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Hoje, todavia, todos são apenas filhos, uns havidos fora do casamento, outros em sua constância, mas com iguais direitos e qualificações. O princípio da igualdade dos filhos é reiterado no artigo 1.596 do Código Civil.137

Os filhos, havidos ou não da relação de casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação.

Ocorre que a relação entre pais e filhos mudou muito com ao tempo. Pois os pais já não têm poderes absolutos sobre os filhos, os quais também têm seus direitos.138

Em nossos dias, a concepção que se tem da relação entre pais e filhos menores é, como se diz, filhocentrista. Em outras palavras, a preocupação é com a pessoa dos filhos menores, seu bem-estar, seu melhor interesse. A ideia pode soar-nos muito óbvia, mas, até pouco tempo atrás, a concepção era oposta. A relação entre pais e filhos era baseada na ideia de absoluta primazia dos pais, principalmente do pai, chefe da família e cabeça do casal. Historicamente, o pater- familias tinha direito de vida e de morte sobre seus filhos e outros dependentes.139

Desta forma, verifica-se que tanto o instituto família, como o instituto filiação sofreram várias modificações, e que a idéia de o filho somente ser reconhecido se legítimo fosse ficou para trás, e que nos dias de hoje o que prevalece é a igualdade entre os filhos, sendo eles concebidos na constância do casamento ou não, e de sobremaneira não podendo mais serem discriminados como acontecia em tempos remotos.

entre um indivíduo e seu pai ou mãe, pelo fato de esses terem dado vida àquele; numa segunda acepção, cujo enfoque é o sociológico, deve-se entender a filiação como o resultado auferido nas relações interpessoais estabelecidas em torno do desejo de alcançar a perpetuidade.140

A idéia de filiação é que todos os filhos são iguais perante a lei, não importando qual a sua origem, de acordo com a regra da isonomia, e de acordo com o que estabelece o artigo 227, § 6º, da Constituição Federal.

Os filhos podem provir de origem genética conhecida ou não, de escolha efetiva do casamento, de união estável, de entidade monoparental ou de outra entidade familiar implicitamente constitucionalizada. O status de filho pode ser conquistado com o nascimento em uma família matrimonialmente constituída, com a adoção, com o reconhecimento da paternidade, voluntário ou forçado, sem que a causa que deu ensejo ao vínculo que se estabelece entre pai, mãe e filho seja a consangüinidade.141

Deste modo:

Filiação é, no nosso entender, o vínculo que se estabelece entre pais e filhos, decorrente da fecundação natural ou da reprodução assistida homóloga (sêmen do esposo ou do companheiro; óvulo da esposa ou da companheira) ou heteróloga (sêmen de outro homem ou óvulo de outra mulher, porém com o consentimento do esposo ou da esposa), assim como em virtude da adoção.142

Ou ainda:

A filiação é, destarte, um estado, o status familiae, esta como concebida pelo antigo direito. Todas as ações que visam o seu reconhecimento, modificação ou negação são, portanto, ações de estado. O termo filiação exprime a relação entre o filho e seus pais, aqueles que o geraram ou o adotaram. 143l

Segundo o doutrinador Paulo Gonçalves, filiação é a relação de parentesco consangüíneo, em primeiro grau e em linha reta, que liga uma pessoa àquelas que a geraram ou a receberam como se a tivessem gerado.144

140 DONIZETTI, Leila. Filiação socioafetiva e direito à identidade genética. p. 27.

141 DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias. p. 351.

142 FUJITA, Jorge Shiguemitsu. Direito Civil: Direito de Família. Volume 7. Coordenação: Águida Arruda Barbosa e Claudia Stein Vieira. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. p. 202.

143 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: direito de família. p. 212.

144 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito de Família. 15 ed. São Paulo: Saraiva, 2011. p. 109.

Em sentido estrito, filiação é a relação jurídica que liga o filho a seus pais. É considerada filiação propriamente dita quando visualizada pelo lado do filho. Encarada em sentido inverso, ou seja, pelo lado dos genitores em relação ao filho, o vínculo se denomina paternidade ou maternidade. Em linguagem jurídica, todavia, às vezes “se designa por paternidade, num sentido amplo, tanto a paternidade propriamente dita como a maternidade.145

Ainda neste sentido:

Sob perspectiva ampla, a filiação compreende todas as relações, e respectivamente sua constituição, modificação e extinção, que têm como sujeitos os pais com relação aos filhos. Portanto, sob esse prisma, o direito de filiação abrange também o pátrio poder, atualmente denominado poder familiar, que os pais exercem em relação aos filhos menores, bem como os direitos protetivos e assistenciais em geral.146

Com a nova estrutura constitucionalista imposta à filiação, pode-se afirmar que além de não se poder mais tratar de forma diferenciada os filhos, não existem mais obstáculos para determinação do vínculo filiatório, seja ele qual for.147

Essa nova concepção da filiação impõe uma nova arquitetura ao instituto, que passa a ser compreendido como instrumento garantidor do desenvolvimento da personalidade humana. Os filhos não podem sofrer diferentes efeitos em razão de terem nascido de uma relação matrimonial, ou não. Promoveu-se, dessa maneira, uma total desvinculação, um desatrelamento completo, entre a filiação e o tipo de relação familiar mantida pelos genitores (ou mesmo não mantida por eles).148

Partindo do pressuposto que família é como um instrumento ideal, onde o ser humano nasce e faz suas relações diversas, com um propósito, a filiação é como um desses mecanismos de formação dos núcleos familiares, bem como um mecanismo de realização da personalidade humana.149

Todo ser humano tem pai e mãe. Mesmo a inseminação artificial ou as modalidades de fertilização assistida não dispensam o progenitor,

145 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: direito de família. p. 285.

146 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: direito de família. 6 ed. São Paulo: Atlas, 2006. p. 227.

147 FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Direito das Famílias. 2 ed. Rio de Janeiro:

Editora Lumen Juris, 2010. p. 538.

148 FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Direito das Famílias. p. 358.

149 FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Direito das Famílias. p. 541.

o doador, ainda que essa forma de paternidade não seja imediata.

Desse modo, o Direito não se pode afastar da verdade científica. A procriação é, portanto, um fato natural. Sob o aspecto do Direito, a filiação é um fato jurídico do qual decorrem inúmero efeitos. Sob perspectiva ampla, a filiação compreende todas as relações, e respectivamente sua constituição, modificação e extinção, que têm como sujeitos os pais com relação aos filhos.150

Ocorre que com o novo ordenamento jurídico, se tornou essencial o direito a convivência familiar, a criança agora é sujeito de direito, e a feição patrimonialista ficou abandonada, isto com base no artigo 227, § 6 da Constituição Federal que proibiu qualquer discriminação à filiação.151

Para tanto, percebe-se que a filiação é uma relação de parentesco estabelecida entre pessoas consangüíneas ou não, com base no afeto, na solidariedade, no amor e respeito, buscando o desenvolvimento da personalidade do ser humano. Enfim todos são filhos, advindos do casamento, da união estável, ou de qualquer outra forma.

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