CAPÍTULO 2.................................................................................... 26
2.1 CONCEITO DE FALSIFICAÇÃO DE DOCUMENTO PARTICULAR
O delito de falsificação de documento particular vem tipificado no artigo 298 do Código Penal, que pune a falsidade material, ou seja, aquela que diz respeito à forma do documento:
Art. 298 - Falsificar, no todo ou em parte, documento particular ou alterar documento particular verdadeiro:
Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa.40
A diferença existente entre os delitos tipificados nos artigos 297 e 298 do Código Penal diz respeito, tão somente, ao objeto material, pois, naquele, o documento é público e neste, privado. Assim, tudo que foi dito com relação ao delito de falsificação de documento público aplica-se à falsificação de documento particular.41
Tanto o documento público quanto o privado devem ter sua veracidade protegida, embora a maior importância do documento emanado da atividade estatal, por carregar a presunção de veracidade ínsita a todo ato do poder público, seja irrecusável e justifique mais severa repressão ao falsum público.42
Assim como o público, também o documento particular é objeto de tutela, porque do mesmo modo desperta o interesse social na segurança e veracidade dos símbolos e atos representativos das relações
40 BRASIL, Código penal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto- Lei/Del2848.htm>. Acesso em: 03 fev. 2010.
41 GREGO, Rogério. Curso de direito penal. 5 ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2009. p. 280.
42 PRADO, Luiz Regis. Curso de direito penal brasileiro. 3 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004. p. 251.
privadas. Por isso, o Estado estabelece formalidades e requisitos orientados à ordenação das relações privadas e sua demonstração ou perpetuação. Alem disso, impõe a exigência de veracidade e confiabilidade a toda manifestação de vontade corporificada num documento capaz de produzir efeitos jurídicos, mesmo que restrito às relações interindividuais às atividades ou interesses diretos do poder público.43
De acordo com a redação constante do artigo 298 do Código penal, podemos apontar os seguintes elementos: a conduta de falsificar em todo ou em parte, ou alterar o documento particular.44
A melhor fórmula de definição de documento particular é o critério negativo, que o conceitua por exclusão: particular é o documento que não se reconhece, sequer por equiparação, como público. Documento particular é aquele feito por particular ou entre estes, sem a intervenção oficial na sua constituição ou expedição.45
Para Rogério Grego, conceito de documento particular é encontrado por exclusão, ou seja, se o documento não possuir natureza pública, seja ele formal e substancialmente público, ou formalmente público e substancialmente privado, ou mesmo aqueles considerados públicos por equiparação (parágrafo 2 do artigo 297 do código penal), poderá ser considerado um documento público.46
Art. 297 - Falsificar, no todo ou em parte, documento público, ou alterar documento público verdadeiro:
Pena - reclusão, de dois a seis anos, e multa.
43 PRADO, Luiz Regis. Curso de direito penal brasileiro. 3 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004. p. 252.
44 GREGO, Rogério. Curso de direito penal. 5 ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2009. p. 279.
45 PRADO, Luiz Regis. Curso de direito penal brasileiro. 3 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004. p. 252.
46 GREGO, Rogério. Curso de direito penal. 5 ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2009. p. 280.
§ 1º - Se o agente é funcionário público, e comete o crime prevalecendo-se do cargo, aumenta-se a pena de sexta parte.
§ 2º - Para os efeitos penais, equiparam-se a documento público o emanado de entidade paraestatal, o título ao portador ou transmissível por endosso, as ações de sociedade comercial, os livros mercantis e o testamento particular.
§ 3o Nas mesmas penas incorre quem insere ou faz inserir:
I - na folha de pagamento ou em documento de informações que seja destinado a fazer prova perante a previdência social, pessoa que não possua a qualidade de segurado obrigatório;
II - na Carteira de Trabalho e Previdência Social do empregado ou em documento que deva produzir efeito perante a previdência social, declaração falsa ou diversa da que deveria ter sido escrita;
III - em documento contábil ou em qualquer outro documento relacionado com as obrigações da empresa perante a previdência social, declaração falsa ou diversa da que deveria ter constado.
§ 4o Nas mesmas penas incorre quem omite, nos documentos mencionados no § 3o, nome do segurado e seus dados pessoais, a remuneração, a vigência do contrato de trabalho ou de prestação de serviços.47
Ainda que emitido por funcionário público, o documento terá caráter particular sempre que não se enquadre entre os que o funcionário tem por função emitir.
Ampliando este conceito, Cezar Roberto Bittencourt afirma que:
Documento particular é aquele não compreendido pelo art. 297 e seu § 2 º, ou seja, é aquele elaborado sem a intervenção de funcionário ou de alguém que tenha fé pública.48
47 BRASIL, Código penal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto- Lei/Del2848.htm>. Acesso em: 03 fev. 2010.
48 BITENCOURT, Cezar Roberto, Tratado de direito penal. 3. ed. São Paulo, 2008. p. 325.
Ainda outro conceito é dado por Luiz Regis Prado:
E documento particular, em síntese, como dito acima, é aquele que se define por critério negativo: determinado o que é documento público, chega-se por exclusão à idéia de documento privado – aquele que, preenchendo os requisitos gerais próprios do documento, não consubstancia um documento público.49
Da mesma maneira que o artigo 297, a falsificação de documento particular, possui como bem jurídico tutelado a fé pública, a confiança que as pessoas depositam nos documentos, neste caso, particulares.
Ainda, Damásio de Jesus cita quatro características que um documento particular deve apresentar:50
1) Forma escrita: não abrange a fotografias, cópias não autenticadas de documentos, pinturas, gravações etc. A escrita deve ter sido aposta em coisa móvel.
2) Autor determinado: a escrita anônima não configura documento.
3) Deve conter uma manifestação de vontade ou a exposição de um fato: a simples aposição de uma assinatura em papel em branco não constitui documento. Da mesma forma, não consistem em documentos os papéis com escritos ininteligíveis ou sem sentido.
4) Relevância jurídica: é necessário que o escrito possa causar conseqüências no campo jurídico. Não constituem documentos os papéis inócuos, os que retratam fatos ou manifestações de vontade sem importância jurídica.
Ainda assim, Fernado Capez conceitua documento particular como todo aquele que é formato "sem a intervenção de oficial ou funcionário
49 PRADO, Luiz Regis. Curso de direito penal brasileiro. 3. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004. p. 255.
50 JESUS, Damásio E. de, Direito penal. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 56.
público, ou de pessoa investida de fé pública", como algumas hipóteses:51
a) instrumento ou documento particular registrado no Cartório de Registro de Títulos de documentos não se transmuta em documento público, pois continua a ser documento formado sem a intervenção do funcionário público ( tabelião por exemplo ), de forma que seu registro posterior em Cartório destina-se a apenas tornar pública, por exemplo, uma locação ou uma cessão de direitos, de forma a surtir efeitos perante terceiros;
b) instrumento ou documento particular com firma reconhecida também não se transmuda em documento público.
Caso a falsificação se opere sobre as próprias anotações do oficial público, aí, sim, teremos a configuração do crime de falsificação de documento público;
c) instrumento ou documento público nulo, pela falta de observância dos requisitos legais. Nessa hipótese, poderá valer como documento ou instrumento particular. Assim, qualquer falsificação ou alteração nele operada poderá constituir o crime em exame e não o de falsificação de documento público ( Código Penal, artigo 297 );
d) documentos impressos ou integralmente datilografados, sem qualquer assinatura, não podem ser considerados documento, nem mesmo particular, para os efeitos legais,de forma que qualquer falsificação ou alteração deles não configura o delito em estudo;
e) cópias não autenticadas de documento. Também não são consideradas documentos para efeitos penais.
f) documento particular sem qualquer relevância jurídica. Não pode constituir objeto material do crime em tela o documento inócuo, cujo conteúdo não gere qualquer conseqüência na esfera jurídica.
Em relação aos documentos expedidos por autoridades religiosas, Luiz Regis Prado diz que:
51 CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 324.
É documento particular também, sem embargos da relevância que lhe é atribuída pela lei, aquele expedido por autoridade religiosa, ainda que dotado de eficácia jurídica para fins civis, como na hipótese do ato de casamento celebrado por ministro religioso de que trata a Lei 1.110, de 23.05.1950. Ao contrário do Código Penal espanhol de 1995, que equiparou à falsificação de documento público o falso cometido por qualquer autoridade religiosa em relação aos documentos de sua alçada capazes de produzir efeitos jurídicos civis, o Código brasileiro não trata especificamente dessa hipótese, de modo que não poderá ser tido como documento público.52