Da análise efetuada no Relatório I, combinada com elementos trazidos pelas oficinas realizadas em Pelotas, resulta uma série de considerações que sintetizam os resultados da pesquisa sobre a aglomeração produtiva de equipamentos de saúde no Corede Sul.
Convém lembrar, desde logo, que o âmbito territorial do aglomerado passou a se limitar a Pelotas, tendo em vista a nítida concentração, nesse município, das empresas analisadas. Isso não significa, entretanto, que se esteja desconsiderando os efeitos da conurbação Pelotas-Rio Grande sobre a atividade econômica local. Ademais — o que é sobremaneira relevante para a nossa pesquisa — há, nesses dois municípios, três faculdades de medicina, duas de veterinária e vários outros cursos de graduação e pós-graduação ligados à área da saúde, conforme observado anteriormente.
É importante, ainda, relembrar que essas cidades foram o berço da indústria gaúcha, estando entre as mais antigas áreas urbanizadas do Estado, e o desenvolvimento industrial que conheceram precedeu o de Porto Alegre21. Assim, o recente surgimento do denominado APL CIS se dá numa região com passado industrial, embora os segmentos produtivos anteriores tenham sido outros e tenham sofrido um conhecido processo de decadência econômica. A despeito disso, deve-se considerar que esse passado existiu e deixou traços histórico-culturais na região.
Conduzindo o foco de análise para o atual aglomerado produtivo de equipamentos de saúde, é preciso retomar a noção de APL que inspira essa pesquisa, com o intuito de avaliar as condições que permitam a denominação de arranjo para o que até agora foi considerado aglomerado22. Conforme explicitado por Zanin, Costa, Feix (2013, p.10), em que pesem as particularidades de cada arranjo produtivo, é possível extrair deles algumas características comuns.
Essas características dizem respeito à:
a) especialização setorial de empresas em torno de uma atividade produtiva;
b) fusão entre a atividade produtiva local e a população do território, tanto em caráter econômico quanto social;
c) ação coletiva promovendo a melhora competitiva por meio de cooperação através de relações de governança entre os atores;
d) coexistência de competição e cooperação em nível horizontal, ou seja, entre empresas atuando em um mesmo segmento (especialmente em torno das principais linhas de produtos do APL).
No que se refere à especialização setorial, foi constatado que, na cidade de Pelotas, há uma concentração de empresas produtoras de bens finais relacionados à saúde. O fato de que a produção
21 Segundo Singer (1977, p. 172), “É forçoso concluir que o início da industrialização que se assiste no Rio Grande do Sul, antes da década dos 90 [do século XIX, é claro], tem antes seu centro em Rio Grande e Pelotas do que na Capital”. O tema foi desenvolvido em Breitbach e Garcia (2013), ou Relatório I, desta pesquisa.
22 Relembrando: entendemos por aglomerado produtivo a simples concentração territorial e setorial de empresas, enquanto um arranjo produtivo tem mais características, conforme expresso no texto.
transcenda os limites da atividade industrial propriamente dita, incorporando alguns serviços, reforça a aglomeração.
É bem verdade que a produção não se caracteriza pela semelhança entre os produtos finais, pois, como se viu, a gama é bastante diversificada, porém o ponto comum está no fato de que têm seu uso relacionado às práticas médicas, ou seja, prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças.
Como foi demonstrado no Relatório I desta pesquisa, a produção de equipamentos de saúde (em suas três classes CNAE) em Pelotas tem uma representatividade muito pequena em relação à indústria de transformação do Estado. Mesmo em relação às atividades econômicas desenvolvidas em Pelotas, os equipamentos de saúde não detêm um peso significativo. Porém — e isso é o mais relevante para a pesquisa — foi comprovada a existência de um aglomerado produtivo no local.
É sabido, e a bibliografia referenciada demonstra claramente, que o desenvolvimento local é cada vez menos influenciado por empresas com grandes plantas industriais capazes de produzir bens padronizados em grande escala. Ao contrário, uma das novidades do chamado modo de produção flexível foi o desempenho surpreendente de pequenas e médias empresas, localizadas em proximidade (geralmente situadas fora de ambientes metropolitanos), que lograram bons níveis de produtividade e cujos padrões de competitividade muitas vezes resultam das interações entre elas e o meio local. Nesse contexto, são mais importantes o papel das novas tecnologias de informação e de comunicação e o fato de que a produção tende a ser feita sob encomenda, através de uma mão de obra particularmente qualificada.
Dessa maneira, considera-se que, se o aglomerado estudado não apresenta uma importância relativa em termos de indicadores quantitativos de produção e de emprego, outras características estão a indicar a formação de um arranjo produtivo local que, se incentivado, pode apresentar boas perspectivas de desenvolvimento.
O papel das diversas instituições ligadas à saúde, preexistentes ao surgimento do aglomerado, como três sólidas universidades dotadas de faculdades relacionadas à saúde (humana e animal), bem como diversos hospitais, não pode ser deixado em plano secundário. Embora cada uma das empresas tenha suas razões para ter-se estabelecido ali, é inegável que a presença dessas instituições influenciou essa escolha. Pode-se dizer, até mesmo, que o aprofundamento da ação conjunta entre as instituições preexistentes e as empresas mais recentemente surgidas tende a construir uma “cultura da saúde”
naquele território.
Ação coletiva e relações de governança, por seu turno, são elementos essenciais na caracterização de um arranjo produtivo local, como testemunha a bibliografia sobre o tema. Conforme foi mostrado no decorrer deste trabalho, tais elementos não somente estão presentes como têm sido de fundamental importância desde a formação do aglomerado em análise. A governança foi estruturada com base na participação ativa dos agentes, os quais — tanto empresas como instituições — demonstram claras intenções de fortalecer e dinamizar as relações internas do aglomerado.
Três elementos serão aqui destacados, ilustrando práticas de governança que mobilizam a participação dos agentes e que indicam importantes potencialidades de desenvolvimento.
1) São realizadas reuniões presenciais mensais do comitê gestor com a coordenação executiva do APL CIS, desde agosto de 2013, com participação dos principais atores locais. Nessas reuniões, são tratados assuntos de interesse do APL, tais como a análise de editais de financiamento, formas de reduzir custos para ampliar mercados, participação coletiva em feiras, dentre outros.
2) Foram criados grupos de trabalho com o objetivo de tratar de assuntos de interesse coletivo, cuja temática transversal revela a preocupação de atualização e inovação constantes nas diversas áreas do conhecimento que tenham interface com a área da saúde.
3) Está em processo de criação uma associação, com a finalidade de dotar o APL de uma característica jurídica, importante para acessar linhas de fomento e de incentivos a pesquisa e desenvolvimento. Com o objetivo de transformar o APL CIS numa entidade jurídica, o projeto de estatuto social está sendo analisado em cartório e posteriormente será encaminhado às assessorias jurídicas das instituições de ensino, das empresas e de outras entidades participantes do APL.
Deve-se chamar atenção, mais uma vez, para o papel decisivo das instituições de ensino e pesquisa que estão no núcleo fundador do APL CIS. Ao mesmo tempo em que são responsáveis pela geração de conhecimento científico, elas também fornecem parte da mão de obra qualificada necessária às empresas do arranjo. Dessa interação, que deverá aprofundar-se pouco a pouco, poderão emergir linhas de ação estratégicas para o desenvolvimento do aglomerado. Como referido anteriormente, a produção de equipamentos de saúde requer e incorpora tecnologias avançadas, no bojo de um processo de inovação constante, onde os centros de ensino e pesquisa têm função essencial. No caso em análise, a região é — pode-se dizer — privilegiada quanto a estes últimos.
Neste ponto, cabe externar a posição deste trabalho no que concerne à adequação do uso do termo arranjo produtivo local ao caso analisado. Evocando as quatro características de um arranjo, anteriormente enumeradas, pode-se constatar, pelo que foi acima exposto, que a primeira (especialização) e a terceira (ação coletiva) estão claramente presentes no APL CIS. Quanto à segunda delas, que diz respeito à “fusão” entre a atividade produtiva e a população local, deve-se reconhecer que não ocorre atualmente. Entende-se “fusão”, nesse caso, como a existência de profundos laços entre a atividade das empresas e a organização socioterritorial com seus traços histórico-culturais particulares.
Ora, em se tratando de um segmento produtivo novo na região, é plausível aceitar que a produção de equipamentos de saúde não tenha ainda criado raízes profundas no território. Entretanto, na medida em que as atividades do arranjo se desenvolvam e que os agentes públicos municipais percebam a importância estratégica de uma “cultura da saúde” na região, é bem provável que se estreitem pouco a pouco os laços entre a atividade produtiva e o meio local. A propósito, cabe insistir sobre o papel precursor dos centros de ensino e pesquisa na criação desses laços.
A quarta característica de um arranjo produtivo, ou seja, a coexistência de competição e cooperação entre as empresas do segmento, não está de todo ausente do APL CIS. Tendo em vista que a competição entre as empresas é pequena (ou quase inexistente, conforme declarado nas oficinas), a
sua coexistência com a cooperação não parece apresentar dificuldades, até agora. Deve-se, entretanto, observar que a cooperação da qual se trata é muito mais uma cooperação periprodutiva, isto é, fora do âmbito interno de produção de cada empresa, do que de uma cooperação tecnoprodutiva propriamente.
Assim, acredita-se que a coexistência entre competição e cooperação, embora não esteja plenamente instalada no APL, não parece representar um entrave no futuro, podendo-se esperar seu desenvolvimento.
Postula-se, em decorrência dessa avaliação, que o denominado APL CIS possa ser considerado como um arranjo produtivo local em estado de formação, com boas probabilidades de evolução para uma fase de “solidificação” ou maturidade. Isso porque foram nele identificadas diversas potencialidades, algumas das quais serão a seguir sintetizadas.
Em primeiro lugar, a produção do segmento equipamentos médicos, hospitalares e odontológicos, de forma geral, conta com uma demanda em expansão, especialmente no Brasil. Estudos demográficos apontam para mudanças no perfil etário da população brasileira nas últimas décadas, aumentando a esperança de vida e reduzindo a taxa de mortalidade. Naturalmente, daí decorre a ampliação da incidência de doenças crônico-degenerativas. Esse quadro, aliado à expansão do poder aquisitivo da população, resulta num crescimento sustentado da demanda por serviços de saúde, tanto públicos como privados.
Embora nem todas as empresas utilizem tecnologia avançada, é inegável que o APL atua num segmento produtivo onde a questão tecnológica é crucial. Algumas linhas de produção incorporam tecnologias avançadas (como a eletrônica embarcada, no caso das cadeiras de rodas), e o conjunto dos participantes está consciente da necessidade de inovar constantemente. Como foi visto nas oficinas realizadas, eles se preocupam em valorizar cada vez mais as atividades de computação, eletrônica, mecânica e design de produtos. Há, portanto, um grande esforço de avançar em inovação. A consciência de que se trata de uma atividade intensiva em conhecimento leva os agentes locais a buscar a qualificação dos empregados, bem como a intensificar atuações conjuntas com os centros de pesquisa e ensino para resolver problemas técnicos de produção. O fato de as empresas poderem contar com uma rede de instituições de ensino e pesquisa, localizada em proximidade, mostra o potencial quanto à evolução do APL.
Outro elemento, que vai no mesmo sentido, diz respeito à governança. Quando comparado a outras aglomerações do Estado, o APL CIS é de formação recente, mas vem praticando uma governança bastante eficiente desde sua criação, logrando manter e fortalecer a interação entre os agentes. A estrutura de governança é de fato o fórum onde são discutidos, avaliados e encaminhados os problemas do APL, de forma coletiva e aberta. Foi observado, durante as oficinas, que as práticas de governança levadas a cabo têm conseguido mobilizar os participantes em torno dos interesses comuns, chegando mesmo a gerar um clima de otimismo quanto ao desempenho futuro do arranjo. Isso se reflete, de certa maneira, na ampliação do número de empresas participantes ou interessadas em participar do APL CIS.
A governança atua também nas relações externas do aglomerado, buscando ampliar e aprofundar
conhecimentos na troca com outras esferas do setor em nível nacional, o que é muito importante porque um arranjo não é, nem pode ser, uma entidade isolada.
A par das potencialidades de que dispõe o arranjo para se desenvolver, foram apontadas no decorrer deste trabalho várias dificuldades (ou gargalos) identificadas pelos agentes locais.23 Mesmo não tendo magnitude suficiente para comprometer, no momento, o potencial do APL, essas dificuldades deverão ser tratadas e eliminadas, na medida do possível, pois sua permanência tem limitado a expansão das atividades do arranjo.
Em síntese, o APL CIS é um arranjo produtivo em formação, que inaugura o segmento de equipamentos de saúde numa região até então dedicada à produção alimentar (conservas e arroz) e, mais anteriormente, à indústria têxtil. Se devidamente apoiado e incentivado, o APL mostra-se capaz de contribuir para o adensamento do tecido produtivo local e para relançar o crescimento econômico na região de Pelotas.
Nesse aspecto, o papel das políticas públicas é de fundamental importância, tanto para garantir financiamentos para empresas e centros de ensino e pesquisa, como para realizar investimentos em infraestrutura.
Esse processo será tanto mais dinâmico quanto maior for o engajamento do poder público local24, não somente reconhecendo as potencialidades do APL, mas também implementando medidas de apoio e promoção dessas atividades no meio local. Não seria demais imaginar que, da combinação de todas essas potencialidades, possa surgir uma nova identidade regional do tipo “cultura da saúde” em Pelotas.