Uma RCE é construída a partir da intencionalidade e motivação, ambas baseadas em objetivos comuns e explicitados. Qualquer classificação de uma RCE, seja terceirização, holding, etc., evidencia, desde o início, os objetivos que cada configuração se propõe a obter. De modo muito simples, um grupo que almeja a melhoria do relacionamento com o cliente não deverá selecionar prioritariamente agrupamentos que visam a terceirização e subcontratação. Semelhante caráter confere características especiais à forma de operar das redes, induzindo formas de ações compatíveis.
Sendo um agrupamento de diferentes empresas e atores primários, não tem embasamento volitivo, mas sim motivacional. Uma rede não pode ser estruturada a partir de um impulso, mas da identificação de interesses fundamentais de seus agentes primários e do reconhecimento que esses interesses possam ser compartilhados e possam gerar ganhos comuns, os quais somente serão viabilizados através da cultura de participação e de troca. Assim, uma RCE vincula interesses isolados através de fluxos, laços e nós. Dito de outro modo, a estrutura da rede se organiza em torno da motivação individual de cada ator primário,
compartilhada em busca de mudanças e na confiança que cada ator deposita não só nos demais atores mas também no próprio agrupamento resultante. De acordo com a definição de Onyx e Bullen (2000), a organização entre pessoas onde se estabelecem redes, normas, confiança social e que facilitam a coordenação voltada aos benefícios mútuos, é o que estabelece uma organização social. Assim, o processo de agrupamento e articulação dos agentes primários ao redor de objetivos comuns estabelece o capital social de uma RCE. Conforme Malafaia et al. (2007), a existência de capital social é um propulsor para o estabelecimento de relações de confiança e colaboração, levando a um ambiente que favorece a coletividade e o desenvolvimento conjunto. Conforme os autores, a construção da confiança mútua, ao mesmo tempo em que é peça-chave para a cooperação, constitui-se em um grande desafio para pessoas e instituições.
O estabelecimento da confiança adquire caráter estratégico ao sucesso de uma RCE, conforme Olave e Amato Neto (2001). Eles comentam o sucesso da descentralização organizacional realizada na Itália, através de redes de trabalho familiares em pequenas e médias empresas, com base na cooperação e confiança, apoiados em laços familiares e de amizade, onde se pressupõe a existência da ética, como pré-requisito fundamental à confiança. Conforme os autores, a ética é a base geradora da cultura da confiança que engloba aspectos culturais de interesse das empresas integrantes de uma RCE.
A confiança tem caráter estratégico não apenas por estabelecer laços necessários à viabilização de uma RCE, mas também exigir um tratamento específico a fim de moldar sua adequada intensidade. Devemos observar que Olave e Amato Neto (2001) associam a confiança e ética aos laços familiares, ou seja, fortes. Estes são confiáveis em termos de estabelecimento de confiança, porém, podem ao longo do tempo, causar o “engessamento” da RCE, estabelecendo perfil estacionário à mesma, em função de ausência de pontes e buracos estruturais. Por outro lado, Gulati (1995) afirma que a confiança (ou a ausência desta) é um fator crítico presente em todas as redes empresariais. Segundo o autor, a presença do comportamento oportunista é inerente à estruturação de uma RCE. De um lado temos laços fortes, estáveis em termos de confiança, porém propensos ao estabelecimento do perfil estacionário. Por outro lado, temos os laços fracos, facilitadores ao estabelecimento de pontes, mas instáveis em termos de confiança.
Gulati (1995) aborda o problema sob a forma de custos transacionais. Segundo o autor, a avaliação prévia dos custos transacionais envolvidos na estruturação de uma RCE estabelece seu instrumento jurídico mais adequado. Dentro destes custos transacionais, o autor engloba o problema da confiança, sob a forma de comportamento oportunista que possa ocorrer entre dois ou mais integrantes de uma rede. Segundo o autor, a inclusão prévia desse aspecto irá definir os custos de negociação, elaboração de contratos, estabelecimento de direitos e obrigações entre as partes, de modo que o problema da confiança seja previsto nos custos operacionais da RCE. Conforme o autor, o comportamento oportunista deixa de ser um problema a ser eliminado e passa a ser um aspecto gerenciável.
Há outros aspectos críticos associados à confiança dentro de uma RCE. De acordo com Gulati (1995), há um princípio aparentemente simples e elementar, segundo o qual a confiança mútua pode se tornar um aspecto negativo quando empresas exercem parcerias de longo prazo. Estas acabarão limitando sua percepção sobre comportamentos oportunistas, tornando-se vulneráveis em novas parcerias e alianças. De acordo com o autor, quando uma RCE apresenta um histórico passado com grande número de alianças, esta RCE estará menos preparada para novas alianças com equilíbrio societário. Outro aspecto citado pelo autor é que a ocorrência do problema de comportamento oportunista no entrelaçamento de duas empresas ocorre apenas uma vez. Quando acontece, os laços se desfazem e é muito raro que haja uma segunda tentativa de se estabelecer nova interação, frente ao histórico passado de (falta de) confiança, podendo-se desperdiçar oportunidades vantajosas.
Portanto, a previsão do problema e seu tratamento através de instrumentos legais garante a manutenção dos laços empresariais por longo prazo. O autor pondera que é muito raro a inclusão dos fatores referentes a comportamento oportunistas em contratos de compartilhamento, o que é prejudicial à construção das RCE, pois toda empresa envolvida em uma RCE é potencialmente suscetível ao comportamento oportunista de um parceiro. Conforme Uzzi (2002), alianças e redes que utilizam arranjos formais de governança tais como contratos ou acordos de eqüidade, garantem transferência de conhecimentos e recursos entre os integrantes.
Confiança é um fenômeno interpessoal, intrínseco às relações sociais portanto, recorrente no âmbito das redes empresariais (GULATI 1995); é a expectativa que atenua o temor à ocorrência de um ato oportunista por parte de um parceiro
comercial, principalmente quando estão evolvidas a P&D. Ao se encarar o comportamento oportunista como um custo transacional, ocorrerão instrumentos que irão onerar a empresa mas criarão a esperança de que estes não ocorram. O tratamento dado ao comportamento oportunista deixa de ser o conhecimento, passando a tratar-se a confiança no âmbito da intimidação ou punição, de modo a aplicar-se ao integrante da RCE que adote comportamento não confiável, sansões com custos monetários que superem os benefícios decorrentes da situação oportunista.
De forma específica, os interesses comuns devem ser explicitados porque são eles que definirão as regras que determinarão, por sua vez, as ações que serão compartilhadas, de um lado, e de outro, os pressupostos do seu “caráter reciprocamente vinculador”, já que cada ator deve recorrer à regra para a atualização da ação, conforme definem Giddens e Turner (1999), que recai sobre os objetivos partilhados. Observa-se ainda que qualquer que seja a natureza do conjunto de regras – mais ou menos formalizadas, sociais, burocráticas, jurídicas, etc....- ele permite a interpretação da ação de cada ator, seja ela normal, desde que prevista, ou, ao contrário, decorrente de desvio. A confiança na rede é um processo lento que depende da base de sustentação da sua estrutura, isto é, como se disse anteriormente, da motivação e do comprometimento, cuja face visível é a constância e intensidade da interação dos atores nos pontos negociados. Então, um agrupamento, cujos membros manifestam desconfiança entre si, dificilmente realizará plenamente a estrutura de rede, já um agrupamento, cujos membros, ou alguns deles, manifeste simplesmente ausência de confiança, esta poderá ser inicialmente construída na fase de negociação dos interesses partilhados e das regras para seu desenvolvimento. Em todo caso, superado o estágio inicial, a intensidade das conexões deverá ser alvo da gestão, para que não só se estabeleçam os fluxos mas principalmente os mantenham.