Ainda mais se for projetado no poder militar o que se tornou a chamada guerra às drogas. E não é só porque, através da estrutura curricular, não temos acesso a cursos que aprofundem o contacto com as diversas opções metodológicas, técnicas e programas de investigação. Para realizar o filtro “juízas que julgam mulheres por tráfico de drogas”, tivemos que ter acesso às agendas de audiências16 desses 15 tribunais durante os dois meses, o que acabou sendo o primeiro grande desafio da pesquisa.
Apresentamos, portanto, num segundo bloco do segundo capítulo a investigação sobre a permanência, em espaços periféricos, do processo de colonização e em que se manifesta. É um discurso baseado em uma premissa fundamental: a possibilidade da existência de a. Esta é uma situação que se espalha por toda a América Latina, em que as mulheres presas por crimes relacionados a drogas variam de um total de 24% do total de presos (Uruguai), a 75,5% do total (Costa Rica), segundo IDPC (2015). ).
AS PALAVRAS, SEUS RASTROS E SENTIDOS: DIÁLOGOS COM JACQUES DERRIDA
- Desconstrução como marco de deslocamento dos sentidos investidos na guerra contra as drogas e transgressão dos lugares ocupados por juízas criminais e mulheres
- A força das palavras no direito e práticas de juízas: rastreando os sentidos sublimados que preenchem um atuar na guerra contra as drogas
Esta cadeia, este tecido, é o texto que só surge através da transformação de outro texto. As palavras consideradas enviadas e diferidas significam esse sistema de verdades que chamamos de sublimadas, porque são entendidas como habitantes de um universo – e não como se estivessem acima dele. A posse de um traço desviante pode ter um valor simbólico generalizado que as pessoas consideram natural.
Como se verifica, o local, as condições em que ocorreu o ato criminoso e as circunstâncias da prisão conduzem, ao contrário do que afirma a Defesa, à certeza do envolvimento do acusado no comércio nefasto.” (enfase adicionada). Nestes discursos foi apresentado o conhecimento de que se trata de um comércio como qualquer outro, aliado a adjetivos pesados e, portanto, a necessidade de uma resposta dura através do direito penal. A linguagem utilizada na sua tradução e na sua aplicação também é força e também meio.
Segundo Derrida: “o uso da palavra ‘poder’ é ao mesmo tempo muito frequente, atrevo-me até a dizer decisivo em locais estratégicos, mas sempre ou quase sempre acompanhado de uma reserva expressa, de uma advertência. Muitas vezes recomendei a vigilância, lembrei-me dos riscos que esta palavra implica: risco de um conceito obscuro, substancializante, oculto-místico, risco também de uma autorização concedida à violência violenta, sem regras, arbitrária" (DERRIDA, 2010, pp. 10-11).A mobilização do igualmente implacável, construtor de um sentido abstraído foi utilizada de forma simples por um dos juízes.
Nesta ocasião, sujeito à aplicação de uma lei que pressupõe conhecimento, o arguido participa num ritual cuja linguagem é estranha a quem não é da área - e mesmo a alguns formados em direito quando não são criminalistas - e tem a opção de escapar impune de uma frase criptografada, escrita em termos ininteligíveis. Investem, em discursos “jurídicos”, verdades que se tornam essenciais e que adquirem potencial para legitimar um controle nocivo sobre algumas pessoas e significativamente sobre o corpo de algumas mulheres, em favor de uma moralidade que demoniza alguns entorpecentes e seus retalhistas populares.
COLONIALIDADE DO PODER: PENSANDO RELAÇÕES DE RAÇA, CLASSE, GÊNERO E SEXUALIDADE NA MARGEM SUL GLOBAL
- Colonialidade, relações de poder e processos de criminalização
- Branqueamento e branquitude e discursos de juízas
Ao compreender o exercício do poder criminoso como exemplo de realização de violência autorizada, a partir de dinâmicas de poder situadas125, foi possível observar discursos que hierarquizam e se dispõem a marcar. É uma relação que reconhece que o Estado, representante da sociedade, é legítimo para reprimir o crime (legitimidade) que constitui dano à sociedade (bem e mal), e que quem comete o ato tem uma atitude interior repreensível , em oposição aos valores sociais (culpa). É uma ideologia que rejeitamos por ter preenchido diversas fases do discurso sobre este tema.
Ela persistiu por vários minutos em deixá-lo saber que isso estava certo, usando uma linguagem muito simples e conversando com ele com calma, olhando-o nos olhos. Não assistimos a nenhuma outra audiência em que o direito constitucional tenha sido explicado de forma semelhante – e na maioria dos casos nem sequer foi mencionado. A racialização das relações de poder é central para a compreensão da dinâmica intersubjetiva no Brasil, onde “nos deparamos com uma sociedade de classes estruturada racial e sexistamente” (FLAUZINA, 2008, p. 152)132.
135 Concordamos plenamente com Flauzina quando nos diz que “ao negligenciar o racismo como. 140 É o que nos ensina Vera Malaguti: “No Brasil, Nina Rodrigues fundou a criminologia ao mesmo tempo em que fundou a medicina jurídica e a antropologia; São saberes médicos que se sobrepõem aos discursos jurídicos na direção de um higienismo contraditório e paradoxal. O primeiro exemplo foi Áquila, que em seu discurso nos disse com convicção que “mais ou menos 1/3 das mulheres presas são negras”.
Ela propôs, após ser questionada se tinha a impressão de que o sistema era racista, falar longamente sobre a situação dos negros no Brasil, afirmando que “[os negros] têm uma evolução social diferente”. No caso de uma faculdade de Direito tradicionalmente considerada uma das melhores do país151, há três anos tinha três de seus professores como ministros do STF (Luís Roberto Barroso; Luiz Fux e Joaquim Barbosa), é claramente um espaço para poder.
DE MULHER A MULHERES: CAMINHOS PERCORRIDOS PELOS ESTUDOS DE GÊNERO E DIÁSPORA AFRICANA
- Construindo imagens: papel dos estereótipos para a demarcação do sujeito Mulher e da outra criminosa
- Estratégias de silenciamento e morte simbólica de algumas mulheres
- Diferenciações e aproximações discursadas pelas juízas: “o que poderia existir de comum entre mulheres de diferentes grupos raciais e classes sociais?”
Na prática, aceita-se a existência de naturezas feminina e masculina, fazendo com que as diferenças entre homens e mulheres sejam percebidas como factos naturais (Grant 1991: 21 e 24). Friedan fez dos seus problemas, e dos de mulheres brancas como ela, sinônimos de uma condição que afetará todas as mulheres nos Estados Unidos. No contexto do seu livro, ela explica que as mulheres que considerava vítimas do sexismo eram mulheres brancas.
Este é um excelente exemplo de ideologia e não se limita às mulheres; Ela concluiu seu discurso com mais algumas considerações e depois voltou a expressar sua opinião sobre “maternidade para mulheres encarceradas” (termo dela), usando uma frase cunhada por uma colega promotora. A maternidade nesses discursos foi apresentada sob um ponto de vista biológico e que propõe a representação da mulher dentro de uma matriz que não critica as compreensões históricas produzidas pela redução do papel da mãe, por um universalismo incapaz de matizar outras opressões que mulheres. na sua diversidade.
A nossa inserção nestas relações de poder globais ocorre através de uma série de processos económicos, políticos e ideológicos. Um preceito central do pensamento feminista moderno tem sido a afirmação de que “todas as mulheres são oprimidas”. Após uma série de pedidos, ela conseguiu atendimento domiciliar, comprovando que tinha um filho menor de 12 anos e que ele era de sua exclusiva responsabilidade – já que o pai dele, o ex-governador, também estava preso.
200 Ele se refere ao fato de que, no TJRJ, é costume que os funcionários judiciais, ao perceberem que o endereço de uma investigação está localizado em uma favela, se recusem a realizá-la, alegando que se trata de uma “zona de perigo”. ". Tratava-se de uma suspeita de transporte de substâncias ilícitas, onde duas mulheres foram encontradas em um ponto de ônibus próximo a uma favela, motivo de revistas corporais.
DE MULHERES A TRAFICANTES: FEMINISMOS, ESTUDOS PÓS-COLONIAIS E DECOLONIAIS E A EXPERIÊNCIA IMBRICADA DO GÊNERO (E DO NÃO-SER)
- Etiquetamento como um modo de produzir vidas e seus sentidos hierarquizáveis
- Comportar-se dentro e fora das audiências
- Assistência jurídica, traduções e relações com desassistências mais gerais
- Retórica salvacionista: de quem as mulheres criminalizadas precisam ser salvas?
O que se quer dizer é que as categorias de gênero e raça não podem ser conceituadas isoladamente umas das outras, uma vez que a interseccionalidade é a base fundamental de um conjunto de processos que dela decorrem222. Diversas pessoas podem contribuir para a deterioração da posição de uma mulher responsável por um crime em comparação com um homem no mesmo caso – cujas provas lhe são ainda mais desfavoráveis. Para ilustrar essa "categoria", ela fez uma breve análise de uma novela veiculada por uma grande emissora de televisão brasileira da época, que na época tinha como protagonista uma mulher que se relacionava com um homem que fazia o papel de um “grande traficante” que foi preso – e por isso passou a integrar o varejo.
Foi o que aconteceu no já descrito interrogatório 2, quando a arguida, uma mulher negra, veio acompanhada por um agente da polícia, uma mulher branca como habitualmente, mas também um agente da polícia branco. Além de garantir que as garantias do réu sejam respeitadas no procedimento formal, a defesa técnica na audiência de instrução e audiência cumpre outra função fundamental. Ele imediatamente se lembrou do caso mais comentado no escritório que era “a mulher que transportava drogas na prisão” e interrompeu todo o trabalho de escritório que estava fazendo para verificar a agenda quando será sua audiência.
Foi o roubo da carteira de uma mulher rica num restaurante onde a vítima foi reconhecida pessoalmente. Depois veio o caso de extorsão do cofre de um grande posto de gasolina, no qual houve grave erro do autor. O juiz a interrompeu mais de uma vez, dizendo: “Não perguntei o que você viu, perguntei o que a polícia te contou”.
A construção dos criminosos como parte da sua própria cultura, de uma realidade antagónica impenetrável, de um submundo. 283 Considerando o número total de mulheres e homens criminalizados por tráfico de drogas, provavelmente temos mais de metade de todos os casos num tribunal criminal.
ROTEIRO DE PERGUNTAS
TERMO DE CONSENTIMENTO
Rio de Janeiro: Editora Revan: Instituto Carioca de Criminologia, 6ª edição, outubro de 2011, 2ª reedição, agosto de 2014. In: Psicologia social do racismo – estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil / Iray Carone, Maria Aparecida Silva Bento (organizadores) Petrópolis , RJ: Vozes, 2002, pp. In: Psicologia social do racismo – estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil / Iray Carone, Maria Aparecida Silva Bento (Organizadoras) Petrópolis, RJ: Vozes, 2002b, pp.
Tráfico e Constituição: um estudo sobre o papel da justiça criminal antidrogas do Rio de Janeiro e de Brasília no crime de tráfico de drogas. Mulheres e crianças presas: um estudo sócio-jurídico da experiência da maternidade no sistema prisional do Rio de Janeiro. FEMINISMO NO BRASIL: UMA (BREVE) RETROSPECTIVA In: Feminismo no Brasil: reflexões e perspectivas teóricas / Ana Alice Alcantara Costa, Cecilia Maria B.
Disponível em
STREVA, Juliana Moreira A Objetificação Colonial dos Corpos Negros: Uma Leitura Decolonial e Foucaultiana do Extermínio Negro no Brasil.