II.1 BASE EPISTEMOLÓGICA
II.1.1 Conceituando Interdisciplinaridade
Podemos estabelecer diferentes níveis de interdisciplinaridade, conforme o grau de integração das disciplinas que são reagrupadas num determinado momento. O conceito de interdisciplinaridade surgiu no século XX e só a partir da década de 60 começou a ser enfatizado como necessidade de transcender e ultrapassar o conhecimento fragmentado, embora sempre tenha existido uma idéia de unidade de saber. Na tradição grega havia um programa de ensino chamado enkúklios paidéia, o qual foi retomado pelos romanos e transmitido à Idade Média com a idéia de uma orbis doctrinae. Esses modelos traziam um saber de totalidade como ideal de dedicação e tinham por objetivo a formação da personalidade integral e não meramente um saber enciclopédico, com acúmulo e justaposição de conhecimentos. As disciplinas articulavam-se entre si, formando uma unidade. A preocupação com a interação dos saberes também esteve presente no movimento Iluminista do século XVIII, quando a enciclopédia foi tomada como modelo na defesa da unidade do conhecimento e como expressão de uma nova atitude intelectual, caracterizada pela rejeição à autoridade dogmática sustentada pela igreja e pela tradição (JAPIASSU, 1976; VILELA, MENDES, 2003).
No entanto, o advento da modernidade, por volta o século XVII, provocou um processo de desintegração crescente da unidade do saber. A Era Moderna foi um período marcado por grande efervescência cultural, quando se destacou Descartes, entre outros. Descartes inaugurou definitivamente o pensamento moderno, ao propor o uso disciplinado da razão como caminho para o conhecimento verdadeiro e definitivo da realidade e formulou os princípios dessa nova forma de produção de saberes, caracterizado por uma série de operações de decomposição da coisa a conhecer e pela redução às suas partes mais simples. Esse modelo é conhecido como modelo Cartesiano
e tornou-se um marco importante na evolução do conhecimento científico (VILELA, MENDES, 2003).
O modelo Cartesiano mostrou-se bastante adequado para construir e tratar objetos simples e proporcionou uma união entre ciência e técnica, atendendo às necessidades da industrialização. Desta maneira, abriu-se o caminho para a fragmentação do conhecimento, uma vez que as indústrias necessitavam urgentemente de especialistas para enfrentar os problemas e objetivos específicos de seus processos de produção e comercialização. Deste modo, o século XIX marca a consolidação das especializações. A ciência ocidental se desenvolveu com base nas noções de especialização, a qual foi se valorizando cada vez mais e, no campo das práticas sociais, novas profissões foram criadas e um novo sistema de ensino e formação foi se estruturando, partindo da estratégia da disciplinaridade, caracterizada pela fragmentação do objeto e pela crescente especialização do sujeito científico (Ibidem).
Se a visão cartesiana de mundo permitiu o desenvolvimento científico- tecnológico, presente no mundo atual, o reducionismo que a caracteriza apresenta um perigo na medida que reconhece o método analítico como sendo capaz de oferecer a explicação mais completa e a única forma válida de produzir conhecimento (Ibidem).
Admite-se, no entanto, que a produção do conhecimento é histórica, social, culturalmente determinada e, dessa maneira, o modelo de pensamento desenvolvido nos séculos XVI e XVII passa hoje, por revisão, em função das novas perspectivas e desafios que se apresentam à ciência. A visão positivista da modernidade, atualmente, já apresenta sinais de esgotamento e essa constatação foi possível graças ao avanço da ciência proporcionado pelo próprio modelo (Ibidem).
O termo interdisciplinaridade não possui ainda um sentido único e estável. Pode ser considerada uma questão de atitude, mas que necessita de conhecimentos e habilidades. É uma relação de reciprocidade, de mutualidade, que pressupõe uma atitude diferente a ser assumida diante do problema do conhecimento, ou seja, é a substituição de uma concepção fragmentária para integral do ser humano. Está também associada ao desenvolvimento de certos traços de personalidade: flexibilidade, confiança, paciência, intuição, capacidade de adaptação, sensibilidade em relação às demais pessoas, aceitação de riscos, aprender a agir na diversidade, aceitar novos papéis, dentre outros (JAPIASSU, 1976; VILELA, MENDES, 2003).
Não é uma moda, mas corresponde a uma nova etapa de desenvolvimento do conhecimento. Também não se trata de postular uma nova síntese do saber, mas, sim, de
constatar um esforço por aproximar, comparar, relacionar e integrar os conhecimentos.
A interdisciplinaridade é fundamentalmente um processo e uma filosofia de trabalho que entra em ação na hora de enfrentar problemas e questões que preocupam cada sociedade. A figura 1 explicita o que entendo por interdisciplinaridade:
FIGURA 1: Representação gráfica do conceito de interdisciplinaridade
O objeto fronteiriço é a intersecção entre as
disciplinas
Fonte: Cutolo (2004, s/p). In: Anais XVIII Fórum Catarinense das Escolas de Enfermagem.
Vários autores têm estabelecido classificações diferentes para expressar as modalidades possíveis de interdisciplinaridade. Dentre elas adoto neste estudo a de Japiassu (1976, p.73- 74) e, para ilustrar, utilizo as figuras de Cutolo (2004):
- disciplinaridade: significa a exploração científica especializada de determinado domínio homogêneo de estudo, isto é, o conjunto sistemático e organizado de conhecimentos que apresentam características próprias, conforme a figura 2.
FIGURA 2: Representação gráfica do conceito de disciplinaridade
A
Fonte: Cutolo (2004, s/p). In: Anais XVIII Fórum Catarinense das Escolas de Enfermagem.
- multidisciplinaridade: gama de disciplinas que propomos simultaneamente, mas sem fazer aparecer as relações que podem existir entre elas. O termo multidisciplinar sugere uma simples justaposição, num trabalho determinado, dos recursos de várias disciplinas, sem implicar necessariamente um trabalho de equipe e coordenado. Quando nos situamos no nível do simples multidisciplinar, a solução de um problema só exige informações tomadas de empréstimo a duas ou mais especialidades ou setores de conhecimento, sem que as disciplinas levadas a contribuírem para aquela que as utiliza, sejam modificadas ou enriquecidas. Em outros termos, estuda um objeto sob diferentes ângulos, mas sem que tenha necessariamente havido um acordo prévio sobre os métodos a seguir ou sobre os conceitos a serem utilizados, ou seja, é descrito como uma gama de disciplinas que propomos simultaneamente, mas sem fazer aparecer as relações que podem existir entre elas. É considerado como um sistema disciplinar de apenas um só nível e com diversos objetivos, nenhuma cooperação. Poderia ser esquematizado da conforme a figura 3:
FIGURA 3: Representação gráfica do conceito de multidisciplinaridade
B
C D
A
Fonte: Cutolo (2004, s/p). In: Anais XVIII Fórum Catarinense das Escolas de Enfermagem.
- pluridisciplinaridade: justaposição de diversas disciplinas situadas geralmente no mesmo nível hierárquico e agrupadas de modo a fazer aparecer as relações existentes entre elas. O pluridisciplinar realiza também agrupamento, intencional ou não, como por exemplo: certos módulos disciplinares, com algumas relações, que visa à construção de um sistema de um só nível e com objetivos distintos, dando margem a certa cooperação, mas excluindo toda coordenação. Seria a justaposição de diversas disciplinas situadas geralmente no mesmo nível hierárquico e agrupadas de modo a fazer aparecer as relações existentes entre elas. Como mostra a figura 4:
FIGURA 4: Representação gráfica da pluridisciplinaridade
D
B A
C
Fonte: Cutolo (2004, s/p). In: Anais XVIII Fórum Catarinense das Escolas de Enfermagem.
- transdisciplinaridade: Japiassu (1976) descreve este novo termo, que estaria como etapa superior ao momento interdisciplinar, no qual a coordenação de todas as disciplinas e interdisciplinas do ensino deveriam interagir dentro de um sistema total e sem fronteiras estabelecidas entre as disciplinas e com uma finalidade em comum. A figura 5 ilustra este conceito.
FIGURA 5: Representação gráfica do conceito de transdisciplinaridade
A B C D
Fonte: Cutolo (2004, s/p). In: Anais XVIII Fórum Catarinense das Escolas de Enfermagem.
Entender e diferenciar confusões sistemáticas entre interdisciplinaridade, multidisciplinaridade e transdisciplinaridade é fundamental para a análise dos dados nesta pesquisa. Japiassu (1976, p.72) lembra que interdisciplinaridade “não possui um sentido epistemológico único e estável. Trata-se de um neologismo cuja significação nem sempre é a mesma e cujo papel nem sempre é compreendido da mesma forma”.
Fazenda também conceitua interdisciplinaridade ao longo de suas obras (1991, 1992 e 2003). Como esta é ex-aluna e seguidora de Hilton Japiassu, citado anteriormente, suas definições são muito parecidas com as de seu mestre. Ressalto que Fazenda acrescenta que a interdisciplinaridade requer também uma postura de atuação, atitudes de trabalho em equipe, sentimentos de parceira, enfim, que este tipo de trabalho também envolve a filosofia do sujeito (FAZENDA, 1991; 1992; 2003).
Baseada nas definições apresentadas acredito que a atuação interdisciplinar em saúde exige uma interação dos saberes e não a unificação deles. Limites flexíveis entre as disciplinas permitem aos pesquisadores trocas que ampliam o conhecimento acerca de um objetivo comum, o que não significa renúncia do saber de sua área de conhecimento, mas permitir-se a ser questionado e questionar. Para Japiassu (1992, p.13), “a atitude interdisciplinar ... possibilita-nos a darmos um passo no processo de libertação do mito do porto seguro”. Através deste sentido figurado, entendo que o autor quis comentar preferimos ficar “ancorados no porto seguro” do saber que dominamos e que não gostamos muito de “aventuras em mares desconhecidos”.
Portanto, acredito que a interdisciplinaridade possa ser um caminho a ser trilhado quando estamos trabalhando com diferentes Estilos e Coletivos de Pensamento.