ambiente e dos consumidores, à qual a lei 7.347, de 24 de julho de 1985, legitimou, além do Ministério Público e de outros órgãos do Poder Público, as associações civis representativas; e foi depois incrementado pela Constituição de 1988, que abriu a legitimação a diversas entidades para a defesa de direitos supra-individuai (art. 5º, incs. XXI e LXX; art. 129, inc. III e § 1º, art. 103 etc.) O Código de Defesa do Consumidor seguiu a mesma orientação (art. 82, c/c art.
81, par.).178
É de palmar evidência que a legitimidade de parte (condição da ação), no âmbito do processo, não se confunde com a capacidade processual (pressuposto processual).179
A legitimidade de parte resume-se na atribuição específica para deduzir concretamente em juízo, outorgada pelo direito objetivo às partes envolvidas no litígio, com a ressalva de que poderá a lei autorizar casos em que alguém pleiteie direito alheio.180
Por seu turno, a capacidade processual consiste na aptidão genérica para operar em juízo, relacionando-se fundamentalmente à capacidade de exercício ou de fato civil (v.g., são dotados de capacidade processual aqueles indicados pela legislação substantiva como capazes).181
Dessarte, delineadas as principais características da legitimidade de parte, convém elucidar que maiores desdobramentos sobre o assunto extrapolariam os limites deste trabalho, de sorte que o item a seguir cuidará de estudar – também de maneira simplificada – a possibilidade jurídica como condição da ação.
A terceira condição da ação admitida pelo Código de Processo Civil brasileiro é a possibilidade jurídica do pedido.182
Cândido Rangel Dinamarco, em nota na obra Manual de Direito Processual Civil de Enrico Tullio Liebman, que por ele foi traduzida, aponta que
[...] o terceiro requisito da ação é representado pela admissibilidade em abstrato do provimento pedido, isto é, pelo fato de incluir-se este entre aqueles que a autoridade judiciária pode emitir, não sendo expressamente proibido. Quaisquer que sejam as circunstâncias do caso concreto, não pode ser apreciada pelo mérito uma demanda com vista a um provimento que o juiz não possa pronunciar.183
Segundo Arruda Alvim, a possibilidade jurídica do pedido estriba-se na idéia de que “[...] ninguém pode intentar uma ação sem que peça providência que esteja, em tese, prevista, ou que a ela óbice não haja, no ordenamento jurídico material”.184
Para José de Albuquerque Rocha, a possibilidade jurídica do pedido traduz- se na “[...] exigência de que a situação afirmada pelo autor seja, em tese, protegida pelo ordenamento jurídico para que possa ser susceptível de merecer o conhecimento do juiz”.185
Por sua vez, Moacyr Amaral Santos afirma que a possibilidade jurídica do pedido “[...] é condição que diz respeito à pretensão. Há possibilidade jurídica do pedido quando a pretensão, em abstrato, se inclui entre aquelas que são reguladas pelo direito objetivo”.186
Em simples palavras, dizer que o pedido é juridicamente possível condiz com a não vedação no ordenamento jurídico da solicitação formulada pelo autor para satisfazer sua pretensão.187
A construção teórica formulada por Cândido Rangel Dinamarco apresenta-se como a mais adequada para explicar a possibilidade jurídica do pedido:
Para que a demanda seja juridicamente possível, é necessária a compatibilidade de cada um de seus elementos com a ordem
182 BUENO, Cassio Scarpinella. Curso sistematizado de direito processual civil: teoria geral do direito processual civil. 2. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2008, v.1, p. 363.
183 LIEBMAN, Enrico Tullio. Manual de Direito Processual Civil. 3. ed. Tradução e notas de Cândido Rangel Dinamarco, São Paulo: Malheiros, 2005, v. 1, p. 205.
184 ALVIM, Arruda. Manual de Direito Processual Civil. 6. ed. rev. e atual., São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997, v. 1, p. 370.
185 ROCHA, José de Albuquerque. Teoria geral do processo. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2006, p. 176.
186 SANTOS, Moacyr Amaral. Primeiras linhas de direito processual civil. 18. ed. São Paulo:
Saraiva, 1995, v. 1, p. 166.
187 RODRIGUES, Marcelo Abelha. Elementos de direito processual civil. 3. ed. rev., atual. e amp.
São Paulo: RT, 2003, v. 1, p. 236.
jurídica. O petitum é juridicamente impossível quando se choca com preceitos de direito material, de modo que jamais poderá ser atendido, independentemente dos fatos e das circunstâncias do caso concreto (pedir o desligamento de um Estado da Federação). A causa petendi gera a impossibilidade da demanda quando a ordem jurídica nega que fatos como os alegados pelo autor possam gerar direitos (pedir a condenação com fundamento em dívida de jogo). As partes podem ser causa de impossibilidade jurídica, como no caso da Administração pública, em relação à qual a Constituição e lei negam a possibilidade de execução mediante penhora e expropriação pelo juiz (Const., art. 100; CPC, arts. 730 ss.).188
No mesmo sentido, explana Cássio Scarpinella Bueno:
Descrevendo o instituto em linguagem técnica, esta condição da ação refere-se tanto à proibição do pedido propriamente dito como também da causa de pedir [...]. O pedido ou a sua causa de pedir, portanto, não podem ser “impossíveis” [...].189
Portanto, denota-se que a possibilidade jurídica do pedido não é restrita tão- somente ao objeto que se pleiteia em juízo, como também “[...] a da causa, ou origem jurídica do objeto e de seus sujeitos”.190
Enquanto condição da ação, a possibilidade jurídica do pedido figura no rol das hipóteses de extinção do processo sem resolução de mérito, previstas no art.
267 do Código de Processo Civil, caso em que será decretada a “carência de ação”.191
Ocorrerá, pois, a extinção do processo sem a resolução do mérito (questão de fundo) quando da incidência do inciso VI do art. 267 do Código de Processo Civil, o qual prevê: “quando não concorrer qualquer das condições da ação, como a possibilidade jurídica, a legitimidade das partes e o interesse processual”.192
Malgrado há quem defenda que a possibilidade jurídica do pedido integre o mérito da causa, uma vez que o juiz, ao reconhecer da possibilidade ou da impossibilidade jurídica do pedido, estaria adentrando a questão de fundo do litígio, de modo a proferir um julgamento favorável ou desfavorável autor.193
188 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil. 4. ed. São Paulo:
Malheiros, 2004, v. 2, p. 301.
189 BUENO, Cassio Scarpinella. Curso sistematizado de direito processual civil: teoria geral do direito processual civil. 2. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2008, v.1, p. 368.
190 ROCHA, José de Albuquerque. Teoria geral do processo. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2006, p. 176.
191 GRECO FILHO, Vicente. Direito Processual Civil Brasileiro. 19. ed. rev. e atual. São Paulo:
Saraiva, 2006, v. 1, p. 87.
192 BRASIL. Código de Processo Civil. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2009.
193 FREIRE, Rodrigo da Cunha Lima. Condições da ação: enfoque sobre o interesse de agir. 3. ed.
rev., atual. e amp. São Paulo: RT, 2005, p. 132.
Melhor sorte, todavia, não assiste àqueles que entendem poder a possibilidade jurídica do pedido integrar o mérito da causa, porquanto a posição reinante no Código de Processo Civil é a de que as condições da ação constituem- se requisitos prévios de admissibilidade do mérito.194
Por essa razão, portanto, convém restringir a possibilidade jurídica do pedido ao campo processual.195
Nesse passo, lembra Humberto Theodoro Júnior que o pedido articulado pelo autor é dúplice: “[...] 1º, o pedido imediato, contra o Estado, que se refere à tutela jurisdicional; e 2º, o pedido mediato, contra o réu, que se refere à providência de direito material”.196
Assim, a possibilidade jurídica deve se posicionar nos contornos do pedido imediato, ou seja, nos casos em que a pretensão do autor não seja obstaculizada no âmbito do direito positivo.197
Em virtude disso, o estatuto processual civil brasileiro distinguiu, expressamente, os casos de impossibilidade jurídica do pedido imediato e do pedido mediato no art. 295, parágrafo único, incisos II e III.198
A propósito, apropriada a observação projetada por Rodrigo da Cunha Lima Freire:
Aliás, o Código brasileiro, em certo sentido, estabelece uma hierarquia entre as condições genéricas da ação, ao considerar a impossibilidade jurídica do pedido uma causa de inépcia da petição inicial, diferentemente do que ocorre com as demais (legitimidade para a causa e interesse de agir).199
Na hipótese de inépcia da petição inicial prevista no inciso II, do parágrafo único, do art. 295 do Código de Processo Civil, quando “da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão”200, verifica-se que o indeferimento acarretará no
194 MAGGIO, Marcelo Paulo. Condições da ação: com ênfase à ação civil pública para a tutela dos interesses difusos. 2. ed. rev. e atual. Curitiba: Juruá, 2008, p. 77.
195 MAGGIO, Marcelo Paulo. Condições da ação: com ênfase à ação civil pública para a tutela dos interesses difusos. 2. ed. rev. e atual. Curitiba: Juruá, 2008, p. 77.
196 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil: Teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento. 48. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2008, v. 1, p. 68.
197 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil: Teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento. 48. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2008, v. 1, p. 68.
198 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil: Teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento. 48. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2008, v. 1, p. 68.
199 FREIRE, Rodrigo da Cunha Lima. Condições da ação: enfoque sobre o interesse de agir. 3. ed.
rev., atual. e amp. São Paulo: RT, 2005, p. 133.
200 BRASIL. Código de Processo Civil. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2009.
exame do mérito, com a improcedência prima facie do pedido, de modo a constituir coisa julgada material (impossibilidade de direito material ou do pedido mediato).201
Corroborando tal entendimento, reproduz-se a lição de Vicente Greco Filho:
Cabe observar que a rejeição da ação por falta de possibilidade jurídica deve limitar-se às hipóteses claramente vedadas, não sendo o caso de se impedir a ação quando o fundamento for injurídico, pois, se o direito não protege determinado interesse, isto significa que a ação deve ser julgada improcedente e não o autor carecedor de ação. Assim, por exemplo, se alguém pede o despejo, em contrato de locação residencial, por motivo não elencado na Lei de Inquilinato e isto for, afinal, verificado, o juiz deverá julgar a ação improcedente e não o autor carecedor da ação. Isto porque o pedido era juridicamente possível (despejo), mas seu fundamento não está amparado pela lei.
Ademais, lembra Humberto Theodoro Júnior que “[...] não há razão séria para tratar fora do mérito da causa questão como a cobrança de dívida de jogo, ou a disputa sobre a herança de pessoa viva”.202
Entretanto, na hipótese do inciso III, parágrafo único, do art. 295 do Código de Processo Civil, pela qual a inépcia é declarada quando “o pedido for juridicamente impossível”203, é que se terá a possibilidade jurídica do pedido como verdadeira condição (impossibilidade de direito instrumental ou do pedido imediato).204
Isso porque “[...] o que o juiz vai decidir é que o pedido de tutela jurisdicional é insuscetível de apreciação pelo Poder Judiciário, sem cogitar sua procedência ou improcedência diante das regras substancias da ordem jurídica”.205
Nesse caso, não ocorrerá coisa julgada material, de modo a permitir que o autor proponha nova ação. Exemplo disso é o caso em que se pede a prisão por dívida que não seja de caráter alimentar.206
201 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil: Teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento. 48. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2008, v. 1, p. 68.
202 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil: Teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento. 48. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2008, v. 1, p. 69.
203 BRASIL. Código de Processo Civil. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2009.
204 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil: Teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento. 48. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2008, v. 1, p. 68.
205 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil: Teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento. 48. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2008, v. 1, p. 68.
206 GRECO FILHO, Vicente. Direito Processual Civil Brasileiro. 19. ed. rev. e atual. São Paulo:
Saraiva, 2006, v. 1, p. 87.
Adverte-se, contudo, que não é fácil distinguir os casos de impossibilidade jurídica do pedido (carência de ação) e improcedência do pedido (julgamento do mérito).207
Finalmente, cumpre observar que a possibilidade jurídica do pedido, enquanto condição da ação, como dito linhas atrás, foi suprimida da concepção de Enrico Tullio Liebman, mercê do advento da lei do divórcio na Itália, no ano de 1970, não sendo demais recordar que a tendência moderna caminha no sentido de desconsiderá-la como requisito de admissibilidade do mérito da causa.208