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Para responder a esta pergunta, Lapoujade (2017) recorre ao conceito de intensificação, ou seja: para que determinada existência exista, sua realidade deve ser intensificada, e nisto consiste a conquista do direito de existir105. Nas palavras do autor,

Não existimos por nós mesmos; só existimos realmente porque fazemos existir outra coisa. Toda existência precisa de intensificadores para aumentar sua realidade. Um ser não pode conquistar o direito de existir sem a ajuda de outro, que ele faz existir (LAPOUJADE, 2017, p. 24-25, grifo nosso).

Das reflexões de Lapoujade, percebe-se que o direito de existir envolve o agir coletivo, a solidariedade e o compartilhamento da existência em sociedade. Entretanto, essa intensificação requer trabalho, qual seja, o trabalho de instauração, que deve ser coletivo. Uma pessoa, uma família, uma comunidade, uma história, uma vida, até um país, ou mesmo Deus, precisam ser instaurados para existir minimamente. Mas o que significa instaurar uma existência?

105 Deste modo, a filosofia de Souriau pode ser compreendida tanto sob a perspectiva da Arte como do Direito, uma vez que a relação entre o direito de existir e a arte de existir é muito próxima.

Quem irá responder a esta pergunta será o filósofo húngaro, residente no Brasil, Peter Pál Pelbart106, segundo o qual,

A instauração não é um ato solene, cerimonial, institucional, como quer a linguagem comum, mas um processo que eleva o existente a um patamar de realidade e esplendor próprios. [...] – ‘patuidade’, diziam os medievais.

Instaurar significa menos criar pela primeira vez do que estabelecer

‘espiritualmente’ uma coisa, garantir-lhe uma ‘realidade’ em seu gênero próprio (PELBART, 2014, grifo nosso).

Das lições deste filósofo, pode-se afirmar que instaurar é intensificar ou fortalecer a realidade de uma existência ou de múltiplos modos de existir. Essa instauração é um gesto pelo qual uma existência quer afirmar um direito de existir. Neste sentido, David Lapoujade afirma:

A intensificação da realidade de uma existência tem sempre como correlato a afirmação de seu direito de existir. Como esse direito não é mais atribuído por um fundamento soberano, é preciso conquistá-lo por outros meios (LAPOUJADE, 2017, p. 103, grifo nosso).

E o autor continua: “Não somos reais pelo simples fato de existirmos; somos reais apenas se tivermos conquistado o direito de existir” (LAPOUJADE, 2017, p. 104, grifo nosso). Reafirma-se que esse direito só pode ser conquistado coletivamente. Porém, surge aqui uma pergunta: Como uma existência pode conquistar, por ela mesma, sua legitimidade? Lapoujade nos convida a respondê-la da seguinte maneira:

Quem pretende fazer com que existam mais, que tenham ‘mais’ realidade, é, além de criador, um advogado, pois luta pelo ‘direito’ de existirem com mais intensidade, de ocuparem legitimamente um lugar neste mundo (LAPOUJADE, 2017, p. 118, grifo nosso).

“Advogar” pelo direito à existência não deve ser visto apenas como advogar o direito à instauração ou intensificação de determinada existência; é também advogar pelo direito de essa existência existir. Todavia, algumas existências são minimizadas, invisibilizadas ou mesmo desconsideradas em detrimento de outras.

O próprio Direito, muitas vezes, intensifica determinada existência para violá-la ou mesmo eliminá-la. Esta associação pode ser feita ao se pensar sobre a população

106 No artigo intitulado Por uma arte de instaurar modos de existência que “não existem” (2014), o autor, retomando Souriau, destaca que, antes de tentar fazer um inventário dos seres segundo seus diferentes modos de existência, é preciso instaurar a existência. “Para que um ser, coisa, pessoa, obra, conquiste existência, não apenas exista, é preciso que ele seja instaurado” (PELBART, 2014, p. 250).

carcerária, por exemplo, ou a população em situação de rua, minorias étnicas, por orientação sexual, corpos negros, pessoas faveladas, bandidos, drogados, dentre outras coletividades. Outra associação também pode ser feita, com as remoções forçadas de pessoas que residem em área de risco. Verifica-se que, o Estado, em vez de investir em políticas públicas para garantia do direito à moradia adequada, por exemplo, opta por negar a existência das pessoas e famílias que vivem, muitas vezes há muitos anos em determinado local, violando-as ou mesmo eliminando-as por meio da retirada compulsória das suas residências.

O próprio conceito de atingido por desastres causados pela atividade minerária, amplamente veiculado nos trabalhos que tratam do tema, se configura como violador das múltiplas existências, ao tentar homogeneizar o tratamento dispensado àqueles que lutam pelo direito de existir. Entretanto, se trata de um “conceito em disputa” (VAINER, 2003), conforme identifica Carlos Vainer, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ippur-UFRJ). Para esse autor, o conceito de “atingido” diz respeito ao reconhecimento, ou seja, a legitimação de direitos e de seus detentores.

Em outras palavras, estabelecer que determinado grupo social, família ou indivíduo é, ou foi, atingido por certo empreendimento significa reconhecer como legítimo – e em alguns casos como legal – seu direito a algum tipo de ressarcimento ou indenização, reabilitação ou reparação não pecuniária. Isto explica que a abrangência do conceito seja, ela mesma, objeto de uma disputa (VAINER, 2003, p. 40, grifo nosso).

Pode-se afirmar, assim, que o direito à existência possui pontos de contato com o direito ao reconhecimento. Entretanto, o direito de existir reclama muito mais que isso, ou seja, para além da apresentação de partes reconhecidas, da existência das pessoas.

Neste sentido, o direito de existir possui relação intrínseca com o direito de resistir e re- existir nos territórios minerados, o que merece ser reconhecido, debatido e devidamente indenizado.

O senso comum tende a reproduzir a noção de que existem populações invizibilizadas (que não existem e não são vistas) na sociedade em que vivemos, porém, é preciso ir além dessa constatação e compreender que há um processo institucional de silenciamento e vulnerabilização de corpos, dos territórios, das coletividades e comunidades afetados por esse descaso institucionalizado. Sob a perspectiva da resistência em uma “multiterritorialidade” que vai se construindo a partir de baixo, por

grupos subalternos, Maristella Svampa (2019) afirma que, tanto nos movimentos urbanos como nos rurais, o território aparece como um “espaço de resistência” e, cada vez mais, como um “lugar de ressignificação e criação de relações sociais” diante das disputas com os megaprojetos extrativistas. Tal fato gera uma “tensão de territorialidades por meio da implantação de uma visão dominante da territorialidade que se apresenta como excludente das demais visões existentes” (SVAMPA, 2019, p. 56).

O que se pretende aqui é superar estes processos de invizibilização e promover um processo de instauração, intensificação e ampliação das múltiplas existências das pessoas afetadas que se encontravam já instaladas nos territórios que posteriormente foram degenerados pela atividade minerária no distrito de Macacos. E é essa intensificação e essa instauração que devem ser identificadas como gestos que precisam ser considerados enquanto objetos de luta pela conquista (e resistência) do direito de existir dessa comunidade, tendo em vista a multiplicidade do território e das (re)existências locais, tão pouco reconhecidos.

Neste propósito é que consiste o maior desafio desta pesquisa: fortalecer os espaços dos múltiplos modos de existir e resistir da população afetada pela tragédia ambiental e social ocorrida no distrito de Macacos.

Cabe aqui ainda uma advertência, a de que a pesquisa não visa restringir as reflexões do direito à existência à comunidade de Macacos, mas sim, ampliar o debate a outras comunidades que também sofrem com o processo de violações de direitos e danos decorrentes da atividade minerária.

Para adentrar de modo mais analítico e aprofundado no tema desta pesquisa, apresenta-se, nos tópicos seguintes, os contornos fundamentais do dano existencial e do dano ao projeto de vida, os quais servirão de suporte teórico para a classificação desses danos como princípios de humanização do processo, notadamente aplicáveis frente aos processos coletivos mais complexos, ou seja, de índole estrutural.

Acredita-se que, posteriormente, estas reflexões servirão de base para estabelecer estes danos como fundamentos da tutela dos direitos individuais e coletivos das vítimas de rompimentos (efetivos ou potenciais – mediante lesão ou ameaça de lesão, respectivamente) de barragens de rejeitos da atividade minerária, bem como para a análise da ACP em destaque nessa pesquisa.