sentido e falta de paixão pela verdade, do que propriamente de êxodo. Conforme já citado, para Bruno Forte o verdadeiro exílio não se inicia quando se deixa a pátria, mas quando não mais se sente a nostalgia da pátria317. Ao se constatar a ausência dessa nostalgia, aqui se prefere a categoria exílio a êxodo, no intuito de melhor se caracterizar o retrato da sociedade contemporânea. Tal mudança de perspectiva implica o reconhecimento dos veios niilistas como constitutivos da cultura ocidental e ponto de partida do fazer teológico atual.
Se em Bruno Forte há um mútuo interpelar entre advento e êxodo, propõe-se que anterior a essa interpelação considere-se também o exílio, filosoficamente pensado como o não-ser. Isso porque a condição exodal, proposta por Bruno Forte, se concretiza por meio da atitude humana de busca: o ser à procura. Já o exílio, a partir do que se depreende da leitura de Vattimo, tem a marca da carência total de significação e do não-ser a procura. A partir da constatação e valoração positiva dessa carência pode-se propor horizonte de sentido ao sujeito de hoje.
À luz da teologia fortiana, o Espírito emerge como a força da autocomunicação de Deus capaz de retirar o ser humano da condição de exilado para vislumbrar a possibilidade do encontro. “Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14).
Acreditar e confiar-se na condução do Espírito constitui condição de possibilidade de abandono da ausência de sentido da vida e de resgate da busca de razões pelas quais valha a pena viver. O caminho de concretização desse encontro implica o reconhecimento da dinâmica da realidade relacional trinitária favorecida pelo Espírito. À luz da comunhão trinitária projeta-se a vocação do gênero humano. A compreensão da história a partir da dinâmica trinitária expressa por SILÊNCIO, PALAVRA e ENCONTRO, impulsiona a reflexão acerca da concepção da Trindade proposta por Bruno Forte.
de Bruno Forte ao niilismo se fundamenta e se desenvolve à luz da Trindade, por isso se tratar de crítica trinitária por excelência. Desse modo, do primeiro ao último item do terceiro capítulo, ao se abordar a teologia trinitária fortiana, se esboçou o caminho trilhado pelo autor no empenho de se posicionar reativamente perante o niilismo, à luz da revelação e da fé cristãs.
Evidentemente a dinâmica da revelação cristã implica o protagonismo humano da escuta, da abertura e da acolhida à interpelação divina. Oferecer tal resposta em tempos de pensiero debole e de despedida da verdade, como explicita Vattimo, torna-se exercício de autonomia de difícil concretização. Assim sendo, à luz da Trindade e contra a racionalidade niilista em curso, Bruno Forte propõe o resgate do sentido último da vida. Somente a recuperação do horizonte definitivo, em detrimento da inversão e valoração do sentido penúltimo e passageiro da existência, possibilitará a saída da crise do humanismo e da ausência de referenciais por meio dos quais o ser humano se pautar. Por sua vez, a filosofia de Vattimo, questiona e tem a contribuir para essa discussão, como se explicitará no próximo capítulo.
O desafio da tomada do posicionamento do ser humano, enquanto agente da decisão pessoal e intransferível da assunção do movimento de saída de si e de encontro com o outro, permanece ainda como grande questão. Cabe destacar o fato de o empenho teológico de Bruno Forte possuir grande mérito: atualiza e aproxima dos cristãos, para além das crises características da contemporaneidade, a riqueza do conteúdo da revelação trinitária.
No intuito de se lapidar a compreensão da reflexão trinitária de Bruno Forte, assim como da resistência e limites apresentados pelo autor ao niilismo, propõe-se a seguir o aprofundamento da teologia trinitária da revelação na história. Há se verificar criticamente em que medida a teologia de Bruno Forte se apresenta como via possível de significação da existência humana. Tal passo mediará maior aproximação ao pensamento fortiano, ao se dialogar com temas pertinentes à realidade latino-americana, como a teologia da libertação e o papel da Igreja perante as novas questões trazidas à baila pelo niilismo. Por sua vez, a crítica expressa por Bruno Forte a Vattimo e a possível crítica de Vattimo a Bruno Forte se farão presentes no próximo capítulo, o qual discorre ainda sobre a possibilidade da resposta humana ao niilismo.
4 APROFUNDAMENTO DA COMPREENSÃO DA TEOLOGIA TRINITÁRIA DA REVELAÇÃO NA HISTÓRIA E A CRÍTICA TEOLÓGICA DE BRUNO FORTE AO NIILISMO
“A Trindade é a chave de compreensão da ‘história salutis’!”318.
Como se depreende até aqui, a teologia trinitária da revelação na história, proposta por Bruno Forte, oferece via de passagem da religiosidade à fé cristã e de aproximação do mistério divino. Sob o crivo de uma teologia como história, a compreensão trinitária de Bruno Forte atualiza o conteúdo do dogma e suscita a problemática da recepção desse conteúdo pelo sujeito contemporâneo, às voltas com o niilismo e com a consequente crise de sentido. De um lado, a teologia fortiana contribui para a escuta da revelação de Deus, justamente por propor ao sujeito atual reflexão trinitária empenhada em recuperar o sentido da Trindade para o mundo. De outro, tal teologia apresenta grande esforço de diálogo com a pós-modernidade.
O presente capítulo elucida o percurso por meio do qual o teólogo se empenha em repropor à pós-modernidade o discurso sobre Deus, bem como as vias privilegiadas pelo autor nessa empreitada. Norteará a análise estabelecida a pergunta acerca do alcance da teologia trinitária da revelação na história, na tarefa de oferecer sentido à vida do sujeito atual. Desse modo, o bloco redacional a seguir constitui aprofundamento da teologia trinitária da revelação na história, via fundamental no tangente à verificação dos limites e possibilidades subjacentes à tarefa assumida por Bruno Forte.
Nesse intuito, parte-se da análise da relevância do discurso sobre Deus, bem como do resgate da compreensão trinitária, a evocar a relação Deus e história. As metáforas fortianas permitem imageticamente compreender a reflexão teórica implicada. No tangente à história, o evento da encarnação e a relação do Filho com o Pai constituem modelo paradigmático a interpelar a existência humana, como se demonstrará.
Na sequência, destaca-se a reflexão sobre a beleza e sobre a ética, presente em Bruno Forte, enquanto esforço de se repensar a práxis cristã a partir da perspectiva trinitária a configurar a reflexão sobre o belo e o bem. O item intitulado “Horizonte atual da teologia trinitária da revelação na história”, situa o pensamento de Bruno Forte a partir do contexto mais amplo da teologia em diálogo com o fazer teológico hodierno e possibilita a apreensão da contribuição do teólogo.
318 FORTE, B. A Trindade como história, op. cit., p. 46.
Por fim, importa demonstrar em que medida a reflexão trinitária desenvolvida por Bruno Forte interpela e questiona o niilismo e como este também se posiciona, assim como estabelecer balanço final acerca da teologia trinitária da revelação na história, ao se apontar possíveis limites e originalidade do pensamento do autor.