3.2 DE MULHERES A TRAFICANTES: FEMINISMOS, ESTUDOS PÓS-COLONIAIS E DECOLONIAIS E A EXPERIÊNCIA IMBRICADA DO GÊNERO (E DO NÃO-SER)
3.2.2 Comportar-se dentro e fora das audiências
É a partir da investigação dos processos que criminalizam e do debate de como os marcadores de diferença também lhes atravessam, desde as suas aparências até as suas constituições mais sutis, que tomamos como possibilidade verificar uma outra questão surgida no plano empírico: os comportamentos assumidos e construídos das mulheres que respondem pela prática de crimes durante as audiências. Se a princípio sentíamos muita inconformidade ao presenciar as violências vividas por elas, muitas vezes parecendo que um estado apático as paralisava diante do que suportavam, o passar dos dias nos fazia deslocar a surpresa com aquele momento em específico, para pensar sobre os sistemas que lhes tornavam possíveis. O
“congelamento” daquelas mulheres, diante das situações violentas a elas impostas, conforme iremos propor, integra uma série de dispositivos que parecem querer confiscar o potencial subversivo que cada uma tem de (re)agir.
Em nenhuma das doze oportunidades que estivemos em uma sala de audiências, fazendo as observações, qualquer das mulheres acusadas retrucara o desrespeito contra si praticado de forma mais ou menos explícita. Ficávamos pensando naqueles gritos silenciados, nas respostas à altura que deveriam permanecer trancadas no imaginário de cada uma ou nas possíveis condições tão cristalizadas de subalternidade - quando as violências não são entendidas nem mais desta forma.
García analisa esses processos quando fala sobre as mulheres indígenas (maias), que mencionamos estrategicamente neste ponto por entender que, guardadas as peculiaridades, são mulheres de cor especialmente oprimidas na América Latina, extirpadas, muitas vezes, de suas terras, de seus corpos, de seus sentidos, de seu valor:
“Las mujeres mayas asumen la actitud de aguantadoras y actúan como si no tuvieran derecho a defenderse. Se apodera de ellas el llanto y el dolor como expresiones de sufrimiento. Cuando las mujeres no toman conciencia del dolor que les provoca la opresión y el racismo, asumen la actitud de aceptar la segregación impuesta, mentalmente no descansan porque están siempre pensando cómo lograr ser iguales bajo el paraguas de la superioridad impuesta. Aceptan e interiorizan la existencia de cierta jerarquía basada em lo superior-inferior” (GARCÍA, 2014, p.
215).
De outro lado, foram muitas as situações em que percebemos não só as juízas em si, mas diversas(os) agentes que, tomando parte do sistema de opressões, reforçavam a própria superioridade através da sua relação com a produção da inferioridade das mulheres criminalizadas. A sala das audiências, sob este ponto de vista, pode ser entendida como um ambiente que parece comunicar a crença na superioridade de alguns e expressar uma ideologia que, com base na afirmação de supremacias socialmente construídas, dá forma ao único lugar que ali lhes está reservado: o de telespectadoras das próprias vivências246.
É assim que a coragem delas parece anestesiada, dentro de sistemas complexos e sutis que fazem com que aprendam a sentir medo de retrucarem ou serem agressivas também; de
246 De que outra forma seria possível admitir experiências como as presenciadas - e já narradas - na Audiência 4, em que a acusada não conseguia fazer mais que copiosamente chorar diante da enunciação, quase profética, da sua sentença pela juíza - que não dedicou nem um minuto sequer para traduzir o que todo aquele dialeto jurídico implicava em sua vida?
questionarem ou contradizerem; e de se sentirem inseguras e instáveis na escolha de como se portar – que se convola em verdadeira programação247. Voltando a García, nesses casos:
“las mujeres se tragan el enfado, la culpa y el miedo. Se molestan consigo mismas porque no reaccionan y se quedan congeladas de miedo porque no se atreven. Se inhiben de manifestar sus expresiones espontáveas. Al mismo tiempo, por si misma inseguridad, por la costumbre de no ser tomadas em serio, resulta difícil tener valor para responder a las humillaciones. El miedo y la inseguridad son características de la persona oprimida” (GARCÍA, 2014, p. 217).
Durante as audiências observadas, o comum era nos depararmos com mulheres que não podiam falar, salvo quando autorizadas; que eram interrompidas a todo tempo; que tinham a honestidade colocada em dúvida sempre; que ficavam na maior parte do tempo de cabeças baixas; que externalizavam com o próprio corpo as tensões que passavam248; e que já vinham para as salas conformadas com os lugares e as posições subalternizadas que ali deveriam assumir. Muito embora o ritual, por si, já comunique esta subserviência, e tivessem sido inúmeras encarnações destes processos - tantas que nem daríamos conta de descrever nos limites deste trabalho – algumas outras passagens tiveram destaque.
Como estivemos, até aqui, dando enfoque aos diversos comportamentos, sobretudo, praticados por “aqueles que estão no palanque”249, resolvemos trazer novas observações daqueles que integram o ambiente, mas estão debaixo, ajudando a produzir a imagem da criminosa. Foi assim no caso da Audiência 2, já descrita, quando a acusada, uma mulher negra, chegou acompanhada não só de uma policial, uma mulher branca como de praxe, mas também de um policial homem branco. A presença de duas autoridades policiais, uma em cada um dos lados da mulher criminalizada250, por si, já informava bastante. Até que percebemos que ele é quem fez questão de posicioná-la na cadeira certa, em frente ao
247 Já tivemos a oportunidade de discutir na Figura 1 – e voltaremos ainda a este ponto na apresentação da Figura 2 – questões afetas a organização dos espaços físicos das audiências eos problemas decorrentes, por exemplo, dos únicos lugares em que podem se sentar nas salas de audiências. Não obstante, nos casos em que as rés estavam soltas, não surpreendeu que dentre, em alguns casos, diversas cadeiras disponíveis, elas se
sentassem, exatamente, onde deveriam – lugares tão distantes da defesa e que deixa tão apresentada, também, o verdadeiro abismo entre ela e a acusação e julgadora.
248 Narramos casos em que as mulheres tinham as mãos trêmulas (Audiência 1 e 5); havendo também os que permaneciam com as pernas, pés e/ou braços inquietos (Audiência 2 e 8); outro em que uma delas permaneceu o tempo quase inteiro chorando (Audiência 4) e aqueles em que pareciam invisíveis, sem falar ou fazer
movimentos marcados (Audiência 3, 6 e 9) e até mesmo aquelas que simplesmente não puderam comparecer, porque o Estado não pôde assegurar que chegassem a tempo do presídio onde estavam para a sala de audiências a tempo (Audiência 7).
249 Estamos nos referindo à conformação constante da Figura 1, especificamente às juízas, promotoras(es) e mesmo escrivãs(es).
250 Vale lembrar que esta era uma mulher negra, magra, de meia idade, mãe de quatro filhos, que foi encontrada no presídio guardando, no próprio corpo, ao todo menos de 14g de entorpecentes – características que em tom para dizer no mínimo irônico revelam sua “periculosidade”.
palanque das autoridades e, olhando e saudando a todas e todos, a algemou, como em ritual que imprimia sentido a sua presença naquele local.
Na Audiência 5, só uma policial acompanhou a ré, que permaneceu o tempo todo algemada. Este foi um caso bastante duro, porque a acusada permaneceu olhando todas as agentes (promotora e juíza) de modo firme, de cabeça levantada, e quando depôs sugestionou ter sido também vítima de uma relação abusiva251. Após terminar a fala, o escrivão imprimiu seu termo de depoimento e a ela entregou. Quando foi assinar, mal conseguia mover as próprias mãos, já que estava algemada. Mas a policial que permanecia alerta ao seu redor fez questão de se aproximar ainda mais dela, e colocar a mão na arma que permanecia em sua coxa, como se as mãos que mal conseguiam suportar uma caneta esferográfica pudessem ser usadas para qualquer outra violência – a não ser aquela praticada contra ela mesma, esta de assinar o prelúdio da dura condenação que receberia.