Partindo da frase de Da Matta (1997) de que “viver é passar, passar é ritualizar”, não posso deixar de enfatizar que as vivências por mim experimentadas no campo e ao longo da escrita do texto, significam uma passagem, um avanço na materialização de idéias: num primeiro momento, as narrativas alusivas aos shows de rock e as possíveis interpretações relacionadas ao universo do Metal e, em um segundo momento, o requisito necessário para a obtenção do título de mestra no Programa de Pós Graduação em Sociologia, UFC.
As trilhas por mim traçadas na construção dos shows de Metal, sob a perspectiva dos rituais se iniciaram com as descrições de minhas primeiras experiências no universo do Rock para, em seguida, problematizar as questões aqui postuladas, focando as dimensões da cidade e da juventude a partir de um universo ritualizado, mediado pelos lugares, espaços, tempo, música, corpos e momentos de liminaridade e communitas contornados pela sobreposição das esferas sagrado e profano que configuram os shows de Metal pela cidade de Fortaleza.
Entre as questões por mim discutidas, pode-se perceber que o Metal não é um tipo de música ligado especificamente ao público jovem, ainda que ele tenha surgido dos interstícios sociais das cidades operárias da Inglaterra e dos Estados Unidos, trazendo consigo a rebeldia, os ideais libertários e a contestação social por meio das barulhentas motocas que inspiraram não apenas as distorções em guitarras. Também o visual dos motoqueiros influenciou na composição das indumentárias exibidas nos shows, ao longo de seus trajetos pelo mundo. O Metal adaptou-se ao contexto cultural de cada lugar e desperta nos jovens e nos adultos o prazer pela audição desse tipo de música, permitindo a incorporação para as situações cotidianas da vida de cada um o conteúdo das letras, os gestos e a presença nos shows.
Além disso, para que os shows provoquem o impacto compatível à altura, peso e densidade do volume da música do Metal, necessário é que esses eventos sejam realizados em locais de maior visibilidade pública, onde transitam diferentes pessoas e haja o maior número de equipamentos de lazer a fim de que novos públicos sejam conquistados. Mais do que isso, na medida em que os shows são realizados nesses locais, têm-se na ocupação dos pontos estratégicos da cidade as maneiras como os participantes dos shows, organizados como banda ou platéia, concretizam a idéia de que a cidade se constrói a partir da ocupação de determinados espaços, por grupos específicos e que projetam nesses territórios as vivências pessoais (da casa, da rua, do bairro) e as vivências na música do Metal por meio dos laços de sociabilidade que mantêm entre si, das rivalidades com aqueles que divergem de suas maneiras de se fazer presente na história;
das seqüencialidades, elevações e inversões de valores socialmente cristalizados que nos
momentos de efervescência dos shows possibilitam que os participantes criem e recriem espaços urbanos.
Esta forma como se organizam os participantes dos shows e a intenção de se permitirem vivenciar todas essas experiências significa, a partir da pesquisa de campo, novos arranjos que desloque objetos ligados ao bem e ao mal, ao belo e ao feio, à natureza e à cultura.
A noção de cosmologias sugere exatamente essa possibilidade de sobreposições de diferentes esferas da vida social num evento específico, os shows de Metal. Incluem-se, aqui, os cenários, atores, encenações e as noções lugar-espaço-tempo, música-corpos e sagrado-profano que configuram de forma sublimada, ainda que visível, os momentos de ápice, de reposição e liberação de energias que caracterizam os shows, sejam eles covers, autorais ou caricaturados.
E é importante ressaltar a forma como tudo isso é planejado, organizado e executado.
Dispostos dentro de uma cultura underground que está em constante movimento com a cultura de massas, os shows, para serem realizados, não excluem a possibilidade de recorrer às grandes instituições públicas e/ou privadas, patrocinadores e apoiadores como caminhos de legitimação, investimento financeiro e interesses políticos que envolvem as partes. Ainda que todo esse processo corra o risco de críticas, desavenças e o surgimento de novas maneiras de se fazer eventos de Metal, faz-se necessário compreender que nas mudanças de uma determinada maneira de fazer acontecer um show ou nas influências de novos valores ao que consiste “ser metaleiro”, haja um enriquecimento cultural e não uma perda de valores, sentimentos e atitudes que orientam essas condutas.
A argumentação central é que, na medida em que se lida com o sistema mundial, o sistema capitalista, e o Metal é produto desse sistema, não se pense em extinção em relação ao modo de fazer underground, ou seja, aquele que não está e nem conta com o apoio incondicional da cultura de massas, mas, também, não exclui a possibilidade de recorrer a ela. É interessante que na construção desse modo de fazer, aperfeiçoem-se as relações entre amigos, busquem-se novos contatos e surjam novos espaços e novos laços de sociabilidade que venham a contribuir para o fortalecimento do Metal como música e como modo de ser.
Finalizo esta dissertação, sentindo-me fortalecida e revivificada pela coercitividade, animação do espírito e inteligibilidade da alma que os shows de Metal me proporcionam. E recorro neste momento, quando na lembrança dos primeiros passos e das primeiras dificuldades surgidas na construção deste trabalho, ao pensamento do antropólogo americano Clifford Geertz, falecido em 2006, que resume de forma densa e significativa o que o trabalho etnográfico
representa para o pesquisador. Diz ele: “eu gostava imensamente do trabalho de campo (certo, não o tempo todo) e essa experiência contribuiu mais para me alimentar a alma, e até para criá-la, do que a academia jamais conseguiu” (Geertz, 2001, p.26).
Espero que este trabalho desperte o interesse pelo estudo no campo da Antropologia dos Rituais. Penso que novos caminhos devem ser trilhados para que se construam novos olhares sobre as questões relacionadas aos mais diferenciados rituais, levando-se em consideração as sutilezas e as aspirações daquilo que os mesmos têm a nos dizer. Afinal, já afirmara James Hillman (1993) que “sentir e imaginar o mundo não se separam na reação estética do coração (...) Mas o coração percebe tanto sentindo como imaginando: para sentir penetrantemente devemos imaginar e, para imaginar com precisão, devemos sentir”.