5. CONCLUSÃO
5.2 Considerações finais
124 Desse modo, acreditamos que tenha ficado claro que e por que a hipótese ética macintyriana contida em Depois da virtude aponta para a questão da justiça – tratada em Justiça de quem? Qual racionalidade? – e para o reconhecimento da dependência social mútua dos integrantes de uma comunidade humana – tratada em Animais racionais dependentes – Por que os seres humanos necessitam das virtudes. Aprofundar-nos, no entanto, nessas questões e nesse porquê extrapolaria os limites propostos neste trabalho – assim como o faríamos se nos concentrássemos muito na contraposição radical e desmedida de MacIntyre a Kant.
125 Segundo Milênio. A noção de escolha, para Aristóteles, é o fiel da balança. As disposições são os estados de caráter formados devido aos quais nos encontramos bem ou mal posicionados em relação às paixões. As virtudes são disposições que tornam um ser humano apto a desempenhar bem suas funções, fazendo uma ponte entre ele e a vida em plenitude. O estagirita afirma ser tríplice a disposição: os dois extremos dela são viciosos, enquanto é virtuosa a mediania – o ponto equidistante entre duas pontas. Não é nem excesso nem carência. É o padrão, a melhor e justa medida prática, a forma adequada de mensurar a ação, e, por isso, é estrada segura rumo à perfeição.
O pensador britânico enfatiza a sabedoria prática – a phronesis –, a virtude intelectual que permite identificar e escolher os meios ideais, que conduzem ao telos supremo. É a excelência racional que dirige a ação e que permite pesar as coisas boas e más para o homem, concentrando-se nas boas, escolhendo-as e exercitando sempre essa avaliação, esse foco e essa deliberação virtuosa.
A sabedoria prática de um sujeito moral – que é um phronimos se consegue deliberar sobre o que é bom e útil para ele – tem, incondicionalmente em sua essência, o que é bom também para as outras pessoas, para a coletividade, para o ethos no qual a pessoa está inserida, e não apenas possui o que é bom para ela mesma. Para MacIntyre, aristotelicamente, além de o homem ser um animal racional é um animal social. É de sua natureza buscar viver em grupo. Tende às relações intersubjetivas, a interagir com semelhantes, em comunidade – sociedade organizada e aberta às relações intersubjetivas é, portanto, imprescindível, por ser o lugar ideal para a transmissão, via interação ensinamento/aprendizado, e para a implementação, via ação habitual, das virtudes. É sempre como membro de um determinado sistema social, e não simplesmente como ser humano, que o indivíduo vive sua vida.
Ao atualizar a ética aristotélica, MacIntyre constrói sua noção de virtude em três estágios: o das práticas, o da unidade narrativa da vida humana e o da tradição. As virtudes só adquirem sentido e função no interior das práticas, de conjuntos de atividades sistemáticas e socialmente reconhecidas. Nelas estabelecem-se bens internos e externos, cujos padrões de excelência só podem ser alcançados através das virtudes. A serventia dessas qualidades positivas de caráter é sustentar as relações entre os praticantes e manter as ações deles na direção dos bens internos que constituem e dão identidade a essas atividades.
126 Tais práticas só se tornam inteligíveis encontrando seu lugar numa narrativa, estabelecendo o bem de uma vida humana inteira, ou seja, uma vida concebida como uma unidade, como um todo. Para MacIntyre, o homem é um animal comunitário e, por isso, um animal narrador, contador de histórias. É um conceito do eu pensado de um modo narrativo – que liga nascimento, vida e morte – indissociável dos papéis sociais e histórico que a pessoa desempenha. Dessa forma o presente é, de certa forma, ancorado no passado. O que a pessoa é veio parcialmente do que ela herdou, porque ela integra uma história que é um dos pilares de uma tradição, ou seja, uma discussão desenrolada na história e entranhada na sociedade que dá às práticas e o que elas precisam para se fazerem compreensíveis. Desse modo, as virtudes são comunicadas narrativamente pelas tradições no interior das práticas.
Diferentemente de Aristóteles, MacIntyre não fez, formalmente, sua lista de virtudes, mas podemos nos atrever a fazê-lo a partir do conteúdo que o filósofo desenvolve, principalmente, em Depois da Virtude e, em parte, em Justiça de quem?
Qual racionalidade?. Identificamos seis excelências no agir louvadas pelo filósofo britânico: sociodiscernimento histórico; constância; paciência; humildade; caridade;
prudência.
O sociodiscernimento histórico é a capacidade apurada de perceber e compreender as alternativas futuras que o passado colocou à disposição do presente, uma vez que o futuro de uma tradição viva só tem alguma determinação e sentido enquanto deriva de seu passado. (CARVALHO, 2011, p. 172) Já a prudência é a manifestação da phronesis. É a sabedoria prática em plena operação no mundo da vida.
Por sua vez, a constância é a qualidade de caráter que mantém a pessoa fiel à afirmação contínua da narrativa unificadora vital, fazendo-se, portanto, condição obrigatória para que todas outras as virtudes sejam entendidas corretamente. É a comunhão incessante com a busca dos bens internos às práticas e com a visão do todo da vida ensinado narrativamente pelas tradições. A paciência é a serenidade que, ao mesmo tempo, dá à pessoa as condições de ser constante e que é fornecida pelo discernimento constante, para que se saiba, bem e precisamente, a hora em que se pode agir, a situação em que é possível interferir e o momento em que se deve se conformar. Já a excelência prática macintyriana da humildade é a consciência pessoal de que não se é o centro do universo humano, em nível comunitário. Tal noção habitual é condição sine qua non para quem
127 quer ingressar em uma prática em busca da excelência. Por fim, a caridade nasce da confluência entre a consciência comunitária de partilha e a humildade. Pensar nos outros aos quais se une em comunidade significa que não se é egoísta. Além disso, é preciso ser humilde para pensar também em quem está próximo, e não só em si mesmo.
Tal enumeração virtuosa é mais uma mostra de que a teoria de MacIntyre prega que uma racionalidade historicizada posiciona a noção de excelência prática no seio de uma tradição, um contexto que dá ao homem condições de enxergar mais nitidamente a origem de seus problemas morais contemporâneos e, a partir das experiências que o passado legou ao presente, estar mais preparado para enfrentar, da melhor forma possível, desafios futuros. Para MacIntyre, o restabelecimento do referencial da tradição das virtudes é a opção que melhor permite que o agir e o pensar morais readquiram poder de progresso ético sustentável.
MacIntyre mostra-se convencido de ter explanado suficientemente sua hipótese.
“Minha conclusão é bem clara”, afirma o pensador britânico. (2001a, p. 435) “A tradição aristotélica pode ser reinstaurada de um modo que restabeleça inteligibilidade e racionalidade a nossas atitudes e compromissos morais e sociais”. É preciso criar e preservar – através da retomada da tradição aristotélica das virtudes, adaptada à realidade contemporânea – formas de comunidades locais cujos integrantes, historicamente, usam as virtudes para identificar e praticar as formas de sociorrelacionamentos que conduzem à aquisição de bens em comum em harmonia com a aquisição de bens individuais.
Em MacIntyre, como observa Carsillo, o desenvolvimento de educação prática para as virtudes é fundamental para que tal composição social seja possível e viável.
Uma educação que capacite a superar inseguranças e suas ansiedades, evitando o otimismo narcisista e individualista dominante. (2000, p. 357) Tal educação, na teoria do filósofo britânico, é condição de possibilidade para dias melhores. A vida humana é sustentada pela esperança e contar com a esperança é sempre ir além do que é suficientemente uma boa razão para esperar. Há, no entanto, um alerta: “A esperança não deve ser confundida com aquela viva e alegre confiança que ignora dificuldades e frustrações. Ao contrário de tal confiança, a esperança nos sustenta face a dificuldades
128 confirmadas e frustrações aparentemente inelimináveis”, diz o pensador britânico.
(MACINTYRE, 2011, p. 333).
Quando se preocupa com a educação, MacIntyre mostra parte de seu lado pedagogo. Mas um educador que, ao contrário do que muitos pensam, se recusa a lecionar pessimismo, principalmente quando dedica tinta, papel e tempo à questão da esperança. MacIntyre está mais para um realista esperançoso.
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