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O presente trabalho teve por objetivo pesquisar os vínculos familiares para a constituição do sujeito, levantando aportes teóricos que auxiliassem na compreensão da experiência de crianças e adolescentes com a institucionalização em entidades de abrigo.

Para tal, foram levantados pontos importantes na teoria freudiana acerca da sexualidade e sua participação na dinâmica dos vínculos familiares, e a compreensão freudiana para o papel do tabu. Seguindo este viés do tabu, realizou- se uma discussão acerca de novas perspectivas, desenvolvidas na segunda metade do século XX, sobre o incesto e sobre a forma como se constitui o tabu do incesto.

Ainda, como alternativa ou complemento à teoria freudiana, foi pesquisada a teoria formulada por John Bowlby acerca do apego, e discutida a sua importância para os vínculos sociais.

Ora, se este trabalho se remete à compreensão de uma experiência em entidade de abrigo, também foi necessária a compreensão da dinâmica legal que envolve a institucionalização de crianças e adolescentes no Brasil. Além disso, enquanto profissional da psicologia, compondo uma equipe técnica de entidade de abrigo, coube a mim trazer o relato de casos que apresentam importantes relações com as teorias discutidas, assim como a sua subseqüente discussão.

Em contrapartida da hipótese de que a estruturação psíquica de um sujeito decorre de uma herança genética, na qual as relações familiares não influenciariam, a hipótese defendida por esta pesquisa afirmava que as relações familiares na infância são norteadoras para a estruturação psíquica desse sujeito, definindo seus modos de relação. Outras influências dos vínculos familiares iniciais propostos por

esta hipótese dizem respeito aos vínculos futuros de apego do pequeno sujeito, que refletirão os de sua infância, bem como a interferência na sua aprendizagem e na escolha de suas vias de sublimação.

O que decorreu da presente pesquisa e da verificação das hipóteses acima enumeradas é que, de fato, as relações familiares na infância são norteadoras para dinâmica psíquica e social do sujeito. Com isso, compreende-se que os vínculos futuros desta criança serão influenciados pelo que ela vivenciou na infância.

Desse modo, com Bowlby foi possível compreender que o apego inseguro na infância trará conseqüências interpessoais futuras para o sujeito em questão, uma vez que o mesmo apresentará dificuldades em se vincular a novas figuras de apego, mediante a insegurança nos vínculos com as suas primeiras figuras de apego.

Além disso, é importante considerar a possibilidade da perpetuação da violência como um resultado do desequilíbrio das vivências de apego e cuidado na infância. Com isso, alguns sujeitos podem repetir o comportamento de violência sofrido em sua infância, como é o caso de algumas famílias de crianças e adolescentes abrigados na entidade em questão neste trabalho. Do mesmo modo, também Mark T. Erickson analisou a ocorrência da desestruturação psicológica, social e material de famílias onde ocorria o abuso incestuoso entre seus membros.

A compreensão freudiana quanto à sexualidade humana, trouxe à luz a conseqüência dos desvios neste desenvolvimento, principalmente, com relação às vias de sublimação escolhidas por estes sujeitos. Segundo a compreensão de Freud, o curso normal de desenvolvimento da sexualidade humana fará o sujeito passar pela vivência do complexo de Édipo, o qual, após a sua resolução, permitirá que ele passe a um período de latência. Durante este período a curiosidade sexual despertada no momento anterior deste desenvolvimento passará a uma curiosidade

intelectual. Ou seja, dependendo da forma como este sujeito vivencia este período em suas experiências familiares, ele poderá ter sua aprendizagem prejudicada, ou sua sexualidade exacerbada, por exemplo. Nos casos relatados neste trabalho, foi possível observar o déficit cognitivo comum à maioria, além da sexualidade exacerbada, e que tem grande enfoque no desenvolvimento de alguns sujeitos.

Cumpre ressaltar que, embora Bowlby tenha proposto um modelo diferenciado do modelo freudiano, ele vem de uma formação psicanalítica. Bowlby iniciou suas pesquisas no campo da psicanálise, e a partir da necessidade de ampliar sua compreensão, não satisfeita pela Psicanálise, partiu para o campo da etologia, e sugeriu novas compreensões para o comportamento humano. Embora algumas de suas idéias difiram das freudianas, isto de modo algum torna as idéias dos dois autores incompatíveis, até mesmo porque ambos defendem a influência das relações iniciais na vida adulta.

E quanto à hipótese de Westermarck, de que a associação precoce é inibidora da atração sexual entre pessoas próximas na infância, parece claro que não é a associação precoce em si mesma a desempenhar esta função. A questão parece passar por aquilo que a associação precoce oferece, uma vez que ela propicia a proximidade necessária para as experiências de apego, se considerarmos a contribuição de Bowlby. Enquanto que, se considerarmos o paradigma freudiano, mesmo pautado na experiência aversiva da castração, tal experiência é relacionada a uma figura próxima, com a qual se está associado precocemente.

Foi discutida também, como já foi lembrado, a forma como a ciência vem enxergando a constituição do tabu, especificamente, do incesto, ao longo da segunda metade do século XX. É importante salientar que a questão de como se constitui um tabu não gera concordância entre as diversas correntes, tampouco uma

conclusão definitiva, uma vez que pesquisadores continuam atuando na área. No entanto, fica claro que este é um ponto muito importante para demarcar os limites de um relacionamento familiar saudável, estabelecendo sua ordem.

Faz-se fundamental discutir o papel da família na constituição do sujeito, mas neste processo não cabe incorrer no erro de culpabilização da família. Na prática com famílias carentes e desestruturadas, jovens infratores, crianças com dificuldades na aprendizagem, e tantas outras questões que envolvem a família destes sujeitos, muitas vezes, os profissionais se sentem tentados a incorrer neste erro.

É preciso lembrar, entretanto, que as deficiências apresentadas pelos pais, no relacionamento com seus filhos, escapam em grande medida à sua vontade consciente, e derivam, por sua vez, de suas próprias experiências, muitas vezes, também conturbadas ou inadequadas, em suas famílias de origem.

Este trabalho não pretende contribuir para o reforço desta culpabilização, onde tudo recai sobre os ombros da família. Ora, o sujeito é produzido também na sociedade, na escola, além de ter a particularidade de seu psiquismo, entre tantos outros fatores envolvidos. Afinal, o objeto da Ciência Humana é imprevisível, outrossim, seria Ciência Exata, pois ao que é humano cabe a compreensão, mas não cabe a generalização, o óbvio, a previsibilidade.

Não cabem acusações às famílias, mas cabem intervenções em prol do resgate da dignidade destas famílias, de seus direitos e deveres, de suas responsabilidades. Investir na reestruturação desta família é preciso, mas não no sentido assistencialista da prática, mas no trabalho de conscientização e formação da autonomia.

Digo isto enquanto profissional que trabalha diretamente com famílias inseridas nas problemáticas sociais. Pois de que serve a teoria se não produzirmos a prática?

Digo isto também enquanto profissional que trabalha com a parceria dos profissionais de outros campos de atuação. Pois de que adianta o saber isolado de outros saberes? E não é nisto que reside a importância de nossos estudos interdisciplinares? Por isto, este trabalho pretendeu buscar a ponte entre tantos saberes: psicanalítico, psicológico, antropológico, social e jurídico.

E é nisto que espero residir a contribuição do presente trabalho: no levantamento de teorias que possam esclarecer a questão enfocada, na facilitação da compreensão dessas teorias e na reflexão sobre a prática, a partir da teoria.

Afinal, esse é para mim um dos principais objetivos da pesquisa.

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