O presente estudo foi realizado com nove crianças, matriculadas na 1ª, 2ª e 3ª séries do ensino fundamental de uma escola pública. Através de análise de desenhos e entrevistas procurou-se investigar qual a compreensão destas crianças sobre os conceitos de saúde e doença em geral.
Para a coleta de dados se fez imprescindível o estabelecimento de um vínculo com as crianças, este se deu através da apresentação da pesquisadora e a solicitação de um desenho livre, para que as crianças se sentissem a vontade para responder aos instrumentos de coleta de informações.
As crianças representaram sua compreensão de saúde, através dos desenhos. Independente da faixa etária dos participantes, a saúde está ligada a felicidade, ao autocuidado e possibilidades que permitem às pessoas brincar e trabalhar. Para alguns participantes, a saúde ainda foi relacionada à boa alimentação, a prática de exercícios físicos e a ausência de vícios. A doença foi relacionada, em alguns casos, à tristeza, à necessidade de ficar acamado em casa ou no hospital, não podendo brincar ou realizar atividades cotidianas.
A presente pesquisa objetivou identificar quais fatores as crianças atribuem como causa para as doenças e para a saúde, a partir disto pode-se perceber que de maneira geral, a causa das doenças está relacionada à falta de autocuidado, a alimentação de maneira inadequada e a cometer comportamentos de risco, os quais, na maioria das vezes, estão ligados a causa da gripe. Elas também, em todas as faixas etárias, mostraram compreender que as doenças podem ser causadas através da contaminação por agentes externos ao corpo, sendo que as explicações mais completas sobre contágio são encontradas nas falas das crianças mais velhas. Em contrapartida, as causas da saúde estão relacionadas a comportamentos como alimentar-se bem, praticar esportes e não ter vícios.
Objetivou-se ainda, verificar o que as crianças fazem para se manter saudáveis e evitar as doenças, ou seja o conceito de prevenção. As crianças mostraram compreender a prevenção das doenças, de maneira geral, como oposta a causa. Desta maneira, evitar os comportamentos que causaram as
doenças, como má alimentação e falta de autocuidado, podem se constituir, na visão das crianças, como formas de se manterem saudáveis. Evitar o contágio também apareceu como forma de prevenção, sendo melhor explicado por uma das crianças de 9 anos. Outra criança de 9 anos apontou também com forma de prevenir as doenças, a evitação de comportamentos como fumar e consumir álcool.
Além disto, foi alvo da investigação identificar quais formas de tratamento às crianças atribuem para as doenças. Na presente pesquisa, observou-se que as crianças entendem o tratamento medicamentoso como principal forma de tratar as doenças, sendo que este, na compreensão da maioria das crianças, deve ser seguido corretamente, com horas e dias determinados. Estes medicamentos, segundo algumas crianças, podem ser tanto indicados pelo médico, como pela farmácia ou pela mãe. Quanto à função dos medicamentos, as respostas não demonstraram clareza, sendo que algumas crianças somente apontaram que curam as doenças, mas que não souberam explicar como isto acontece. Apenas uma das crianças demonstrou algum entendimento sobre o processo, comentando que os remédios são substâncias que agem no organismo combatendo os agentes que causaram o adoecimento. O repouso, o autocuidado e a boa alimentação também são entendidos pelas crianças como formas de tratamento.
O fator climático pareceu ser um aspecto que interfere na compreensão das crianças pesquisadas tanto em relação à etiologia, quanto aos sintomas, prevenção e tratamento das doenças, levando em conta que as crianças participantes da pesquisa residem em uma região do país em que parte do ano há o predomínio de baixas temperaturas, sendo que a coleta de dos dados foi realizada neste período, o que pode contribuir para uma descrição maior das doenças respiratórias por parte das crianças. E ainda segundo Cordazzo (2004) a explicação sobre a origem da gripe geralmente se dá mais cedo do que as de outras doenças, o que pode ser explicado pela experiência própria e familiarização com a enfermidade.
Também esta pesquisa objetivou identificar como as crianças recebem as informações sobre saúde e doenças. Através das entrevistas identificou-se que a informação advém, para a maior parte das crianças, das mães e/ou de algum outro familiar, como pais e avôs. Algumas crianças também atribuíram como fatores que influenciam na obtenção de informações, ter vivenciado a experiência com doenças, e outras ainda citaram os meios de comunicação e a escola.
Considerando a teoria do desenvolvimento cognitivo de Piaget (2003) percebeu-se que, de maneira geral, as crianças de 7 anos parecem encontrar-se em transição entre o período de pensamento pré-operacional e operacional concreto, apresentado características desses dois estágios que se manifestam em suas compreensões sobre os conceitos de saúde e doença. As demais crianças, geralmente, apresentaram um tipo de compreensão desses fenômenos, que se enquadra nas características do período de pensamento operatório concreto, sendo que algumas apresentaram uma compreensão mais elaborada e outras mesmo em idade mais avançada, demonstraram uma compreensão mais empobrecida dos fenômenos de saúde e doença.
Enquanto as crianças de 7 anos conceituaram saúde e doença focando a sua própria experiência, as de 8 e 9 anos utilizaram explicações mais amplas, expondo aspectos de enfermidades que não sofreram. Porém, uma das crianças de 9 anos, matriculada na primeira série, apresentou a compreensão dos conceitos investigados, em um nível de pensamento mais próximo ao de crianças de 7 anos. Talvez isso tenha ocorrido em função de estimulações ambientais pouco adequadas às suas necessidades, ou de imaturidade relativa ao desenvolvimento cognitivo, ou seja, ainda não realizou a transição para um estágio de pensamento mais complexo.
Em outra situação oposta, uma das crianças de 8 anos, mostrou uma compreensão dos fenômenos muito mais elaborada do que a esperada para crianças de sua idade, o que poderia indicar uma transição precoce para um estágio de pensamento mais complexo, mesmo em uma idade cronológica inferior, sugerindo um desenvolvimento mais acelerado em decorrência de estimulações
do ambiente e/ou de características individuais que poderiam favorecer o desenvolvimento cognitivo.
Com base nos dados apresentados, pode-se sugerir que a compreensão dos conceitos de saúde e doença apresentada pelas crianças participantes, está mais claramente relacionada ao nível cognitivo em que se encontram, do que com a sua faixa etária ou com o seu grau de escolaridade.
Considera-se essencial a realização de mais pesquisas sobre os conceitos de saúde e doença, tanto em crianças saudáveis, como em portadoras de doenças ou hospitalizadas, isto para que os profissionais que atuam com crianças, na área da saúde e educação, conheçam os pensamentos, crenças e medos das crianças em relação a estes fenômenos, e para que assim intervenham adequando suas informações e ações ao entendimento da criança.