3.3 O Banco de entrevistas
3.3.2 Desafios
Embora eu integrasse a equipe do CLAM e tenha participado de reuniões executivas deste projeto, conforme esclarecido na introdução, apenas em uma entrevista eu assumi o
23 Como esclarecido na Introdução, algumas entrevistas utilizadas nesta tese ainda não foram revisadas por seus entrevistados. Assim, pode haver algumas modificações nos textos finais citados, embora elas possivelmente sejam mínimas.
24 http://www.clam.org.br/trajetorias-intelectuais/
25 Como foi explorado no capítulo 2, são inúmeros os debates internacionais que se conjugam com debates regionais e locais.
papel de entrevistador, e mesmo assim não sendo o único e nem o principal interlocutor do entrevistado. Portanto, meu contato com as entrevistas ocorreu de duas formas: através do acesso ao material bruto, diretamente transcrito dos áudios das entrevistas, e com o material processado, utilizado nas citações, equivalente às versões finais que vão ser disponibilizadas ao público.
Uma questão se revelou delicada no uso deste banco de entrevistas: a minha familiaridade com os atores que concederam entrevistas para o banco. Ela varia, sendo alguns entrevistados membros sênior do CLAM onde sou pesquisador, bem como professores com quem tive aulas. Alguns são autores da bibliografia que venho estudando nos últimos anos sobre gênero e sexualidade. Com outros tive contato em meus esforços de mapeamento das ONGs para meu projeto original (ver Introdução). De outros apenas ouvi falar. Por isso, cabe aqui discutir as escolhas que fiz em termos do uso e apresentação deste material.
Minha preocupação não é fazer uma história do campo de direitos sexuais no Brasil, mas abstrair uma análise dos processos individuais de engajamento em suas temáticas.
Consequentemente, escolhi tratar cada entrevista não como história de vida, mas como narrativas estruturadas pelo contexto em que são geradas – seguindo a metodologia de análise inspirada em Bourdieu e Pollak. Neste sentido, elas tomam quase que a forma de um tipo ideal Weberiano. Assim, a despeito do caráter público do banco optei por ocultar as identidades, omitindo nomes de atores ou instituições citados e pontos específicos das narrativas que as identificassem. Por fim, cabe dizer que dentre os entrevistados estão também alguns membros de minha banca de qualificação e de defesa, incluídos na análise, mas não citados diretamente.
Assim, cabe uma reflexão sobre a dificuldade de trabalhar com um banco de dados constituído por atores de um campo do qual eu mesmo faço parte, ainda que em graus distintos das várias modalidades de hierarquia profissional. Por um lado, este elemento tem a ver com a escolha na forma de analisar as entrevistas como narrativas, desentrelaçadas dos atores que representam. Ao tomá-las como um tipo ideal, abro um espaço analítico mais confortável, escrevendo de um modo que não faça referência direta e engrossando o esforço analítico ao investir no distanciamento em relação aos atores entrevistados. Por isso a ocultação dos nomes, mesmo para um banco de entrevistas público cuja análise será inclusive lida pelos pares ou pelos próprios atores que constituem o banco. Assim, o quadro abaixo lista
um perfil mínimo das narrativas analisadas, visando apenas indicar o contexto em que estas trajetórias são narradas.
Entrevistado/a Perfil Profissional
Narrativa 1 Brasileira, atua profissionalmente na área de Psicologia Social, possui pós-graduação e é professora universitária. Presta consultoria a ONGs.
Narrativa 2 Brasileira, atua profissionalmente na área de Ciências Sociais, possui pós- graduação e é professora universitária. Teve vínculos com ONGs e fundou centros de referência.
Narrativa 3 Brasileira, atua profissionalmente na área de Ciências Sociais, possui pós- graduação e é professora universitária. Tem vínculos com ONGs.
Narrativa 4 Brasileira, atua profissionalmente na área de Ciências Sociais, possui pós- graduação e já foi professora universitária, é fundadora e diretora de uma ONG feminista, e membro de vários conselhos sobre direitos humanos.
Narrativa 5 Brasileiro, atua profissionalmente na área de Ciências Sociais, possui pós- graduação e é professor universitário.
Narrativa 6 Brasileiro, atua profissionalmente na área de Ciências Sociais, possui pós- graduação e é professor universitário.
Narrativa 7 Brasileiro, atua profissionalmente na área Jurídica, possui pós-graduação e é professor universitário e funcionário público do Judiciário. Tem vínculos com ONGs.
Narrativa 8 Brasileira, atua profissionalmente na área de Ciências Sociais, possui pós- graduação e é professora universitária. É membro de diversos comitês e trabalhou para uma agência de financiamento de pesquisas.
Narrativa 9 Brasileira, atua profissionalmente em uma ONG de direitos humanos e já ocupou diversos cargos no governo ligados à educação e direitos humanos.
Narrativa 10 Estrangeiro residente no Brasil, atua profissionalmente na área de Ciências Sociais, possui pós-graduação e foi professor universitário.
Trabalhou para uma agência de financiamento de pesquisas.
Narrativa 11 Brasileira, atua profissionalmente na área de Ciências Sociais, possui pós- graduação e é professora universitária. Integra redes feministas.
Narrativa 12 Brasileira, atua profissionalmente na área de Ciências Sociais, possui pós- graduação e é professora universitária.
Narrativa 13 Estrangeiro residente no Brasil, atua profissionalmente na área de Ciências Sociais e de Saúde, possui pós-graduação e é professor universitário. Tem vínculo com uma ONG AIDS.
Narrativa 14 Brasileira, atua profissionalmente na área de direitos humanos, possui pós-graduação, participou da fundação de uma ONG AIDS, atuou como consultora de diversas ONGs e em cargos governamentais ligados à questão da violência e segurança pública.
Narrativa 15 Brasileiro, atua profissionalmente numa ONG AIDS, possui pós- graduação e foi professor universitário.
Narrativa 16 Brasileira, atua profissionalmente numa ONG feminista, é fundadora e membro de ONGs que trabalham com a questão de direitos humanos.
Integra redes feministas.
4 ANÁLISE