O desenvolvimento desta pesquisa se propôs a analisar as atividades de leitura do livro didático de Português como Língua Estrangeira, Brasil Intercultural, sob a perspectiva do Letramento Crítico e da Interculturalidade. Partimos da seguinte pergunta de pesquisa: as atividades de leitura encontradas no Brasil Intercultural colaboram com a compreensão da interculturalidade e o desenvolvimento do letramento crítico dos estudantes? Para responder tal questionamento, direcionamos um olhar crítico às atividades de leitura do BI, a fim de compreender como poderiam colaborar com a abordagem mencionada e, se necessário, apresentar sugestões que poderiam atender a esses mesmos princípios, caros ao perfil teórico desta pesquisa.
Com este trabalho, foi possível (re)pensar o ensino de PLE a partir da proposta da Linguística Aplicada Crítica alinhada às contribuições do Letramento Crítico no que tange à concepção de língua/linguagem. A discussão proposta pela LAC fornece subsídios para compreender o ensino-aprendizagem de línguas como um processo que envolve professor e estudante como sujeitos agenciadores, possuidores de poder para se colocar em ação, a desafiar as fronteiras do próprio conhecimento. Nesse sentido, orienta-nos a analisar, nas diferentes práticas sociais, como as discriminações fomentadas pelas desigualdades de linguagem, poder e de conflitos de interesse são mantidas.
Partindo desse pressuposto, o LC dedica um olhar especial à leitura como uma prática social crítica, que compreende ler o texto mais profundamente, a ir além de sua aceitação passiva, de suas visões parciais, direcionando a um exercício voltado para a diversidade de significações. Portanto, envolve um sujeito-leitor que pensa diferente e questiona um determinado discurso, a fim de compreender sob qual perspectiva se constrói em meio às diferentes possibilidades de sentidos sócio historicamente construídos, para então confrontar seus significados e reposicionar- se enquanto sujeito de ação e transformação. Logo, ao adotar uma abordagem que permita o trabalho com a perspectiva educacional do LC, os estudantes terão a oportunidade de se tornarem melhores leitores e cidadão conscientes.
No tocante aos conteúdos culturais, a coleção Brasil Intercultural, indica um avanço em relação à produção de livros didáticos de PLE para hispano-falantes em relação às atividades de leitura em comparação a coleções anteriores, pois
demonstra se interessar por questões socioculturais. Como apontado por Diniz, Stradiotti e Scaramucci et al. (2009), as questões de leitura dos LDs tinham como foco a localização de informações e o texto funcionava, muitas vezes, como pretexto para focalizar algum aspecto gramatical ou lexical.
No entanto, parece haver uma contradição quanto à sua abordagem, pois há atividades que não consideram a cultura de língua-nativa, e quando a reconhecem, permite ao estudante falar de sua própria cultura ou compará-la com a cultura de língua-alvo, mas não a estabelecer relações de confrontos, divergências ou aproximação com a cultura em contato de modo crítico e reflexivo, o que é imprescindível para o desenvolvimento da interculturalidade. Ainda, nota-se que a perspectiva de letramento crítico é predominantemente minoritária, pois apesar de ofertar uma diversidade gêneros verbais, não verbais e multimodais com textos que elucidam questões sociais, o material ainda demonstra uma tendência em priorizar as estruturas linguísticas, com atividades de substituição, de localização de informações, de contraste da língua, e aborda poucas questões que levam o estudante a exercitar competências e habilidades mais sofisticadas envolvidas na compreensão crítica dos textos.
Ainda, ao fazer referência às diferenças culturais e à importância de aprendermos sobre essa diferença, o BI parece emergir uma noção de cultura muito recorrente nas aulas de língua estrangeira, definida como conjunto de hábitos, comportamentos, regras sociais que variam de acordo com os grupos sociais.
Consequentemente, seguindo a lógica do LD, ao aprendermos a língua do outro, deveríamos também aprender esse “pacote” de costumes, hábitos e regras no intuito de “funcionar bem” no contato com o outro.
Particularmente, tendo em conta os critérios de análise definidos, podemos constatar que há atividades de leitura que poderiam desenvolver uma reflexão crítica, uma vez que estão presentes textos com potencialidade para discutir as questões socioculturais, a saber: as representações de identidades do negro, da mulher, de uma classe inferior, o que poderia levar o estudante a prospectar as razões pelas quais elas aparecem. Ainda, há atividades de leitura que consideram o contexto sócio-histórico do estudante, permitindo que este se posicione sobre o conteúdo do texto. Entretanto, oferecem poucas questões que levem o estudante a refletir sobre as condições de produção do texto, como quem é o autor, qual o seu propósito, quando foi escrito, onde foi publicado, que o levariam a reconhecer as
múltiplas possibilidades de sentidos do texto. Desse modo, as atividades parecem ser insuficientes para problematizar as diferentes representações de linguagem dentro de uma perspectiva crítica.
Assim, vale esclarecer que o LD não precisa atender a todos os critérios definidos, mas deve sofrer as alterações necessárias de acordo com o contexto de ensino-aprendizagem de língua estrangeira, priorizando as necessidades de cada estudante em particular. Ao considerar esse apontamento, podemos construir a língua como um espaço mais significativo aos sujeitos envolvidos nas relações interativas, principalmente se queremos promover um ensino intercultural e crítico.
Nessa perspectiva, assumir uma postura crítica envolve a agência do professor, e isto significa ir além das possibilidades oferecidas e pensar em outras formas de potencializar o ensino, como a readequação de um material ou o seu aprimoramento, por exemplo.
Entendemos que seja possível e importante por parte do professor no seu poder de agenciador, incluir mais questões que levem os estudantes a refletirem sobre as condições de produção do texto, tais como, quem é o autor, quando o texto foi escrito, onde foi publicado, e a posicionarem-se sobre o seu conteúdo, além de questionar a noções de verdade que incidem por meio de informações. Em outras palavras, consideramos que é preciso incluir questões que chamem a atenção para a função do texto e solicitem um posicionamento ativo do aluno com respeito ao modo como os sentidos são construídos para sustentar as informações e ideias e para dar base às interpretações.
Neste trabalho, vimos que assumir as próprias escolhas teóricas é um compromisso político dentro da profissão docente, porque nos permite promover ações transformadoras no espaço de ensino-aprendizagem, para além das fronteiras do limite do pensamento moderno, desestabilizando noções de verdades, num exercício constante de construção, desconstrução, reconstrução e ressignificação no mundo.
Assim, esperamos que este trabalho possa contribuir para outras pesquisas que se interessam pelo ensino de PLE na Argentina, e que pretendem se aprofundar nos estudos do Letramento Crítico e da Interculturalidade na análise de livros didáticos de português como língua estrangeira, colaborando, desse modo, com as pesquisas na área da Linguística Aplicada.
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ANEXOS
ANEXO 1 – COTIDIANO
ANEXO 2 – BRINQUEDO SEM PRECONCEITO
ANEXO 3 - OUTRORA
ANEXO 4 - O TRABALHO DIGNIFICA O HOMEM
ANEXO 5 – CONHECENDO O BRASIL
ANEXO 6 – BRASILEIRO
ANEXO 7 – NOSSAS DIFERENÇAS
ANEXO 8 – CADA CANTO TEM SEU ENCANTO
ANEXO 9- GAFES DE CADA DIA
ANEXO 10 – COMO SER BRASILEIRO EM LISBOA
APÊNDICES
APÊNDICE A – Revisão Bibliográfica
Em pesquisa realizada no banco de Teses da CAPES, foram encontradas dissertações e teses, que possibilitaram investigar o que vem sendo pesquisado com relação à leitura no ensino de PLE, a partir dos estudos do letramento crítico e da interculturalidade, tendo como base para discutir tais questões, a análise de livro didático. Ainda, permitiram encontrar alguns trabalhos que pudessem contribuir para o desenvolvimento desta pesquisa, para poder assim, dar continuidade as discussões sobre o tema proposto. Assim, os trabalhos encontrados foram identificados em três grupos principais, sendo eles: o ensino de PLE em uma perspectiva intercultural, a análise de livro didático de LE e a leitura no ensino de PLE.
No que diz respeito ao ensino de PLE em uma perspectiva intercultural, localizamos trabalhos como: A perspectiva intercultural para o ensino de línguas:
propostas e desafios, no qual Scheyerl, Barros e Espírito Santo (2014) discutem o conceito de interculturalidade e a sua relevância na prática de ensino de Língua Estrangeira e em materiais didáticos. As autoras ainda sugerem atividades interculturais em seis línguas, inclusive em português como língua estrangeira.
Com relação à análise de livro didático para o ensino de língua estrangeira, foram encontrados dois trabalhos que tratam do análise de LD de Língua Estrangeira, como o de Grigoletto (1999, p. 68), ao analisar uma coleção de inglês, entende que o LD é “um discurso de verdade, [...] no qual os sentidos já estão estabelecidos (pelo autor) para ser apenas reconhecido e consumido pelos seus usuários (professor e alunos)”. Por sua vez, ao examinar coleções didáticas de francês, Coracini (1999, p. 122), mostra, por meio da análise dos exercícios propostos pelos LD, a predominância de “uma visão mecanicista da aprendizagem e, portanto, uma pedagogia diretiva”.
Tratando especificamente de livros de PLE, foram encontradas seis produções acadêmicas. Diniz, Stradiotti e Scaramucci (2009), em Uma Análise panorâmica de livros didáticos de Português do Brasil para falantes de outras línguas, apresentam um levantamento dos materiais de PLE disponíveis no mercado