Uma situação política instaurada em Morro do Chapéu, no início do século XIX, principalmente na década de 1910, transformou o que seria mais um caso de conflitos entre coroneis no interior baiano, em um processo de renovação política local. A pacata cidade encravada no norte da Chapada experimentara uma situação política sem prece- dentes. As relações políticas instituídas pelo Cel. Francisco Dias Coelho até 1919 man- tiveram a população fora dos conflitos armados que ocorriam nos municípios vizinhos.
Esses tipos de querela, envolvendo coroneis que reivindicavam o comando político ou que reagiam a ações de outros mandatários locais, não se repetiram até aquele período.
Esse isolamento da cidade em relação aos conflitos ao seu redor deveu-se a dois principais motivos: externamente, pela aproximação de Dias Coelho com os coroneis dos municípios vizinhos, em especial com Horácio de Matos e sua família; e interna- mente pelo nível de poder alcançado pelo coronel. Nesse grau de centralização do po- der, embora não o consideremos absoluto, concordamos com Queiroz (1985) ao afirmar que, nesse tipo de situação, não existe margens quase a lutas.
Atentamos, porém, para o fato de que a “terra da paz e da concórdia”, como o Correio do Sertão algumas vezes se referiu à cidade, não experimentava um momento em que seu chefe agisse sem autoritarismo. Pelo contrário, algumas ações do Cel. Dias Coelho sugerem o uso arbitrário das decisões. Não podemos entender de outra maneira atitudes, como o fechamento de escolas e da agência dos Correios no arraial do Ventura, apenas como meio de impedir a emancipação de um distrito. Tampouco não constitui uma ação democrática remover pessoas de suas residências sem nenhum tipo de consul- ta, a exemplo do que aconteceu em 1911 na sede do município.
O final de 1919 e os seis anos seguintes foram marcados pelas disputas acirradas entre dois grupos políticos e pela atuação constante de seus veículos de imprensa. Os anos mais tensos da política de Morro do Chapéu foram marcados pelo confronto de dois coroneis com forças equiparadas. Entretanto, não se tratava de uma guerra entre duas famílias, mas entre dois grupos políticos de características distintas.
Essa era, sem dúvida, uma característica peculiar de Morro do Chapéu. Tratava- se de dois grupos distintos por diversas razões. Um dos agrupamentos de políticos pos- suía características um tanto incomuns para a época, bem como mecanismos de poder
diferentes. Não possuíam vínculos de parentesco, mas articulavam-se por vínculos soci- ais. Emergiram socialmente em função de atividades econômicas em comum. Eles não eram oriundos de famílias ricas e tradicionais, mas ascenderam social e politicamente através da exploração do carbonado. Do lado oposto, estava um grupo de famílias: os Pereira, os Valois, os Barreto etc., liderados pelos Dourado e estruturados da forma mais tradicional identificada nos estudos sobre o coronelismo − o elo “familiocrático”.
Embora esses traços corroborem para a análise das trajetórias de ambos os gru- pos, de forma peculiar, percebemos algo de comum existente entre esses coroneis de Morro do Chapéu e outros. Algo que seus artifícios, suas manobras políticas ou suas riquezas jamais conseguiram tornar dispensável e que era primordial para ambos os grupos de igual forma. As alianças e relações estabelecidas por esses homens foram, em grande parte dos momentos, responsáveis por suas ascensões. De igual forma, as ruptu- ras, mesmo que não definitivas, quase sempre implicavam uma perda considerável.
Essa dinâmica ficou demasiado evidente na trajetória de Souza Benta. O proces- so de sua perda de espaço político em Morro do Chapéu desenvolveu-se na medida em que a crise no relacionamento com Horácio de Matos se acentuou e, paralelamente, aos fracassos nas tentativas de instituir vínculos mais fortes com o governo estadual. Em suma, a demora em definir-se em um dos lados implicou um duro golpe: a perda do paço municipal para os adversários.
Diferente do Benta, Teotônio e os “memés” se mantiveram mais definidos. Em momento algum, buscaram uma aproximação mais intensa com Horácio ou com os co- roneis sob a sua batuta. As relações dos Dourado com o governo estadual, tanto com J.
J. Seabra, quanto com Góes Calmon, foram bastante regulares. Não fosse o “Acordo de Mucugê”, que ampliou a influência de Horácio sobre os municípios da Chapada, o re- torno dos “coquís” ao poder, em Morro do Chapéu, seria certamente mais difícil.
A retomada da liderança política pelos “coquís” também foi paralela ao momen- to de reaproximação com o chefe das Lavras. Ainda assim, acreditamos que isso somen- te foi possível porque não houve uma aproximação maior entre Horácio e os Dourado.
Ao menos, a documentação analisada não fornece indícios a esse respeito.
Chegamos à conclusão de que o capital social, para os coroneis, foi fundamental não só para eles se estabelecerem no poder, como para ali permanecerem. Principalmen- te durante a República Velha, quando o coronelismo se estabeleceu de forma quase ofi-
cial, a interdependência entre as esferas de poder instituídas na República se tornou mais evidente. Não afirmamos, com isso, que os representantes das esferas local, esta- dual e federal estavam todos em rigorosa condição de igualdade, mas apenas que em algum grau, recorriam, de certa forma, uns aos outros.
Essa relação de clientela política e de troca de favores maculou esse capítulo da história de Morro do Chapéu, mas não nos enganemos ao julgar que os Dourado saíram derrotados da contenda. O que se pôs em prática foi uma estratégia de apaziguamento e conchavos. Isso permitiu ao Estado resolver a incômoda querela em Morro do Chapéu respeitando, ao mesmo tempo, o acordo firmado com os coroneis do interior.
Por fim, particularmente quanto aos “coquís”, chamamos a atenção para a forma como mantinham sua relação com a população local. A relação de carisma estabelecida entre Dias Coelho e a população morrense constituiu um dos fatores da política de cen- tralização de poder dos “coquís”. A “sombra” de Dias Coelho acompanhou Souza Benta até 1930, ano em que anunciou seu afastamento da vida política. Esta data, entretanto, representou apenas um posicionamento menos evidente de sua vida pública. Seu afas- tamento definitivo jamais aconteceu, pois Benta acompanharia as questões políticas na terra do frio até 1946, ano de sua morte.
Constatamos que a provocação lançada já no título deste trabalho, quanto ao su- posto temperamento dos coroneis de Morro do Chapéu não se confirmou. Diferente do que aconteceu em outros municípios baianos, onde batalhas sangrentas foram travadas na disputa por uma condição de mando local, e diferente também da ideia mais difundi- da sobre os coroneis da República Velha, em que o coronel era normalmente visto como um homem de poucas palavras e de ações sempre violentas, em nenhum momento os coroneis Morro do Chapéu abdicaram do zelo por sua imagem e partiram para o uso da força em um confronto armado. Em fim, os coroneis da terra do frio, pode-se assim di- zer, não tinham o sangue tão quente.