Rosiane de Sousa Cunha 1 Luciana Gonçalves de Carvalho2 DOI: 10.46898/rfb.9786558891055.9
1 Universidade Federal do Oeste do Pará. https://orcid.org/0000-0002-0471-7784. [email protected] 2 Universidade Federal do Oeste do Pará. https://orcid.org/0000-0001-7916-9092. [email protected]
1 INTRODUÇÃO
A
utilização de indicações geográficas (IG) para produtos regionais é um fe- nômeno crescente no Brasil, que envolve a União, Estados, Municípios, or- ganizações de produtores, universidades e agências de fomento. No Norte do país, porém, esse fenômeno é ainda incipiente, e, apesar da megadiversidade biológica e cultural da Amazônia, há apenas oito IG registradas na região.1 Nesse contexto, o Fórum Técnico de Indicação Geográfica e Marcas Coletivas do Estado do Pará (do- ravante Fórum) foi criado em 2016 com o intuito de incrementar o registro de sinais distintivos para produtos paraenses.Uma das principais missões do Fórum é coordenar a articulação entre instituições e diferentes segmentos produtivos, visando à difusão dos institutos de propriedade intelectual como ferramentas para agregar valor à diversificada produção do estado e fomentar o desenvolvimento local. Entretanto, desde sua implantação, o Pará efetivou apenas um registro de IG, em 2019 ⸺ o Cacau de Tomé-Açu ⸺ e tem dois processos em andamento ⸺ para a Farinha de Bragança e o Queijo do Marajó. Outros produtos, contudo, têm sido considerados como potenciais IG: o Açaí das Ilhas de Belém, o Arte- sanato de Miriti de Abaetetuba, a Farinha de Tapioca de Americano, o Mel de Pirabas, o Piracuí de Prainha, o Tucupi de Vigia, a Castanha-do-Pará de Oriximiná, as Cuias de Santarém, os Trançados do Arapiuns e o Feijão-Manteiguinha de Santarém.
O feijão-manteiguinha é uma variedade de feijão-caupi (Vigna unguiculata (L.) Walp), cujos grãos pequeninos e de cor creme são muito apreciados na culinária nor- tista, principalmente em combinação com arroz, no popular baião-de-dois. Segundo Corumbá (2015), a produção dessa variedade crioula de feijão não é normatizada no Registro Nacional de Cultivares (RNC), mas isso não tem impedido estados como o Pará de investirem em sua produção. De fato, em diferentes municípios paraenses, o plantio de feijão-manteiguinha tem sido incentivado como uma promissora alterna- tiva social e econômica para agricultores familiares, e essa lavoura “está em franca expansão, ocorrendo aumento significativo das áreas plantadas em diversos municí- pios” (RODRIGUES et. al, 2013, p. 1).
Em Santarém, no oeste do estado, a produção de feijão-manteiguinha tem sido incentivada pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater-Pará). De acordo com o agrônomo Francisco Lorens (mais conhecido como Chiquito), desde 2013 a Emater tem desenvolvido projetos de melhoramento da pro- dução em regiões de várzeas ⸺ áreas inundáveis nas margens do rio Amazonas ⸺ e planalto ⸺ área de terra firme ⸺, bem como apoiado ações de divulgação e comer-
1 Dados extraídos da base de dados do Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Disponível em: https://www.gov.br/inpi/
pt-br. Acesso em: 15 jan. 2021.
Rosiane de Sousa Cunha , Luciana Gonçalves de Carvalho
cialização de feijão-manteiguinha, sobretudo, com foco em mercados externos. Essas últimas ações estão profundamente ligadas à proposta do Fórum de apresentar a can- didatura da IG do produto Feijão-Manteiguinha de Santarém ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Criado em 1970, o INPI é a autarquia federal responsável por estabelecer os re- quisitos da proteção da propriedade intelectual no Brasil, analisar e efetuar registros de marcas, indicações geográficas e patentes. Sua atuação é orientada pela Lei nº 9.279, de 14 de maio de 1996, mais conhecida como Lei da Propriedade Industrial (LPI), a qual, entre outras providências, introduziu a IG na legislação pátria e tornou-a passí- vel de aplicação em políticas públicas de desenvolvimento local.
Com efeito, a implementação de políticas públicas relativas às IG é uma das reco- mendações da Food and Agriculture Organization (FAO), a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. De acordo com essa agência, cuja missão é a erradicação da fome e o combate à pobreza no mundo, o uso do referido instituto de propriedade intelectual deve estar, necessariamente, vinculado a uma política de de- senvolvimento rural integrada, que proporcione apoio aos atores locais nas diferentes fases do processo de concessão da IG.
A propósito, a participação social e o protagonismo dos produtores devem ser garantidos em todas as fases do processo, tendo em vista que a obtenção e a manu- tenção de uma IG exigem alto nível de comprometimento por parte da comunidade usuária do sinal distintivo. Ademais, o potencial de uma IG de promover o desen- volvimento local só é alcançável quando seu foco ultrapassa o aspecto meramente mercadológico e contribui, efetivamente, para fortalecer os elos entre o produto, a co- munidade produtora, o território e o patrimônio cultural local. Em outras palavras, a dimensão sociocultural da produção deve ser contemplada em todo processo de IG, por meio da participação da comunidade produtora (OLIVEIRA; MOREIRA, 2018;
PELLIN; SILVA, 2015; SILVA et. al. 2013).
Diante do exposto, esta pesquisa, baseada em pesquisa bibliográfica e documen- tal, e em entrevistas semiestruturadas, propôs refletir sobre a participação dos atores locais no processo que pretende culminar na proposição do registro da IG do Fei- jão-Manteiguinha de Santarém. Embora haja diferentes entes coletivos e individuais envolvidos nesse processo, foram compreendidos como atores locais aqueles que, si- tuados em Santarém, lidam diretamente com o produto em questão ⸺ produtores, revendedores, consumidores e técnicos ⸺ e interagem nas esferas de produção e de comercialização/divulgação do feijão-manteiguinha.
Na primeira esfera, foram entrevistados quatro agricultores residentes na comu- nidade rural Santa Cruz, reconhecida em Santarém pela alta qualidade do feijão-man- teiguinha que produz. Por sua atuação junto aos agricultores de Santa Cruz e de outras localidades, onde vem assistindo projetos de melhoramento da lavoura, o já citado senhor Francisco Lorens, da Emater, também foi entrevistado quanto a aspectos da produção dessa variedade de feijão.
Na segunda esfera, foram ouvidos cinco atores: quatro feirantes, sendo que um deles também é agricultor, e o chefe de cozinha Saulo Jennings, que, na condição de proprietário de um dos mais badalados restaurantes de Santarém, é um grande con- sumidor de feijão-manteiguinha. Por meio de conversas informais, realizadas nos pró- prios espaços de trabalho, eles ajudaram a vislumbrar o cenário da comercialização/
divulgação do feijão manteiguinha em Santarém.