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Compreender a religiosidade no meio do povo

2.1 Fé, religião e religiosidade

2.1.4 Compreender a religiosidade no meio do povo

O fenômeno religioso está colocado. Como compreendê-lo? Mesmo com um interesse teológico nesta pergunta, há a necessidade de se recorrer a outros saberes no sentido de esclarecer os pontos fundantes desse fenômeno e sua relação com a sociedade.

Neste sentido, Libanio faz uma pergunta: “Diante da decepção com o fracasso das lutas revolucionárias, das ideologias e da importância em face ao sistema econômico neoliberal globalizado, é de estranhar-se que se troque a luta social pela oração?”126. Esta é, sem dúvida, uma pergunta provocadora, uma vez que, na práxis de Jesus, a oração é forte alimento do ânimo para derrubar as barreiras sociais, e não uma fuga dos problemas.

Apesar da práxis evangélica não ter em sua origem a intenção de alimentar a alienação ou a fuga da vida, a busca espiritual desenfreada, descontrolada, marcada pelo desejo incessante da oração desmedida, se traduz em um reflexo “da incapacidade humana de buscar a realidade”127 do refugio na crença dos milagres, sem ao menos desenvolver uma reflexão em torno da questão religiosa como transformação dos atos da vida.

126 LIBANIO, A Religião, p. 59.

127 LIBANIO, A Religião, p. 59.

Como já é sabido, o iluminismo criou a perspectiva de um mundo melhor, ancorado na razão. No entanto, veio a decepção. A razão não foi capaz de responder aos anseios humanos, fato visibilizado nas duas Grandes Guerras. Como conseqüência, o religioso retornou com força total, o sagrado foi redescoberto pela sociedade secularizada como uma via de paz e bem-estar. O que se observa é que o religioso resistiu bravamente e não aceitou sair de cena tão facilmente. Esse fato notável fez surgir novos cristãos. A seiva religiosa nunca deixou de correr nas veias da sociedade, permanecendo presente na cultura e na história128.

Nesse confuso momento religioso, observa-se que muitos fiéis têm uma significativa decepção com as instituições religiosas. Elas parecem não corresponder às suas buscas místicas e a conseqüência disso é uma insatisfação geral, recorrer ao quê e a qual instituição no auxilio ao preenchimento do vazio. Há uma desesperança; as fontes seguras estão secando e aquele que se apresenta sedento não sabe mais onde preencher o pote da fé. A saída, muitas vezes, torna-se a criação de uma nova religião.

A década de 60 assistiu a um tipo de eclipse do sagrado. Proclamou-se o “fim do monopólio das tradições religiosas”. Desta sorte, as experiências religiosas vinculadas a uma Instituição, no caso do mundo ocidental, ao Cristianismo, quer na sua forma católica, quer protestante, perdem plausibilidade. Já não são as Igrejas ou religiões institucionais que criam necessariamente o espaço da experiência religiosa. Antes, pelo contrário, elas perdem força e deixam o sagrado solto, entregue às vivências pessoais, individuais em processo crescente de privatização e individualização129.

Deus, porém, não deixou de existir, talvez algumas manifestações religiosas, instituições e ideologias tenham ofuscado seu brilho. Ele sempre esteve presente. Com o tempo, a maneira de enxergar Deus e de cultuá-lo foi se modificando, surgindo novas expressões religiosas oriundas da própria arrogância do homem em querer dar resposta aos fatos unicamente através da razão.

[A religiosidade] corresponde à necessidade afetiva e pessoal de estar ligado com algo distinto de si mesmo. Vem ao encontro de aspiração confusa para estar em simpatia harmônica com todas as coisas. Revela um afã de penetrar todos os segredos. Traduz um desejo de comunicar-se com forças sensíveis presentes e atuantes no universo. Casa-se com a inclinação para o mistério130.

128 O sagrado manteve-se presente, dando garantia de que a razão não consegue responder a todas as perguntas levantadas pelo homem. Um exemplo dessa seiva do sagrado foi o Concílio Vaticano II. Outro exemplo é a própria romaria que resiste ao tempo, às mudanças no comportamento da Igreja e dos fiéis.

129 CALIMAN, Cleto (Org.). A Sedução do Sagrado: o fenômeno religioso na virada do milênio. Petrópolis:

Vozes, 1998. p. 61.

130 LIBANIO, A Religião, p. 91-92.

A religiosidade coloca o fiel numa sensação de amor universal sem mesmo estar ligado a uma religião, porém este fiel pode assumir elementos da religião para satisfazer seus anseios.

A experiência religiosa provoca fascínio, permitindo ao indivíduo sair da rotina, atingindo uma situação diferente, imbuída de poder, de mistério, de encontro com o sagrado. “O sagrado, ao descentrar o ser humano, provoca a experiência antagônica de presença e distância, de manifestação e ocultamento, que se fundamenta na própria natureza da experiência transcendental de Deus feita na existência”131.

A religiosidade se dá na clara e evidente manifestação do sagrado, transformando o comportamento humano. A partir do momento em que o homem toma consciência da manifestação do divino e é seduzido por ele, sua atitude muda, seu comportamento toma outro sentido, ganhando o toque misterioso da fé. O sagrado pode aparecer de diversas formas, a maneira de absorvê-lo se transforma em ato religioso. “A religiosidade das pessoas, embora estrutural, assume o colorido conjuntural das épocas e lugares”132. Tal situação acaba por seduzir o fiel.

Essa sedução do sagrado e do religioso que domina a vida contemporânea implica, por sua vez, uma volta aos paradigmas pessoais e aos modelos individuais como inspiradores da religião e da ética. Nesse sentido, as religiões que cultuam santos como modelos de conduta e os sistemas ideológicos que preservam a memória de heróis e mártires encontram um caminho fecundo para seguir iluminando o caminho das novas gerações133.

No contexto da romaria em Bom Jesus da Lapa, o sagrado se faz presente em vários sentidos, em todos os elementos relacionados ao espaço físico, à extensão espiritual e também nos objetos materiais que compõem o santuário. Também o celebrante toma ar de uma pessoa diferenciada na visão do romeiro.

131 LIBANIO, A Religião, p. 92, nota 12.

132 LIBANIO, A Religião, p. 101.

133 CALIMAN, A Sedução, p. 86.

2.2 Entrelaçamento entre Fé, Religião e Religiosidade na