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Considerações finais

No documento A PAIXÃO DE JESUS (páginas 61-66)

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também o testemunho e a identificação com ele. Há, assim, a partir da leitura a possibilidade de se experimentar a Boa-Nova de Marcos, em cada gesto de Jesus, mediante a dor de sua Paixão e cruz e, pela leitura, deixar-se tocar pelo lume do momento culminante do texto sagrado, que visa a anunciar, com certeza de fé, que Jesus era verdadeiramente o Filho de Deus, expresso também no fim do texto marcano, Mc 16,7, nas palavras “Ele ressuscitou”. A narrativa marcana afirma, portanto, que Jesus não foi tragado pela morte, mas que está vivo e precede a seus fiéis discípulos na Galileia, o lugar por excelência da vida comunitária, da experiência da salvação; lugar da pregação e da ação da Boa-Nova da soberania de Deus.

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expoentes hoje, quais os passos que dá no caminho da leitura do texto bíblico e quais os pressupostos que ele pode conceder ao leitor e a comunidade de fé que lê a Paixão de Jesus.

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2 MEMORIA PASSIONIS: O RELATO DA PAIXÃO EM PERSPECTIVA NARRATOLÓGICA

O texto órfão de seu pai, o autor se torna o filho adotivo da comunidade de leitores”.

(P. Ricoeur)

O segundo capítulo desta tese tem por objetivo delinear o estudo sobre o relato da Paixão de Jesus em Marcos (14,1-16,8) com o sentido de memoria passionis1, isto é,

1 Falar de memoria passionis sem fazer referência a Johann Baptist Metz é, sem dúvida, um problema teológico. A partir de 1969, J. B. Metz propos a memoria passionis como um “novo método de fazer teologia, a teologia narrativa, contrabalanceando à teologia argumentativa” (Cf.

BOFF, Paixão de Cristo, Paixão do mundo: os fatos, as interpretações e o significado de ontem e hoje. Petrópolis: Vozes, 1977. p. 133-134). J. B. Metz acenou a um problema premente à Teologia nas últimas décadas: à “memória bíblica de Deus”, que se confronta com os plurais “mundos da vida culturais e religiosas dos seres humanos, abrindo-se com ele às perguntas que a história da paixão da humanidade nunca deixa de sucitar” (cf. METZ, Johann Baptist. Memoria Passionis.

Una evocación provocadora en una sociedad pluralista. Cantabria: Sal Terrae, 2007. p. 17). Para Metz, o cristianismo se entende como “com-paixão”, como expressão absoluta afetada de um amor que se sabe enraizado na indissolúvel unidade do amor a Deus e amor ao próximo. O que este teólogo percebeu é que a Teologia não pode se fazer estéril à realidade do Mundo que padece. Para ele, Auschwitz foi um evento catastrófico que o inquietou enormemente: “Muchos han sucumbido a la pérdida de esperanza en el ser humano” (METZ, Memoria passionis, p. 19). Neste sentido, a humanidade ainda hoje vive, como Jesus Cristo, uma paixão. Neste sentido, em nosso trabalho, buscamos compreender a memoria passionis, sugerida por J. B. Metz, não como um método, mas como um texto ou “relato da Paixão de Jesus, como um produto, fonte e, sobretudo, consequência deste relato na vida dos cristãos. Pensamos a gênese do Evangelho de Marcos e sua ressonância na vida da Comunidade Cristã ainda hoje, sobretudo na vida dos que sofrem. A memória da Paixão de Jesus atinge a todos nós, os crentes e fiéis que, ouvindo ou lendo esta narrativa, nos identificamos empaticamente com ela, pois nela, Jesus é apresentado como aquele que morreu crucificado e, pelo mistério salvífico de Deus, é ressuscitado da morte. A empatia que sentimos é propriamente a fé, a adesão a Jesus Cristo, o Filho de Deus. A história memorável de Jesus constitui o centro da fé cristã, em sentido fontal e, ao mesmo tempo, em sentido teleológico, pois Jesus Cristo constitui o sentido de nossa fé. O sentido de ler a Paixão será melhor abordado no último capítulo deste trabalho, quando averiguaremos o significado da Paixão de Jesus para vida e a paixão dos que sofrem, do povo crucificado nos tempos de hoje. Deste modo, a memória da Paixão, não tem apenas uma função literária e estética; mas de tradição, pois consiste em memória recebida e transmitida e, por isso, exerce uma função querigmática (anunciadora) e transformadora, pois é possível seranunciada e reescrita no evangelho da vida dos homens e mulheres de hoje.

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memória da Paixão, que é propriamente a memória de Jesus2. De acordo com Frank Matera, “se lida isoladamente, a narrativa da Paixão, os capítulos 14–16, fornece uma notável história que forma uma unidade literária.” De acordo com ele, desde muito tempo os estudiosos da Paixão reconhecem a importância da cristologia narrativa de Marcos, mesmo que não concordem com a natureza precisa de sua cristologia3. Neste sentido, o esforço concentrado neste capítulo será o de reunir e apresentar os últimos estudos sobre a Paixão de Jesus no evangelho de Marcos. O estudo delineará fortemente o caráter cristológico do evangelho marcano nos estudos hodiernos.

No percurso deste capítulo busca-se averiguar os estudos sobre a Paixão de Jesus no evangelho de Marcos, especialmente nos últimos quarenta anos, isto é, a partir da década de 1970. Procuraremos elencar as obras sobre a Paixão de Jesus e suas características fundamentais sob o influxo do método sincrônico da análise narrativa. A partir desta leitura sobre a Paixão, conseguiremos chegar à compreensão da teologia narrativa da Paixão.

Em segundo plano, a preocupação será a de perceber como o método de análise narrativa (narratologia, narrative criticism) influenciou e determinou a leitura e o estudo da narrativa da Paixão de Jesus no segundo evangelho (o relato evangélico mais curto da Paixão e, seguramente, o mais antigo). Não se levará em consideração as leituras realizadas a partir do método histórico-crítico, por mais recentes e fecundas que sejam. Levaremos em consideração, sobretudo, a perspectiva da “hora do leitor”4 ou do “tempo do leitor” e

2 Dizemos Evangelho de Marcos o texto, o relato, compreendido e transmitido pela Tradição eclesial, atribuído a Marcos. Sobre a questão de autoria do Evangelho não será elaborada nenhuma consideração neste trabalho, pois, segundo a perspectiva de narratologia bíblica, a preocupação não está na história trazida no texto ou na autoria dele, mas a preocupação reside no leitor que o lerá.

Quando falamos de Evangelho de Marcos utilizamos termos como Evangelho marcano ou Segundo evangelho, nomenclaturas bem conhecidas no estudo da Exegese bíblica.

3 MATERA, Frank J. Passion narratives and Gospel theologies: interpreting the synoptic througt their passion stories. New York: Paulist Press, 1986. p. 8.

4 « Le veritable auteur du récit n'est pas seulement celui qui le raconte, mais aussi et parfois bien davantage, celui qui l'écoute ». GENETTE, Gérard. Figures III: Discours de Récit, 1972, p. 267.

Com esta afirmação de Genette, pode-se concluir que o leitor é, para o método de análise narrativa, um agente imprescindível. Ele é quem concede vida ao relato e encontra nele sentido, efeitos para sua vida de leitor-ouvinte. Umberto Eco, na obra Les limites de l’interprétation (original:

I limiti dell’ interpretazione, 1990), apresenta um diagnóstico sobre as mudanças no curso da interpretação do texto. Ele observou, por volta de 1990, que houve uma espécie de deslocamento de centro, antes sobre a enunciação histórica do texto e sobre as regras de produção do discurso, à

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dos efeitos da interpretação sobre o agente da leitura. A ênfase cai sobre o leitor (ouvinte) em face ao relato escrito pelo autor de Marcos. Neste sentido, delimita-se claramente o objeto desta pesquisa.

O método que se utilizará na busca da elaboração do status quaestionis sobre a Paixão de Jesus em Marcos será o elencamento hierárquico do passado próximo até hoje, das obras fundamentais sobre o evangelho de Marcos escritas na óptica da análise narrativa. Incluímos outra perspectiva de leitura, bem próxima à análise narrativa, chamada de método semiótico, utilizada, sobretudo, por J. Delorme, em seu comentário ao evangelho de Marcos5. O método que pode ser uma “ciência”, afirma J. Delorme, “um saber que descreve e coloca em modelos as estruturas do discurso”, na verdade se apresenta também como uma arte de ler, mais que uma metalinguagem. Uma arte de ler supõe uma capacidade e um rigor de análise evidentes6. Esta forma ou abordagem pode ajudar amplamente na perspectiva de análise da narrativa da Paixão, pois pressupõe ler o evangelho, o relato bíblico, como discurso. A semiótica constitui uma análise generativa do discurso7.

Após a averiguação minuciosa dos principais comentadores de Marcos, do ponto de vista da narrativa, traçar-se-á rapidamente o histórico do método sincrônico de

análise centrada sobre a recepção. Portanto, a operação de decodificação da mensagem é a

decifração do texto por parte do leitor. Em suma, assistiu-se a uma mudança significativa do polo do autor para o leitor, a análise das condições de escrever com a observância das regras do jogo. “O que é verdadeiro para a literatura em geral o é também para a literatura bíblica: isto é, a exegese se coloca agora à hora do leitor.” (MARGUERAT, Daniel. La Bíble en récits. L’exégese biblique à l’heure du lecteur. 2. ed. Genève: Labor et fides, 2003. p. 13). Cf. ECO, Umberto. Les limites de l’

interprétation. Paris: Grasset, 1992, p. 23-28.

5 DELORME, Jean. L’heureuse annonce selon Marc. Lecture intégrale du 2e Évangile. Paris: Cerf;

Montreal: Médiaspaul. 2008.

6 DELORME, L’heureuse I, p. 7.

7 Tzetan Todorov diz que “ao nível mais geral, a obra literária tem dois aspectos: ela é ao mesmo tempo uma história e um discurso. Ela é história, no sentido que evoca certa realidade, acontecimentos que teriam ocorrido, personagens que, deste ponto de vista, se confundem com os da vida real. Esta mesma história poderia ter-nos sido relatada por outros dois meios; por um filme, por exemplo; ou poder-se-ia tê-la ouvido pela narrativa oral de uma testemunha, sem que fosse expressa em um livro. Mas a obra é ao mesmo tempo um discurso: existe um narrador que relata a história; há diante dele um leitor que a percebe. Neste nível são os acontecimentos relatados que contam mais a maneira pela qual o narrado nos fez conhecê-los [...]. Cf. TODOROV, Tzvetan. As categorias da Narrativa literária. In. ANÁLISE estrutural da narrativa: pesquisas semiológicas.

Petrópolis: Vozes, 1971. p. 213-214.

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análise narrativa nos últimos quarenta anos, seu itinerário histórico e seus principais expoentes. Esta apresentação histórica permitirá compreender o sentido de leitura abordado por tal método e sua importância para a compreensão das Escrituras nos dias atuais.

Em seguida, buscar-se-á compreender se o relato da Paixão constitui continuidade ou relato autônomo em relação ao evangelho de Marcos como um todo. Os estudos recentes sobre a Paixão de Jesus em Marcos, no campo da análise narrativa, podem proporcionar a opinião sobre a continuidade do relato da Paixão em relação ao relato de Mc 1-13, ou ainda o dissenso sobre esta continuidade, revelando, assim, a autonomia do relato da Paixão em relação à parte anterior do evangelho.

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