• Nenhum resultado encontrado

Abaixo, serão feitas breves considerações acerca do dano para, posteriormente, se discorrer sobre sua compreensão e incidência no âmbito do direito à existência (de existir), tema alvo do dano existencial, e do direito de desenvolver o(s) projeto(s) de vida, tema alvo do dano ao projeto de vida. Em seguida, serão envidados esforços no sentido de caracterizar estes danos como espécies de princípios de humanização do processo, levando-se em conta, especialmente, as possibilidades, os efeitos e as consequências de sua aplicabilidade, ou inaplicabilidade, em processos coletivos decorrentes de conflitos envolvendo a atividade minerária, como é o caso do que ocorreu no distrito de Macacos.

Segundo Sérgio Cavalieri Filho (2012), o dano se encontra no centro da responsabilidade civil, não havendo que se falar em responsabilidade102, ou sobre dever de ressarcir ou indenizar, sem o dano efetivo. Nas palavras do autor,

O dever de reparar pressupõe o dano e, sem ele, não há indenização devida.

Não basta o risco de dano, não basta a conduta ilícita. Sem uma consequência concreta, lesiva ao patrimônio econômico ou moral, não se impõe o dever de reparar (CAVALIERI FILHO, 2012, p. 77).

Gustavo Tepedino, Aline de Miranda Valverde Terra e Gisele Sampaio da Cruz Guedes (2021) fazem menção à teoria da diferença, afirmando que o dano é o resultado da diferença da situação do lesado, antes e depois do evento danoso. Neste sentido, pode- se afirmar que o dano decorre da violação (por ação ou omissão voluntária, negligência ou imperícia) do dever jurídico geral de não prejudicar ninguém. Ocorrendo a violação, configura-se o ato ilícito (art. 186 do CC/2002), nascendo a responsabilidade civil pelo dano causado, ou seja, a obrigação de reparar103 o dano (art. 927 do CC/2002). Assim, o dano estaria vinculado à comparação entre a situação anterior ao ato ilícito e depois desse ato (ou mesmo se este não tivesse ocorrido).

Por muito tempo, acreditou-se que a antijuridicidade era o núcleo do conceito de dano, entretanto, essa interpretação se mostra restrita e não abarca a evolução pela qual passaram o conceito de dano e de responsabilidade civil nos últimos anos (RENNER, 2012). O jurista baiano Orlando Gomes foi um dos responsáveis por contribuir com essa evolução, ao promover o giro conceitual do ato ilícito para o dano injusto, segundo o qual, o dever de reparação civil se daria não mais pelo descumprimento da lei, mas pela violação de bens jurídicos relevantes. Esta noção amplia o conceito de dano ressarcível, abarcando também situações antijurídicas, decorrentes de condutas lícitas ou por abuso de direito (TEPEDINO; TERRA; GUEDES, 2021).

Ultrapassando a teoria da diferença, pode-se afirmar que o dano é a lesão a qualquer bem jurídico digno de tutela, lesão esta que pode ser de ordem material (com efeitos patrimoniais/perda do patrimônio) ou moral (produzindo efeitos extrapatrimoniais).

102 Segundo o autor, pode haver responsabilidade sem culpa, mas não sem dano (CAVALIERI FILHO, 2012).

103 Reparar, aqui, deve ser entendido como a tentativa de restaurar ou restabelecer a situação anterior (status quo ante). Porém, em muitos casos, isso não é possível, o que faz com que a obrigação se converta em indenização (se houver a possibilidade de avaliação pecuniária do dano) ou em uma compensação (quando não é possível estimar o valor pecuniário da reparação).

Sob a perspectiva do ordenamento jurídico brasileiro, qualquer dano que possa impedir a plena realização da pessoa humana e do seu projeto emancipatório deve ser ressarcido, o que implica no reconhecimento das consequências jurídicas da lesão na esfera existencial do indivíduo e/ou da coletividade, bem como aos seus projetos de vida.

Sendo assim, a insuficiência dos conceitos tradicionais de responsabilidade civil indica a necessidade de mudanças significativas e reconstrução do instituto, de modo a abarcar o dano existencial e o dano ao projeto de vida.

Mas, questiona-se: o que é o dano existencial? E o dano ao projeto de vida? Por que discutir, no Brasil, essas abordagens do dano? Trata-se de mero interesse acadêmico nas categorias ou seria necessário aprofundar o debate acerca da influência que esses danos exercem no ordenamento jurídico brasileiro? Quais respostas poderiam ser dadas às indagações das vítimas de grandes empreendimentos minerários, que sofrem violações graves às suas existências e aos seus projetos de vida?

Estes temas merecem ser debatidos.

Falar sobre dano implica em desenvolver uma teoria que abarque um mínimo comum semântico sobre o assunto, pois há uma pluralidade de ideias sobre o tema que dificulta sua correta compreensão. Isso se deve ao fato de que muitos estudiosos entendem o dano como uma terminologia imprecisa, por gerar um raciocínio também impreciso sobre as inúmeras possibilidades de danos que uma pessoa poderia sofrer ao longo da vida, inclusive sobre danos à sua liberdade. Sobre a complexidade do ser humano e a multiplicidade dos danos que podem afetá-lo, Sessarego (1993) destaca:

Dada a complexidade do ser humano, o dano pode afetar uma ou mais de suas múltiplas manifestações. Sendo o ser humano uma unidade psicossomática amparada pela liberdade, os danos cometidos contra ele podem ferir um ou mais dos aspectos somáticos ou psicológicos do sujeito ou afetar sua própria liberdade (SESSAREGO, 1993, p. 9, tradução livre)104.

Porém, para se falar do dano existencial e seu corolário, isto é, o dano ao projeto de vida, há a necessidade de uma discussão prévia, a qual se pretende enfrentar, se consolidando na tentativa de responder às seguintes perguntas: De qual(is) existência(s) se está falando? Como um dano pode prejudicar uma (ou múltiplas formas de) existência?

Como caracterizar, então, o dano existencial? Pode-se tutelar, juridicamente, o(os)

104 Dada la complejidad del ser humano, los daños pueden afectar alguna o varias de sus múltiples manifestaciones. Como el ser humano es una unidad sicosomática sustentada en la libertad, los daños que contra ella se cometan pueden lesionar alguno o varios de los aspectos somáticos o síquicos del sujeto o incidir en su propia libertad.

projeto(s) de vida? Como se poderia mensurar e cobrar do responsável por danos dessa natureza?

Diante de tais indagações, é importante considerar que o conceito jurídico de dano deve ser anterior, e não posterior à ocorrência do dano, evidenciando-o como forma de dar suporte fático à norma e, consequentemente, ao dever de indenizar. Disto decorre a importância deste tópico.