• Nenhum resultado encontrado

Trans Iberic Love contribui também quando desconstrói um pretenso discurso hegemônico-assimilacionista que recai sobre pessoas LGBTQIA+. No que concerne a pessoas trans, a personagem José, com seu discurso contestador, comenta sobre seu desconforto em se tornar um homem de acordo com o que a sociedade enxerga como um corpo canônico. Vale destacar, nesse sentido, que, posterior à publicação, Hil Malatino (2022) reforça a importância de expor afetos como a raiva e a negatividade dentro da experiência de ser trans, desvinculando a pretensa associação entre mundo transfuturista e o imperativo da felicidade neoliberal.

A camada de um Chthuluceno transfuturista também se beneficia da desterritorialização corporal causada pela presença da alteridade animal, que, em um romance comoMarginais, de Evel Rocha, desorganiza e confunde as percepções sobre o que seria um corpo físico. A experiência de desterritorialização do corpo trans, bem como a presença constante de animais, por si só dissidentes do corpo canônico humano, promove uma possibilidade transfuturista de existir em territórios periféricos, ainda que em um espaço com grande fluxo de pessoas, como a Ilha de Sal, em Cabo Verde.

Ainda que recaia na esteira do Realismo Naturalista, predominante em Portugal, Cabo Verde e Brasil, o romanceMarginaisfunciona também como uma estética especulativa para a produção de discursos que associam corpos trans à natureza. Discussões, como as levantadas por Stryker (2020), Hogan (2020) e Gaard (2021), demonstram a relevância de rever a associação de corpos trans e dissidentes à figura do ciborgue e do tecnocorpo.

Por fim, Deixei ele lá e vim oferece pistas para uma ficção baseada na não- representacionalidade, em que o corpo da travesti Shirley Marlone não se orienta por direções fixas, não se materializa em um gênero específico e constantemente reterritorializa suas noções espaço-temporais ao construir seu relato de testemunho da amiga assassinada. O sintoma de um corpo desidentificado com o espaço social previamente construído toma a forma de uma travesti. O romance não obedece ao corpo canônico trans, pois não é uma narrativa de autodescoberta, não possui tom confessional/autobiográfico e não submete sua protagonista a mais diversa das variedades de violência. Somado aos elementos citados, o romance de Elvira Vigna traz uma possibilidade de estética transfuturista ao subverter a lógica colonial da literatura brasileira do século XX ao dar a voz em primeira pessoa para a protagonista, e ao não trazer uma personagem travesti que é assassinada ou morta ao longo da narrativa.

No referido romance, as ruas de uma cidade como o Rio de Janeiro, geograficamente confusa e desterritorializada, servem de palco para a travesti transfuturista. Assim como Barcelona e a Ilha de Sal, a capital carioca oferece um espaço de constante fluxo de sujeitos, bem como uma incessante produção de trocas pornográficas publicitárias, de imagens, estímulos e de formas de existir dentro de um sistema neoliberal, baseado nas nossas interações não somente com o capital, mas também com a gestão somática de paixões e fluxos de invasão da subjetividade por publicidade, pornografia e fármacos.

Dada a urgência da questão em territórios como o Brasil, que permanece líder no assassinato de pessoas trans, a literatura de denúncia social, que flerta com o naturalismo e, consequentemente, com um não questionamento da realidade que se dá como ontológica, se faz historicamente mais recorrente. No entanto, a literatura de ficção especulativa, sempre fora do radar canônico da estética brasileira, oferece ferramentas interessantes para a tarefa de denúncia social e de rompimento com a realidade estabelecida, como se expressa no conto de Cláudia Dugim, expressões mais contemporâneas de escritores trans.Deixei ele lá e vim, aqui analisado mais detalhadamente, ocupa um espaço de transição entre tendências estéticas diferentes no tratamento às corporalidades T, e por isso foi o texto eleito para ser analisado.

O desapego estético e edipiano, o experimentalismo, o fracasso, a vergonha alheia, a indeterminação, o fracasso de narrativas cristalizadas e o presentismo são aspectos componentes do que busco chamar de transfuturismo, uma estética ocidental de resistência das primeiras décadas do século XXI. Suas expressões possuem respaldo que vai desde artistas trans como Arca, Sophie e Linn da Quebrada, passando por escritores trans como Jess Arndt, Naty Menstrual, Claudia Dugim e Naná de Luca, até escritoras acolhidas pelos dispositivos do cânone, como Amara Moira, Akwaeke Emezi e Camila Sosa Villada.

Diante do compromisso intelectual, artístico, literário e cultural com uma estética naturalista/realista nos contextos português, cabo verdiano e brasileiro, fica evidente a necessidade de se apropriar de espaços acadêmicos e culturais, com abordagens especulativas, de reencantamento da realidade, imaginando futuros outros que não aquele que gira em torno da cis-heterossexualidade. Vejo, portanto, a estética Transfuturista, que se desenha dentro das literaturas aqui estudadas, como uma ferramenta de superação do Realismo Naturalista.

Não sugiro um epistemicídio ou o rasgo da tradição, algo que seria contraprodutivo e suicida, mas o desenvolvimento de estratégias mais eficazes para arquiteturas de futuros e estéticas especulativas, seja nas artes ou na academia. Se o iluminismo europeu condicionou o olhar ocidental, é necessário, então, reencantar essa fenomenologia e assumir que a suposta

realidade ontológica presente na estética do Realismo Naturalista privilegia os corpos cis e mata os corpos trans com violência física, moral e material, com prostituição, exílio, exotismo e morte/suicídio ao fim de suas trajetória.

No meu entender, é necessário e urgente pensar em léxicos e exercícios acadêmicos, artísticos, ativistas e intelectuais para compor futuros outros, mais inclusivos. Assim sendo, as estéticas de início do século XXI, como o transfuturismo, o afrofuturismo, o indiofuturismo e o queerfuturismo parecem apresentar potencial o suficiente para ditar os rumos das narrativas por vir. Que esse trabalho sirva para desarticular a cisgeneridade compulsória impregnada em tantos lugares, tantos corpos, tantas apreensões de mundo.