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CONSIDERAÇÕES FINAIS

No documento Festa de São Bartolomeu (páginas 156-162)

Deixa-me dizer isto: se tivesses acreditado mais no desenho do que na escrita estarias mais próximo do que é verdadeiro no Mundo”.76

Maragojipe, nosso campo de pesquisa, apresenta um legado ancestral africano que se desenha desde a sua constituição histórica até a atualidade. Os mitos, símbolos, memórias, elementos do universo dos povos de matriz africana estão representados no espaço maragojipano, nas identidades dos sujeitos, nas tradições, como também no momento em que a cidade comemora o seu santo padroeiro.

O trabalho com crianças de identidade afro-brasileira nos possibilitou conhecer um dos territórios culturais da festa de São Bartolomeu através do olhar de quem experiencia o festejo a partir do seu próprio território e das relações estendidas com o universo cultural africano e afro-brasileiro, o qual as crianças vivenciam e fazem parte.

Encontramos no território da festa a disposição de elementos que dialogam com outros territórios, como o do universo católico e o das religiões de matrizes africana e afro- brasileira.

A lavagem popular representa um território que é desenhado pelos sujeitos que partilham do festejar experienciando os múltiplos sentidos que a festa possui. No caso das crianças, a lavagem se apresenta como o momento onde em companhia dos pais, parentes e amigos as suas identidades são festejadas, revividas. Se no momento de ir a missa enquanto atividade obrigatória da escola as crianças vivem o mito católico ocidental sobre São Bartolomeu e todos elementos que constituem o universo da religião católica, na lavagem é o momento onde os meninos e meninas dialogam com os mitos sobre Oxumaré, bem como com os demais elementos que compõem o universo das culturas africanas e afro-brasileiras.

As imagens e sua potencialidade na construção do conhecimento possuem destaque nos estudos que apontam a dimensão cultural como base para o entendimento acerca do outro e sua identidade. No campo da educação, sobretudo na atualidade, a imagem vai além do mero uso ilustrativo apresentando-se como aporte pedagógico que substancia a construção do conhecimento, uma vez que carrega consigo a expressão e o subjetivo.

76 Trecho do texto “ O falhanço dos homens”, de autoria do escritor Gonçalo Tavares.

156 Trazendo para o campo da Geografia, Lacoste (1981) já previa o uso da imagética como potência para os estudos geográficos, quando este assim versejou: “ hoje em dia não há mais somente a geografia dos professores, mas também aquela que veiculam a televisão, o cinema, os cartazes, os jornais, as imagens...”. Lacoste (1981) nos oferece a dimensão que o próprio campo da ciência geográfica possui em sua potencialidade analítica. Conceber o espaço, não se finda em decorá-lo através das predisposições físicas que o compõem como o relevo, as bacias hidrográficas, a vegetação, ou, ainda através do “saber” acerca dos estados e capitais que formam um país.

Encontramos na Geografia Cultural o uso da imagem como uma das ferramentas que possibilitam a representação do mundo em que vivemos, dos espaços, lugares e territórios construídos pelos sujeitos e que são compostos por símbolos, signos, formas, enfim, elementos que dialogam com a sua função e sentido para aqueles que o constroem. Assim, segundo Massey (2008) o espaço geográfico deveria ser concebido como “ uma multiplicidade de estórias-até-aqui”, estórias essas construídas pelos sujeitos que dele fazem parte.

Nesse sentido, podemos conceber a potencialidade da imagem no estudo acerca do espaço geográfico e sua representação múltipla do real, o que possibilita o entendimento acerca das configurações espaciais versadas pelos sujeitos, como por exemplo, a formação de territórios no festejo em homenagem a São Bartolomeu.

A categoria território a qual nos referendamos não se apresenta de forma cartesiana, demarcada de forma concreta no espaço da festa. Nos remetemos a um território ordenado espacialmente através de símbolos e elementos que garantem a esse território um aspecto diferente do pensamento ocidental . Trata-se de um território que carrega o concreto – se pensarmos, por exemplo, no terreiro, lócus onde as crianças partilham vivências e saberes – , mas também o invisível, como no caso da morada de Oxumaré, elemento simbólico o qual a criança destaca por fazer parte do seu território cultural.

No bojo da nossa pesquisa elencamos o desenho e a fotografia como linguagens do campo da imagem que se destacam por sua expressividade e revelam a forma como os sujeitos concebem a realidade. O desenho expõe, dialoga primeiro com o desenhador e sua mente no ato inicial de configurar mentalmente o que será esboçado desenhisticamente, depois com quem observa a produção desenhística.

157 O desenho de composição e de caráter expressional o qual nos destinamos a analisar contém os elementos desenhísticos, bem como as simbologias elencadas pelas crianças para representarem um dos territórios culturais que elas em companhia dos seus amigos e parentes participam na festa de São Bartolomeu. São formas, texturas, cores, linhas, traços, volumes, movimento, enfim, bases do escopo do desenho que quando configuradas geram um significado e nos levam a intenção de quem desenha.

O desenho, como nos diz Gomes (1996) é capaz de tornar possível a compreensão de formas simbólicas, o que corrobora para as nossas análises acerca dos festejos em homenagem a São Bartolomeu. Uma vez que é fruto do saber, do que é percebido, o desenho carrega consigo também a identidade de quem o produz e a forma como, a partir das experienciações com a sua realidade, o desenhador ordena elementos gráficos a fim de representar o que vê.

Assim, convalidamos em nossos estudos que o desenho está presente em nosso entorno seja no que efetivamente vemos, as linhas de um prédio, como também no ato de ir e vir, no desenhar espaços e territórios através dos ordenamentos simbólicos construídos pelos sujeitos, o que tem relação com a percepção do que está ao nosso redor.

Dessa forma, ratificamos a nossa defesa acerca da relação entre a fotografia e o desenho grafado no papel, uma vez que ambos são fruto de composições intuitivas e intelectuais que nascem no plano mental e somente depois são grafadas, reproduzidas.

Sobre a representação do real nos desenhos das crianças destacamos que estas quando desenhavam não seguiam padrões desenhísticos impostos, através dos quais o feito atendesse a um ideal. Desenhavam seguindo seus próprios padrões. Em parte, alguns se associavam ao que o desenho contém como elementos primordiais como forma, linha, contraste, cor. Contudo, como desenhadores, cada um escolhia a sua forma de fazer uso desses elementos.

Obviamente, as crianças, embora em fases distintas do desenvolvimento da linguagem do desenho, já apresentavam os efeitos da pouca importância dada ao desenho seja pelos adultos, quando ignoram os feitos desenhísticos, como também e, sobretudo pela escola através da minimização da potência que o desenho tem enquanto linguagem, bem como no enquadramento imposto as representações das crianças.

Tomando por base essas preposições e investigando-as, ratificamos que a criança desenha quando tem vontade, quando se sente em condições favoráveis e a reação do

158 adulto perante o seu desenho influencia diretamente na feitura de um posterior desenho, bem como na negativa em fazê-lo. Tais questões possuem origem na relação construída entre o desenho e sua importância no universo da criança. Faz-se importante, pois, evitar o julgamento das produções desenhísticas das crianças a partir de padrões estéticos adultos. A cobrança arbitrária de formas, cores, linhas que sejam fidedignas ao real tende a enquadrar as produções desenhísticas infantis, bem como a tolhir o desenvolvimento da ação de desenhar em sua potencialidade.

Se, por um lado, a fotografia possibilitou que as crianças representassem os elementos que elas julgavam não saber esboçar desenhisticamente via lápis e papel, por outro evidenciou o imaginário que as crianças possuem sobre o não saber desenhar. Para elas a fotografia dava conta de apresentar no plano do concreto o que os seus traços no papel não evidenciavam.

Contudo, tanto o desenho quanto a fotografia, díade imagética defendida por nós como linguagem utilizada pela criança, assumiram a função máxima de comunicar as intencionalidades das crianças, bem como os seus saberes acerca da cidade, da festa em homenagem ao santo padroeiro, como também ao universo das religiões de matrizes africana e afro-brasileira.

Ao passo em que observavam as fotografias de outros festejos religiosos e destacavam as diferenças e similitudes entre estes e o ocorrido em Maragojipe convalidamos que a criança conhece o seu lugar e possui percepções referenciais acerca do mesmo, capazes de guia-lo rumo à representação do que vê e do que vivencia.

A análise dos desenhos expressa que a criança conhece o seu lugar e sabe falar sobre o mesmo. Assim, no momento de aproximação com o contexto sócio-histórico, com base na Hermenêutica da Profundidade (1995), encontramos nas imagens fotográficas, bem como nas narrativas pré-interpretações acerca do campo-espaço ao qual investigaríamos, As crianças nos apresentaram a cidade a partir de suas percepções e, com isso, nos aproximaram dos seus lugares.

Ao passo em que se sentiram compreendidas e produtoras de saberes, as crianças nos possibilitaram conhecer seus universos simbólicos não apenas apresentando-os, mas também, e, sobretudo, interpretando-os. Assim, as formas simbólicas desenhadas para representar a lavagem a São Bartolomeu apresenta os símbolos, mas primordialmente o saber que cada criança possui sobre o mesmo.

159 Quando esboça graficamente símbolos do universo das religiões de matrizes africanas e afro-brasileiras que fazem parte do momento da lavagem, a criança nos comunica como a festa é pensada por ela a partir de um dado elemento e do seu significado.

Ao passo em que estabeleciam correlações entre o que percebiam nas imagens e o que vivenciavam em sua cidade, as crianças nos apresentaram os saberes que já possuíam e, também, construíram tantos outros. A liberdade desenhística a qual as crianças apresentaram ao longo do processo de pesquisa se, por um lado, ratificou o efeito do processo de desvalorização do desenho e a idealização acerca da representação do real, por outro, nos mostrou que é possível resgatar a produção desenhística como ferramenta de expressão de suma importância para o desenvolvimento e aprendizagem da criança.

Dessa forma, concebemos que a criança é um sujeito desenhador haja vista a sua capacidade de grafar em suas produções imagéticas composições que vão além do caráter desenhístico no que se refere a formas, linhas, pontos, enfim, elementos gráfico visuais que compõem o cenário do desenho. O que constatamos em nossas análises é que a criança em sua capacidade criativa e inventiva conhece os elementos constitutivos de uma composição desenhística. É fato que uma criança sabe a função de uma linha quando a traça para delimitar a forma de uma casa, assim como utiliza o círculo para representar cabeças humanas.

As suas produções apresentam o saber acerca dos elementos gráfico visuais, mas também e sobretudo, a certeza acerca do que enseja comunicar através do que grafa, o que vai além da mera disposição de formas, linhas e pontos. Empoderada de seus intentos e de sua criatividade a criança, através das suas produções desenhísticas, nos leva ao universo das coisas invisíveis que coabitam lado a lado com a concretude do visível.

Nos desenhos produzidos pelas crianças da nossa pesquisa encontramos a busca pela representação do real, quando estas se esforçavam para grafar formas fidedignas ao que existe na realidade, mas também formas e composições aparentemente incompreensíveis a olhos desatentos.

Contudo, as produções desenhísticas aqui analisadas nos revelam que o desenho se configura como uma forma de linguagem humana de grande potencialidade no que diz respeito à representação do real, da vivência e que esta última é capaz de nos guiar

160 na compreensão da diversidade cultural dos sujeitos, bem como nos territórios que estes desenham no espaço. Assim, as crianças da nossa pesquisa apresentam, por meio das suas produções ao longo da pesquisa, a capacidade de síntese ( Vasconcellos, 1992) e de interpretação/reinterpretação ( Thompson, 1995) dos saberes e das formas simbólicas constitutivas dos seus universos simbólicos. Arriscamos a dizer que, as crianças da nossa pesquisa nos presenteiam, por meio das suas produções imagéticas, com ferramentas potenciais para o ensino das histórias e culturas dos povos africanos e afro- brasileiros. Ademais, nos apresentam a possibilidade de trilhar caminhos metodológicos que possibilitem ensino aprendizagens significativos, sobretudo se pensando nas leis 10.639/03 e 11.645/05.

Desenhando, fotografando, narrando, brincando, experienciando as crianças da nossa pesquisa evidenciaram a capacidade construtiva que carregam consigo e a potencialidade do saber vivido.

Nesse sentido, aqui o desenho, assim como defende Albano (2008), é a forma utilizada pela criança para contar a sua história, encontramos nas produções desenhísticas das crianças da nossa pesquisa uma gama de histórias e saberes que se perfazem na memória, nos mitos, nas formas simbólicas e, sobretudo, na vivência de quem desenha o espaço diariamente e imprime neste a sua marca.

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No documento Festa de São Bartolomeu (páginas 156-162)

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