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CONSIDERAÇÕES FINAIS

No documento Scharline Trevizol Bergamini.pdf (páginas 54-78)

O estudo possibilitou evidenciar algumas características referentes à mortalidade infantil do município de Itajaí/SC, no ano de 2013, de acordo com dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade, das fichas de declaração de óbito, das declarações de óbito e de entrevistas realizadas com algumas mães que vivenciaram a morte de seus filhos. O ano de 2013 foi tomado como referência devido ao aumento da taxa de mortalidade infantil naquele ano (17,69 por mil), que foi a maior dos último 14 anos no Município, com 53 óbitos.

Os resultados apontaram para concentração maior de óbitos no período neonatal precoce, confirmando os resultados apresentados em outros estudos e a tendência do que ocorre no País. No entanto, o período pós-neonatal teve um percentual significativo, pois aumentou em 100% em relação ao ano anterior, não sendo esta uma tendência nos últimos anos no Brasil, pelo contrário, o óbito neste período vem diminuindo com a ampliação do acesso, qualidade dos serviços e melhores condições de vida das pessoas, sendo assim, uma avaliação mais aprofundada sobre esta questão é fundamental para o planejamento de intervenções futuras.

Os resultados apontaram que a maioria dos recém-nascidos eram do sexo feminino, da raça/cor branca, nasceram prematuros (22-27 semanas) e com baixo peso (abaixo 2500g). Quanto às mães a faixa etária ficou entre 21 e 30 anos, a escolaridade em 8-11 anos de estudo, as gestações em sua maioria foram únicas, como também o parto cesáreo predominou, este último apesar dos riscos e da intensa campanha de conscientização das vantagens e benefícios do parto vaginal.

A causa dos óbitos definidas nas fichas de investigação de óbito ou declarações de óbito foram em sua maioria malformações congênitas, seguidas de problemas respiratórios, o que segue a indicação da literatura e demais estudos referentes ao tema.

Desta maneira, as características identificadas com base nos dados do Sistema de Informação de Mortalidade – SIM, trazem algumas particularidades que não vão ao encontro da tendência do País no que se refere à mortalidade infantil, como a grande concentração de óbitos no período pós neonatal, as mães não tinham escolaridade baixa, a faixa etária das mesmas também não representava risco, além da predominância de óbitos em recém-nascidos do sexo feminino.

Portanto, a presente pesquisa buscou a aproximação com as mães dos recém- nascidos e apesar da dificuldade de acesso as mesmas, foram muito significativos cada

encontro e relato, além de ser surpreendente a motivação e necessidade das mães entrevistadas em falar e querer compreender o que realmente aconteceu. Nas entrevistas a possibilidade de compreender a causalidade dos óbitos foi além dos papéis e estatísticas.

Na entrevistas as mães trazem suas histórias de vida permeadas por perdas, baixa condição sócio econômica, violência e abandono, evidenciando o quanto a determinação social define os condicionantes ambientais e estes por sua vez o desencadeador dos eventos da vida, ou seja, o quanto ser “pobre” significa na organização da vida, o quanto não ter energia elétrica ou ser abandonado pelos pais determina o futuro, inclusive a mortalidade infantil.

Importante pontuar que em 90% das entrevistas evidenciou-se a necessidade das mães buscarem apoio psicológico, não apenas pela perda de um filho, mas por suas histórias pregressas de vida, pois vivenciaram traumas, violências e abandono. Então, após as entrevistas as mães foram informadas sobre o serviço de psicologia da rede pública e lhes foi sugerido que buscassem tal apoio.

Os resultados encontrados nesta pesquisa apontam caminhos, como a necessidade de analisar como se dá na prática o acesso e qualidade dos serviços ofertados para as gestantes, desde o início da gestação até o nascimento, considerando também a assistência hospitalar no momento do parto. Não menos importante, é fundamental a avaliação da qualidade e acesso a puericultura realizada nos serviços.

Tais apontamentos não se referem a julgamento quanto a qualidade dos serviços de saúde prestados, á atuação das Equipes de Estratégia de Saúde da Família ou a capacidade dos profissionais, mas sim a necessidade de monitorar e acompanhar processos de trabalho, considerando também como um dado a ser analisado os motivos da não procura dos usuários pelos serviços, da desvalorização do pré natal por parte da gestante, como também do entendimento da mesma quanto a importância do acompanhamento de puericultura.

No entanto, com base nos relatos das mães dos recém-nascidos, fica claro que de nada adianta apenas avaliar, intervir e melhorar serviços partindo de percentuais, de metas a serem atingidas, pois assistir uma gestante ou um recém-nascido requer olhar e compreender suas possibilidades na vida, a maneira como vivem e o que necessitam em suas particularidades, ou seja, promover saúde requer aproximação e projetos singulares.

Importante pontuar que o Sistema de Informação de Mortalidade – SIM do Ministério da Saúde não permite o conhecimento amplo da causalidade das variáveis determinantes dos óbitos, que englobam não apenas questões biológicas ou clínicas, mas a maneira como estas mães e famílias estão inseridas na sociedade, as condições socioeconômicas e o acesso aos serviços e informações. Também as fichas de investigação de óbito, trazem poucas informações além de questões clínicas, protocolos de vacinas e pré natal, considerando ainda o preenchimento incompleto das mesmas.

Logo, o planejamento de um Município para a investigação dos óbitos infantis é fundamental e deve complementar os dados básicos que o SIM possibilita, pois não requer apenas a alimentação de um sistema, mas a busca de cada caso junto às famílias, equipes de saúde, hospital, enfim fazer o percurso destas gestantes, na tentativa de compreender os fatores que realmente fazem a taxa de mortalidade infantil aumentar, pois não existe planejamento de ações sem conhecimento prévio das necessidades.

Considerando que o Município em questão não apresentava em 2013 uma equipe suficiente para a investigação de todos os óbitos infantis e que ações efetivas diante da constatação do aumento da mortalidade infantil durante o decorrer do ano não aconteceram, como seria possível monitorar, prevenir ou até diminuir a mortalidade infantil? Surgem a partir daí outras questões, como: Uma vez que os óbitos infantis ocorrem gradativamente e são acompanhados mensalmente, qual o momento de intervir? Em que momento as equipes de saúde fazem parte do planejamento das ações?

Qual a comunicação da equipe de investigação, Comitê de mortalidade e Equipes de Saúde da Família? Tais questões inquietaram e surgiram a partir da realidade encontrada no processo de pesquisa, mas não puderam ser aprofundadas naquele momento, então ficam aqui colocadas para reflexão e até para estudos futuros.

Desta maneira, verificou-se a importância em conhecer as características que envolvem a mortalidade infantil em um Município ou região, com base em uma epidemiologia crítica, com um olhar ampliado do processo saúde-doença e com a compreensão da relação de causalidade entre determinantes sociais, causadores ambientais e desencadeadores biológicos, sendo este o requisito para a eliminação dos riscos e planejamento de intervenções adequadas e efetivas em combate a mortalidade infantil.

Do biológico ao social, fica evidente que nenhuma questão de saúde é realmente compreendida se não buscarmos conhecer como os indivíduos vivem a vida.

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21.05.2014.

APÊNDICE: FICHAS DE INVESTIGAÇÃO DE ÓBITO

ANEXO

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (TCLE)

Você está sendo convidado (a) para participar, como voluntário, desta pesquisa. Caso aceite participar deverá assinar as duas vias deste documento, uma delas é sua e a outra é do pesquisador responsável. Em caso de recusa você não será penalizado (a) de forma alguma.

INFORMAÇÕES SOBRE A PESQUISA:

Título do Projeto:Do Biológico ao Social: Causalidade e Mortalidade Infantil no Município de Itajaí/SC no ano de 2013

Pesquisador Responsável:Dr. Luiz Roberto Agea Cutolo Telefone para contato: (47) 3341-7932

Pesquisador Participante: Scharline Trevizol Bergamini Telefone para contato: (47) 96094261

Considerando o aumento do número de óbitos de crianças menores de um ano de idade no Município de Itajaí/SC no ano de 2013, o(a) Senhor(a) está sendo convidado a responder algumas questões relacionadas ao óbito infantil ocorrido na sua família, através de uma entrevista, a qual abordara o percurso percorrido até o óbito da criança. Pelo fato da pesquisa ter única e exclusivamente interesse científico, o(a) senhor(a), poderá desistir a qualquer momento, inclusive sem nenhum motivo, bastando para isso informar, da maneira que achar mais conveniente, a sua desistência. O (a) senhor (a) poderá optar por responder somente as questões que achar pertinente.

Importante informar que a entrevista será gravada e transcrita posteriormente. Em relação aos riscos desta pesquisa referentes à divulgação de dados confidenciais, de identificação e invasão de privacidade, garante-se o sigilo dos dados, bem como a não identificação dos participantes. Garante-se ainda a utilização dos dados apenas para fim da pesquisa, mantendo os mesmos somente em domínio dos pesquisadores. Quanto ao risco de ocorrer desconforto diante de sentimentos que possam surgir ao recordar o óbito, os pesquisadores estarão atentos aos sinais verbais e não verbais de desconforto, acolhendo-o e interrompendo a entrevista se for necessário, além de garantir a liberdade para não responder questões constrangedoras. Por ser voluntário e sem interesse financeiro o(a) senhor(a) não terá direito a nenhuma remuneração. Como benefício os resultados coletivos da pesquisa poderão contribuir para diminuição dos riscos de novos óbitos de crianças menores de um ano por causas evitáveis, uma vez que se buscará

No documento Scharline Trevizol Bergamini.pdf (páginas 54-78)

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