Como se viu as famílias brasileiras são caracterizadas pela diversidade de arranjos e fragilidades, o que as faz lidarem de maneiras distintas com os efeitos das várias "crises" que vão desde a dos jovens, do envelhecimento, do déficit de cuidado, da pobreza, incluindo a gerada pela mais recente pandemia. A forma de lidar depende dos recursos humanos, financeiros e de tempo disponíveis dentro de cada arranjo familiar.
A pandemia reforçou a importância e urgência de políticas públicas não só para cuidados e redução da pobreza, mas também em investimentos em capital humano para minimizar as perdas. As políticas de cuidados deveriam ser vistas como um eixo central de uma política de
13 "Colapso e Recuperação: como a Covid-19 deteriorou o capital humano e o que fazer a respeito," lançado em 16/02/2023. https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2023/02/criancas-de-ate-5-anos-podem-ter-perdido-25-da- renda-que-teriam-na-vida-adulta-com-a-pandemia.shtml, acessado em 20/02/2023.
bem-estar. Isto requer considerá-las como um bem público e como parte da responsabilidade social coletiva. Essa forma de tratar a questão constitui uma mudança de paradigma, visto entender que não se pode falar de bem-estar sem incluir neste a provisão de cuidados. Ao mesmo tempo, entende-se que essa provisão não pode estar apenas sob a responsabilidade das famílias, nem ser feita apenas pela via do mercado privado, devendo ser objeto de uma política pública estruturada e coordenada pelo Estado. A criação e o fortalecimento de políticas públicas de cuidados contribuem para a redução da pobreza por ser esta uma atividade altamente intensiva em mão de obra e podem, por exemplo, liberar os familiares para o mercado de trabalho, nos domicílios em que há pessoas dependentes de cuidados.
A diversidade das famílias aqui apresentada aponta para uma dificuldade na manutenção do contrato social tradicional, que atribui às mulheres da família a grande responsabilidade pelas atividades de cuidado. No entanto, as políticas públicas continuam a utilizar o casal heterossexual com (poucos) filhos como a família-modelo. As transformações aqui discutidas acarretam mudanças nos contratos familiares intergeracionais, que o Estado não pode ignorar, como ocorre quando assume que é dever da família cuidar dos idosos em idade avançada. As famílias de maior poder aquisitivo repassam para o mercado privado essa função. Portanto, cabe ao Estado um papel importante na redução das desigualdades entre as famílias brasileiras, especialmente no retorno ao novo normal.
De uma maneira geral, pode-se afirmar que as famílias com crianças e adolescentes têm mais dificuldades no enfrentamento às diversas crises, por ter menos indivíduos com disponibilidade para trabalhar e obter renda. Isto se acentua nas monoparentais, em sua grande maioria chefiadas por mulheres, que muitas vezes são as únicas pessoas responsáveis tanto economicamente quanto para cuidar de seus filhos. Soma-se a isso o fato de essas mulheres estarem super-representadas em empregos de baixa remuneração e os desafios educacionais e de cuidado com as crianças que não frequentaram a escola durante o auge da pandemia (Gandra, 2021). Na ausência de políticas públicas, pode-se esperar uma redução no capital humano, que podem reduzir os ganhos no decorrer da vida das crianças e jovens que vivenciaram a pandemia e aumentar a desigualdade social nas próximas décadas.
Vários trabalhos13F14 já mostraram a importância da renda da Seguridade Social na redução da pobreza dos idosos e suas famílias e, também como uma forma de garantir-lhes algum cuidado, seja familiar ou institucional. Mas qualquer mudança no sentido da sua deterioração pode comprometer o poder de barganha desses idosos. O Auxílio Emergencial também têm apresentado um resultado imediato ao proteger os mais pobres, as famílias monoparentais e os idosos. Mas outras questões devem ser enfrentadas, por exemplo, como ajudar a família a cuidar.
Sem dúvidas, licenças maternidade e parental são importantes, mas isto não dispensam a oferta de serviços como creches, cuidado domiciliar formal, centros-dia, ILPIs, regimes de trabalho diferenciados para o cuidador familiar principal etc.
Segundo Friedman (2014), "apenas uma crise -real ou percebida- produz mudanças verdadeiras. Quando a crise ocorre, as ações dependem das ideias predominantes. Acredito que esta seja a nossa função básica: desenvolver alternativas para políticas públicas vigentes, mantê- las vivas e disponíveis até o politicamente impossível, se tornar o politicamente inevitável" (apud Shafik, 2021).
14 Ver Camarano (2004), Saboia (2004).
"Quem sabe faz a hora14F15" e voltando à epígrafe deste trabalho que esta seja a hora de definir políticas para que as famílias se tornem um espaço a ser cuidado e não um espaço apenas de oferta de mão de obra gratuita e/ou um mercado para o setor privado.
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