3.2 A perspectiva social apontando possibilidades
3.2.1 Como ser representado no processo político?
Após esclarecer os motivos pelos quais se enquadra entre os defensores de uma democracia comunicativa, a autora aponta para a necessidade de que os sistemas de participação política representem aspectos específicos da experiência e apresenta três modelos pelos quais uma pessoa pode se sentir representada: interesses, opiniões e perspectivas. Em outras palavras, há, entre as muitas respostas possíveis, três delas que se destacam quando se indaga o significado de sentir-se representado no processo político:
“Primeiramente, sinto-me representado quando alguém está cuidando de interesses que reconheço como meus e que compartilho com algumas outras pessoas. Em segundo lugar, é importante para mim que os princípios, valores e prioridades que penso deveriam nortear as decisões políticas sejam verbalizados nas discussões que as deliberam. Por fim, sinto-me representado quando pelo menos algumas dessas discussões e deliberações sobre políticas captam e expressam o tipo de experiência social que me diz respeito, em razão da minha posição num grupo social e da história das relações desse grupo social” (YOUNG, 2006, p. 158).
O “interesse” é entendido como “aquilo que afeta ou é importante para os horizontes de vida dos indivíduos ou para as metas das organizações. Um agente individual ou coletivo tem interesse naquilo que é necessário ou desejável para que sejam alcançados os fins que ele almeja” (2006, p. 158). A autora ressalta que a pressão por políticas que atendam a interesses específicos, bem como a organização de grupos por pessoas que tenham interesses similares é algo que faz parte do processo de livre associação na democracia comunicativa. E aí também se inclui a liberdade de expressão que permite que as opiniões sejam colocadas no debate público. As “opiniões”, por sua vez, são definidas como: “princípios, valores e prioridades assumidos por uma pessoa na medida em que fundamentam e condicionam seu juízo sobre quais políticas devem ser seguidas e quais fins devem ser buscados”. (YOUNG, 2006, p.
159).
Há muito a discussão sobre o pluralismo se preocupa com a diversidade de opiniões, interrogando o quanto os sistemas plurais de ideias e crenças influenciam legitimamente a vida política e como pessoas com diferentes crenças e opiniões podem manter um organismo sociopolítico articulado.
É na definição das “perspectivas”, no entanto, o ponto aonde o texto mais se detém. É também a mais significativa para ajudar a pensar a questão do posicionamento evangélico.
Em alguns pontos, ela se mostrará bastante elucidativa para compreensão dos motivos pelos quais o discurso proposto pela igreja é tão unanimemente compartilhado pelos fiéis, bem como dos conflitos existentes dentro do grupo. Ao introduzir a questão, a autora enfatiza a importância de se pensar grupos sociais estruturais a partir de uma lógica relacional:
“Os grupos sociais estruturais não devem ser pensados de acordo com uma lógica substancial, que os definiria segundo um conjunto de atributos que seriam comuns a todos os seus membros e constituiriam suas identidades, mas a partir de uma lógica mais relacional, em que os indivíduos seriam compreendidos como posicionados nas estruturas dos grupos sociais, sem que estas determinem suas identidades” (2006, p.
161).
Segundo a autora, pessoas diferentemente posicionadas têm diferentes experiências, histórias e compreensões sociais derivadas daquele posicionamento. Deste modo, “a diferenciação de grupos propicia recursos para um público democrático comunicativo que visa estabelecer a justiça” (YOUNG, 2006, p.162) e contribuir para a consolidação da
igualdade e da justiça ao invés de causar mais divisões e conflitos. É isso o que a autora chama de perspectiva social. E continua:
“As posições sociais sintonizam as pessoas a determinados tipos de significados e relacionamentos sociais, com os quais outras pessoas estão menos sintonizadas.
Eventualmente estas últimas não estão posicionadas sequer de forma a ter consciência deles. A partir das suas posições sociais as pessoas têm compreensões diferenciadas dos eventos sociais e de suas consequências”.
Seguindo a lógica metafórica da diferenciação de grupos como produto de posições diferentes no campo social, a ideia da perspectiva social sugere que agentes que estão
“próximos” no campo social têm pontos de vista semelhantes sobre esse campo e sobre o que ocorre em seu âmbito, enquanto aqueles que estão socialmente distantes tendem a ver as coisas de modo diverso. A ideia de perspectiva busca captar a sensibilidade da experiência do posicionamento num grupo, sem especificar um conteúdo unificado para aquilo que a percepção vê. A perspectiva não determina o que se vê e por isso é possível encontrar pessoas que tenham uma perspectiva social semelhante, mas que fazem interpretações diferentes sobre uma mesma questão.
“A perspectiva social consiste num conjunto de questões, experiências e pres- supostos mediante os quais mais propriamente se iniciam raciocínios do que se extraem conclusões. Ela não impede que existam interesses e opiniões divergentes em seu interior. [...] A perspectiva é um modo de olhar os processos sociais sem determinar o que se vê.” (YOUNG, 2006, p. 162).
Deste modo, compartilhar uma perspectiva com determinadas pessoas exclui do campo de afinidades pessoas diferentemente posicionadas, pois:
“Reflete pontos de vista que os membros de um grupo mantêm sobre os processos sociais em função das posições que neles ocupam. As perspectivas podem ser vivenciadas de um modo mais ou menos autoconsciente e se revelam das mais variadas formas” (2006, p. 164).
A questão, no entanto, não é simples como parece e um importante fator precisa ser considerado: a possibilidade das múltiplas perspectivas. Em sociedades complexamente estruturadas diferentes perspectivas podem se cruzar e formar outras híbridas, enriquecendo- as ou confundindo-as, podendo, ainda, trazer “ambiguidades ou confusões na experiência e compreensão da vida social” (p. 167) daquele indivíduo.
Ao mesmo tempo, o quadro de referências para interpretações estabelecido por uma determinada perspectiva pode fazer com que indivíduos descubram seus próprios interesses, e, ainda, que há interesses que ele não compartilha com o restante do grupo. Representar um interesse ou uma opinião geralmente envolve promover certos desdobramentos específicos no processo de tomada de decisões, ao passo que representar uma perspectiva geralmente significa promover certos pontos de partida para a discussão, sem uma conclusão sobre
resultados. E esta é, inclusive, uma das razões pelas quais o presente conceito não é totalmente aplicável aos evangélicos, pois seus pontos de chegada estão bastante bem delimitados. Por isso – continua a autora – ao contrário de interesses e opiniões, as perspectivas correm menor risco de serem conflitantes: “reunidas, elas geralmente não se anulam entre si; antes, oferecem questões adicionais e compreensões sociais mais plenas” (p.
169).
Ao final do texto, a autora defende sua posição a favor da representação de perspectivas sociais em detrimento de interesses e opiniões, haja vista que, a seu ver, o problema da sub-representação de membros de grupos sociais estruturais menos privilegiados nas democracias contemporâneas produz desigualdade política e uma relativa exclusão das discussões políticas influentes, ressaltando, ainda, a existência de inúmeros dispositivos políticos destinados a aumentar a representação desses grupos.
Alguns problemas também são colocados, tais como a existência de perspectivas dominantes e a dificuldade de encontrar um modo eficaz para implementação dessa representação.
Por fim, destaca a importância da sociedade civil e da prática representativa não ficar confinada em organismos públicos oficiais, pois “a livre associação civil contribui para a formação e a expressão de interesses e opiniões. (...) Ao mesmo tempo, é uma instância importante de consolidação e expressão de perspectivas sociais” (YOUNG, 2006, p. 187).
Para ela, “as atividades autônomas e plurais das associações civis propiciam aos indivíduos e aos grupos sociais, em sua própria diversidade, uma inestimável oportunidade de serem representados na vida pública” (p. 187).