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Compaixão e vitimização

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 119-122)

5 A NOÇÃO DE VÍTIMA: VIOLÊNCIA E SOFRIMENTO

Além disto, o papel do ‘simpatizado’ não é passivo, pois para Clark este papel envolve

‘deixas’ que convidam a compaixão dos outros. A própria natureza da compaixão exige que estas deixas não sejam frequentes nem óbvias demais a ponto de se tornarem autocomiseração ou fraqueza. Além disto, o ‘simpatizado’ reage à simpatia dos outros, podendo apreciar, ressentir-se ou odiar a compaixão que desperta. Assim, esta gramática determina quem pode sentir compaixão por quem, quem pode pedir compaixão, quando, como e onde, e se o sentimento pode ser aceito ou declinado. Para Clark, a simpatia é um importante elemento dos laços sociais:

Compaixão (…) entra em jogo na geração de laços sociais. Sem a cola social que a compaixão provê, os atores sociais seriam mais distantes uns dos outros e mais alienados da sociedade como um todo. A compaixão não é, evidentemente, a única cola social possível (...). Mas tanto dar quanto receber compaixão idealmente produz ‘energia emocional’ que as pessoas armazenam como

‘recursos’ e carregam com elas de um encontro a outro (Collins, 1987, 1999).

Isto é, embora dar compaixão possa ser exaustivo, também pode energizar as pessoas ao atraí-las para fora de seus problemas ou ao dar a elas um sentimento de orgulho em seu altruísmo. Similarmente, receber compaixão pode ser degradante, mas também pode elevar alguém ou dar-lhe uma ‘nova chance’. 26 (CLARK, 1997, p. 17, tradução minha).

Assim, a combinação bem sucedida de dar e receber compaixão conecta as pessoas, construindo e fortalecendo laços sociais. A resolução também pode ser mal sucedida, criando (e, ao dar nome e caracterizar, mediando) conflitos e dissensos. Para Clark, sentir compaixão (ou sentir que se deveria sentir compaixão) acena para as fronteiras entre aqueles que merecem e evocam nossas dádivas emocionais e os que não evocam ou merecem nada.

Assim, a compaixão tem um papel na localização entre o “nós” e o “eles”, um importante mediador da percepção de alteridade e da identidade de um grupo.

A compaixão também media laços de intimidade e cria obrigação e reciprocidade, e o modelo de análise de Clark é tributário da descrição do sistema sobre a dádiva elaborada por Mauss (2003). Para Mauss, desde as sociedades mais arcaicas “as trocas e contratos se fazem

26 “Sympathy (...) plays a part in generating social bonds. Without the social glue that sympathy provides, social actors would be more distant from each other and more alienated from society as a whole. Sympathy is not, of course, the only possible type of social glue (…). But both giving sympathy and getting it ideally produce

‘emotional energy’ that people store as ‘resources’ and carry with them from one encounter to another (Collins, 1987, 199). That is, although giving sympathy can be draining, it can also energize people by drawing them out of their own troubles or giving them a feeling of pride in their altruism. Similarly, receiving sympathy can be demeaning, but it can also give someone a lift or even a ‘new lease on life’.”

sob a forma de presentes, em teoria voluntários, na verdade obrigatoriamente dados e retribuídos” (MAUSS, 2003, p. 187). As sociedades ocidentais são também tributárias deste sistema em que a troca é um fenômeno social total, e “...a prestação total não implica somente a obrigação de retribuir os presentes recebidos, mas supõe duas outras igualmente importantes: obrigação de dar, de um lado, obrigação de receber, de outro.” (MAUSS, 2003, p. 201) Para Mauss, totais são os fenômenos que englobam todas as esferas sociais, que mobilizam toda a coletividade e todas as instituições. Desta forma, a troca possui três obrigações: dar, receber e retribuir. O caráter obrigatório da troca é percebido pela constatação de que a recusa a trocar corresponde a negar aliança entre as partes envolvidas. É necessário retribuir as dádivas, e esta obrigatoriedade da troca representa a relação entre aquele que dá e aquele que recebe. Ou seja, essa análise permite entender a dádiva como algo que cria vínculos, responsável pela construção de laços entre as pessoas.

Não participar deste sistema de troca implica perder prestígio, “de fato perder a alma:

é perder realmente a ‘face’, a máscara de dança, o direito de encarnar um espírito, de usar um brasão, um totem, é realmente a persona que é assim posta em jogo...” (MAUSS, 2003, p.

244) Além disto, a dádiva manifesta e regula hierarquias, pois “dar é manifestar superioridade, é ser mais, mais elevado, magister; aceitar sem retribuir, ou sem retribuir mais, é subordinar-se, tornar-se cliente e servidor, ser pequeno, ficar mais baixo (minister).”

(MAUSS, 2003, p. 305). Clark segue o modelo de Mauss, parafraseando-o ao estabelecer as regras sobre quem pode se compadecer de quem:

A pessoa que recebe compaixão e faz algo para pagar de volta a obrigação transforma o doador original em receptor e sujeita ele ou ela. Se o novo receptor repaga, ele ou ela sujeita o novo doador, e assim por diante ad infinitum. (...) Desta forma, trocas de compaixão são parte de uma economia socioemocional – um sistema de distribuição de recursos valiosos porém imateriais – que liga os membros de grupos, comunidades e sociedades em redes de sentimentos reciprocros e interação. 27 (CLARK, 1997, p. 20, tradução minha).

Clark complementa que a compaixão geralmente conecta as pessoas de maneira assimétrica, da mesma forma que Mauss descreve o sistema da dádiva – por exemplo, um

27 “A person who receives sympathy and does something to repay the obligation turns the original donor into a recipient and obligates him or her. If the new recipient repays, he or she obligates the new donor, and so on ad infinitum. (...) Thus, sympathy exchanges are part of a socioemotional economy – a system for distributing valuable but perhaps intangible resources – that links the members of groups, communities, and societies together in networks of reciprocal feeling and interaction.”

presente de valor excessivo no contexto de uma relação pode ser entendido como uma ofensa, pois ele pode não ser retribuível e colocar o presenteado em uma situação de dívida eterna. A troca de compaixão, bem como de presentes, descreve e encena as relações sociais – que podem ser assimétricas em termos de prestígio, status e poder.

Outra característica da compaixão, segundo Clark, é seu potencial dramatizador, catártico, que retira as pessoas do cotidiano, tornando mais fácil conformar-se a normas e promovendo o compromisso com um grupo. O ato em si de compadecimento pode produzir um bem para além do ato de compaixão:

Simpatizantes interpretam o infortúnio do simpatizado dentro de um context de noções culturais de justiça e injustiça, e eles interpretam o valor ou merecimento moral do simpatizado. Assim, ter compaixão pela miséria de outra pessoa é um ato de construção moral. É a pessoa culpada ou vítima? Ele ou ela merece afirmação e conforto, ou não? 28 (CLARK, 1997, p. 22, tradução minha).

Assim, a posição que o ‘simpatizado’ e o ‘simpatizante’ em potencial ocupam de acordo com os códigos morais é fundamental para determinar se haverá ou não compaixão. A compaixão é um ato de construção da moralidade, e a capacidade de se compadecer ou não diz algo sobre a moral dos sujeitos. Da mesma forma, há sempre um julgamento acerca do merecimento do ‘simpatizado’. Vítimas de infortúnio, aqueles que se arrependem de seus erros, os inocentes punidos injustamente, etc., são todos merecedores legítimos de compaixão.

A relação entre compaixão e código moral se estabelece através de um critério organizador baseado na responsabilidade, ou seja, se o simpatizado é culpado ou vítima de sua própria desgraça.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 119-122)