. 456.

241 MARINONI, Luiz Guilherme. ARENHART, Sérgio Cruz. Curso de processo Civil: processo de conhecimento. 7. ed. rev. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2008, v.2, p. 642.

242 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil. 4. ed. São Paulo:

Malheiros, 2004, v. 3, p. 297.

243 CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; DINAMARCO, Cândido Rangel; GRINOVER, Ada Pellegrini.

Teoria Geral do Processo. 25. ed. São Paulo: Malheiros, 2009, p. 329.

244 DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil: teoria geral do processo e processo de conhecimento. Bahia: Juspodivm, 2009, v.1, p. 539.

245 BRASIL. Código de Processo Civil. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2009.

encerrado com decisão de mérito, a repropositura da ação traz sérios inconvenientes, pois põe em risco a certeza e a segurança jurídicas das relações entre as partes, certeza e segurança que são como sabemos, valores máximos do direito.246

Por essa razão, “[...] a chamada coisa julgada formal, em verdade, não se confunde com a verdadeira coisa julgada (ou seja, com a coisa julgada material)”.247

O art. 467 do Código de Processo Civil define coisa julgada material como

“[...] a eficácia, que torna imutável e indiscutível a sentença, não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário”.248

Em nível doutrinário Luiz Guilherme Marinoni explica que “[...] quando se alude à indiscutibilidade da sentença judicial fora do processo, portanto em relação a outros feitos judiciais, o campo é da coisa julgada material”.249

Por seu turno, José de Albuquerque Rocha define coisa julgada material:

Assim, a coisa julgada material consiste na proibição a qualquer juiz de pronunciar-se sobre uma sentença de mérito não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário. Em poucas palavras, a coisa julgada material é a imutabilidade da sentença de mérito, não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário, fora do processo em que foi proferida.250

Não é ocioso lembrar, todavia, que “a coisa julgada formal é pressuposto da coisa julgada material”.251

Nesse particular, convém reportar-se às palavras de Ovídio A. Baptista da Silva:

Com tal definição, de certo modo ambígua, pretendeu o legislador indicar que a imutabilidade que protege a sentença, tornando-a indiscutível nos processos futuros, somente poderá ter lugar depois de formar-se sobre ela a coisa julgada formal; ou seja, a coisa julgada material pressupõe a coisa julgada formal. Por outras palavras, para que haja imutabilidade da sentença no futuro, primeiro é necessário conseguir sua indiscutibilidade na própria relação jurídica de onde ela provém. Não há coisa julgada material sem a prévia formação da coisa julgada formal, de modo que somente as

246 ROCHA, José de Albuquerque. Teoria geral do processo. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2006, p. 185.

247 MARINONI, Luiz Guilherme. ARENHART, Sérgio Cruz. Curso de processo Civil: processo de conhecimento. 7. ed. rev. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2008, v.2, p. 643.

248 BRASIL. Código de Processo Civil. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2009.

249 MARINONI, Luiz Guilherme. ARENHART, Sérgio Cruz. Curso de processo Civil: processo de conhecimento. 7. ed. rev. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2008, v.2, p. 642.

250 ROCHA, José de Albuquerque. Teoria geral do processo. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2006, p. 271.

251 CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; DINAMARCO, Cândido Rangel; GRINOVER, Ada Pellegrini.

Teoria Geral do Processo. 25. ed. São Paulo: Malheiros, 2009, p. 329.

sentenças contra as quais não caibam mais recursos poderão produzir coisa julgada material.252

À evidência, o art. 468 do Código de Processo Civil remata a concepção de que coisa julgada material é a eficácia que torna imutável e indiscutível a sentença.253 Confira-se: “Art. 468. A sentença, que julgar total ou parcialmente a lide, tem força de lei nos limites da lide e das questões decididas”.254

Em resumo, Cândido Rangel Dinamarco ensina que coisa julgada material

“[...] é a imutabilidade dos efeitos substanciais da sentença de mérito”.255

Dessarte, infere-se que a coisa julgada formal consiste na imutabilidade da sentença (de mérito ou não), nos limites do processo em que foi proferida, à medida que a coisa julgada material consiste na imutabilidade da sentença de mérito fora do processo em que foi proferida.256